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Saturday, January 10, 2015

Malandrices que eles fazem #3: é impossível tomar os homens a sério...

Eu? O que é que eu fiz? É que nem falar nisso é bom!

...quando fazem o belo número de - após asneira da forte, meter o pé na argola ou na poça, entornar o caldo, partir a louça ou o que lhe queiram chamar - agir como se nada tivesse passado, em modo disfarça que eu assobio, estilo vamos lá ver se isto passa em branca nuvem e sem grandes ralhetes.

 É assim uma saída à francesa, um passar de lustro à pressa, um varrer de maroteiras, disparates, assomos de insensibilidade, esquecimentos convenientes, cenas de ciúmes e  outras maldades para debaixo do tapete. Quanto menos se discute o assunto, menos medidas tem de se tomar e menos cedências é preciso fazer, pois claro.

Cá entre nós, acho que o facto de ao longo dos séculos as tarefas domésticas terem sido território essencialmente feminino não teve nada a ver com machismo: é que se a Humanidade dependesse dos homens para ter as casas limpas, a poeirada debaixo das carpetes havia de ser tanta que a população mundial já se tinha extinguido com surtos de ácaros e alergias de toda a ordem...


8 tendências que vão permanecer- ou surgir - em 2015

Out with the old, in with the new:  nem sempre o "virar de página" do início de um novo ano se aplica tão literalmente quando se trata de estilo, e ainda bem. Algumas tendências úteis (e clássicos que ficaram na berra, estando por isso mais disponíveis nas lojas) andam por aí há um par de anos e vão continuar a ditar os looks por mais algum tempo. Outras ainda, foram "ressuscitadas" e vão permitir brincar com combinações interessantes. Nota bene:


1-Loafers


Apesar de não usar muito alguns pares que tenho no armário - não são a opção mais imediata para mim, confesso - adoro vê-los por aí. Os melhores e mais fáceis de usar são os de salto médio, ou com uma ligeira plataforma. Com saias, calções ou vestidos acima do joelho dão um ar honesto e preppy, quase colegial, quebrando uma "vibração" demasiado provocante; e ficam fantásticos com calças estreitas. A combinação mais fácil para tirar partido deles e não errar nas proporções, porém, é com skinny jeans curtos e um blazer ou casaco um pouco mais longo. Chic num minuto.

2-Camel coat
Ermanno Scervino F/W 14/15
Um clássico que voltou a dar ares da sua graça há cerca de dois anos, e que tem tido grande adesão por motivos óbvios: dá boa cara e um ar repousado, pode atirar-se por cima de qualquer coisa para ir à padaria pela manhã e mesmo assim parecer elegante, e como é neutro fica fabuloso com praticamente todas as toilettes (até há quem os acompanhe de ténis, com grande panache).
Quanto mais não seja, tem o mérito de ter posto muita gente que não gostava de sobretudos "de gente crescida" a usar casacos dignos desse nome. Sempre gostei dos meus e não me maça minimamente que tenham ficado na moda, até porque cada uma os usa à sua maneira.

3- Polos



Sou uma grande fã de polos e nunca me afastei deles: representam uma alternativa mais composta à t-shirt ou top e bem pensados, podem usar-se com muito mais do que jeans. Ralph Lauren (who else?) lembrou-se de os devolver à ribalta, por isso se ainda têm alguns, revisitem-nos e se não, pensem na compra de um ou dois.

4- Trench Coat

Não lhe chamaria uma tendência porque é o clássico dos clássicos, mas estando na moda há duas vantagens: mais versões disponíveis nas lojas e mais pessoas a usá-los nas ruas (em vez dos pavorosos casaquitos curtos que dão um ar barato a tanta gente). A gabardina não recebeu o nome "casaco das trincheiras" por nada - desde que seja de boa qualidade pode sobreviver-se a tudo com uma e é possível usá-la tanto sobre um vestido de noite e scarpins como com jeans e bailarinas. Há imensas opções por aí, de diferentes cores e comprimentos, mas podendo ter só um exemplar é melhor não se distanciar muito do original: bege, assertoada, abaixo do joelho, com cinto e de preferência, forrada.

5- Saias lápis (e toda uma parafernália de peças em estilo clássico ou ladylike)

Sou suspeita, mas tudo isto contribui para tornar as mulheres femininas e elegantes, além de favorecer praticamente todas as mortais: realça a figura esbelta de quem é esguia, acentua as silhuetas estilo Raquel Welch e para quem tem curvas mais voluptuosas, desde que coordenado correctamente favorece o que deve sem mostrar o que não deve. Além disso, dá um ar mais dispendioso e polido a qualquer uma. Carry on.


6- Couro


Calças de vários estilos (skinny, cigarrette, pantalonas) saias de todos os modelos (balão, lápis, linha A, curtas, plissadas, etc) e casacos em pele têm aparecido nas colecções desde 2012 e foram conquistando as ruas pouco a pouco. Há ainda calções e vestidos, que são opções um pouco mais arriscadas. Em todo o caso, ameaçam passar de trendy a básico indispensável por bons motivos: acrescentam um toque luxuoso e original a qualquer toilette, desde que acompanhadas de peças simples (como malhas ou uma camisa branca) e podem usar-se para o dia ou para a noite. A pele é sempre preferível à napa, claro, salvo eventualmente no caso de peças que exijam grande flexibilidade (como as calças super skinny).


