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Saturday, March 7, 2015

Os homens e os duelos na era dos social media


Um reflexo masculino inato é o sentido territorial. Desde a noite dos tempos, face ao ciúme as mulheres arrepelavam-se e choravam, os homens partiam a desancar um rival - hipotético ou de facto. Por alguma razão houve duelos até meados do sec. XIX: as "pendências de honra" não eram mais que uma forma pretensamente civilizada de dar vazão ao instinto para a pancadaria.

 Actualmente os papéis inverteram-se tanto que se procurarmos no Google, como procurei para ilustrar este texto, uma imagem de "homens a lutar por uma mulher" encontraremos muito mais facilmente mulheres à luta por um homem que engana as duas, o que é deprimente...porque enfim, aos homens nunca caiu tão mal perder a cabeça nem lutar por uma dama. Se não for levado ao exagero, até é amoroso...já lá vamos.

 De qualquer forma,  ainda vai havendo  cavalheiros que fazem justiça ao instinto de galos de briga. Ou porque são mais tradicionais, ou simplesmente porque têm mais testosterona que os outros, ou porque sofrem de um ciúme e/ou de um ego mais acentuado. E que fazem esses cavalheiros? São uns exagerados. Se têm um relacionamento com -ou simplesmente, sentimentos fortes por - uma determinada menina ou senhora, fazem gala de controlar qualquer potencial rival. Ainda que não haja motivo para isso, a sombra de um homem atraente (ou que lhes pareça ameaçador lá na sua cabeça) perto da mulher de quem gostam faz-lhes ferver o sangue e partem para a provocação, a troca de palavras, a intimidação, a ameaça ou mesmo o bom e velho vias de facto. 

 Ora, noutros tempos essa pesquisa exigia algum trabalho: ou os rivais se conheciam e frequentavam o mesmo meio - o que permitia mandar um "recadinho" por um amigo comum, como primeiro aviso - ou era necessário andar a rondar-lhe a casa ou o emprego, como o transmontano d ´Os Maias, que se muniu de um facalhão para "beber o sangue ao Maia" (e recebeu uma data de bengaladas). Isto para fazer a coisa à traição e sem muita publicidade, evitando assim o duelo, que era sempre falado. Se tudo corresse pelo pior, havia uma cena de pugilato e a rapariga disputada, embora passasse uma aflição e uma vergonhaça, sempre ficava com o ego lá nos píncaros.

 Hoje, nem é preciso tanto: há sempre os avisos através de amigos e conhecidos e as "esperas", mas graças às redes sociais basta uma mensagem a insultar o atrevido de tudo quanto há, e se não se afastar dela vou fazer-lhe a vida tão infeliz que nem faz ideia, ou simplesmente um parto-te a cara, meu filho de mulher que não é honesta.

É mais discreto, mas também mais manhoso, e a dama disputada só vem a saber por portas travessas, se é que sabe de todo. 

Na maior parte das vezes, limita-se a perguntar-se porque é que o Manel, que era um rapaz tão simpático, agora foge a correr quando a vê.

 Não deixa de ser querido que o façam (de uma maneira controladora e parva, diga-se...) mas o romantismo vai-se pela chaminé. É que não é legítimo lutar por uma dama sem o fazer às claras...

A bela espia



Em 1965, o Chicago Tribune publicava o triste romance de um antigo agente infiltrado dinamarquês, Bjorn, que não conseguia esquecer a missão que fora obrigado a desempenhar no já distante Natal de 1944: seduzir e capturar Jane Granberg, compatriota sua que operava na Suécia ao serviço da Gestapo.

 Para ser bem sucedido na sua missão, Bjorn fingiu-se apaixonado por Jane - o que não era difícil já que ela era uma linda ruiva cheia de vida, que deixava os homens embasbacados. Não se sabe se ela realmente gostou dele ou se estava apenas interessada nas "rotas secretas de fuga" para a resistência dinamarquesa que ele ia casualmente mencionando a cada encontro romântico.

Finalmente, Bjorn propôs a Jane que fugissem juntos... e ela, ou por amor ou no intuito de levar aos nazis uma valiosa informação, mordeu o isco. Uma vez fora das portas da cidade, apanharam um barco para longe de águas suecas, onde os companheiros de Bjorn executaram Jane. Ela não chorou, não ripostou nem implorou pela sua vida. O romance de espionagem e a carreira da bela agente acabaram ali, mas Bjorn nunca esqueceria Jane e viveria para sempre assombrado pelo que tinha sido obrigado a fazer. 

"Que rapariga extraordinariamente corajosa. E que maneira terrível de lutar numa guerra! Preferia ter sido um soldado no campo de batalha" confessou aos jornalistas, quando era já um comerciante estabelecido, casado, pai de filhos e uma sombra de si próprio.




Friday, March 6, 2015

Os "Ashleys" e os "Rhetts"



No imortal romance/filme Gone with the Wind, a anti-heroina Scarlett passa o tempo dividida entre a alma gémea que ela ama embora não o admita, Rhett Butler, e o rapaz que ela julgava amar, Ashley Wilkes.

Só no final da história é que Scarlett percebe que nunca poderia ser feliz com Ashley pois, como ele passara a vida a dizer-lhe, eram "demasiado diferentes".

 Ashley Wilkes, embora criado para o papel tradicionalmente masculino de um cavalheiro (a caça, a guerra, etc) tinha um carácter introvertido e passivo. Ao longo do enredo, por várias vezes sucumbe à pressão de ver o mundo tal como o conhecera ruir à sua volta (Scarlett chega a ter de lhe acudir mais do que uma vez). Embora se sinta atraído pela vivacidade de Scarlett, prefere casar com a sua tímida e doce prima, Melanie. Não só porque ela era em tudo semelhante a ele (nisso estava coberto de razão) mas porque assim fora destinado, era o que estava à mão. E se não casasse com Melanie, teria provavelmente aceitado Scarlett quando ela, vendo que ele não atava nem desatava, arriscou e se declarou a ele (a meu ver, a pior atitude da protagonista ao longo do livro inteiro). Mas também isso...só porque era cómodo.




