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Saturday, February 28, 2015

Patricia Arquette, tinha mesmo de ser desagradável?



E eu que gostava tanto de si.

 Não lhe bastava ficar contente ao receber um Oscar por um trabalho que supostamente adora fazer, pelo qual é regiamente paga... e 
aceitá-lo graciosamente? Não, tinha de vir um discursozinho polémico. Quando os artistas tentam falar de assuntos sérios fora de contexto, a torto e a direito, perdem francamente a graça toda- e houve quem suspirasse pelos velhos  tempos em que o evento tinha elegância e classe.

 À manifestação inflamada da actriz ( e escuso de repetir o que parece uma mulher toda nervosinha a levantar a voz...) seguiu-se o sururu que era suposto.

 Mas como quando se trata de exigir direitos e queixar-se de discriminação isto parece as velhotas nos centro de saúde a desfiar o rosário das doenças e cada uma a gabar-se que está muito pior, as restantes minorias desataram a queixar-se que Patricia não tem razões para se lamuriar, que elas é que são realmente prejudicadas e mais minoria do que as outras minorias. Patricia teve tão má pontaria que nem as feministas aprovaram o faniquito (agradar-lhes é difícil , convenhamos) achando - pela primeira vez, quer-me parecer - que a obsessão pela opressão diminui as mulheres. Assim como quem diz Patrícia, se calhar exagerou, não era preciso.

Toda a vida ouvi que dias de festa não são o momento de discutir política, futebol, religião, rixas antigas e esqueletos no armário...

Friday, February 27, 2015

D. Sebastião César de Menezes dixit: cuidado com as novidades



"Um dos fundamentos para se estabelecer em felicidade é conservar-se nos antigos costumes. Está muito perto da ruína o Príncipe que for amigo de novidades, porque a prudência é seguir os costumes dos maiores que o tempo e experiência têm qualificado" . 


                         
                                            D. Sebastião César de Menezes, 
                                                           in Suma Política

Vivemos o século das constantes novidades. A sociedade da Belle Époque terá sido, em traços largos, a última a pasmar ante convulsões grandes e repentinas que acabaram com os "anos dourados" e pareciam abalar os alicerces da civilização, pôr em causa tudo aquilo que as pessoas tinham mais ou menos como certo- a substituição de cavalos por automóveis, o interesse generalizado pela ciência ( e por ideias controversas como o espiritismo, que se disseminava pelos salões) a consolidação da indústria, o regicídio em Portugal, o naufrágio do inafundável Titanic, e mesmo à porta, a I Grande Guerra e a Revolução Russa.

Mas no século XXI, pior estamos - não se acorda um dia sem que haja uma novidade. Ou que não nos obriguem, de forma mais ou menos subtil, a aceitar como normal (e até a louvar) coisas que muito recentemente eram tidas como moral ou socialmente desprezíveis.

 Chesterton, pensador desse fin de siècle que disse que a tolerância é a virtude do homem sem convicções, muito se espantaria hoje. 

 Porém, não sejamos ceguinhos, cobardes ou sensaborões: o mundo anda para a frente e não para trás e temos de nos adaptar, mas há que ter a rebeldia de recusar ser rebelde só porque nos dizem "sê rebelde!".  Lá porque uma nova ideia, uma corrente de pensamento muito revolucionária, muito zen, em suma, o l´air du temps, nos é impingido várias vezes por dia pelos media como muito bom, como a única forma aceitável de pensar porque todas as outras estão ultrapassadas, numa autêntica ditadura do politicamento correcto, não significa que todos tenhamos que ser coniventes por medo de ganhar fama de Velhos do Restelo ou antiquados

 As culturas que nos serviram de berço assentavam na tradição, nos valores firmes. Quem nos diz que o que é novo, que ainda não foi testado, é necessariamente melhor do que a ordem das coisas quem mal ou bem, lá foi trazendo o mundo até aqui? É que as ideias jovens são exactamente como os adolescentes: não viveram nada, mas têm a certeza de tudo.



Um Príncipe Playboy...com pouca sorte

Eva Bartok e o Príncipe Shiv

O Príncipe Shiv de Palitana, filho de um Marajá, era tido como um playboy das dúzias nos anos 1950. Cá entre nós que ninguém nos ouve, acho que para tanto sucesso muito jeito lhe dava ser um príncipe das Mil e Uma Noites, porque embora fosse desempoeirado e vestisse com elegância, não era nenhum Kabir Bedi... 

Talvez o Príncipe possuísse muito encanto pessoal, talvez se iludisse - e a mulheres de cabeça leve, ávidas de estatuto e diamantes, dispostas a amar o trono e não o homem - com o brilho da sua riqueza e do seu nascimento. A verdade é que da fama não se livrava...mas o seu defeito seria mais ser pinga-amores do que propriamente um D. Juan, como veremos.

Enquanto espalhava charme pela Europa, fazendo o que é suposto um príncipe exótico e namoradeiro fazer, em 1958 Shiv cortejou uma ruiva sorridente - e ao que parece, não muito esperta-  a modelo, barmaid e ex balconista de Londres Jane Buckingham. Incuravelmente romântica e fascinada com tanto glamour, Jane dizia a quem a queria ouvir que o príncipe ia casar com ela.

