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Thursday, March 26, 2015

Sensibilidade ou bom senso?


Essa é a grande questão do imortal romance de Jane Austen. A propósito deste tema, já tenho dito que lessem as mulheres de hoje mais Jane Austen e menos disparates... evitar-se-ia muito coração partido e muitas tristes figuras (porque se um coração partido pode acontecer à mais sensata, dar nas vistas já está na mão de cada uma).

 É verdade que as opções das meninas e senhoras dos nossos dias são muito mais amplas do que as das mulheres em inícios do século XIX - mas no que toca ao aspecto pessoal, às emoções e à dinâmica entre os sexos as coisas não mudaram tanto como se prega por aí.

A dignidade feminina de uma Lizzie Bennet cabe em qualquer época. E também podemos aprender bastante com as irmãs de Sensibilidade e Bom Senso: a expansiva Marianne e a discreta Elinor.

 Marianne é romântica, sonhadora e mostra sempre o que lhe vai na alma. A sua meiguice conquista rapidamente dois pretendentes- o íntegro Coronel Brandon e o galã John Willoughby. Ora, ser carinhosa e doce é uma das maiores qualidades femininas. É difícil levar qualquer relacionamento a bom porto se uma mulher esconder demasiado os seus sentimentos; porém, a tradição manda que uma mulher retribua os afectos com subtileza e cautela, o que tem razão de ser...

 Pois Marianne - como tantas mulheres actualmente - considera isso uma hipocrisia e manipulação desnecessária. Gosta tanto de John que não disfarça o seu entusiasmo, alimentando o relacionamento com demasiada rapidez, mesmo antes de estar certa do carácter ou das intenções dele. Mais tarde, quando John se desinteressa e procura outra mulher que sirva melhor os seus propósitos egoístas, Marianne tenta desesperadamente recuperar o seu afecto (o que como todo o mundo sabe ou devia saber, nunca serviu para nada em século algum) tornando-se alvo de chacota. Faz o equivalente a inundá-lo de SMS, mas por cartinhas e lembrancinhas. O que não resulta, claro, porque quando um homem não está assim tão interessado...sabem o resto.


 Só depois de adoecer de desgosto é que Marianne decide tomar juízo e ser mais como Elinor- que é sensata, reservada, racional e põe sempre a lógica mundana e as necessidades dos outros à frente dos impulsos superficiais. Porém, a ponderação de Elinor e a forma como guarda os seus sentimentos para si fazem-na passar injustamente por ser uma pessoa fria e desapaixonada.

 O final feliz só acontece quando as duas irmãs conseguem equilibrar a sensibilidade e o bom senso. 

 Se refrearmos totalmente a nossa sensibilidade e delicadeza femininas, é impossível viver e sentir verdadeiramente. Mas nenhuma felicidade durará se não aplicarmos bom senso, calma e racionalidade ao que sentimos. Sem o uso da razão, não se pode usufruir daquilo que o coração, a energia e o entusiasmo conquistam - seja a nível profissional ou afectivo.

 Em cada mulher há uma Elinor e uma Marianne: resta descobrir qual delas fala mais alto, e invocar a outra para temperar a frieza ou o excesso...


AXIS Póvoa de Varzim: escapadinha à moda da Belle Époque


Desde pequena que não passava pela Póvoa de Varzim, mas a sua história como uma das "zonas de banhos" mais elegantes do País sempre me despertou curiosidade. Frequentada pela boa sociedade nortenha desde finais do século XIX, quando "ir a banhos" passou a ser moda, a então vila ganhou uma dimensão cosmopolita, passou a ser um centro de requintadas tertúlias e recebeu convidados ilustres, como o Rei Carlos Alberto de Sardenha, que se veio exilar no Porto e escolheu a Póvoa de Varzim para recuperar do desgosto de ter abdicado do Trono.