 Quando deixou de viver dos rendimentos como um "cavalheiro de meios", Ashley desorientou completamente, apesar de ter a mulher, o filho e a tia idosa a cargo. A única coisa que não o torna uma personagem detestável é o seu bom coração; ele é um "homem de honra" de acordo com o seu berço - mas até isso é posto em causa quando lhe falta pulso para pôr Scarlett no lugar. A outra sorte que tem é a esposa que lhe calhou: dócil e meiga, incapaz de o emascular, embora seja na realidade muito mais forte do que ele. Nas mãos de uma mulher como Scarlett, seria gato-sapato.


Se vivesse actualmente, Ashley seria o tipo perfeito de Homem Beta: passivo, indolente, com atitudes algo femininas e pouca fibra. Provavelmente casaria não com a prima porque isso hoje é mais raro, mas com uma colega de escola ou vizinha que conhecesse de toda a vida, ou com a primeira rapariga espertalhona que tomasse a iniciativa, mesmo que não estivesse muito apaixonado, porque seria demasiado preguiçoso para tentar conquistar uma que lhe agradasse mais.

E tal como o Ashley do antebellum, o Ashley de hoje podia tentar fazer-se passar por Homem Alfa. Podia ter (ou fazer por ter) um status social de destaque. Poderia ser alto, desempenado e aparentemente masculino. Alguns Homens Beta são mesmo agressivos, falam alto,  julgando que assim colmatam a assertividade que lhes falta.  Só que...não.




Já Rhett Butler é a representação perfeita do Homem Alfa: teve a mesma educação aristocrática de Ashley, mas temperada por carradas de espírito crítico, uma pitada de cinismo e coragem inata. Nem sempre procede bem (na maior parte das vezes "está-se nas tintas" para os princípios que recebeu) mas vai atrás do que quer (não tem medo das recusas de Scarlett) é um bom leitor das pessoas (consegue ver que ela o adora mesmo quando tenta demonstrar o contrário) e é um líder nato, capaz de perceber quando uma causa está perdida. Apesar de cometer erros (que o prejudicam mais a si próprio do que aos outros) sabe reconhecer que esteve mal e faz por repará-los. Não é pretensioso nem tenta ser perfeito. Quebra algumas regras quando é imperativo sobreviver, mas é honrado quando chega a ocasião. A sua basófia esconde um coração de ouro. E apesar de impetuoso, é firme e calmo o suficiente para refrear os assomos de Scarlett, quando *finalmente* casa com ela. E a cereja em cima do bolo, revela-se um óptimo pai.


Ashley é um Beta- um rapazinho. Rhett é um Alfa: um Homem.


De facto, uma mulher feminina mas forte como Scarlett (e há imensas) nunca poderá ser feliz com um Ashley. O mal é que muitas, tal como Scarlett, se iludem julgando que os Ashleys (gentis, excessivamente tolerantes, sensíveis e manipuláveis) é que lhes convêm...



O "complexo Joy"



Gosto muito de ver a série Hot in Cleveland, porque sempre achei interessante conhecer as perspectivas de mulheres em idades diferentes - e porque a acho excepcionalmente bem escrita, com uma encantadora actriz veterana, Betty White.


Betty White na sua juventude

 Betty White foi, aliás, o factor que me cativou inicialmente no programa: adoro avozinhas com personalidade, que desmancham o mito da velhinha indefesa. Betty (que tem 93 anos e espírito suficiente para se atrever a dizer coisas destas)  é uma linda  actriz e escritora com uma carreira estável, embora não fulgurante, em Hollywood desde os anos 1950. Convidada inicialmente a fazer uma participação especial em Hot in Cleveland, o público gostou tanto dela que exigiu que Betty tivesse um papel permanente.

Mas vamos ao que nos trouxe aqui: o Complexo Joy.


Joy Scroggs

Para quem não conhece a série, trata-se da história de três mulheres de Hollywood (Victoria, actriz, Joy, esteticista das estrelas e Melanie, escritora) que decidem recomeçar a sua vida na pacatez do Ohio em casa da rebelde senhoria, a imigrante polaca Elka.
 Como a idade é um posto e Elka nunca foi nenhum anjo, apesar de ter uma grande amizade às inquilinas que lhe viraram a vida do avesso, não as poupa aos seus chistes, tratando-as de "galdérias" para baixo...

E a vítima principal das suas brincadeiras é a doce e tonta inglesa, Joy. Lembrei-me de escrever sobre o Complexo Joy porque é um parente próximo do Complexo Samantha, dois "males" das mulheres modernas.




Ambos nascem do mito que contaram às mulheres: não há mal nenhum em ser atiradiça e ter um longo historial de conquistas. Mas enquanto uma Samantha lida bem com as consequências morais, sociais ou amorosas dos seus actos, é segura de si, age casualmente porque só lhe interessam os relacionamentos fugazes e não olha para trás nem se envergonha das suas asneiras, uma Joy é uma romântica incurável. Envolve-se demasiado rápido e com muita gente, não por ter a leviandade como motivação mas porque acha que assim vai encontrar o amor da sua vida. Acha sempre que desta vez acertou, e lança-se de olhos fechados em cada nova relação.

 Resultado? Vai somando um extenso percurso amoroso (e uma reputação a condizer) e... ou se envolve com cavalheiros que são uma desilusão, ou acaba por se mostrar tão carente que eles fogem a correr.

Conheci em tempos uma rapariga que era exactamente como a Joy: um coração de ouro,bem intencionada, bonitinha, razoavelmente inteligente.