Jane Buckingham e Shiv 
 As intenções dele nunca as saberemos, mas talvez fosse verdade porque ele provou ser capaz disso...embora não da forma que Jane esperava. No ano seguinte, no espaço de duas semanas, Shiv deixou de ver Jane para se lançar nos braços da actriz húngara Eva Bartok- e escandalizou o pai Marajá ao bater o pé para casar com ela.

O romance de Shiv e Eva comentado na imprensa
 Eva parecia ser a contraparte feminina de Shiv, porque era tão namoradeira como ele. A sua história era no mínimo rocambolesca. Fora casada quatro vezes (a primeira vez, um casamento forçado) tinha uma filha de um dos maridos que muito mais tarde veio a alegar ser afinal de Frank Sinatra, com quem tinha tido um breve affair em 1956, e até conhecer Shiv estava supostamente noiva do bem parecido David Mountbatten, 3º Marquês de Milford Haven, a quem terá deixado pelo Príncipe.

Eva com David Mountbatten, de quem diziam estar noiva

O Marajá, lá na distante Índia, enfurecia-se com tais projectos - e à falta da bênção paterna, o Príncipe decidiu levar o casório a cabo em Roma.

 Ouvindo as declarações de amor de Shiv a actriz largou o namorado, largou o filme que ia protagonizar na Alemanha...e a outra, rejeitada, furiosa, em lágrimas, agiu como uma verdadeira mulher da luta: em vez de aceitar o desfecho com dignidade, saltou para um avião para tentar recuperá-lo em Nápoles.


 Toda a vida ouvi que tentar comover um homem com lágrimas e súplicas é a coisa mais patética (e inútil) que se pode fazer, especialmente se ele estiver apaixonado por outra; mas o caso da pobre Jane foi ainda mais digno de dó: teve tanta pouca sorte que o avião em que seguia chocou contra um caça, matando a tripulação e os passageiros, num total de 31 vítimas.



 Para tornar o enredo ainda mais esquisito, o Príncipe (que seguia de carro para Nápoles) teve um acidente também, em França, mas não sofreu nada.

 Quanto a Eva Bartok,  também não casou com ele: em Abril de 1959 mandou-o literalmente ao pai com um diplomático telegrama, dizendo "não posso separar a vossa família; que Deus te abençoe". 


A actriz nunca revelou a razão da ruptura. Talvez fosse uma mulher de emoções pouco firmes, talvez achasse que os seus casamentos estavam todos embruxados ou talvez pusesse fim ao noivado porque conhecia mal o Príncipe e ele viesse a revelar-se mais maçador do que ela julgara. Outra hipótese seria  por se sentir chocada com um desfecho tão trágico...ou por recear que a defunta ex a amaldiçoasse da sepultura. 

A verdade é que a bela Eva que não voltou a casar...e que as aventuras do Príncipe Shiv se perdem nos tablóides a partir dessa data.



Thursday, February 26, 2015

Milai Bensabat dixit: o sucesso alheio parece sempre fácil


" Espantamo-nos muitas vezes com o sucesso alcançado por algumas pessoas em relação à harmonia e ajuste com que tudo decorre nas suas vidas. Não vemos nunca aquelas grandes falhas que produzem a oscilação de um lar, tão pouco a insuficiência pessoal perante alguns problemas de delicada resolução. (...) para viver assim, dentro de uma estabelecida ordem, é preciso, antes de mais nada, possuir ou criar um espírito ordenado. (...) É muito natural que tanto a intempestividade, como a indecisão, as resoluções rápidas demais ou o desinteresse absoluto (...) criem alterações bruscas que levem à desordem. Para ter ordem na vida é preciso, primeiro do que tudo, dar a cada coisa o seu devido valor, não fazendo de uma mosca um elefante e vice-versa (...) fazer um esquema de trabalho diário (...) não arranjar um número de obrigações difícil de cumprir; poupar religiosamente as horas de repouso. Estas bases da ordem criam por sua vez uma ordem no espírito que se manifesta no comedimento das sensações dentro da sua verdadeira proporção. Tendo adquirido esta disciplina de princípios, este segredo do triunfo, não voltarão a espantar-nos aquelas pessoas que tudo conseguem na vida".


 In Crónica Feminina, 1959

Este curioso (e sensato...) artigo de 1959 mais engraçado se torna se o compararmos com esta lista de 10 hábitos das mulheres altamente bem sucedidas, publicado na semana passada.
 As expectativas e costumes podem ter sofrido mudanças, mas o modus operandi para o êxito  parece ser eterno: trabalho, foco, organização e a capacidade para aproveitar os ventos da sorte, quando sopram de feição (ou para lhes resistir, se decidem soprar para o lado errado). Já tenho frisado muitas vezes como é importante que uma mulher seja disciplinada e senhora de si - na carreira, na sua aparência, nos relacionamentos, nas emoções, no porte, na sua casa.

 Mas para quem está de fora, é fácil dizer há pessoas com sorte! Tudo lhes cai do céu! Ou para os maldosos, que ali há um truque qualquer. E quando o visado é uma mulher, mais virulento e leviano se torna o mexerico.  É mais imediato e mais reconfortante especular ou criticar do que mirar-se no exemplo. Nunca ocorre a quem se espanta com o sucesso alheio que as "pessoas sortudas" também têm problemas - tratam é de lidar com eles estoicamente, porque o mundo não vai ajudar, logo...não precisa de o saber.