O bulício na "Avenida dos Banhos" em 1921

 Sobre o ambiente de ócio que aí se vivia, típico do tempo, escreveu em 1881 o autor Alberto Pimentel: "A mais movimentada de todas as praias que eu conheço. Parece uma peça de Sardou. Ha lojas cheias de gente e gente para encher as lojas. Falla-se, descute-se, joga-se, dança-se. Há animação. A noite, a villa enche-se de luz e de murmúrios. Tem um aspecto venesiano, vista do mar. O amor faz ali cincoenta casamentos por anno; mas as victimas da roleta são em muito maior numero." 


Aspecto da praia em 1882
 Hoje, a cidade conserva muito da sua aura de "destino de recreio"  - ou seja, um passeio ideal para dandis do século XXI. Além da beleza da cidade em si, as acessibilidades são excelentes - é possível ir ao Porto de comboio e voltar a tempo de passar uma bela tarde de praia.

Por isso, fiquei encantada por me convidarem a conhecer o bonito AXIS Vermar Conference & Beach Hotel.
Junto ao jardim, literalmente a dois pulinhos do mar
 Acabado de remodelar, o edifício - com o estilo acolhedor dos anos 70 - apresenta hoje toda uma inspiração náutica. 



A decoração dos corredores (que nos transporta para um filme de Stanley Kubrick) dos quartos com varandas para o mar (soberbos, que nos dão a impressão de estar no interior de um yacht) e do spa (cuja piscina me lembrou os aposentos d´A Pequena Sereia) consegue criar um ambiente muito particular, que desperta a imaginação. 


Com as suas "escotilhas" e jogos de luz, o SPA tem uma atmosfera muito especial

  Apropriado para deslocações de negócios mas também para fugas românticas ou dias de praia em família (os quartos duplos, de dois pisos, são uma opção convidativa para casais com filhos pequenos)  o AXIS Vermar é uma escolha elegante e despretensiosa.

 Interessante também foi ficar a conhecer o projecto internacional de boas práticas OMO, que os Axis Hotéis vão acolher e que se destina a integrar jovens com síndroma de Down no sector hoteleiro. 

Recomendo uma visita e espero voltar em breve para explorar melhor...


Wednesday, March 25, 2015

Top 10 do disparate (ou pérolas a ignorar... pela sua saúde)

Menciono muitas vezes o termo "higiene mental" porque tê-la em conta é tão importante como qualquer cuidado com a nossa pessoa.  Hoje em dia ser uma "mente muito aberta" é considerado uma grande qualidade. Tenho as minhas dúvidas quanto a isso, pelo menos se for em exagero. Uma mente escancarada, que não se apoie  em valores firmes e opiniões sólidas, sujeita-se a ser influenciada para pior...

Logo há que ter sempre à mão uma esponja mental (não das que absorvem, mas daquelas de apagar quadros) e uns tampões imaginários para os ouvidos, de modo a fazer um gélido laissez faire, laissez passer a certos conteúdos, comportamentos e conversas. Já que nem sempre é correcto mandar calar as pessoas ou fazer alguma intervenção, ao menos que se salve a integridade interior com um "entra por um ouvido, sai por outro". Anuir ou ser cúmplice é elasticidade moral; calar-se bem calado, não dar seguimento e desaprovar furiosamente com os nossos botões é outra história.

 Vejamos então o top de disparates que entram pelos nossos olhos/ouvidos dentro (na rua, entre conhecidos, nos social media...) e que caem na categoria  "fala para a mão" ou "vou rezar por ti, pobre alma transviada" (pensem, mas nunca digam isto a ninguém; as pessoas ficam mais furiosas do que se as tivessem mandado a um lugarzinho muito feio...).

