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Sunday, December 20, 2015

Um alfaiate dixit: sinais dos *tristes* tempos



No outro dia apanhei por mero acaso os primeiros minutos de uma reportagem da TVI sobre alfaiataria  (que lamentavelmente não encontro para ver melhor e partilhar convosco). E já se sabe que quando o tema é a arte da alfaiataria, ou a nobre profissão de modista/alfaiate, o tom será sempre ao estilo "o último dos moicanos". 

Assim foi nesta peça, concluindo-se que os alfaiates tradicionais que continuam a trabalhar na capital cabiam numa caixinha de ovos...e em Coimbra ou no Porto o cenário não será muito diverso. Aliás, uma leitora conimbricense do blog de Manuel Luís Goucha (que apareceu na reportagem por ser cliente de um jovem alfaiate dos nossos dias, desses com um toque mais vanguardista) lembra saudosamente, e bem, os tempos em que por estas bandas havia não só os ateliers deste e daquele alfaiate ou modista, mas belas lojas como O Último Figurino, A Nova Paris, as Modas Veiga ou (para noivas e cerimónia) o Tito Cunha (onde a senhora mãe comprou o tecido e os adereços para o seu "grande dia", num tempo em que a qualidade das fatiotas ainda era a única pequena extravagância; nada de bolos de três metros nem casórios temáticos com limusina). Essas tinham um conceito semelhante ao da Loja das Meias (e um pouco ao que ainda se vai fazendo no El Corte Inglès) - além de pronto a vestir, vendiam tecidos maravilhosos que depois de escolhidos, restava passar aos pisos de cima onde se dava a magia das toilettes por medida. Era a caverna de Aladino, com chapéus festivos e adereços por toda a parte...vários andares apinhados de profissionais de moda atarefados e elegante clientela. E tendo eu o sangue de dandies e profissionais de moda, isto falava bem alto ao meu coração...




Ainda herdei algumas dessas peças, fora outras vintage que tenho juntado à colecção, com a etiqueta do tecido (ou no caso dos casacos, fornecedor de peles) e o selo da loja...e apesar de já ter assistido ao declínio dessas casas, recordo-me bem de acompanhar o pai às provas de fato, fascinada com a precisão de tudo aquilo. 

 Ora, na reportagem, um dos profissionais à moda antiga notava o facto de este serviço se ter tornado um nicho ou um luxo (mercê da proliferação de marcas acessíveis de pronto-a-vestir, mas também da  "democratização" das próprias griffes mais exclusivas, que já não põem nas confecções o detalhe de antigamente- um paradoxo, dado que a indústria de moda nunca terá sido tão poderosa e influente como hoje, a movimentar milhares de milhões). Mas apontava também uma das causas disso.

Ou seja, a crescente (e a meu ver, excessiva) informalidade e à vontade que se tornaram tão habituais.

  Contava então o respeitável senhor que o declínio da alfaiataria no nosso país começou com o 25/4, comme il faut...depois dos "cravos", vestir bem e ir a certos eventos começou a ser mal visto, considerado reaccionário, sinais de ostentação do tempo da outra senhora. E lá se foram a tradição, os fatos elegantes, os smokings, os fraques e as casacas....

Tudo isto seria natural (o mundo avança, gostemos ou não) se não se tivesse tornado permanente. 



 Que durante um tempo toda a gente quisesse ser hippie e contrariar a norma, fazer tudo às avessas, andar menos empertigado e mais à vontade, é típico de qualquer fenómeno social do género. A Revolução Francesa também deu cabo das extravagâncias, passando a usar-se um look mais natural e mais prático, quase sem anquinhas e sem caudas, ideal para calcorrear as ruas com a cabeça de alguém numa estaca a gritar "Liberdade, Igualdade, Fraternidade". Só que se tratavam por "cidadãos" em vez de ser por "camaradas". A moda, com as suas idas e vindas, não é um capricho criativo de meia dúzia de designers sem nada melhor para fazer: acompanha as convulsões políticas, artísticas, económicas, intelectuais, sociais e assim por diante.

O mal é que, volto a dizer, esse estado de coisas se reflectiu no "à vontadinha" que já aqui discutimos. É compreensível que havendo alternativas mais em conta, a alfaiataria continue a ser um costume só de algumas pessoas - o que não significa que se perca completamente a noção das circunstâncias, ou que não se aplique um pouco do espírito e savoir-faire  ao modo de trajar, mesmo que se usem roupas "comuns". Não faltam marcas com camisaria bastante decente, por exemplo, que nem sequer tentam educar o consumidor para que ele perceba o que é adequado a que situação. E depois vemos almas que se preciso for, vão de jeans a uma festa solene, achando que basta atirar-lhe um blazer mal cortado para cima...

Actualmente acha-se mais bem empregue espatifar um ror de dinheiro em nail art medonha do que em mandar ajustar qualquer peça para que pareça mais decente; e nem falemos no atropelo dos dress codes, que transforma qualquer evento vagamente promissor numa salganhada...

Não é só a qualidade dos fatos que decaiu. É que quando a tradição e o rigor se perdem, isso estende-se a tudo e vai por ali abaixo, por ali abaixo....



E no entanto, o aprumo no traje condiciona não só a forma como os outros percepcionam quem veste (e por conseguinte, como tratam essa pessoa) ou a imagem que se comunica aos demais, mas o modo como o próprio se conduz, a sua postura corporal, a sua forma de estar. O que é de qualidade eleva tudo à sua volta. Bem dizia Eça de Queiroz: "a toilette, tal como a nobreza, obriga".







3 comments:

Su said...

Cara Sissi,
O meu avô era um dos sócios do Último Figurino. Não imagina o sorriso que este post me provocou com a sua recordação da loja. Logo que possa mostrarei o seu texto ao meu avô e tenho a certeza que o deixará com tanto orgulho quanto aquele que ele tinha quando as senhoras de Coimbra o iam visitar para ver as modas que ele tinha escolhido em Paris.

Imperatriz Sissi said...

Querida Su,

eu é que fiquei com um grande sorriso com o seu Comentário! Muito gostaria de trocar impressões convosco sobre a loja, até porque não encontrei imagens dela online. Curiosamente, depois de acabar o post tive na mão um dos meus casacos do Último Figurino, lindíssimo!

Su said...

Deixo-lhe aqui o meu email para quando quiser trocar impressões: susana.coroado@gmail.com.
Boas festas

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