Para quem se compara com os outros, só os seus desafios são pesados, só as suas desgraças contam.

  Quanto mais pessoas de sucesso conheço, mais vejo que embora cada um tenha os seus factores de sorte, isso não é nada sem uma disciplina de ferro temperada por uma grande noção de equilíbrio e serenidade mental. O que me leva a concluir que mesmo que os lamurientos de serviço tivessem tudo de bandeja e toda a sorte do mundo, não iriam muito longe: são nervosinhos demais, falta-lhes organização e eram capazes de reclamar que a bandeja do vizinho era maior que a sua, em vez de levantarem as mãos para o céu.



FOMO - a doença social da década.



A expressão FOMO (Fear of Missing Out, i.e. o medo/ansiedade de ficar de fora de alguma coisa divertida) foi cunhada recentemente, mercê de Instagrams e outras engenhocas que permitem acompanhar em tempo real o último evento mais badalado (sobretudo as fashion weeks) e/ou a tendência do momento.

 Até uma blogger bicho raro como eu, que tenha PREGUIÇA de usar o Instagram (palavra, tenho preguiça - é um luxo! ) está forçosamente a par, via feeds, das novidades. Umas cativantes ou úteis, outras nem tanto.

  Esse conhecimento que até há pouco tempo só interessava a quem fazia das modas & elegâncias profissão ou no limite, aos fashionistas mais empedernidos, ficou, de repente, acessível a todos. Mesmo aos que não têm o olho treinado para distinguir as subtilezas, para separar realidade de fantasia e o que é sensato usar/comprar/levar a sério.

  Mas a verdade é que, mesmo para quem se dedica a estes temas (jornalistas de moda, marketeers e RPs da indústria,  bloggers, stylists...) embora convenha saber o que se passa (o mais recente truque de styling, a it bag, as botas must have) deixar-se entusiasmar por tudo o que aparece é péssima política. É mau para o raciocínio, mau para o estilo próprio e para a conta bancária.

 Obviamente, todos os profissionais da área (mesmo os mais blasé) dão uma olhadela aos streetstyles que pululam por aí, tal como estão atentos na rua, ou às revistas. A inspiração é uma constante e há sempre alguém que se lembra de dar um uso a certas roupas que não nos ocorreria. São os momentos "como é que eu não pensei nisto?" seguidos do clipping das "fórmulas" que queremos experimentar.

 Acontece-me muitas vezes, principalmente se alguém dá uma "volta" inesperada a coisas que calha haver no meu armário.

 Mas nada disso nos obriga à ansiedade do "tenho de usar isto", "ainda não tenho aquilo", "fulana está a ultrapassar-me" ou "comprei esta peça para reproduzir aquele oufit giríssimo que vi não sei onde e está a estação a terminar e ainda não o levei à rua".



Paradoxalmente esses complexos lembram tempos idos, quando as tendências eram mais rígidas e havia menos liberdade criativa. É um retrocesso. Karl Lagerfeld disse e muito bem que há uma distância muito curta entre ser trendy e ser pindérico. 

 A ansiedade, o deslumbramento, a constante comparação com os outros, a competição, o desejo de impressionar, de agradar, de estar actual, não podem denunciar mais insegurança. Poucas coisas revelam tanto desespero. É um estado de espírito que merece o descaso (ou até o desdém) de quem realmente dita as tendências - e boa parte desses movers & shakers, dessas it girls, 
ditam-nas inconscientemente... ao estarem-se, muitas vezes, nas tintas para o que é trendy. Pessoas que possuem verdadeiro estilo dificilmente se surpreendem ou caem num deslumbramento provinciano. Possuem a liberdade da recusa.

E não esqueçamos a outra face da moeda - das casas de moda que de forma muito inteligente "plantam" a última carteirinha da sua criação, ou o último sapatinho, na it girl ou blogger que sabem que será mais fotografada. É um win-win: a marca ganha buzz e no dia seguinte, haverá milhares de seguidoras a encomendar cegamente a mesma coisa. A it girl aumenta a sua colecção sem custos e sorri por dentro de tanta histeria... porque é a sua magia, o seu estilo, o seu gosto, que torna a peça apelativa: provavelmente, causaria o mesmo impacto com um substituto obscuro herdado da tia avó, comprado na colecção anterior ou  desencantado nos saldos.

Haverá sempre opinion makers e seguidores. Haverá sempre pessoas inspiradoras. Mas ser um seguidor cego é a antítese do estilo ou da individualidade.

Isto aplica-se a tudo, não só à moda: à vida social, aos feitos académicos, ao status, à posição profissional, às visões políticas, etc.

Ao FOMO, ao receio de ficar de fora, contrapõe-se o remédio do JOMO - Joy of Missing Out. A gloriosa alegria de ficar de fora: de faltar ao evento overrated e overcrowded. A alegria de recusar graciosamente um convite porque tem um lugar (provavelmente menos popularucho e mais íntimo) onde ir. A alegria de se abster de dar a sua opinião no assunto do momento, discutido ad nauseam nas redes sociais. A alegria de não responder a um argumento estúpido só para não ficar calado quando todos atiram o seu douto parecer. A alegria de não investir recursos num vestido ou acessório que mais trinta pessoas irão usar só para o retrato. A alegria de negar subscrever publicamente uma causa que até não lhe diz nada, só porque é suposto. 