 Mas na pressa de assentar, revelava-se tão depressa - e instalava os "namorados" em casa tão depressa - que não concedia a si própria tempo para os conhecer (e para ver se eram gente decente ou uns crápulas de meter medo) nem dava aos rapazes oportunidade de ver a boa pessoa que ela era. A coitada da C. andava sempre triste por causa disso e todas as amigas a avisavam para ter mais calma e não facilitar tanto. O que ela andava a fazer não era o caminho para que ninguém se apaixonasse por ela, nem forma de estreitar laços, antes pelo contrário...

Ela fez um esforço por se mostrar mais independente e serena (não um grande esforço...as pessoas são como são!) e por acaso a história teve um final feliz: dali a algum tempo conheceu um rapaz encantador, acabaram por casar e estão muito bem.

É uma pena que tantas mulheres que procuram uma relação verdadeira - e que possuem qualidades para fazer um homem feliz -julguem que a parte física de uma relação é a única coisa que têm para oferecer.

Devia haver uma Elka na vida de cada Joy, para lhes contar umas verdades e pô-las no bom caminho...



Thursday, March 5, 2015

Frase do dia: nem génio, nem louco


"Há meninos espertos que simulam a loucura para se fazerem passar por génios".

A fonte é antiga, mas a frase cai como uma luva no panorama actual. Como já nada é novidade mas tem de ser constantemente noticiado como se fosse, há um desespero e uma constante pressão (mediática/social) para dar nas vistas, ser escandaloso...embora seja cada vez mais difícil chocar ou dar nas vistas, porque está... tudo visto.

 Já se tirou em público toda a roupa que havia para tirar, já se atacaram todos os poderes instituídos, já se ofendeu toda a gente, há sempre alguém que já transgrediu antes, por mais transgressor que um artista/personalidade/entertainer pretenda ser. O que lhe resta mostrar? O talento. E se não tiver talento? Aí, meu filho, só mesmo alimentando a ânsia de constantes, pequenas e fanadas novidades que não o são mas faz de conta nas redes sociais, porque assim como assim amanhã já ninguém se lembra. É viver para lutar outro dia - para conseguir mais uns milhares de likes e shares e assim, ir alimentando a máquina do protagonismo.

 Há dias uma blogger da nossa praça falava de Madonna, que abriu o caminho para as jovens artistas "sexy e irreverentes" de hoje. Eu acho que Madonna, se o seu objectivo é dar nas vistas, pasmaria mais o mundo se se tornasse uma tia bem comportada. Isso sim seria novidade. Por mais piruetas que faça, não se pode superar a si própria, porque o choque nunca seria igual ao que foi na primeira vez e porque entretanto já houve muita gente (as Britneys, Katies, Nickies, Rihannas, Beyoncès, Adrianas, Iggies, Gagas etc) a fazer outro tanto. Muitas vezes sem metade da piada nem da elegância, mas a fazer o mesmo e a cansar as vistas. 

Digo muitas vezes que a verdadeira rebeldia, actualmente, está em ser-se conservador. E pela mesma ordem de ideias, a maior prova de genialidade e transgressão será ser-se minimalista, caladinho, misterioso, inacessível. Isso sim é capaz de ser revolucionário e chocante...


Sic transit gloria mundi


Em 1960 a imprensa do coração noticiava a vitória obtida pela bela cantora Maria Callas, ao ser aceite no círculo social do homem com quem esperava casar - Aristóteles Onassis. A Princesa Grace recusara-se até então a receber a lendária soprano por lealdade à primeira mulher do armador grego, Athina, de quem era muito amiga. À data acedia finalmente aos pedidos do Príncipe Rainier para que cessassem as hostilidades, e Maria Callas deve ter-se sentido muito confiante e feliz...

 Mas é curioso ver estes recortes antigos sabendo o que viria a ser o futuro...uma pessoa sente-se como um viajante no tempo, o que às vezes acaba por ser um pouco melancólico.

 Em consequência do affair, Athina divorciar-se-ia efectivamente de Onassis nesse mesmo ano,  casando no ano seguinte com o Marquês de Blanford e mais tarde, com o milionário Stavros Niarchos, viúvo da sua irmã. Morreu aos 45 anos, de overdose, em Paris, e os dois filhos que tivera de Onassis sofreram mortes igualmente trágicas.

 Quanto a Maria Callas, como estarão recordados, não chegou a casar com o homem que amava apaixonadamente: em 1968 Aristóteles abandonava-a  para desposar Jackie Kennedy, dizendo-lhe "não passas de uma mulher com um apito na garganta; um apito que de resto, já nem funciona". A cantora nunca mais foi a mesma, acabando por definhar de desgosto.

 O casamento de Onassis e Jackie foi tão infeliz que ele se teria divorciado dela se não tivesse morrido antes, em 1975. Alguns anos mais tarde também a encantadora Princesa Grace deixava de fazer parte deste mundo, ficando para trás um inconsolável Príncipe Rainier que não voltou a casar...

Dos protagonistas desta estória , nenhum se encontra já entre nós; as pequenas disputas, desgostos, vaidades, arrelias e batalhas sociais ou amorosas que os moveram deixaram de ser importantes e reduzem-se agora a velhos recortes de jornal que interessam apenas aos seus biógrafos, ou a curiosos sem medo de vasculhar revistas poeirentas...

 É por coisas destas que devemos apreciar com certo descaso as alegrias e glórias mundanas; delas apenas resta a anedota. Vanitas vanitatum et omnia vanitas...  







Wednesday, March 4, 2015

Review: Óleo Gliss Thermo -Protect


Já vos tenho contado que a Schwarzkopf- Gliss é a minha marca de confiança para cosmética capilar, desde os tempos em que ainda não tinha vindo para Portugal. Óptima relação qualidade -preço e garantia de um brilho, como costumo dizer, escandaloso. Agrada-me particularmente que todas as suas «receitas», sejam as de hidratação, alisamento ou volume, se concentrem na máxima reparar antes de cortar - a promessa perfeita para quem, como eu, quer manter as madeixas longas mas não dispensa modeladores a quente e outras maldades.