1- "Ofendedismo"



Na época do politicamente correcto por excelência, é complicado confiar nos média ou na civilidade que nos foi ensinada. É que não se pode dizer nadinha e daqui a pouco cai-se em crime-pensar, como no livro 1984: um simples verniz de unhas ou um filme clássico são taxados de sexistas; a coisa mais inocente é taxada de machismo, slut shaming, body shaming ou discriminação de qualquer ordem. Como dizem no país irmão, é procurar piolhos num ovo.  As pessoas andam num permanente estado de melindre e procuram em tudo desculpas para se melindrarem. Se não estamos a maltratar ninguém, a ir contra os direitos humanos nem contra as regras de boa sociedade, ignore-se todo o extremismo sem pedir desculpas por isso.

2 - Política de pacotilha


Conversa que começa e termina interminavelmente com corja de bandalhos, ladrões que querem é encher os bolsos, etc. Mesmo que possam ter razão, não é novidade nenhuma, não resolve nem acrescenta nada e em todo o caso, há maneiras mais elegantes de expressar descontentamento.


3 - Sou uma mulher guerreira/ele não sabe o que perdeu, etc



Bem se diz que o inferno não pode competir com a  fúria de uma mulher rejeitada, mas na era em que as mulheres magoadas (tenham ou não razão) podem ventilar publicamente as suas dores, haja paciência. Um desabafo é compreensível - mas dar detalhes, entrar em modo raposa que não foi às uvas e gritar ao mundo que é um partidão sem defeitos e ele um ceguinho que não soube apreciar já é perder a classe. A ignorar e não copiar, por mais que o Eduardo fuja com a camareira do hotel levando todas as suas jóias e lhe apeteça nadar em solidariedade feminina.

4 - Nunca olhes para trás/se o teu passado ligar não atendas, ele não tem nada de novo para te dizer, etc




Não sei quanto a vocês, mas quando eu ando ocupada em modo aviar a minha vidinha sem olhar para trás, não me sobra tempo nem lembrança para avisar o resto do mundo de que estou nesse entusiasmante processo, nem de dizer às pessoas "olha, sabes? Vais ficar para trás na minha vida. Confessa lá que isso te aborrece imenso, vá, estou ansiosa". Uma vez tentei andar de bicicleta a grande velocidade olhando para trás e dei uma valente queda, por isso não repeti a façanha. Cada um terá a sua maneira de andar para a frente sem olhar para trás, mas parece-me uma contradição. 

5 - Relatar em público desgostos de amor/intrigas/escandaleiras (dizendo ou não nomes)

Os mexericos são sempre uma baixeza de evitar - porque é feio e porque acabam inevitavelmente por gerar confusões. Porém, nem a  pessoa mais íntegra e mais sóbria está livre de se ver envolvida num e ser maltratada injustamente, como ninguém está livre de um desgosto de amor que não merecia. É a vida e convém ter a humildade de pensar que estamos sujeitos a isso como os outros mortais. Se tal acontecer, qual é o remédio? É continuar a  proceder com integridade e sobriedade, esperando que a verdade se esclareça sem dar demasiada importância ao assunto. Isso ou confrontar o mexeriqueiro discretamente, atirar-lhe balões de água, esborrachar-lhe ovos contra a porta  (muito discretamente, se possível) ou comprar uma boneca de voodoo para aliviar o stress- tudo, menos fazer figura de urso. Se o caso é mesmo grave, há tribunais. A não ser que se trate de uma figura pública que tenha sido enxovalhada de forma igualmente pública é ridículo alimentar o diz-que-disse com "comunicados de imprensa à facebook".

6 - Dizer que a religião é a raiz de todos os males...ou queixar-se da família



Poucas coisas mostram tanta imaturidade. Quem quer ser ateu, força - a Fé (ou falta dela) é livre - mas convém largar a atitude de "eterno rebelde". Já houve um rebelde por excelência que fez esse trabalhinho todo, chamava-se Lúcifer e ao menos caiu do Céu com um panache assinalável e conhecimento de causa. Atacar a religião alheia (e muitas vezes, de forma pouco fundamentada) é um debate gratuito que ofende quem acredita e não leva a lado nenhum. Quem tem tanta necessidade de bradar contra o assunto pode sempre pôr-se caladinho a ler o Paradise Lost, que parece menos pindérico. Do mesmo modo, um adulto queixar-se em público da mulher esbanjadora ou dos pais que o deixaram muito traumatizado porque compraram um pónei ao irmão e ele só teve um triciclo, não alivia os seus problemas nem dá a imagem de uma pessoa muito forte e resolvida: parece um bebé chorão com ressentimentos graves que não sabe perdoar.