7-Boyfriend jeans (e outras novidades em denim)


Porquê? Porque por muito reconfortante que seja confiar nos skinny jeans como uniforme (os marotos prestam-se realmente a tudo, há que admitir) usar sempre o mesmo é aborrecido, e porque a reciclagem de jeans de todos os feitios a que temos assistido possibilita brincar com muitas relíquias. Os boyfriend jeans são confortáveis; os de cintura subida, bem conjugados, são inegavelmente chic, e acho que já ninguém dispensa as  camisas de ganga. Mas vai haver muitas variantes denim para nos entretermos: o regresso dos flare jeans, pantalonas, vestidos, e sabe-se lá o que mais.


8 - Gingham

Diane Von Furstenberg

O padrão "toalha de mesa" tão amado por Brigitte Bardot é - a par com o tartan, o  windowplane plaid, as breton stripes, os polka dots e mais um ou outro - uma estampa intemporal que dificilmente parece datada ou barata. 
 Em 2015 vamos vê-lo bastante, e é bom pensar em aplicá-lo a um top, coordenado ou vestido, porque confere um ar simultaneamente sofisticado e inocente que nunca cai mal.





Friday, January 9, 2015

O dia em que vou aderir às danças da moda:


Quando se cansarem de ritmos africanos e latinos e inventarem modalidades de fitness-bailação baseadas no corridinho, vira e fandango, devidamente acompanhadas de traje apropriado.
 Não é assim tão esquisito, vá lá: consigo lembrar-me de pelo menos dois videos pop de cantores portugueses onde se fez algo do género. Este...


E este:


                            

O nível avançado podia ser dançar com uma cabeça de cabeçudo, parafernália de gigantone, aparato de pauliteiro de Miranda ou fatiota de careto de Podence. Um forrobodó, devidamente acompanhado de gaitas de foles, bombos e o mais que viesse.

Mas claro que não ia pegar, aposto convosco: primeiro porque é português e por cá não se gosta de tudo o que lembre Arraial, ó lusa gente; depois porque o vira, o corridinho e o fandango não dão para dançar agarradinho com o Ricardão porteiro, nem para  usar ceroulas do demo em lycra e micro shorts (a não ser que na modalidade de fandango as moças adoptassem as calças de campino, e mesmo assim haviam de queixar-se que tapavam demasiado as coxas que deram tanto trabalho e comezaina a aumentar). Ainda que lhes fosse prometido bater o fandango em camisa, isso não seria sexy que chegasse para esta tropa fandanga que nem sonha o que é uma camisa de noite. Pena, era capaz de ser divertido.





La Divina Contessa


A vantagem de olhar para a História com olhos de ver é uma pessoa ganhar a consciência de que nada é assim muito novo, nem muito original neste mundo do Senhor. Cada última it girl ou artista que deslumbra por aí não faz mais do que aplicar com habilidade (ainda que inconscientemente) as referências e inspirações do passado.

Quem conhece o que lá vai não se impressiona facilmente - e convém que assim seja para não pasmar de admiração perante tudo o que aparece, passando um atestado de patetice a si mesmo (a)...

Adiante, que divago: antes de Lady Gaga ser nascida ou sonhada e espantar o mundo com as suas extravagâncias, antes de o divino David Bowie e de Madonna servirem de inspiração para a Lady Gaga, quando as selfies e o instagram não eram sequer ficção científica, havia a Condessa de Castiglione.



 Não cantava, ou se cantava em privado não ficou famosa por isso, mas era uma das mais belas - e criativas - mulheres do seu tempo. Dona de uma linda figura, pálida de pele, um rosto oval e regular com olhos que mudavam constantemente "de verde para um azul-violeta intenso" emoldurado por uma luxuriante cabeleira loura...tudo isto, adicionado a certo espírito e a um atrevimento desconcertante, viria a contribuir para o fascínio que causa ainda hoje.

Nascida em Florença  em 1837, filha do Marquês Filippo Oldoini e sua mulher, a pequena Virginia Elisabetta Luisa Carlotta Antonietta Teresa Maria Oldoini fez o que era esperado das raparigas do seu tempo e do seu meio: aos dezassete anos casou, sem paixão, com o Conde de Castiglioni. Dessa união houve um filho, Giorgio, o único amor que se conheceu à beldade além do seu próprio reflexo ao espelho. 



  Por culpa dos destemperos da mulher ou da displicência do marido, porém, o casamento não funcionou e mais tarde, quando o Conde tentou tirar-lhe a criança, Virginia respondeu-lhe com um retrato onde se vestia de Medeia, faca em punho gotejando sangue, intitulado "Vingança". O filho ficou com a mãe em Paris, continuando a participar nas suas experiências artísticas.



Por volta de 1855 o seu primo Camillo, Conde de Cavour e ministro do Rei Victor Emmanuel II, conhecendo-lhe a beleza e a disposição aventureira, encarregou Virginia de uma tentadora missão: ir a Paris no intuito de seduzir a qualquer custo o Imperador Napoleão III, levando-o a apoiar a causa da unificação italiana.

Napoleão III era já casado com uma das mais deslumbrantes mulheres daquele tempo - a famosa Eugénia de Montijo que, quando o futuro marido lhe perguntou "qual era o caminho mais curto para os seus aposentos", lhe terá respondido "pela capela, senhor; pela capela!".