 Depois, sou uma grande fã dos óleos para cabelo, uma das fórmulas mais interessantes que as marcas se lembraram de lançar nos últimos anos. Os óleos são a solução ideal para quem necessita de nutrir, proteger e moldar o cabelo sem o fazer pesar abusando de condicionadores em seco, séruns e sprays de brilho.

 Por isso, alegrou-me que mais uma vez tivessem pedido a minha opinião sobre o novo produto da Gliss: o spray termo protector com oito óleos de beleza, que dá suavidade ao mesmo tempo que protege contra os danos do secador.

 Como já devo ter experimentado a maior parte das fórmulas semelhantes no mercado, incluindo as da Gliss, na primeira utilização pequei um pouco por excesso de confiança: espalhei-o uniformemente por todo o cabelo húmido. Não contava que o produto fosse tão hidratante, logo fui generosa demais e por isso, tive um pouco de dificuldade em fazê-lo evaporar. A textura deste thermo-protect é fina mas muito rica, mais semelhante aos sprays de brilho de cabeleireiro do que um óleo hidratante comum. Logo, uma pequena quantidade no comprimento bastará, se o vosso cabelo for normal a fino. Se o utilizarem assim, temos um típico produto da Gliss: perfume subtil, cabelo super maleável e tratado e brilho polido.

 Ainda tenciono fazer mais uns testes para tirar o melhor partido dele, mas parece-me que é o produto ideal para cabelos espessos, afro, muito secos ou estragados, porque tem a capacidade de se espalhar e penetrar mesmo nas madeixas que apresentem «escamas», aspereza ou muitas pontas espigadas. E apesar de não ser uma fórmula criada especificamente para alisar, creio que será o ideal para quem sofre do complexo juba de leão ou seja, tem demasiado volume e necessita de um alisamento suave que «acame» uma textura excessiva. Vou recomendá-lo especialmente às minhas amigas que demoram séculos a fazer o brushing, e usá-lo no meu cabelo com parcimónia.








Para as mulheres que tratam as amigas por «miga»


Ontem estava a planear aqui uma «limpeza de closet», mas desta feita, na cozinha - nem só de toilettes vive a organização - e reparei neste pote muito engraçado que ali estava. Lá em casa gostamos de ter algumas louças rústicas, de barro, tipicamente portuguesas, para servir o caldo verde e afins. Dão muito pitoresco e um sabor óptimo à comida, mas não tinha reparado no cúmulo do pitoresco: é que um pote destes é uma oferta excelente para as meninas que têm o feio hábito de  tratar as amigas por «miga». 

«Miga, vamos ao gym?», «miga, vamos à kizomba?», «força, miga, atrás de um amor vem o outro...não chores que se chorares de noite pelo sol as lágrimas não te deixarão ver as estrelas»,  «miga, gostas das minhas nails?». Claro que o «miga» é eventualmente substituído pelo gaja, igualmente carinhoso...vá-se entender.

Voltando ao potencial do pote, disponível em qualquer feira típica, imaginem: podem presentear aquela vossa colega bem intencionada, boa rapariga, coitada, mas sem grande coisa dentro da cabeça, com um destes: assim ela já tem sítio para guardar recadinhos, retratos e souvenirs das «migas». Avisem-na, no entanto, para não vos colocar lá dentro. Vocês não são migas: amigas amigas, migas à parte.

 Mas o melhorio seria uma «miga» dar um pote destes de presente a outra «miga» assim como pacto de amizade eterna. O pote das migas. O pote delas.

 No entanto, para o par de jarras ficar completo, era preciso inventar um «pote do môr»: nenhuma miga que se preze vive sem as migas e sem o môr

 Visualizem o Ricardão, todo pressuroso a sair do ginásio para ir buscar a Silvana Rosy ao nails corner, com um «pote do môr» cheio de doces lá dentro e com um laçarote por cima. Ou melhor, pôr uma aliança de compromisso dentro do pote do môr.

Acho que acabo de descobrir aqui uma boa oportunidade de negócio para os artesãos deste país.


Tuesday, March 3, 2015

As três maiores tretas que contaram às mulheres


Desde finais dos anos sessenta que revistas, amigos, vizinhos - a sociedade, em suma - pregam certos mitos urbanos que só servem para confundir as cabeças femininas. Como o Dia da Mulher está à porta e já estou a encolher-me perante a avalanche de convívios com strippers e partilha de frases parvas nas redes sociais, aqui fica um pequeno contributo para desmanchar esses engodos que não ajudam ninguém.



 Tem de cortar o cabelo acima dos ombros quando tiver um filho - ou chegar  aos *inserir anos*


Adoptar um visual «à mãe» em fases de transição é tão cliché que dá arrepios. A verdade é que há mulheres cujo cabelo não funciona - e dá muito mais trabalho - estando curto, ou que nasceram para usar madeixas longas. Há quem pareça mais sofisticada de cabelo curto e há quem perca a graça toda. Nem toda a gente tem o cabelo, o tipo de rosto e de silhueta certos - ou a confiança- para se sair bem com isso. Em última análise, a ala masculina parece preferir o cabelo comprido; é genético. E por fim, há maneiras elegantes e nada exageradas de usar cabelos compridos. Desde que se fuja do ridículo e demasiado radical ou juvenil, tanto no curto como no comprido-  penteados espetados, cores estilo BD japonesa, cabelões à texana, extensões monumentais - não há uma regra que sirva para todas. Logo, se quiser cortar porque gosta e lhe fica a matar, more power to you. Mas se é porque lhe meteram na cabeça que é suposto ou porque toda a vida viu esse costume, fuja da tesoura.