 7 - Falar com amargura nas "cunhas" dos outros....



...e invariavelmente terminar acentuando a sua condição de self made man/woman, vulgo "coitadinho de mim que subi a pulso". Passa uma imagem de pessoa miserabilista e rancorosa (o que é sempre deselegante) e além disso, há a  hipótese das "cunhas" que tanto o incomodam nos outros nem sequer existirem. Por fim é uma hipocrisia, porque quem tanto repara na fortuna alheia só pode ser ganacioso, e nunca vi um ganancioso recusar uma "ajudinha" para subir na vida, nem um invejoso não desejar ardentemente aquilo que condena. 

8 -...e do mesmo modo, reparar na "boa vida" de fulano ou beltrano. Para dizer mal, claro.



A não ser que quem fala tenha sido vítima de um roubo descarado (vulgo levaram-lhe o descapotável, passeiam-se com ele pela cidade obrigando-o a ir a pé para o emprego e a polícia não tomou conta da ocorrência) a riqueza/vida de lazer/existência glamourosa de alguém não é da sua conta. Pior do que ser invejoso, só demonstrá-lo: é um rebaixamento social instantâneo.

9 - "Eu cá sou muito simples e humilde" (implicando que os outros são uns snobs)

Uma coisa é ser simples (e isso é como a riqueza, bondade, nobreza, inteligência ou beleza: quem a possui nem se lembra de falar nisso) outra coisa é ser simplório.

10 - Dizer "eu não julgo ninguém" (geralmente seguido de um "mas")



Das duas uma: ou faz das boas e não quer por sua vez ser julgado, ou é o primeiro a fazer julgamentos. Todos nós tiramos impressões do que vemos e ouvimos. Ser cordial e ter respeito por todos não implica ser isento de valores, e ter capacidade de julgamento não é uma coisa má (antes pelo contrário) desde que sejamos tão exigentes connosco como somos com os outros. Hipocrisia much?













Tuesday, March 24, 2015

Em defesa do Herói Byroniano: have you ever really loved...?



Sometimes I have the strangest feeling about you. Especially when you are near me as you are now. It feels as though I had a string tied here under my left rib where my heart is, tightly knotted to you in a similar fashion. And when you go(...) with all that distance between us, I am afraid that this cord will be snapped, and I shall bleed inwardly.

                                                Charlotte Brontë, in Jane Eyre

Sempre tive uma queda pelo Herói Byroniano - que é um tipo ligeiramente diferente do bad boy. Podia estar muito tempo a elaborar a teoria, mas digamos que o bad boy é realmente mauzinho (e dado aos mais baixos instintos) enquanto o herói byroniano apenas parece mauzinho, mas na verdade é capaz dos sentimentos mais arreigados, de constância, da maior lealdade. É o que os ingleses chamam rough around the edges: um fundo doce sob uma camada de timidez, frieza ou brusquidão.

Um herói byroniano não serve à maior parte das mulheres (embora a maioria o procure, 
confundindo-o com um bad boy) e nem todos os homens assertivos e masculinos que as mulheres buscam (tropeçando em bad boys pelo caminho) são heróis byronianos.

 Estes anti heróis não combinam com todas porque se os outros cavalheiros já são complicados, este espécime leva a palma. É dado a infinitos humores, profunda possessividade, muitas camadas para desvendar- e sente-se atraído pela mulher que é igualmente complexa. Feminina o suficiente para se harmonizar com a sua masculinidade vibrante, forte que chegue para não vergar sob a sua força. Para cada Heathcliff, tem de haver uma Catherine...porque uma Isabella falha miseravelmente. Cada Mr. Rochester precisa de uma Jane, porque as Blanches deste mundo são demasiado comuns...e nunca teriam compreensão para uma alma daquelas.