Eugenia de Montijo

Mas ser marido de uma Imperatriz belíssima não lhe bastava: Napoleão III era conhecido por não resistir a lindas mulheres e quanto às rivais, a Condessa de Castiglione confiava em si própria para as pôr em debandada, o que viria de facto a acontecer. Chegava mesmo a dizer a quem queria ouvir "sou igual a elas pelo nascimento, mas em beleza e inteligência sou-lhes superior!" e que se a mãe a tivesse trazido a Paris em vez de a casar com o Conde, haveria uma italiana e não uma espanhola sentada no trono. 

 Virginia contava ainda com outra vantagem: a influência habilidosa do primo, que movera os cordelinhos numa verdadeira acção de Relações Públicas para preparar a sua chegada a Paris, onde causou de imediato sensação. Depois foi só tratar de aproveitar esse primeiro impacto, fascinando a corte quer com as suas toilettes luxuosas que lhe acentuavam os dotes naturais, quer pelas máscaras reveladoras que criava para bailes de fantasia: ficou célebre o seu traje de "Romana da Decadência" (uma leve túnica que deixava à vista o colo e as pernas, acentuada por sandálias de pedrarias). Os homens perderam a cabeça e esfarraparam a etiqueta, subindo às cadeiras para melhor a apreciar.



O Imperador não podia resistir a tomar para si a mais bela e famosa das mulheres da corte. A ligação foi sempre discreta e a Condessa nunca assumiu ser amante de Napoleão III, mas outra explicação não havia para a influência que exercia junto dele - nem para o pedido de separação definitiva do marido. 
Junto das mulheres, porém, não granjeava simpatias, e não só por uma questão de ciúmes: a Condessa sofria de um narcisismo exacerbado e amizades femininas não a interessavam. A elegante Princesa Pauline von Metternich  descreveu-a da seguinte forma: "ela aparecia em reuniões como Vénus descida do Olimpo! Um cabelo maravilhoso, uma cintura de ninfa, uma carnação de mármore rosa...mas ao fim de alguns minutos começava a entrar-nos nos nervos".



O seu único interesse, além do triunfo social, era a Fotografia - de si mesma, bem entendido. A partir de 1856 começou a visitar o estúdio de Mayer Pierson, um dos maiores artistas do género durante o Segundo Império, para encomendar - sob a sua direcção - centenas de retratos extraordinários, em que aparecia com os seus trajes de fantasia, e com outros famosos (Judite, Ana Bolena...) ou da sua imaginação, em cenários fantásticos. O retratista limitava-se a captar as imagens - os ângulos, a cenografia, o tema, o figurino eram escolhidos pela brilhante modelo, que depois as enviava a amigos e admiradores conforme as conveniências. Foi esta parceria com Pierre- Louis Pierson que a tornou famosa até hoje.




 Com o declínio do Segundo Império a Condessa passou a levar uma vida mais recatada - só saía à noite, coberta por véus negros, e jamais aceitou que começava a envelhecer. Pouco antes da sua morte, em 1899, ainda se encontrou com Pierson para um último photo shoot. A ideia era apresentar a colecção de mais de 400 retratos na Exposição Universal de 1900 com o título "A mulher mais bela do mundo". Nunca saberemos se acreditava realmente na lenda que criava para si própria, ou se haveria alguma pitada de ironia nestes extravagantes devaneios.

De toda a maneira, a vida não lhe concederia este derradeiro assomo de vaidade: morreu em Novembro de 1899, aos 62 anos. Porque tudo tem limites, até a Beleza...ou porque finando-se antes, contribuiu para a aura de mistério que continua a cercá-la. Vindo da La Castiglione, tudo é possível.








Thursday, January 8, 2015

E saldos, já que toda a blogosfera fala nisso?


Eu que me esforço por ser uma smart shopper todo o ano e evito comprar por comprar, ainda só dei uma espreitadela com frieza profissional (ossos do ofício, vou ver para outrem e num relance capto o que quero para mim).   Trouxe uma dúzia de tops de manga comprida em algodão com vários decotes diferentes, pretos e com breton stripes porque ando sempre à procura deles e dão com quase tudo (de calças cigarrette a jeans, passando por saias de todos os feitios e tecidos) e espero arranjar mais alguns lá para diante. E isto não é extravagância, é do mais pragmático - melhor uniforme não há. 

Também estou de olho numas certas calças skinny iguais a umas que comprei no ano passado e gostei, e eventualmente em alguns vestidos porque nunca são demais, mas nada de urgente.

De resto, tomara eu  tempo e cabeça para fazer a costureira andar para a frente com as minhas encomendas -  comprar e não usar porque não está na perfeição é um contra senso.

Duas dicas de amiga, então: quem não tem sheath dresses, dê uma espreitadela à Zara. Já os fez mais bonitos, mas ao menos há alguma coisa clássica que não seja acima do joelho, yupi.

E depois da diversão dos saldos, não se esqueçam de mandar adaptar o que não servir como uma luva. O velho "comprei com 50% de desconto mas nunca vesti" é frustrantezinho e desperdiciozinho...

Umas linhas sobre o inevitável tema do dia.



Hoje cada um tem uma reflexão sobre este tema e nesta, para não cair num "daqui me perguntaram, daqui me responderam..." vou pôr de parte o facto de a revista satírica vítima da tragédia troçar igualmente de várias fés e as dissertações sobre a liberdade de imprensa.

