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Tuesday, December 29, 2015

Quando o amor vai à falência



"Eu tinha no coração mil dólares de amor. Em ouro, não em notas. E gastei-os em ti, até ao último cêntimo. Em termos de amor, estou falido. Levaste-me à falência".

                                             Alexandra Ripley, ´Scarlett`


Muitos fãs de E Tudo o Vento levou detestam esta sequela bem intencionada,escrita por uma especialista em assuntos do "Velho Sul", mas eu acho que tem as suas virtudes - nomeadamente, raciocínios interessantes no que concerne às relações complicadas estilo Rhett e Scarlett. E a frase acima sempre me ficou.

É que há uma coisa esquisita por aí que eu chamaria, à falta de melhor comparação, um amor de latifundiário (nada contra os latifundiários, mind you). Que é um sentido mais específico de tomar o amor por garantido.

 Deixem ver se me consigo explicar...um latifundiário ama a sua terra, a terra que herdou dos antepassados, tal como Scarlett amava a sua plantação, Tara. Ama sem notar que ama, sem muitas vezes exercer esse amor (o amor não basta existir, tem de ser posto em prática todos os dias, tem de ser posto a trabalhar como um motor, senão emperra). Ama intrinsecamente, insensivelmente, porque esse amor faz parte de si: afinal, a terra que o viu nascer está sempre lá, diante dos olhos, até que deixa de a ver com olhos de ver. É sua- propriedade sua. Ficaria doido se um vizinho quisesse comprar-lha, se os camponeses ou o governo tentassem apropriar-se dela, se um incêndio a devastasse ou se sucedesse outra tragédia qualquer...mas isso é hipótese que não lhe ocorre sequer, porque está tão certo do seu poder, da sua posse. Pessoas assim são cheias de falsas certezas.

E como a terra é tão sua, não lhe passa pela cabeça cuidar dela, apesar de todos os avisos. Ora, terra em pousio torna-se estéril, árida, difícil, por muito boa e fértil que seja. Mas o "dono" não vê nada disso nem ouve quem sabe. 



Passa o tempo a divertir-se na cidade sem se ralar de aparecer; não rega a terra, não a manda trabalhar, não colhe frutos dela, não perde tempo com ela e se for preciso anda de moto -4 por cima dos campos, escangalha as couves, arranca as vinhas, compra sementes que não prestam porque acha que basta muito bem, faz queimadas sem cautela, planta eucaliptos que secam o solo, deixa que as fábricas das redondezas poluam os poços e os ribeiros. A terra bem tenta, mas acaba por enfraquecer. O amor é exactamente como a terra: se não é alvo de cuidados, torna-se fraco e vazio.

Isto acontece quase sempre a quem cai no erro de amar um "latifundiário emocional": o amor é deixado em pousio, quando não é alvo de todos os ataques, da falta de comunicação e respeito ao ciúme, passando por outras pragas que agora não me lembram mas que são piores que gafanhotos, granizo e moléstias da batata. Tudo é exigido, nada é dado. E cai-se no erro de tentar injectar capital no latifúndio. Investe-se todo o amor que se tem no coração, no corpo e na alma, até se esgotar. Até ao último cêntimo. Ora, quando se chega a tal ponto, já não há ouro para pagar uma conta de cinco euros que seja, por muito boa vontade que se tenha. A quem está completamente falido é escusado suplicar ou exigir, berrar ou culpar: só resta aceitar a declaração de bancarrota. Mas quem esgotou tudo o que havia, nunca compreende porquê, nem se responsabiliza: culpa a "terra" que era má, o destino ou as circunstâncias...



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