Elegância é recusa, e isso exige personalidade. A personalidade de dizer que o Rei vai nu, que a ideia/máxima/peça do momento é uma carneirada...mas é essa rebeldia, essa independência mental, que ganha seguidores, porque a multidão tem de seguir sempre alguma coisa. Ter opinião própria e segui-la é a última rebeldia e o luxo supremo.






Wednesday, February 25, 2015

O Imperatrix está snobíssimo esta semana!


Isto porque o prestigiado autor, jornalista, trend watcher e ensaísta Anton Moonen -  de quem já vos falei várias vezes e se não leram nenhum livro dele, estão a perder uma dose vital de humor e de bom senso - me colocou entre os ilustres convidados para falar dos bons e maus snobismos no seu delicioso blog, Snobilissime Podem espreitar a entrevista desta vossa amiga aqui

Acerca de Moonen, que dedicou um percurso brilhante (colaborou com a Vogue, Vanity Fair e Elle, entre outras revistas) à reflexão sobre o snobismo e elegância, escrevi há tempos "no século do Facebook, do cosmopolita bacoco, do trendy à martelada e do juntar-para-comprar-uns-Louboutin-para -escarrapachar-no-blog-a-fazer-inveja-aos-pobres, podemos estar privados do espírito um de um Oscar Wilde, de um Baudelaire, de um Lord Byron,  de um Eça, mas ainda temos Moonen, entre meia dúzia de iluminados, para pôr juízo na cabeça das gentes. A rir, comme il faut".



Aconselho-vos a debruçarem-se sobre o trabalho de um dos últimos arbiter elegantiae que se atrevem a dizer publicamente o que pensam. Em português, infelizmente, creio que só temos publicado o Pequeno Breviário do Snobismo, livro de cabeceira excelente para pequenos requintes, anedotas do mundo elegante de outros tempos - e para descobrir carecas aos pretensiosos ou patos bravos de serviço, o que é sempre útil.

Só me resta dizer que fica combinada, para breve, uma enquête ao árbitro das  elegâncias aqui no nosso salão, para termos a última palavra sobre as ditas. Mal posso esperar para lhe perguntar quais são os seus "eu embirro com".


Esclarecendo os "blusões em pele": escolher, comprar e usar (ou não)

Françoise Hardy
Moto jacket (ou biker jacket), bomber jacket (ou aviator/bombardier/flight jacket), perfecto ou, simplesmente, blusão de cabedal. São quase um básico de moda por direito próprio (digo "quase" porque ter um ou não depende muito do estilo pessoal) daquelas peças "problem solver", que se podem vestir a correr para acrescentar um certo je ne sais quois a um coordenado simples, vulgo top banalíssimo + jeans skinny pretos + bailarinas...e duram uma vida inteira.

 As raparigas francesas, discípulas de Françoise Hardy, consideram-no um acessório indispensável ao famoso chic parisiense. 


 É um casaco intemporal: apaixona as adolescentes, as jovens adultas e as suas mães ou tias- que começaram a usá-los desde os anos 60/70 ou 80 e nunca os abandonaram completamente.

 Mas ao contrário, por exemplo, da gabardina ou do blazer (básicos que a maioria consegue usar sem grande erro) o bom e velho blusão tem mais que se lhe diga. Enquanto um trench coat comprado às pressas numa marca acessível pode ter um aspecto razoável, um blusão não disfarça tão bem.

   Por aqui já tenho criticado o vício das portuguesas de abusar dos blusões (ou casacos do género) em detrimento de agasalhos mais compostos e democráticos. Isto porque quando se trata destes amiguinhos, não há meio termo: podem dar um ar soberbo a um visual ou fazê-lo parecer barato ou mal acabado.

Vejamos então umas dicas simples para escolher o exemplar certo: há quem goste de os coleccionar (em camurça, em pele, de vários modelos com diferentes fantasias) mas a verdade é que esta é uma peça que convém tornar sua. É o uso frequente que lhe dá o carácter (e a patine, pois o couro bem tratado quanto mais antigo é, mais interessante fica). Além disso, acabam por pesar bastante no armário e no fundo, precisa no máximo de três exemplares para ficar bem servida para a vida toda.

 Lá por casa existem vários - o meu tesourinho é um bomber Mac Douglas, casa francesa considerada la crème de la crème dos artigos em pele que se celebrizou em 1947 por este modelo - mas gravitam todos à volta do mesmo.


O perfecto
Perfectos Balenciaga e Balmain

Inventado em 1927, popularizado por Marlon Brando e reproduzido até à exaustão por designers como Jean Paul Gaultier, distingue-se dos outros por ser assertoado e ter zippers mais ou menos visíveis. É talvez o modelo mais difícil de escolher para a maioria das mulheres, porque convém que seja folgado q.b (especialmente, quando usado aberto) e que acomode devidamente o busto, mas com uma cintura ligeiramente vincada. As raparigas com pouco peito e anca poderão usar um modelo mais solto. Fazem-nos em todas as cores e materiais, mas é um desperdício optar por outra coisa que não pele preta, com fechos do mais comum que há. De momento é muito cool usá-lo de formas inesperadas - sobre um vestido ameninado, por exemplo.