 A tragédia que sucedeu em França - como outros dramas, de maior envergadura ou mais discretos que vão sendo comentados timidamente nos jornais e na blogosfera por meia dúzia que ousa rejeitar a formatação do politicamente correcto - é (digo eu e dizem mais) uma consequência do descaso ocidental (e em especial, Europeu) pela sua própria cultura.

 Por muitos anos, demasiados anos -  e apesar do crescente desrespeito de alguns "convidados" pelos valores e tradições da nossa civilização -  a palavra de ordem tem sido o relativismo, a tolerância a qualquer preço, o crescer da área cinzenta entre o bem e o mal a tal ponto que não há senão um enorme nevoeiro onde o que é justo e o que não é se esbatem. 

A Europa orgulha-se de ser aberta, laica, moderninha, queridinha, ultra permissiva com todos os pecados. Deus nos livre - salvo seja, porque até me admira que dizer "Deus nos livre" ainda não tenha começado a dar multa - de assumir que a Europa é, por cultura e tradição, Cristã, que a Fé Católica é uma pedra basilar do nosso modo de vida, porque isso ofende. E principiaram por retirar os Crufixos das escolas, para não melindrar os outros que não aprenderam ou não respeitam o adágio "em Roma, sê romano". Depois começaram a escandalizar-se com o lógico - que não é legítimo andar na rua fora do Carnaval com o rosto coberto, num país Europeu, por uma variedade de motivos puramente práticos e de segurança, independentemente da religião de cada um; que não se pode ir contra a Lei do País em causa - ou contra os Direitos Humanos - nem em família, nem entre quatro paredes, nem mesmo com a desculpa "é a cultura deles", etc, etc, ad nauseam.

 Na Europa de hoje mais facilmente se sai em defesa dos valores "dos outros" do que dos "nossos" porque isso parece, à primeira vista, uma prova da nossa superioridade. De que somos muito civilizados, mesmo quando não são civilizados para connosco. 

E quem disser "esperem lá que já é demais, estamos em nossa casa" aqui D´El Rei que é careta, racista, xenófobo ou bruto - ainda que se limite, com justiça, a insurgir-se contra as barbaridades de um bruto, xenófobo e racista que por acaso, calha pertencer a uma minoria - e que é ultra careta no que julga ser a defesa da sua cultura.

 É paradoxal que o Velho Continente, tão obcecado em parecer laico, passe a vida a dar a outra face.

 Os remorsos europeus pelas Cruzadas, pela colonização, pela Inquisição e outros episódios, que certas correntes de pensamento trataram de alimentar no inconsciente colectivo - concorde-se ou não com a legitimidade desse sentimentozinho de mea culpa - não podem sobrepor-se às mais elementares regras de hospitalidade, civilidade e convivência. Não se trata sequer de a cultura dos "outros" ser melhor ou pior do que a nossa (cá vem o relativismo). 

Trata-se apenas de estarmos em nossa casa: quem consegue viver com as regras da dita, contribui e se adapta à conduta estabelecida, muito bem; quem vem para dar incómodos, faltar ao respeito e fazer estragos, faça o favor de procurar outro lugar lá mais a seu gosto. A tolerância é como o amor ou o respeito, deixa de o ser se não for bilateral.

Tolerância assim não é tolerância - é condescendência. Não é "civilização" - é um sentimento de superioridade tão arreigado como o de antigamente, o do "coitadinhos, são selvagens, não sabem o que fazem" com consequências tanto para nós como para os membros dessas minorias que se portam de acordo mas que acabam por pagar pelos crimes de uns quantos.

 Não sei se sou o Charlie, porque não me agradam palavras de ordem criadas de véspera. Mas um bully é um bully, venha de onde vier, e sempre me ensinaram que não é ignorando, desculpando e "sendo superior a ele" que se enfrenta um rufia.







Wednesday, January 7, 2015

Das mulheres com *outro* poder



O empowerment feminino - e já anda por aí uma tentativa de tradução disto assaz esquisita, "empoderamento" - é um termo muito na moda. Qualquer cantora que empunhe cartazes, abane as ancas num palco e diga meia dúzia de lugares comuns à imprensa, tem "poder" e está  a "empoderar" as mulheres,  é assim um Jedi de saias (o que não faz lá muito sentido porque todos os Jedi usavam uma espécie de saias, but you know what I mean). Qualquer mulher que berre contra o status quo ou a tradição só porque sim, nem que isso não contribua nada para a sua felicidade ou a felicidade das outras, é "poderosa".

  Como já discuti amplamente o assunto não vou por aí hoje, mas esse outro "poder" a que me refiro é muito mais antigo, muito mais subtil e muito mais comum do que parece. E ou uma mulher nasceu com ele, ou precisa de treinar bastante para o chamar a si, porque não é coisa que se exerça da boca para fora. Como dizia Margaret Thatcher, uma das mulheres mais verdadeiramente poderosas que nos foi dado ver, "ser poderosa é como ser uma senhora - se precisa de mostrar que o é, é porque não é".