  Quando uma Catherine e um Heathcliff ou uma Jane e um Rochester se encontram, a conjugação é perfeita embora pareça demasiado intensa ou demore muito a estabilizar; todos se perguntam como é que aqueles dois se conseguem entender... mas concluem que não sendo um com o outro, não haveria paz possível. Esses amores nunca são tranquilos, mas desenvolvem o seu próprio tipo de segurança. 

Funcionam a um nível mais visceral, quase telepático.

 No entanto, é preciso tempo e maturidade para perceber que afinal, talvez o amor byroniano seja o melhor tipo de amor verdadeiro dentro de todos os amores verdadeiros. No romance, Jane Eyre dizia preferir a rudeza à lisonja;  por aqui já se comentou várias vezes que muitos "amo-tes", muitos elogios, não significam necessariamente sentimentos genuínos, tão pouco intenções firmes. Há quem diga meiguices com o coração nas mãos apenas para esquecer o que disse dali a nada. Quem muito promete, tenciona cumprir pouco. Prometer, jurar aos pés juntos, é muito fácil quando não se tem o mínimo propósito de levar a cabo tais tarefas - e desenganem-se, amor é tarefa árdua. 

 Um herói Byroniano raramente jura, raramente promete - fala uma vez e está dito, e espera que a outra parte tome isso como escrito na pedra para todo o sempre ainda que as acções pareçam demonstrar o contrário. As suas declarações de amor mais facilmente passam por um surto de ciúmes ou uma manifestação brusca de preocupação com o bem estar (eg: ela não veste o casaco e depois vem com lamúrias que adoeceu!) do que por coisinhas poéticas. Mas a poesia é como a cobertura de um bolo: se existir óptimo, mas uma má cobertura arruína tudo o resto. Entre mau romantismo, romantismo postiço ou nenhum, vive-se bem sem isso desde que duas almas sejam feitas da mesma matéria. Não é o supérfluo, dito da boca para fora num entusiasmo, que une duas pessoas. Deixe-se isso para os amores vulgares. Catherine comparava a sua relação com Heathcliff às rochas sob o chão: aparentemente rudes e estéreis, mas uma base inquebrável.

 Tenho visto alguns amores byronianos desabrochar aos tombos, mas raramente vi um morrer - e os que tiveram fim, foi com a morte física de uma das partes. Mesmo quando tudo parecia perdido, aqueles dois continuavam sempre a importar-se um com o outro. Fossem para onde fossem, cometessem os erros que cometessem, viessem separações, zangas, nunca- mais- te -falo, doenças ou ruínas, havia um fio de aço que os ligava. É o tipo de amor que deixa quem fica para trás de luto carregado, daquele luto que quem está de fora acha incompreensível e a pôr em causa a velha máxima um amor cura o outro. Estes não têm cura, nem substituto, nem são deste tempo. Nem precisam.

Marina Mota dixit: gente maluca


Nos bancos de escola era difícil não ser contagiado por certas deixas de programas de televisão. Como o humor tipicamente português ainda dava cartas no pequeno ecrã, mesmo quem não fazia muito caso disso acabava por ouvir, por influência dos colegas...e as rábulas de Marina Mota, com a sua banda Bat n´Avó e outras personagens, eram muito apelativas para os mais novos. Resultado, toda a gente imitava aquilo... lembro-me de ter achado muita graça a um sketch em que a actriz fazia daquele miúdo terrível, o Bisnaga: quando face às suas partidas a mãe chamou um Padre para exorcizar a casa, julgando que estava endemoninhada, e o sacerdote disse "vamos expulsar o mafarrico!", o Bisnaga ficou aflitíssimo, refilando "querem-me pôr fora de casa!". E claro, tratou de fazer honra à fama de Mafarrico...