O modelo clássico
Blusões Boss Orange e The Row
Mais versátil, tem um zipper a direito e sujeitam-no a todas as fantasias: com gola à Mao, com lapela, mais ou menos cintado, com aplicações, preto, castanho, encarnado...A vantagem é que pode usá-lo sobre roupa um pouco "séria" sem perder a sobriedade ou dar-lhe um ar mais rebelde (e.g, com botas compridas). É um casaco que pode perfeitamente vestir para trabalhar se o dress code da empresa o permitir. O defeito é que, como convém ser justo,  pode tornar-se demasiado rígido: procure um couro tão macio como manteiga. Se tem ancas pronunciadas, não escolha um com ombros muito estreitos. Escusado será dizer, o melhor investimento é em preto e sem enfeites...embora se façam alguns castanhos muito bonitos.

O Bomber Jacket
Bombardier clássico e modelo Mac Douglas no Ebay (não é o meu, mas é igualzinho)

Criados para os aviadores da I Guerra Mundial, tornaram-se populares a partir dos anos 1970. São mais folgados e quentinhos (muitos dispõem de forro acolchoado) e ligeiramente mais longos. Um bomber jacket digno desse nome é castanho escuro, numa pele rica e com uma gola de pelo.


Na hora de escolher qualquer um destes modelos, o mais importante é dispensar as imitações:
a napa pode ser um substituto aceitável em peças como calças extra justas (que para ficarem flexíveis e confortáveis em pele, têm de ser feitas no material mais caro e pelos melhores artesãos, logo nem sempre são uma opção viável) mas jamais num casaco. Os modelos em napa ou coisa pior são a principal razão de muitas mulheres ficarem com um ar duvidoso quando os vestem.  Em tempos idos, marcas acessíveis como as lojas da Inditex ou a Mango faziam modelos em couro que superavam, por vezes, os das lojas de peles. Eram mais maleáveis, macios e com cortes mais actuais. Hoje rareiam nas marcas de fast fashion, por isso poderá ter de fazer um investimento maior.


 Casas como a ASOS têm uma variedade de opções a preços razoáveis, e poderá sempre procurar um modelo vintage. Comprar algo mais exclusivo é sempre uma aquisição sensata - e as maiores griffes fazem-nos ano sim, ano sim- desde que saiba exactamente qual é o modelo certo para si.

 É que o mais provável é usá-lo até à reforma - e essa deve ser a pergunta a fazer na hora de o adquirir. Se tem cara de eterno, go for it.

Tuesday, February 24, 2015

Olhem que eu faço-vos um desenho #1: Isto de ter critérios


Nunca vos falei muito disto, mas sempre gostei bastante de rabiscar ( por carolice apenas, porque há lá em casa quem o faça muito melhor). 

Os meus colegas de escola que o digam - tão queridos, às vezes ainda me vêm dizer que guardam desenhos que eu fazia nas barbas dos professores. No liceu quem me arreliasse corria três riscos - o de ganhar uma alcunha (sou terrível a pôr petit-noms e alcunhas que pegam; não faço de propósito, mas sai-me de rajada e se alguém ouvir, adeus) o de lhe ver dedicada uma cantiga de mal dizer (perdi o hábito, mas ainda tenho algumas em arquivo) ou...de ser retratado em BD nas cenas mais disparatadas.

Mais tarde ilustrei os livros que publiquei para crianças e cheguei a desenhar para dois jornais (num deles, sob "responsabilidade da redacção" - houve um cartoon de ursos que deu muito que falar sem nunca se ter vindo a saber quem era o "artista") mas é algo que às vezes me esqueço de fazer, embora tenha o hábito de rascunhar, por exemplo, certos outfits antes de os criar de facto. 

Isto para a rubrica nova não cair aqui de para-quedas. Recentemente partilhei convosco um pequeno desenho via Facebook e como não faltam por aí coisas inspiradoras, no bom e no mau sentido...cá vai.

  A conversa ilustrada acima ouvi-a eu há dias, e identifiquei-me plenamente com ela. Ser uma pessoa com valores vincados e uma opinião formada sobre o que considera certo ou errado para si pode afastar muito boa gente. Ou dar a quem assim é uma reputação de inflexível, careta, arrogante ou preconceituoso. Mas tem os seus benefícios: ao menos não se engana ninguém. Quem tem de se zangar zanga-se logo, para começo de conversa, e de qualquer forma nunca seriam multidão que nos despertasse interesse, mais vale não andarmos às turras nem gastar tempo em algo que já se sabe que fim terá. 

Pessoas que tenham uma forma de estar demasiado diversa da nossa nem sequer se aproximam, logo não têm oportunidade de desiludir ou de causar distúrbios. Só faz falta quem está, ou como diria o Duque de La Rochefoucauld, "raramente encontramos pessoas de bom senso, a não ser as que partilham a nossa opinião".


Pensamento pouco apropriado à época, mas...


Recentemente vi um filme interessante em que ninguém sabia mentir. 

Passava-se por alguém na rua e dizia-se "que farpela horrorosa!" ou outro facto incómodo qualquer e a pessoa nem ripostava; ficava assim com cara de parva porque afinal, quem diz a verdade não merece castigo.