  Não acompanho de perto a carreira de Queen Lafifah, mas sempre que um filme dela passa na televisão fico colada ao ecrã. Toda ela é uma mulher forte - na beleza, nos gestos, na voz, no sorriso doce, na forma desempenada como não atura tretas de ninguém e coloca as coisas e pessoas no seu lugar para se mostrar serena logo a seguir, com cara de quem já viu muita coisa e não se impressiona com duas lérias. Não escolheu o nome "Queen Latifah" por nada: é  fácil imaginá-la como uma Rainha Bíblica, a Raínha do Sabá, ou em qualquer papel mais modesto que exija liderança - como mãe de farta prole desinquieta, governanta ou patroa de um saloon, a atirar os borrachos para o bebedouro.

É, para empregar o piropo que Carlos da Maia achava detestável, "um mulherão".

  A Mammy de E tudo o Vento Levou, interpretada pela fantástica Hattie McDaniel é, apesar de uma simples escrava, tão forte como Scarlett e a verdadeira matriarca daquela casa. Sempre pensei se a resistência de Scarlett teria alguma coisa a ver com ter sido criada por aquela mulher autoritária e bondosa, que se gabava snobemente de saber distinguir uma senhora ou um cavalheiro com um simples golpe de vista. Apesar de personagem de ficção, Mammy foi inspirada em muitas figuras reais que governavam as casas de boas famílias no Sul daquele tempo e que apesar da sua condição, exerciam funções de autoridade. 


Numa versão portuguesa temos a Ana do Vedor, robusta camponesa, lavradora próspera com a voz de comando conferida pela sua posição de ama, que entra no celeiro ou no salão com o mesmo desembaraço, não se receia de ninguém e põe em pratos limpos as situações mais complicadas da trama.

"E, ao atravessarem o quinteiro, o doutor e o abade abraçaram, cada um por sua vez, uma das moças de Ana do Vedor, que voltava da fonte com o cântaro de água.— Olá, olá, fidalguinhos! — bradou da porta da cozinha a patroa. — Já disse que isto aqui não é terra do Cruzeiro. Olhem se querem que eu os enxote como as raposas do galinheiro!?E, quando a criada chegou ao pé dela, disse-lhe com aspereza:– Tu não sabias chimpar-lhes o cântaro pela cabeça abaixo, minha maluca? Sempre vocês não sei para que querem a esperteza. Os rapazes retiraram-se rindo".

Ou a Brites de Almeida, que em Aljubarrota matou sete de uma vez.

 Mas não é preciso ser tão obviamente forte, de postura imponente, arquétipo de Mãe Primordial, Vénus de Willendorf reencarnada, ou uma Boudica, a Rainha dos Icenos que aterrorizou as tropas de Nero, para ter uma personalidade poderosa.




 A força feminina pode ser mais delicada, mais subtil e pasme-se - discreta, modesta, prudente, até obediente quando é justo dar razão aos outros. Porque uma mulher verdadeiramente feminina, que sabe fazer uso da sua feminilidade, é tão delicada mas tão forte como uma corda de piano.

 Conheço muitas mulheres destas: esposas que eram mimadas até os maridos darem à sola deixando-as a braços com contas para pagar, filhos para criar e que não tiveram outro remédio senão deitar mãos aos trabalho, até trabalho humilde, sem perderem a classe nem a beleza. Beldades que não deixam homem nenhum - ou ser nenhum - fazer delas tolas, com uma habilidade, uma calma e uma discrição que quem vê se pergunta como aquilo aconteceu. Senhoras elegantes cujas famílias perderam tudo mas não deixaram de ser quem eram e muito menos de se comportar como quem eram - com elegância, porte, delicadeza - depois de resistirem sabe Deus a quê.

E mesmo as senhoras elegantes de outros tempos aparentemente já frágeis, já velhinhas, que por mais que a Terra pule e vire não se conformam com nada disso e continuam a viver no seu próprio universo, fazendo frente a um batalhão se for preciso, como as Scorpioni imortalizadas no filme Chá com Mussolini. Para muitos, serão velhas malucas, mas é por velhas malucas dessas que o mundo não desaba mais do que já desabou...

 Em comum, todas têm um traço vincado: o de não tolerarem disparates. A capacidade de colocar os pontos nos ii e a coragem de, face à necessidade, descalçarem as luvas. Sem bravatas e sem grande alarido.




Tuesday, January 6, 2015

Com este frio...(bes)untai-vos, por quem sois!



Ontem, toda contente a ler os últimos exemplares de Modas & Bordados e outras revistas femininas antigas que comprei para a minha colecção, encontrei este anúncio da Nivea, c. 1957.

 Achei-o muito engraçado por explicar a forma de aplicação pois, como já detalhei aqui, convém aquecê-lo nas mãos e espalhá-lo bem, retirando o excesso no fim, para usufruir dos seus bons efeitos.

E por estes dias as minhas latinhas de Nivea (costumo ter uma no toucador, outra na casa de banho e mais uma mini na carteira, pelo menos) andam num badanal (expressão da avó que é o mesmo que dizer "num virote") porque já não me lembro de um Inverno tão agressivo para a pele. Vulgo acabar de pôr  hidratante de rosto com factor de protecção solar, creme de olhos, bálsamo de lábios, creme de mãos, óleo de corpo (muito mais agradável de usar, porque não precisamos de gelar fora do banho!) para dali a nada sentir o incómodo da pele seca novamente! Toda a vida tive cuidados apropriados a uma pele delicada e clara, mas isto é inédito.