 Embora revisteiro e nem sempre apropriado para aquelas idades, era um tipo de conteúdo bastante inocente comparado com os horrores a que agora certas crianças assistem como se fosse programa de família.

  Mas há um jargão que não recordo a que personagem pertencia, e que me ficou: "já estou farta de gente maluca *pausa* até à peruca!".

 É que é bem verdade, mesmo para quem nem no Entrudo recorre a tais artifícios (o mais que já usei foram umas extensões amovíveis por carolice, e olhem lá...).  Enfim, maluca tinha de rimar com alguma coisa. Adiante.

 Nem é preciso ser uma pessoa muito atenta. Basta não estar completamente isolada do mundo, sair para trabalhar, ter um mínimo de interacção com o nosso semelhante e fazer parte de qualquer rede social para ter a certeza absoluta de que das duas, uma: ou os manicómios têm requisitos de admissão super exigentes (logo não admitem metade dos que precisam) ou decidiram abrir, sem dizer nada a ninguém, pequenas concessões por todo o lado, num esforço de integrar os seus inquilinos na sociedade supostamente sã e escorreita.

 Às vezes imagino se muitas destas pessoas não viverão num regime semi-aberto e à noite recolhem para tomar as gotas...

 Entre os egocêntricos que fazem do mundo virtual confessionário para as suas banalidades íntimas, os que protestam contra tudo da forma mais malcriada e fora do contexto, num permanente "estou aqui e tenho algo muito importante a dizer", os gananciosos, os alpinistas sociais, os de moral de elástico e os que acham que o mundo lhes deve tudo, dá vontade de comprar uma peruca bem extravagante só para poder dizer o estribilho com propriedade...

Monday, March 23, 2015

Pensamento horrivelmente superficial do dia.


Correr como uma tola para ir ao ATM num pulo e haver uma filinha de gente que não ata nem desata. Uma pessoa começa a olhar para o relógio, a 
mexer-se num pé e no outro, cada vez mais impaciente... e at last, os Monstros do Multibanco começam a despachar-se e só restam duas monstrinhas.

 Mas as universitárias, ocupadas a confirmar os talões para ver se a bolsa/mesada/ordenado do part time/diabo que as carregue já estava na conta e a fazer mais quantas operações se lembravam, nada de desamparar a loja.

Sem mais nada em que ocupar a vista e cheia de pressa, tive de conter a vontade de exclamar "tire-me esse horrível blusão de napa e essa carteirinha falsa de poliéster da frente, se não se importa, que tenho pressa!".




Fosse eu a dizer tudo o que me apetece, seria uma pessoa muito antipática às vezes...fiquei-me pelos pensamentos, que sempre hão-de ser um pecado menor.

 É que esperar por esperar, prefiro aborrecer-me como uma ostra a olhar para alguma coisa elegante. Que me façam ganhar raízes e ainda me obriguem a olhar para roupas e acessórios demasiado feios para as minhas capacidades é abusar-me do sentido estético, da paciência e da tolerância.

 Má educação e má qualidade são como muita coisa na vida: à vez ainda se aturam, tudo ao mesmo tempo já não dá.


Sunday, March 22, 2015

Alegoria do vintage: do mundo nada se leva, mas...

Carteira Chanel 2.55 (1960s)

Qualquer aficcionada (o) de vintage sabe que as carteiras, principalmente as de griffe, são os exemplares mais difíceis de ter e cuidar. Primeiro, pela manutenção que exigem -mesmo na pele e hardware de melhor qualidade, anos de reclusão num armário poeirento, associados à falta de cuidado dos anteriores donos, deixam a sua marca. Segundo, pela quantidade de imitações que aparecem por aí - a maioria óbvia, mas outras podem enganar os incautos. A procura requer olho e dedicação, mas é sempre emocionante descobrir um "tesouro", virá-lo do avesso, apreciar os pequenos pormenores de uma qualidade que hoje já rareia, mesmo nas Casas mais requintadas.