 Pode ter tudo e fazer tudo



É verdade que as mulheres são multifacetadas, incansáveis e versáteis, como dizia a canção da Peggy Lee. E que podem - e devem- aspirar a uma carreira, a uma família, a ter uma vida social, uma casa impecável e a manter a sua beleza. Mas há limites e quanto mais cedo se fizer uma preparação para essa realidade, melhor. Se tiver uma família e quiser dar-lhe a devida atenção, talvez não possa dedicar-se a TODOS os projectos académicos que lhe parecem interessantes - terá de seleccionar -viajar para toda a parte com as amigas ou aceitar um cargo pesadíssimo, sem limite de horas. Tudo pode ser feito, mas é preciso escolher as batalhas e seleccionar as opções que permitam alguma flexibilidade. E don´t get me started com a treta do costume: até aos early twenties uma mulher é considerada louca se decidir casar-se, mas poucos anos depois - os anos necessários para investir nos estudos, numa carreira e gozar a tal liberdade de que toda a gente fala - começa a pergunta tola mas quando é que te casas e desatas a ter filhos que já está na altura?». Claro que se responder que ainda não está preparada, que não tem pressa ou que só o fará se estiver de tal maneira apaixonada que não pense duas vezes, ninguém acredita. Mas quem entende esta gente?


 As mulheres devem ser atiradiças e tomar a  iniciativa, porque os tempos mudaram


Ser uma Samantha Jones pode funcionar se o objectivo de uma mulher for recordar um número indecente de affairs quando for velhinha «vêem, meus sobrinhos, como a vossa tia era sexy e moderna?» ou se tiver uma predilecção por homens com características muito femininas e passivas - há gostos para tudo e não faltam aparentes machos alfa que na verdade são homens beta. Mas arrisco dizer que por muito que pregue o contrário, lá no fundo a maioria não se sente bem com isso. Sonha com o cavalheirismo, quer ser conquistada...e não ficar toda triste porque não recebeu uma mensagem na manhã seguinte. Por mais injusto que soe dizer isto, conquistas passageiras não são uma coroa de glória para as mulheres, porque até a rapariga mais desengraçada não tem dificuldade em fazer isso - pelo paradoxo de muitos homens preferirem a quantidade à qualidade se o assunto não for sério. Para eles ser mulherengo pode não ficar muito bem, mas nunca é desastroso. Com as mulheres dá-se o inverso pela simples lei da oferta e da procura. Há sempre excepções à regra mas a estatística e os hábitos milenares ditam que na hora de procurar uma relação firme, os costumes antigos ainda prevalecem e as mulheres mais misteriosas e bem comportadas são encaradas com outros olhos.
 Em última análise - e questões morais à parte - não há nada de estranho em querer dar a conhecer a sua personalidade e a sua alma primeiro - e mais importante, perceber se o pretendente em causa é boa pessoa ou um perfeito idiota - antes de se envolver demasiado. Ou de se tornar química e emocionalmente dependente dele, porque a biologia complica sempre tudo.


Bom terror teve a pequenada



Há dias saiu na imprensa que uma professora de inglês teve de enfrentar a ira dos pais por ter -inadvertidamente?- aterrorizado uma turma inteira ao mostrar duas curtas metragens de terror, incluindo esta:



Resultado: os pequenos, com idades compreendidas entre os oito e os dez anos, entraram em histeria. Uns «fazem xixi na cama» outros recusam-se a ir buscar a roupa ao armário com medo de monstros. Esse último medo é compreensível - eu às vezes tenho medo não de monstros, mas de não o ter arrumado na perfeição como gostaria...

Agora a sério: não conhecia o trabalho de Jonathan Button e admito que é um bocadinho sinistro. O monstro é realmente horroroso e a curta consegue criar uma atmosfera tensa, algo em que cada vez mais os filmes do género falham. Para não falar no tema mais monstruoso - por ser bem real -  que aborda: a violência doméstica.



 Then again, eu vi coisas bem piores em pequena: o Vasco Granja lá estava para nos aterrorizar ora com animações comunistas horrivelmente chatas, ora com coisas que metiam medo em qualquer parte. Uma vez saiu-se com uma caveira falante para alertar contra os perigos da guerra nuclear, teria eu uns três anos. Andei com pesadelos por sei lá quanto tempo. Depois, não havia grande critério quanto aos conteúdos em desenhos animados, marionetas ou live action que se mostravam nos magazines infantis.

Havia séries fantásticas mas que precisariam de acompanhamento parental, como esta que mostrava em grande detalhe histórias tristes ou violentas como O Rouxinol e a Rosa,  A Menina dos Fósforos e Barba Azul - estes últimos também a abordar os horrores da violência em família- ou Frankenstein. Instrutivo, mas traumaticozinho.

 Lembro-me de um sombrio filme português para crianças  - que adorava voltar a ver- em que as pessoas desapareciam por uma parede e nunca mais regressavam. Podem calcular como andei preocupada e a avisar todos lá em casa para passarem longe das paredes...Ou de uma série de marionetas, em que num episódio uma velhota levantou uma tumba para retirar de lá uma cabeça viva que lhe fazia caretas -  what the hell? E ainda esta animação sobre Hiroshima, entre muitas, muitas outras.

Isto para não mencionar livros, como os da Colecção Formiguinha, que traziam as versões não censuradas de contos como «As três Cidras do Amor» ou o deprimente «A Menina Vestida de Estrelas», quase pior do que a Menina dos Fósforos. Podem ler uma versão adoçada aqui, mas a da Formiguinha acabava mal, claro.



 O resultado é que os miúdos daquela altura desenvolviam uma grande imaginação. Certa vez, era eu muito pequena, o filho adolescente de um vizinho jurou aos pés juntos «tem cuidado que anda aí nas redondezas um cão que come as sombras às pessoas». Achei a ideia tão lúgubre que ainda hoje me faz pensar, embora dissesse para comigo que a sombra não era coisa que me fizesse assim tanta falta. O fabuloso O Labirinto do Fauno fez-me muito lembrar o que ia pela minha cabeça em pequena: imagens fantásticas, mas assustadoras.