 Quando o frio é tão mauzinho e seco como tem sido, é fulcral não só hidratar bem, mas proteger contra as agressões. Frio rigoroso, hidratação rigorosa! 

Por isso tenho, conforme as necessidades do momento, combinado um creme mais suave (como o da Clinique anti vermelhidões) com Nívea, ou Nívea com CC/BB Cream, ou Shiseido com Benamôr antes da maquilhagem, além de vaselina depois do creme (no contorno dos olhos, lábios e mãos).

Importa escolher produtos que reponham a elasticidade da pele, mas também que isolem contra o vento gelado e os raios UV (que lá porque é Inverno, não deixam de ser nocivos). Usar Nivea depois do hidratante normal (ou CC/BB Cream com factor de protecção) garante que a pele vai reter a agua necessária, além de isolar graças à lanolina que contém.

 Já o Benamôr, que tem acção anti rugas, faz como vos disse um excelente efeito de primer e também protege. 

Cada uma poderá inventar diferentes combinações, dependendo do tipo de pele, mas o que quero realçar é que com tanto frio, a rotina do costume não basta.

Atenção também à limpeza, que deve ser reforçada proporcionalmente à quantidade de produtos...o que não implica que seja agressiva. O óleo de camélia ou amêndoas doces é um excelente desmaquilhante para o tempo seco, desde que se termine com um tónico forte q.b para reeequilibrar.

 Arrepia-me pensar nos estragos que vão ficar gravados na pele das raparigas mais descuidadas ou preguiçosas. Espero que saibam ouvir o alarme do desconforto - se a pele repuxa, é porque precisa de mais alguma coisa.







Monday, January 5, 2015

Aquilino Ribeiro dixit: não façam das crianças tolas.


"Se escrevêssemos apenas com as palavras que a criança emprega e de que conhece o significado, medíocre seria o nosso modo de expressão. A leitura duma página é um aprendizado. A criança vai-se recreando e aprendendo. Uma palavra que ignora (...) é um obstáculo que vence penetrando-lhe o sentido por intuição natural...".

Cá por casa foram ressuscitar O Romance da Raposa, que é engraçadíssimo, e a leitura do mesmo em família já valeu a um dos nossos gatos a muito justa alcunha de "bicho- palheiro". Depois, eu adoro raposas - se tivesse um animal totémico, seria esse - mas apesar de haver muitas a passar aqui à porta, ainda não tive a sorte de conseguir amadrinhar um raposinho!

 Mas voltemos às palavras do criador da Salta-Pocinhas, que vêm na linha do que disse aqui em tempos: é paradoxal ver como numa época em que as pobres crianças sabem informática, sabem línguas, têm actividades extra curriculares que nunca mais acabam, são incentivadas a participar em concursos de talentos, a usar roupas inadequadas à sua idade ou a acreditar que são índigo... por outro lado são tratadas com mimos e subserviência de pequenos Calígulas e no meio disso tudo, infantilizadas. 
É como se quisessem fazer dos pequenos gente grande quando dá jeito, e tratá-los como bebés ou patetas logo a seguir. 


A raposa Salta Pocinhas, pelo ilustrador original: Benjamim Rabier


 Há anos, numa reunião com o meu editor da altura, mostraram-me uma série de volumes infantis trazidos das feiras internacionais da especialidade, cada um pior que o outro. De livros com retrete incorporada na capa para ensinar como usar a dita cuja (e outros sobre várias funções desagradáveis do organismo, tudo em grande detalhe) a contos infantis com ilustrações que pareciam feitas pelas próprias crianças, era tudo de uma simplicidade e brejeirice de bradar.


Livros que ensinam as crianças a...bom, dispenso traduzir!

 Como se eu apontasse que os desenhos eram simplórios e pouco inspiradores, responderam-me ser tendência, que o público alvo [as crianças] se sentia mais cativado por desenhos parecidos com os que era capaz de fazer.

 E tenho visto isto em inúmeros livros para crianças, mas também em séries, discos, filmes e outros conteúdos pensados para a pequenada. A "boneca feia" de que tanto se falou aqui, segue a mesma corrente: mediania, facilidade, mediocridade, aspirar a pouco, normalização, não ofuscar o resto do grupo.


A nobre do penico explicada às crianças

 No desejo de imediatismo, de vender à pressa e de agradar a pais desmiolados ou mal preparados, esquecem o essencial: é que os pequenos são seres em formação. Por muito inteligentes ou sensíveis que sejam, ainda não sabem muito bem o que é bom para eles. Depois, por outro lado são umas esponjinhas, dispostas a absorver o que lhes captar a imaginação e - grande contradição aqui que até me confunde - muito capazes de aprender.

De nada vale deixarem-nos "expressar-se" (palavra que tal como "parentalidade" está incrivelmente na moda) se não tiverem nada na cabeça que valha a pena expressar, se as suas aptidões não forem orientadas na direcção certa.

 No mês passado visitei uma escola, num "show and tell" de dois dos meus livros preferidos - O Pequeno Lord e O Monte dos Vendavais -a crianças dos seus dez e doze/treze anos, respectivamente. A recepção foi inacreditável e não vi nenhuma criança a reclamar da "dificuldade".




 Só lendo palavras "difíceis" se expande o vocabulário, e isto por toda a vida; só tentando reproduzir desenhos elaborados e algo realistas se aprende a desenhar. O abstracto vem mais tarde - depois de tanto a criatividade como a técnica estarem devidamente estimuladas e treinadas.