 Sempre que junto um exemplar destes ao armário, sinto um misto de contentamento e melancolia. Fico feliz por mim, claro...mas um bocadinho triste quando a peça tem sinais visíveis de uso, porque vintage novo existe - já encontrei - mas é muito raro.

Não me entristecem os pequenos riscos ou desgastes que os cuidados não disfarçam (esses até lhe dão patine e graça) mas por pensar que algures, uma mulher de gosto apreciou muito aquele artigo, que o trouxe consigo nas suas alegrias e tristezas...e que finalmente, a peça acabou vendida ou doada. Perdida num cantinho à espera de uma coleccionadora que a fosse descobrir a uma loja especializada, angariação de fundos, venda de garagem, leilão ou flea market

Que a desencantasse no meio de muitas outras coisas largadas ao acaso, a trouxesse consigo, a avaliasse, mandasse reparar e gastasse tempo a pôr-lhe creme, a poli-la, a guardá-la carinhosamente no seu dust bag...e finalmente, que a usasse. E então a carteira volta a estar no braço ou no ombro de uma mulher. A acompanhá-la a reuniões de trabalho decisivas, a festas, a encontros românticos. Volta a ganhar memórias...vida.

Coordenados Chanel durante a Grande Depressão

Mas a voz da outra senhora que usou a carteira continua sempre lá, ecoando de outro tempo e às vezes, de outro país (sucede muito obter peças que vieram de fora, ou foram compradas em viagens ao estrangeiro no tempo em que viajar era privilégio de alguns). Se calhar foi a carteira que levou na sua Lua de Mel - ou que o mais que tudo lhe ofereceu na Lua de Mel. E talvez a tivesse posta quando chorou a perda do marido. Uma recordação da sua juventude, de quando era bela e apaixonada.

 Finalmente, a senhora lá foi - e consigo imaginar os herdeiros rapaces, ignorantes e interessados apenas no lucro (porque só assim se explica que se desfaçam de coisas destas) afilhados, parentes distantes ou criados, resmungando "o raio da velha só tinha tralha! Se nos deixasse mas era coisa que se visse..." enquanto ensacavam tudo aquilo. Já apanhei sortidos de peças que pelo tamanho e proveniência, só podiam pertencer à mesma pessoa. E isto dá-se com todo o tipo de antiguidades...

 Uma vez vi acontecer isso com um senhor militar, cujos herdeiros deixaram medalhas e outros testemunhos de valor histórico apodrecer dentro de casa, depois de limpo o que achavam que valia dinheiro. Felizmente um amigo do defunto apercebeu-se e levou tudo para um museu. Não duvido que suceda o mesmo com os objectos mais queridos de uma elegante mulher.

 Quando isto me aflige, digo cá para mim "não se apoquente, minha amiga; 
hei-de fazer honra aos seus tesouros!" e faço voto de educar as futuras mulheres da minha família para o valor das coisas, de modo a que tal não volte a acontecer.

Do mundo nada se leva; é uma grande virtude saber apreciar os bens materiais mas desfazer-se deles sem hesitação, se necessário. As jóias mais preciosas, os belos vestidos que tanto trabalho exigem para assentarem na perfeição, as peles, as marcas, tudo cá fica. Só conservamos realmente memórias. Mas isso não impede o sentido de legado. Nem que se saiba desprezar o novo, mal feito e efémero em detrimento do que pode passar de geração em geração.

Sejam obras de arte, móveis, carteiras, jóias ou coisas intangíveis - mas escritas na pedra - como a Fé, a educação e os valores de base. O descaso pelo Belo é muito triste...

As coisas que eu ouço: that ain´t working, that´s the way you do it.