Voltemos à notícia dos pequenos medricas: embora eu ache que conteúdos mais controversos devam ser aprovados previamente pelos pais, será caso para tanto pânico, numa época em que as crianças usam a internet e têm facilmente acesso a coisas bastante mais gráficas? Além de que oito a dez anos já não é uma idade tão impressionável como isso. Não é bom proteger demasiado as crianças: os especialistas defendem mesmo que as versões originais e horripilantes dos contos de fadas têm a sua razão de ser...

Não vou jurar que ver ou ouvir coisas destas de pequenino seja construtivo, mas é certamente muito interessante. Entre crianças um pouco assustadas por uns dias mas criativas o resto da vida e crianças superprotegidas e mal preparadas para os sustos da realidade, olhem que não sei...



Monday, March 2, 2015

René Villemure dixit: a insustentável necessidade de Beleza


"Como as borboletas procuram a luz, todos
 nós procuramos a beleza. É visceral".

                                                         René Villemure


Peço desde já desculpa pelo assomo de #humblebragging ("gabarolice discreta" seria uma tradução sofrível) mas quando me enviam algo de bom, gosto de partilhar.

Principalmente quando algo de bom se refere a trocar impressões com uma mente brilhante que - oh, coisa tão reconfortante como um chocolate quente - tem pontos de vista semelhantes aos nossos. 


O filósofo e dandy René Villemure- que se dedica, entre outras coisas, ao estudo e desenvolvimento da Ética nas organizações - fez-me chegar um texto da sua autoriaum dos escritos mais dolorosamente bonitos que já li sobre a problemática da beleza... que tão maltratada anda nos últimos tempos 
Podem ler a versão em inglês aqui.

 Em boa verdade, entre a Ética -atropelada a torto e a direito -  e a Beleza, tanto do corpo como da alma- ora distorcida, ora questionada, ora apontada quase como algo de que as pessoas se devam envergonhar... não sei dizer qual tem sofrido mais na época que atravessamos. 

Ambas têm, na sua essência, no seu impulso e na sua prática a elevação, o refinamento, a purificação, o aperfeiçoamento: seja da sociedade, da arte, das relações humanas. 

Mas como tudo o que é belo e bom tem um preço - exige esforço, sob pena de exclusão - a Ética e a Beleza estão sujeitas ao ressentimento.

 E com o ressentimento, ou a inveja, vêm as tentativas de destruição - como o criminoso de rua que grafita os muros de um palácio, apenas porque não pode morar nele...nem está disposto a empreender quaisquer mudanças para ser digno daquilo que encarniçadamente cobiça.

Procura-se desfear e vulgarizar as mulheres, a arte, o amor; há um esforço desesperado para provar que o feio pode ser o novo bonito, ou mais interessante...para que ninguém se sinta na obrigação de melhorar. Cultive-se o feio, então, que é mais fácil.

Procura-se freneticamente uma relativização generalizada do bem e do mal, esbater as fronteiras entre o moral e o imoral, justificar a baixeza, o ordinário, o vale tudo...para que ninguém se sinta pecador. 

Na nossa época importa mais reconhecer que há coisas feias no mundo, retratar as coisas feias, hiperbolizá-las, justificá-las aos olhos do mundo, do que 
corrigi-las, inspirar, chamar para o Alto.

Há dias li o comentário genial de um internauta anónimo, a propósito do sucesso de livros como as Cinquenta Sombras - sendo que por cá temos exemplos ainda piores:

 "The book appeals to the thousands of women out there who think they can look like a slob and gain the  love of a sexy, handsome, filthy rich man".

 Fenómenos de popularidade destes - heroína desengraçada, herói de capa de revista - parecem dar voz ao mito urbano «se uma mulher bonita é um perigo, uma mulher insignificante é um perigo e uma desgraça» ou «quanto menos formosa uma mulher é, mais descarada se torna».

E este paradoxo sucede porquê? Porque mesmo quem cultiva o feio e condena a beleza, quem procura reduzi-la ou aviltá-la, tem- embora careça de empenho para a criar na sua vida ou na sua pessoa - o desejo primordial de a possuir, ainda que seja através do outro. 

Embora a beleza - se falarmos na beleza meramente física - seja relativa, ninguém se sente bem na presença do que é, a seus olhos, desagradável. Por mais politicamente correcto que seja dizer o contrário.

O mesmo sucede com a beleza da alma: por mais que se relativize o mal ou o vulgar, há uma vozinha lá dentro que nos diz que isso não está correcto. Porque contraria a nossa própria essência.

 Como René Villemure sabe explicar como ninguém, Eros, o desejo, só sente alívio ou esperança na presença da Beleza; e finalmente, só se satisfaz com a posse da Beleza, ou se não puder tê-la,  com a sua destruição. É visceral.






O cúmulo da frustração, mas assim o cúmulo dos cúmulos

«Não empreendas nada sem teres a certeza do sucesso e abandona o que sem trazer lucro nem glória, demanda muitos esforços» - Ora mais nada, é uma pena o Cardeal Mazzarino não dar workshops. A esses até eu ia, juro.

É uma pessoa estar empenhadíssima, stressada, motivada quanto mais não seja porque não se pode dar ao luxo da desmotivação, quase, quase em modo vencer ou morrer, a virar-se do avesso, a fazer de la tripa coração, assoberbada mas com a consciência de que está no caminho certo para o resultado, a tentar o melhorio do melhor que se pode...

...e virem almas bem intencionadas, com a mais genuína das intenções, numa atitude pelo bem que lhe quer, até os olhos lhe tira, a sentenciar que se calhar não se está a dar tudo por tudo, nem com tanta motivação assim, nem a fazer o impossível. Porque se assim fosse, já o caso estava arrumado.