 Se não se educar para a referência, o rigor, a diferenciação, a disciplina, o esforço, o espírito crítico, a imaginação e o sentido artístico, estamos a desperdiçar mentes brilhantes... 




6 extremos que comprometem a elegância

É tudo ou nada, mulher do diabo - esta frase que se diz na terra dos meus avoengos podia muito bem aplicar-se a muitas meninas e senhoras que vejo na rua. 

Quando se trata de estilo, beleza ou elegância, a chave está quase sempre no equilíbrio entre a harmonia e o contraste, o novo e o antigo, o trendy e o clássico, o simples e o elaborado...e assim por diante.
 As mulheres que se apresentam melhor possuem uma noção fantástica de si mesmas (do seu corpo, tipo de beleza e do que lhes fica bem) bases sólidas de estilo, muitas vezes aprendidas por osmose em casa (os clássicos, os básicos, cortes e tecidos) e fazem um acompanhamento não obsessivo das tendências. Acima de tudo, porém, têm uma intuição treinada e muita prática, que lhes permite identificar num golpe de vista o que é correcto.
Sem isso, é fácil resvalar para seis extremos que podem estragar o look com mais potencial:


1 - Sensualidade vulgar...ou ser tão atraente como um saco de batatas

Imensas mulheres - novas ou nem tanto, gordas, magras e assim assim - sentem que ninguém vai reparar nelas se não mostrarem muita pele. Isto acontece por uma variedade de motivos já aqui analisados, da tonteria pura e dura aos tristes sinais dos nossos tempos em que a vulgaridade se tornou "normal" , passando pela falta de informação ou de auto estima (que se torna especialmente grave em momentos de crise como um divórcio, por exemplo).
 Já outras - também por questões de auto estima ou desconhecimento- escondem de tal maneira tudo o que é bonito nelas (olhos, cabelo décolletage) que se diria viverem camufladas dentro da roupa.
 Se uma mulher se destapa muito, não só corre mais riscos de se desfavorecer (já que deixa todos os pontos fracos à vista) como não será levada a sério, ou vai atrair o tipo errado de atenção.
Se, pelo contrário, ocultar completamente a silhueta e não fizer um bocadinho por favorecer o cabelo e o rosto, vai parecer rechonchuda ou sem graça e ninguém dará pelo seu encanto. Uma combinação de feminilidade e modéstia cabe em toda a parte e adequa-se a todos os tipos de beleza, garantindo que nada está a mais ou a menos.
  

2 - Vaidade extrema...ou conforto exagerado


Victoria Bechkam de esperanças, com saltos matadores;
 e Mila Kunis, uma beldade irreconhecível quando adopta um look desmazelado.

Uma mulher que se sente  incomodada em saltos que magoam, muita maquilhagem, jeans apertadíssimos e tops que não se seguram no lugar nunca parecerá muito apelativa, ainda que seja bonita. Para que tenha realmente impacto, um visual deve sentir-se tão natural como a própria pele de quem o usa e deixar que uma pessoa se mova à vontade. Por outro lado, ao apostar somente no conforto -abusando de sapatos rasos, ténis e cortes largos, por exemplo - pode deitar-se a perder a maior beleza. A postura relaxa-se demasiado, há a tentação de se deixar engordar (porque é mais difícil dar por isso andando sempre de calças de elástico) e pouco a pouco, instala-se uma falta de aprumo e de investimento no visual. Vaidade é pecado, mas preguiça também! Com um pouco de prática não é difícil estar composta sem desconforto numa ocasião especial, e confortável sem desleixo até para andar em casa.


3 - Ser uma fashion victim...ou congelar no tempo


Acompanhar cega e obsessivamente as tendências do momento é mau para o visual, para o armário e para a bolsa - porque o mais certo é experimentar tudo (incluindo o que não favorece) e ter falta das peças essenciais e elegantes que compõem um guarda roupa equilibrado. As extravagâncias do momento devem constituir uma parte muito pequena da colecção de cada uma, até porque são poucas as que podemos usar no ano seguinte. 
 Mas o contrário também é mau: ter um "signature look" e um uniforme é sinal de maturidade de estilo, mas para que funcione é bom ir fazendo pequenas actualizações. Mesmo um estilo clássico necessita de um upgrade uma vez por outra - no cabelo, na maquilhagem, nos acessórios- para evitar que fique datado e estranho. Peças vintage também devem ser acompanhadas de um toque actual, não vá dar-se o caso de julgarem que saiu à rua mascarada ou que saltou de uma cápsula do tempo.


4 - A ostentação...ou ser sovina



Arrisco dizer que todas as mulheres gostam de alguns luxos - e que a maioria ficará igualmente tentada com uma boa pechincha (seja uma peça bonita da Zara, uma t-shirt amorosa comprada num mercado de rua ou uma carteira Prada com um desconto incrível na Net-a-Porter). 
 O problema está nos extremos. Quem, por insegurança quanto ao seu visual ou necessidade de afirmação, se limita a comprar em marcas "mais caras", corre vários riscos: o de ter roupa a menos (a não ser que disponha de recursos ilimitados) o de gastar demasiado em peças que não justificam o investimento (num top básico 100% algodão pouca distinção há além da etiqueta) ou em marcas de meio termo (que não são acessíveis nem de luxo e que raramente diferem muito, em material e execução, das suas contrapartes mais económicas). Há dias acompanhei uma amiga a uma loja de segmento médio que não vou nomear, que pretende tender para o elegante e exclusivo...e vi imensas camisolas de poliéster acima dos €150. 