Imaginem acontecer isto na realidade: passar-vos uma nuvem baixa de franqueza, mandarem a boa educação às urtigas e dizerem às pessoas exactamente o que pensam delas - incluindo nas redes sociais.
 É que por muito pouco tempo que se passe nelas, acaba-se por dar com certas coisas dia sim, dia sim, que murcham os neurónios.

 Visualizem lá como seria fazerem assim um massacre por aqueles murais acima e por aqueles murais abaixo, com desabafos do estilo "não acredito que fui amiga de uma pessoa que se tornou um cliché ambulante", "se publicas mais uma frase manhosa do cifras, vou atirar ovos à tua casa", "que unhas são essas?", "cale-se que já estamos fartos de saber", "foi a última lamechice que vi desta pessoa - basta. Adeuzinho",  "get a life", "isso não só é uma foleirada como está mal escrito", "pára de deitar postas de pescada sobre tudo, vai lavar uns pratos", "isto não é o confessionário do Big Brother",  "vou desamigar a criatura acima porque não gosto de ver vulgaridades a passear-me no feed", "eu não te conheço (aos contactos que realmente só conhecemos dali e àqueles que conhecemos mas de repente parece que se tornaram numa versão apimbalhada de si mesmos) "o meu mural não é o culto de nenhuma seita para levar com frases ranhosas de gurus e esquemas de pirâmide", "se quiser um comentador político ligo a  televisão e eu não vejo televisão" e assim por diante. 

A versão mais delicada seria "até gostava de si e dá-me desgosto ver isto".



Era libertador, não era? Passavam por más pessoas e se calhar, por uns maluquinhos sem nada melhor para fazer; sujeitavam-se a levar o troco (eventualmente com um argumento estúpido pelo meio) mas o alívio era grande. 

 Porém... a boa educação, a necessidade de não ferir os sentimentos dos outros e de enfim, não arranjar conflitos gratuitos faz com que uma alma se refreie, morda a língua, mesmo quando a melhor prova de amizade seria não deixar as pessoas fazerem figuras de urso sem dizer nada

Instala-se então um laissez faire, laissez passer: o máximo que se faz é ignorar, deixar secretamente de seguir a pessoa ou no limite, exclui-la. Mas mesmo quando se põe alguém fora, raramente há a coragem de deixar uma notazinha a explicar o motivo. Isso seria admitir que somos más pessoas, ou pior: que andávamos a dar atenção aos seus disparates.

 Quer-me parecer que se instalou um novo tipo de cobardia...ou de cortesia extrema.

 Até porque tenho para mim que actualmente há quem tolere melhor um soco ou um insulto aos antepassados até à quinta geração do que a mais leve beliscadela àquilo que publica nas redes sociais. O zeitgeist anda bonito, anda.

Monday, February 23, 2015

Os três vestidos dos Óscares

É cada vez mais raro qualquer grande passadeira encarnada mostrar uma abundância de toilettes que deslumbrem. A honrosa excepção ainda vai sendo Cannes, mas em geral tem-se instalado uma grande sensaboria: umas vezes por aparente falta de criatividade, outras por desleixo quer das celebridades quer dos stylists que as vestem, com erros de fitting a arruinar vestidos podiam ser belíssimos.

  Ainda assim- e embora a minha paciência para acompanhar tais trolarós seja limitada - esperava ver algo que fosse um assombro, um nadinha extravagante  mas imponente, como o Zac Posen bordeaux usado por Naomi Campbell em Nova Iorque:




 Afinal, houve os tais vestidos que seriam uma maravilha se não se tivessem esquecido de chamar a costureira (como o ouro sobre azul Marchesa de Rita Ora, que parecia querer cair a qualquer instante, Karolina Kurkova, também de Marchesa com uma cauda fantástica mas um decote que estragava o conjunto e o Jenny Packham de America Ferrera, que lhe fazia o peito descaído); os looks bonitinho, mas podia ser melhor (Emma Stone em Elie Saab, Meryl Streep com um tailleur (?) Lanvin, Laura Dern com um Alberta Ferretti metalizado) e os fitting impecável mas nada de surpreendente (Reese Witterspoon em Tom Ford, com o minimalismo elegante do costume, Zoe Saldana de Atelier Versace).


 Vestidos para Oscar, realmente dignos disso, só vi três:


Jessica Chastain: Givenchy Haute Couture



A alfaiataria está para um vestido como a localização está para o mercado imobiliário. Se o vestido fosse meu subia-lhe uns dois centímetros no decote, mas de resto nada a dizer...a cor, o tecido, a cintura...figura de ampulheta impecável! Tenho muita admiração pela Jessiquinha, uma das ruivas mais bonitas - e com mais classe - a dar um ar da sua graça por aí. Quando uma rapariga põe um vestido couture e se nota que é couture, está tudo dito. Também gostei que usasse o cabelo solto: há apanhados lindos, mas a maioria costuma optar por uns carrapitos de bailarina que ficam mal a quase toda a gente. 

Rosamund Pike, Givenchy Haute Couture


Já tinha estranhado que uma beleza clássica como esta actriz andasse enfarpelada nuns vestidos tão pouco adequados à sua figura. Parece que desta feita contratou um stylist capaz: pessoalmente não morro de amores por modelos cai cai, porque não são o mais confortável e ou ficam uma maravilha ou muito maus. A receita do encarnado também não é garantida, porque não há nada pior que um vestido maçador ou mal feito numa cor garrida. Este é uma pura maravilha, parece saído do Moulin Rouge nos tempos áureos. E o detalhe da nude sandal, a fazer umas pernas infinitas? Chic a valer, parece um moranguinho, como diria o Dâmaso.