Soa-vos familiar? Acho que são coisas que a minha geração ouve bastante e que são arreliadoras até às fímbrias do ser - porque no fundo sabemos que essas pessoas querem é o nosso bem e estão tão desejosas de novidades e de que corra tudo pelo melhor como nós. Dizem isso não para criticar ou culpabilizar, mas porque lhes parece incrível que alguém tão competente e aos seus olhos, tão genial, ainda não tenha resolvido a situação. Têm é uma maneira um pouco esquisita de o exprimir.

E a resposta lá por dentro é sempre a mesma:

Obrigadinha pela motivação à guru de facebook; thank you, captain obvious. A sério? Então digam lá o que falta fazer: pendurar-me num trapézio com um toucado à Carmen Miranda a fazer malabarismos de cabeça para baixo? Boa. se calhar esse é o toque que falta. 

 Resultados todos queremos. Ou como diria uma senhora que eu conhecia, que nunca lera os textos do Cardeal Mazzarino mas parecia que sim, eu só quero cá coisas que me dêem resultado. Também eu quero muita coisa, ora fava.

Sunday, March 1, 2015

A nobre arte do "conheci piores infernos do que o teu"


Todos já enfrentámos uma Némesis ou duas - e quem nunca passou por isso, é melhor preparar-se porque raramente alguém escapa a tal sorte. Sabem, aquelas pessoas ou acontecimentos que vos colocaram em grandes trabalhos, que vos deixaram estarrecidos, sem chão, furiosos ou desgostosos durante meses, verdadeiros pesadelos que pareciam nunca mais acabar. 

São circunstâncias /criaturas dessas que convencem a mais ingénua e positiva das almas daquela ideia medonha de que o mundo é mesmo um lugar mauzinho. De que há realmente monstros e infernos por aí, gente capaz de tudo (e quando digo tudo, é mesmo tudo, até maldades sem grande sentido ou proveito) e circunstâncias tão rocambolescas que superam uma novela mexicana.  E para mal dos nossos pecados pode haver mais do que uma edição do melodrama, ora em simultâneo ora à vez, para confirmar tão desagradável abre olhos. 

 Mas nada dura para sempre. E por isso, uma vez ultrapassados esses pequenos apocalipses de cada um, pela lei pirosa d´o que não mata torna-te mais forte e do é com os desaires que se aprende, que remédio  (não sei quanto a vocês: eu acho que há maneiras mais agradáveis de uma pessoa se instruir, mas como não se pode tirar outra vantagem do desatino, diz-se isso) as coisas que antigamente metiam medo, as pessoas que davam volta ao estômago só de pensar em lidar com elas, aquilo que nos tirava do sério - ou de receio, ou de irritação, ou de desorientação ou de stress- tornam-se muito mais pequenas.



 Aprende-se a relativizar, porque já se passou por pior e sabe-se que haja saúde, a roda gira e as coisas mudam de um dia para o outro.

Aprende-se a dar o desconto a muitos pequenos quês que costumavam ser um calcanhar de Aquiles: olhando para trás até podíamos ter sido mais tolerantes com fulano, ter tido outra paciência na situação X ou Y, não entrar em parafuso à conta de A ou B.  Mas não sabíamos, porque ainda não tínhamos enfrentado o piorzinho.

Também é verdade que ficamos mais desconfiados e juramos não voltar a ignorar o instinto- o que é mau por um lado, mas por outro nos faz agir e pensar rapidamente e ter outra confiança nas próprias decisões ou palpites: qualidade essencial das pessoas bem sucedidas, rezam a toda a hora as publicações da especialidade...

 Quando se volta à vida normal, por assim dizer, é na condição de veterano.  Ou seja, enfrentam-se os desafios comuns com a atitude dos heróis batidos dos filmes de acção, habituadíssimos a escapar a bombas e granadas, com um currículo de missões arriscadas nos confins do mundo, ao verem um vilão de trazer por casa: tu, meu maçarico?
 Ou mais ou menos assim, se preferirem uma versão de saias:







Duas Rainhas de Março: Vashti x Ester.


A Primavera sempre foi uma altura do ano marcada pela espiritualidade: os Antigos assinalavam os ritos de fertilidade e renascimento; actualmente, neste mês, enquanto os Cristãos observam a abstinência da Quaresma aguardando a alegria da Páscoa, os Judeus festejam o Purim com comida, bebida e máscaras para assinalar terem escapado à conspiração para dizimar os judeus persas que viviam  sob o domínio do Rei Assuero (geralmente identificado com Xerxes, o da Batalha das Termópilas contra os 300 Espartanos).

Como muitos se lembrarão, essa ocasião em que "o luto se transformou em alegria" sucedeu graças à Rainha Ester - apenas uma das mulheres fascinantes que aparecem no Bom Livro.


Aqui entre nós, sempre achei estranha tanta lamúria acerca do papel oprimido da mulher na cultura "Judaico-Cristã". É que basta ter lido em pequeno qualquer Meu Livro de Histórias Bíblicas Ilustrado (e conhecer muito à superfície outros textos religiosos) para ficar com uma ideia: as mulheres passam a vida ora a fazer andar o enredo, ora a salvar o dia de forma mais ou menos evidente.

 Ok, Lillith deu o pontapé de saída para a expulsão do Paraíso porque sem Lillith não haveria Eva e sem Eva...sabem o resto, mas aí temos de culpar Adão por ter acreditado que teria a vida no Éden facilitada com uma esposa mais ingénua; claro que há as vilãs, como Jezebel, as sedutoras como Salomé e Dalila; as vítimas da própria tonteria (Diná, Gomer) e intriguistas ressabiadas (Herodíade, a mulher de Putifar,etc).