 Finalmente, se não tiver um gosto treinado, poderá fazer opções duvidosas, como trazer logótipos à vista. A ostentação é sempre feia!
 Pelo contrário, existem mulheres que, querendo ser muito poupadas, acabam por escolher sempre o *supostamente* mais barato...ficando mesmo com um ar barato e o que é pior, às vezes sem poupar tanto como isso.
 Actualmente, muita marcas de fast fashion (e "marcas de shopping" em geral) subiram os preços, e nem sempre com motivos válidos. O mesmo acontece em muitas lojinhas de rua, supostamente económicas, onde se vêem preços mais elevados do que em lugares de maior confiança. Uma coisa é ser sensata, outra é vestir coisas de má qualidade ou não investir um bocadinho em si própria; há uma linha que separa o modesto do "reles" e em certas coisas (como sapatos ou carteiras) a falta de qualidade é impossível de disfarçar.


5 - Muita ornamentação...ou nenhuma

Não há nada mais feio do que carregar muitas tendências na mesma toilette, ou sufocá-la com demasiados acessórios. O ruído visual é contrário à elegância. Por outro lado, o minimalismo ou mesmo o normcore precisam de peças boas e alguns cuidados no styling para resultar.
 Menos é mais, mas há uma diferença entre um look clean e um visual desenxabido. Pequenos quês como um lenço ou um cinto no lugar certo mostram que se pensou o visual e fazem a diferença entre o sofisticado e o simplório.

6 - Esforçar-se demasiado...ou nem um bocadinho


É impossível disfarçar quando alguém tenta vestir uma pele que não é a sua - seja para dar nas vistas ou no intuito de parecer mais fashionista, mais sofisticada ou mais qualquer outra coisa do que na realidade é. Não parece natural e em muitas situações, é ridículo estar "overdressed" em relação ao local ou circunstância. 
 Por outro lado, o excesso de simplicidade pode passar uma imagem de desalinho - ou, em ocasiões mais especiais, ser uma descortesia para com quem recebe ou organiza o evento. O ideal é o chic sem esforço - e isso só consegue sendo verdadeira consigo mesma.



Sunday, January 4, 2015

O heroísmo discreto da Rainha Fabíola


Sobre as desditas da Rainha Fabíola dos Belgas (que deixou este mundo no mês passado) escreveu nos anos 1960 o jornalista Pierre Daninos:

"Uma nobre de Espanha, agora rainha dos Belgas, privada não só do sol mas também da alegria de dar ao seu novo povo um herdeiro, obrigada pela sua posição a ser a primeira a segurar por cima das pias baptismais a prole continuamente renovada de uma princesa italiana instalada às portas do palácio (...). Uma rainha infeliz que se esforçava por sorrir ao segurar nos braços o filho (...) que lhe fora recusado pelo Céu (...), dominando a dor com uma nobreza de carácter que só pode ser dada pelo nascimento, é canja, na primeira página, com fotografias a cores e tudo!"


Baptizado da Princesa Astrid, sobrinha da Rainha Fabíola

 Tentar sucessivamente cumprir o seu dever de dar herdeiros ao Rei, sem êxito e simultaneamente, ver a cunhada (que viria a ser Rainha consorte nos anos 1990) rodeada de crianças, tudo isto sob escrutínio: eis um daqueles sofrimentos íntimos e devastadores que só uma mulher pode entender, medido ao milímetro pelo público e retratado em excruciante detalhe pelos jornais, que se deliciavam em retalhar a suposta rivalidade entre a majestosa Fabíola e a cunhada: a doce, irrequieta - e sobretudo, fértil- Princesa Paola


Paola e Fabíola

 Quando o Rei Balduíno se opôs terminantemente à legalização do aborto, em 1990 (decisão que muitos previam pôr fim ao seu reinado) atribuiu-se uma posição tão vincada não só à sua fé mas também à mulher que tanto amava, Católica devota e traumatizada por ter perdido cinco filhos antes do termo da gestação. Ao ser confrontada pelo marido com a possibilidade de abdicar caso se recusassem a trair as suas crenças apoiando a lei em discussão,  Fabíola terá respondido "não faz mal. Ainda sei levar a cabo um bom dia de trabalho. Tenho o meu certificado da Cruz Vermelha!".

No dia do seu casamento (1960). O vestido, de Balenciaga,
pode ser admirado no Museu do Traje, em Madrid.

Antes de casar, a futura Rainha trabalhara como enfermeira e tinha publicado  contos de fadas com assinalável êxito; a perda do  Trono pouco significava perante valores mais altos...

Graciosa na maior adversidade - mesmo em circunstâncias humilhantes para qualquer mulher, quanto mais para a consorte de um monarca - e fiel aos seus princípios até ao fim, capaz de abrir mão sem pestanejar de vaidades mundanas, a Rainha Fabíola deixou um exemplo de elegância e, mais importante, de dignidade feminina. 

Nem só de grandes feitos vive o heroísmo - por vezes, ele está em suportar com um sorriso e sem queixas as pressões, tribulações e desafios do quotidiano, por mais mortificantes que sejam.



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