Scarlett Johansson - Atelier Versace


Devo ser a única pessoa que detestou o corte de cabelo da actriz - acho-o muito agressivo e masculino para o tipo dela e de resto, não sou grande fã de cabelos curtos em mulheres curvilíneas. Mas o vestido é lindo: verde é sempre uma cor distinta e o fitting está imaculado. Mudava o penteado e substituía o colar, que não faz ali nada, por uma bonita cuff mas oh la la, aqui temos um vestido simples com o devido impacto.





A nobre arte do "é o que temos"


Uma pessoa querida tem o péssimo hábito - por um daqueles privilégios mútuos que só concedemos a quem nos diz muito - de me arreliar bastante.

 E por vezes, quando no auge da disputa me vê já em modo bombas e granadas, a resmungar mas porque é que eu aturo esta alminha, sai-se com um lacónico "é o que temos!". Como quem diz "que remédio tens!".

Isso dá-me sempre que pensar: há muitas vantagens em considerar isso do "é o que temos" no nosso dia a dia.

 Cito amiúde por aqui a perspectiva do tio Nicolau: é preciso ver o mundo e a Humanidade tal como são, - não como gostaríamos que fosse - e LIDAR COM ISSO. Idealizar pode, se aplicarmos algum sentido prático à coisa, dar-nos pistas para determinar as melhorias ou alterações que queremos introduzir.


                             

Por exemplo, se queremos remodelar uma cozinha, mudar de emprego, fazer qualquer alteração ao nosso quotidiano, é preciso considerar o que está mal e o que faz falta: acrescentar uma despensa ou um balcão, procurar um cargo mais criativo ou mais perto de casa, etc. Mas até isso estar feito, tem de se lidar com as coisas tal como são; se deixarmos de cozinhar porque a cozinha não é perfeita ou de ir trabalhar porque o contrato que temos não encaixa como uma luva nas nossas necessidades, o mal é nosso.

  Parece óbvio, mas vejo imensa gente que não pensa nisto - e acho mesmo que todos nós o esquecemos uma vez por outra.

  Há quem não consiga atrever-se a organizar o guarda roupa. Tenho ouvido clientes e amigas dizer "eu nem me atrevo a tentar pôr ordem nesta confusão, porque sei que não possuo espaço suficiente no armário. Se ao menos a minha casa fosse assim ou assado...".  Isto mesmo sem começar a seleccionar e a deitar fora o que já não interessa - operação sem a qual é impossível saber ao certo de quanto espaço dispõem. E vão adiando, sem usar um terço das coisas que compraram. Quando finalmente ousam começar, reparam que têm bastante mais arrumação do que julgavam.


 Se não organizarem de acordo com o espaço disponível aqui e agora, é garantido que mesmo que tivessem os armazéns da Vogue à disposição, nunca teriam espaço suficiente.

 Também ouço muita gente - sobretudo mulheres, que tendem a idealizar e a  ser mais perfeccionistas - se ao menos o meu namorado/marido não se comportasse assim! Se ao menos ele fizesse frito ou cozido!

 É claro que com a convivência, boa comunicação e jeitinho feminino podem introduzir-se bons hábitos e rotinas, corrigindo alguns comportamentos menos agradáveis. Mas é impossível mudar alguém completamente; tentar é um erro crasso.

 Se os defeitos de alguém são aborrecidos, mas pequenos (ser desarrumado, ser pouco atencioso...) há que pensar em formas de melhorar, tendo sempre presente "é o que temos e tenho de o aceitar como ele é!". A flexibilidade é meio caminho para a paz doméstica. Porém, se se trata de grandes diferenças em valores de base ou atitudes imperdoáveis - agressividade, infidelidade - essas coisas dificilmente têm remédio. Pensar "se ao menos"...nunca resolverá nada.

 Como dizem os americanos, ou se aguenta o calor (o que em casos assim é desaconselhável) ou se sai da cozinha.

 Há ainda muito quem não goste do seu visual e nada faça para se embelezar. Ai, que eu sou naturalmente rechonchuda e engordo até com o ar. Ai, se eu fosse mais alto (coisa que até ver, não dá para mudar) se ao menos eu fosse loura de olhos azuis/morenaça sensual/ azul às pintinhas gostaria mais de mim.

Há que substituir sempre o "se ao menos", que é deprimente e não resolve coisa nenhuma, pelo "é o que temos". É o que temos e há que trabalhar a partir daí. Como diz o senhor meu pai, "deixa lá que ninguém te dá outra!" - outro corpo, outra situação, outra vida.

 Há coisas e pessoas que podemos alterar, melhorar, mudar ou substituir, mas só se estivermos dispostos a vê-las tal e qual como são, e não como gostaríamos que fossem.

E bem vistas as coisas, um "é o que temos" não é assim tão mau. É sinal que ao menos temos alguma coisa. Nem que seja um ponto de partida.


  





Sunday, February 22, 2015

Eu embirro com comédias românticas...mas esta aconselho.


