Recomenda-se:

Netscope

Monday, December 14, 2015

Serendipidade do dia: os "walking dead" de cada um



"É isto, nada além: um dia as pessoas morrem na gente. Pode ser um amigo que parece não se importar mais ou então aquele que telefona só quando quer ajuda, um amor que gastou todas as chances que tinha, um primo de longe, qualquer um. Um dia as pessoas simplesmente morrem na gente, e a gente esquece as tardes divertidas que passou, a esperança que alimenta quando ainda não viveu muito, a promessa de nunca esquecer; a gente esquece que um dia quis ficar junto pra sempre, que jurou um monte de coisas, que registou em fotografias uma quantidade de momentos bonitos. É isto, nada além: um dia as pessoas morrem na gente, embora continuem vivinhas da silva". 


     Ana Laura Nahas

É curioso como certos factos insignificantes se juntam para pequenas e grandes conclusões ou descobertas inesperadas: é o chamado serendipismo. Numa destas manhãs ouvi na rádio essa cantiguinha de Selena Gomez (cuja música, confesso, desconhecia de todo) e pensei "olha uma canção pop que parece outra coisa e que até tem significado":


E logo a seguir, aparece o texto citado acima, desses de novos autores que andam pela internet em partilhas inconsequentes mas dão que pensar. E que por sua vez, me lembra outro sucesso pop que adorei e que foi analisado aqui...


É verdade que há pessoas que morrem em cada um, embora continuem vivinhas da silva.

 Toda a gente tem os seus "defuntos vivos", os seus "walking dead" - pessoas que passam de ser indispensáveis, a companhia e o cuidado de todas as horas, o grande amigo ou o grande amor... a ser "somebody that I used to know". Continuam vivas e de saúde mas noutra dimensão, noutro tempo, noutro espaço. Vê-se a pessoa passar na rua, sabem-se até notícias dela, mas é como se fosse personagem de ficção ou um quase estranho. Já nem se aplica a fórmula: "a tragédia é a diferença entre o que foi e o que podia ter sido". Só resta o vácuo.

 Há-de vir o dia em que a física quântica explicará isto e aí todos ficaremos esclarecidos. 
Mas por enquanto é um mistério. Uma categoria muito esquisita e desconfortável para se atribuir a quem significou muito...e no entanto, esse pequeno drama acontece a alguém todos os dias, em todos os cantos da terra. 


Até ver, nada de descoberta aqui; é uma simples constatação de uma das realidades menos fáceis da vida.

 O que fez click na equação das duas canções + texto foi a causa-consequência: é que para morrer para alguém, para se tornar "somebody that I used to know"..é preciso muito Same Old Love. Ou seja, muito Same Old, Same Old. Muito "mais do mesmo". Ziliões de encores e bis e "só mais um!só mais um!" dos mesmos *maus* comportamentos de sempre, dos mesmos erros, das mesmas palavras gastas, das "mais uma oportunidade", dos cansaços e desilusões repetidos ad nauseam

Como a autora supra-citada é brasileira, permitam-me usar uma expressão brasileira também, e novelesca (porque nestas coisas há sempre um sabor a telenovela das oito): nenhuma ligação forte morre de morte morrida, sem mais aquelas, foi-um-ar-que-lhe-deu. Para desaparecer, para morrer para a vida, é preciso que morra de morte matada. E até pode não morrer solteira, mas há sempre um que toma a iniciativa de puxar o gatilho. O outro limita-se a fazer-lhe as exéquias...

1 comment:

Carla Santos Alves said...

"As pessoas morrem na gente" - que frase tão bem escrita, com tanto significado e sentido...

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...