 Mas depois disso temos - e só estou a nomear os exemplos mais imediatos- Judite e Jael (célebres por, respectivamente, cortarem ou espetarem a cabeça do inimigo com uma estaca!); as profetizas Débora (a juíza) e HuldaCláudia, mulher de Pilatos e única pessoa ajuizada naquela casa; discípulas e amigas de Jesus como Maria Madalena e Santa Marta; as mães cuja descendência mudou o curso da História - Raquel; Isabel, mãe de S. João Baptista;  Santa Ana; e a Virgem Maria, que com a sua obediência total à vontade Divina redime a Humanidade.

  Voltemos a Ester: a bela judia só vem a  tornar-se Rainha e a ter a oportunidade de salvar o seu povo porque a antecessora, a Rainha Vashti, foi banida por afrontar o marido perante todos os seus príncipes e os seus servos, recusando-se a aparecer "para exibir a sua beleza, usando a coroa real" quando convocada. 


Sejamos justos com Vashti - os motivos para ela se recusar a aparecer nunca ficaram claros (já lá vamos) mas uma coisa é certa: Assuero/Xerxes estava perdido de bêbedo ao fim de um evento faraónico de 180 dias (imaginem uma "Expo Pérsia" para mostrar a grandeza do seu reinado) mais sete dias de festim bem regado com, diz a Bíblia, "muito vinho real, e o beber era por lei".


 É natural que a pobre coitada tivesse pouca vontade de "exibir a sua beleza " numa sala cheia de homens alcoolizados. Até porque estava ocupada, como era sua obrigação, a dar um banquete nos seus aposentos para as mulheres do Palácio.

 Mas o Rei, com um grão na asa e aconselhado pelos sábios e pelos sete príncipes dos Persas e dos Medos que não estavam muito melhor, ficou furioso com a resposta torta e decidiu sumariamente expulsá-la- afinal, se a Rainha tratava o rei com tal irreverência, dali a nada todas as mulheres por aquelas províncias fora lhe tomariam o exemplo; uma rebaldaria.


 Por se atrever a dizer que não ao rei, Vashti tem sido, recentemente, enaltecida pelas feministas como uma mulher senhora de si, que recusou obedecer às exigências de um déspota ébrio, que colocou a sua dignidade acima da ambição e que, ao contrário de Ester, não usou ardis tipicamente femininos - a beleza, a subtileza, o silêncio - para se assegurar. Para muitas mentes modernas, Vashti é considerada  um modelo de comportamento melhor do que a heroína tradicional, Ester - discreta e aparentemente mais submissa.

Mas será sensato defender essa ideia?

 Os estudiosos têm-se debruçado sobre as motivações de Vashti sem que haja uma versão certa: uns defendem que o rei a terá mandado aparecer usando SÓ a coroa real (alguns acrescentam que Vashti era uma exibicionista useira e vezeira em fazer tal coisa e que só se recusou, naquele dia, por estar maldisposta ou com urticária); mas outros apoiam-se em fontes históricas para afirmar que tal não era possível, dados os costumes persas de modéstia feminina, quanto mais no caso de uma Rainha.

  Há também os que, sem detalhar a vestimenta ou falta dela, defendem a tese da urticária ou outro problema súbito de pele como motivo da escusa; e quem jure que a Vashti era temperamental e altiva, e que se considerava superior ao marido por ser filha de um Rei mais poderoso do que ele.


 E finalmente, existe ainda a minha versão preferida - a de que o Anjo Gabriel, precisando de pôr o plano Divino em prática para salvar o povo hebraico, teve de arranjar um estratagema para se livrar de Vashti - por isso fez-lhe nascer uma cauda (estão a imaginar? os anjos podem ser terríveis; de destruir cidades a transformar pessoas em estátuas de sal a cegá-las passando por pôr-lhes caudas, não são para brincadeiras - respeitinho!). Qualquer uma de nós teria grandes problemas em aparecer com uma cauda em público, quanto mais o resto!

De qualquer modo, Vashti desapareceu de cena, foi preciso encontrar consorte substituta para sua Majestade e Ester, dirigida pelo seu parente e tutor, Mordecai (ou Mardoqueu, mas eu acho Mordecai mais bonito) lá vai para o harém real participar numa espécie de concurso de beleza.


 Ao contrário das outras deslumbradas, que faziam a cabeça em água aos eunucos com exigências de cosméticos e se desdobravam para agradar, Ester usava o que lhe davam, foi discreta e conseguiu, pela formosura, serenidade e graça, amolecer o coração de Assuero/Xerxes.

 Obviamente, para sobreviver e salvar o seu povo, Ester teve de ser como Vashti em uma ou outra ocasião: compareceu sem ser chamada (cheia de medo, mas lá foi); deu banquetes sumptuosos; usou artimanhas para expor o conspirador que estava a tentar dizimar milhares de inocentes. Mas comparando as duas, acho que Ester ainda continua a ser o melhor modelo feminino: não é que não tivesse tanta personalidade, requinte e coragem como Vashti (pois provou ser capaz disso). Mas sabia ser calma e doce ou usar a determinação a seu favor conforme necessário -  calar, ouvir, deixar-se guiar, esperar e levantar-se apenas quando algo mais importante estava em jogo.


Ester foi determinada, mas sábia. Actualmente ser voluntariosa é apresentado como uma grande qualidade feminina, mas nem sempre isso joga a nosso favor. Vashti levou a sua avante, mas só isso.
Vashti contava apenas com os seus dotes naturais: o nascimento, a beleza e a personalidade, tudo qualidades valiosas. Mas Ester acrescentou a essas coisas o dom da temperança, prudência e a calma na adversidade, sem as quais é complicado o resto brilhar.

Há um pouco de Vashti e um pouco de Ester na maior parte das mulheres - mas se Vashti é o instinto, Ester é uma versão mais sofisticada: é a mulher com perfeito domínio de si mesma.



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