Defendo muitas vezes que uma mulher deve ser absolutamente feminina na maior parte das coisas (nomeadamente, na forma de vestir e de estar) e que não há nada de errado em gostar e falar de enfim, miudezas de mulheres.  Apreciar compras, tricas de beleza e coisas desse jaez não faz de nós menos capazes, sérias, profundas ou inteligentes. Certo.

 Mas uma excepção serão os chick flicks ou como algumas pessoas dizem, filmes de rapariga (costuma usar-se outra expressão mais coloquial, mas francamente, acho isso feio).

 Fora clássicos como Breakfast at Tiffany´s (que preciso de rever) e The Seven Year Itch (porque adorava a Marilyn) ou casos pontuais como Pretty Woman (detestei a premissa, mas o guarda roupa é icónico) Ten Things I hate About you (é baseado em Shakespeare, tinha de gostar) ou Legally Blonde e mais uns quantos, é geralmente o tipo de filme que dispenso.

Eventualmente passo os olhos se estiver a dar na televisão - e se for assim um filme colorido com boa fotografia ou que se desenrole num cenário que me agrade - mas dificilmente pagaria para ver tal coisa.

                                  

   É que...desculpem lá. São, por norma francamente aborrecidos, além de resvalarem ora para o mau gosto com piadas escatológicas, ora para o dramalhão. Alguns demoram horas esquecidas para já se saber como vão acabar. As mulheres são geralmente umas tolas desleixadas que se dão ao luxo de cometer todos os erros - levianas idealistas e desastradas que detestaríamos conhecer na vida real, mas por quem é suposto torcermos até ao fim da trama.


 Os homens costumam dividir-se entre o antagonista parvalhão por quem a protagonista fraquinha do miolo anda a ser usada, e o bom rapaz compreensivo que atura tudo e com quem ela fica no fim.

                                      

 A moral da história costuma ser exactamente aquilo que as mulheres solitárias e teimosas nos seus erros querem ouvir: as vossas relações falhadas são todas culpa dos homens, a responsabilidade nunca é um bocadinho vossa, vocês não são umas chatas carentes nem nada, mas nunca temam-  depois de terem tido casos de uma noite com metade da cidade há sempre um executivo, médico ou chef bonitinho ao estilo telenovela, que adora piqueniques românticos e super bem sucedido disposto a aturar uma Bridget Jones da vida que andou indecisa entre ele e o parvalhão até ao último minuto, porque adora as imperfeições dela.

 Wishful thinking much? Não me entendam mal, eu gosto de finais felizes e não tenho nada contra o tipo de filme em que uma heroína convincente e injustiçada dá a volta por cima e fica com o Mr. Right. O que não me agrada são palmadinhas nas costas.



  Dito isto, fiquei agradavelmente surpreendida com The Ugly Truth, que deu na TV um dia destes. Será desde He´s Just not that into you (que não vi- só dei uma olhadela ao conteúdo do livro que o inspirou) uma das poucas comédias românticas que entretém o mulherio mas também ensina alguma coisa, mesmo (o título diz tudo) à custa de verdades inconvenientes.

Para já, o protagonista é um homem com H, Gerard Butler (nada de galãs com cara de folhetim) e a heroína é Catherine Heigl, a única coisa boa que saiu dessa ordinarice que foi a Anatomia de Grey, fenómeno responsável por meter *mais* ideias ridículas nos cérebros femininos. Ela é tão bonita que se lhe perdoa isso, e aqui redime-se um bocadinho.


 Catherine faz o papel de uma mulher moderna (bem sucedida mas mandona, com falta de uma presença masculina na sua vida, bonita mas demasiado prática, inteligente mas excessivamente idealista e ansiosa por vincar a sua opinião) e ele, de um guru dos relacionamentos que, depois de conhecer muitas mulheres que não prestam, decide cantar-lhes as verdades à bruta.



As verdades históricas, tradicionais, biológicas, escritas na pedra, estilo The Rules em perspectiva masculina: os homens, os a sério, são bastante simples (para não dizer "básicos") as mulheres é que hiper analisam (facto). Eles são muito visuais e acham sexy o que é tradicionalmente bonito, como os vestidos elegantes que não expõem mais do que o necessário e os cabelos compridos. Querem a sedutora, mas também a santa; fantasiam com a conquista fácil, mas desinteressam-se quando ela sucede; detestam que os critiquem e Marias Sabichonas, ou que julgam amar uma versão idealizada deles; sentem-se aprisionados por mulheres atiradiças que lhes roubam a emoção da conquista e não os deixam, por assim dizer, dirigir o espectáculo. E quando colocados perante uma paixão verdadeira, às vezes ficam apavorados.


Obviamente no fim ele apaixona-se também pelos defeitos dela, quando a conhece melhor, mas então já a magia inicial tinha feito o seu papel.

É claro que o filme (escrito por três mulheres mas realizado por um homem) não teve grandes críticas. As mulheres muito modernas detestam ouvir isto. Acham antiquado e pouco conveniente, porque obriga a um certo esforço de auto domínio. Muitas optam por homens de mentalidade efeminada, o que é uma opção individual mas raramente funciona.

 A guerra dos sexos não é opcional; é o que dá emoção à dinâmica mais antiga do mundo. 

 Se tiverem uma amiga aborrecida, desesperada e carente, aí está um filme abre-olhos para lhe recomendar. E acho que as vossas caras metade talvez achem certa piada, se ainda não viram.




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