A famosa canção dos Dire Straits, Money for Nothing (que eu nunca me canso de ouvir) foi escrita por acaso: os elementos da banda encontravam-se numa loja de electrodomésticos a comprar qualquer coisa, e as televisões expostas estavam a passar videoclips. Vendo isto, dois trabalhadores da loja comentaram "that ain´t working, that´s the way you do it. Money for nothing and the chicks for free!".

 Ou seja, "aquilo não é trabalho- esses mariquinhas de brinco na orelha é que a levam direita: dinheiro por não fazer nenhum e miúdas à borla". Mark Knopfler ouviu aquilo para seu governo, ficou inspirado e o resto é história.

E entretanto, também eu tive uma conversa que me lembrou exactamente o estribilho rancoroso "that ain´t working, that´s the way you do it".



Como vos contei, durante as últimas semanas houve a oportunidade de trocar impressões com um bom número de pessoas interessantes. Parecia que as estrelas estavam organizadas em modo durante este período aprenderás com os outros.

 Claro que é preciso cautela com o que se aprende.  Há que fechar os ouvidos a certas coisas, observando apenas quem é um bom exemplo e se encontra tão bem ou melhor do que nós...porque dar atenção a quem não faz senão lamentar-se ou protestar tem de ser entendido como um acto de apoio ao próximo e nada mais. Se nos permitimos arrastar para um momento de "e se isto for verdade?" acabamos contagiados. E essa higiene mental não tem nada de new age; é puramente lógica. Almas lamentosas cansam, deprimem, deixam-nos irritados por simpatia.


Ora, à conversa com um grupo de pessoas dentro da minha faixa etária - todas elas trabalhadoras e bem sucedidas - foi precisamente a atitude de quem repara na boa fortuna alheia que veio a propósito. Todos os que ali estavam tinham consciência da sua felicidade por poderem fazer coisas/conviver com pessoas/realizar projectos que não são acessíveis a toda a gente. Que exigem alguns meios e um bocadinho de sorte também...e já se sabe, tudo isso gera animosidade em alguns. 

 Bem dizia Oscar Wilde "é fácil estar solidário com um amigo que caiu em desgraça, mas ficar contente com o êxito de um amigo exige uma natureza superior". 

 Mind you, eu tenho muita reserva em puxar do argumento "isso é tudo inveja!" a torto e a direito. É vaidade, pretensão e facilitismo atribuir toda a antipatia que possamos sofrer à inveja. Nem toda a gente nos inveja, quer estar no nosso lugar ou se sente ameaçada pela nossa "brilhante" presença: podem simplesmente não ir com a nossa cara (se Jesus não agradou a todos, havíamos nós de agradar?) ou zangar-se connosco, ainda que injustamente, por achar que fomos parvos e estúpidos...ou por outro mal entendido/mexerico/ acaso qualquer. É preciso ter a humildade de entender isto para não se tornar realmente num idiota digno de críticas.

 Mas é verdade que a inveja acontece, principalmente a quem não está isolado num grupo de amigos e conhecidos hermeticamente fechado, onde só entra quem está muito bem na/com a vida (ou no processo de). É por isso, mais do que por "ego inflado" ou "mania da superioridade" que algumas pessoas bafejadas pela sorte tendem a cingir-se ao convívio umas das outras: é que é muito difícil  pedir constantemente desculpas por ter sucesso. Ou partilhar o que se tem com os amigos apenas para receber em troca incompreensão ou acusações, ainda que veladas. Os amigos verdadeiros que se alegram pela felicidade dos outros são jóias raras.



 Uma vida que seja (ou pareça) glamourosa atrai a cobiça e com a cobiça vêm as desculpas de mau pagador: a do "nunca trabalhou", a do "meninos do papá" e outras piores.

 Quem diz estas coisas nunca pensa no trabalho, no foco, nas noites mal dormidas e nas dificuldades - porque todos as sofrem, sem excepção- que são precisas para ter (ou manter) um certo êxito. Até as pequenas vitórias podem ser arrancadas a ferros, mas quem está de fora vê apenas a parte boa. E como muitas vezes só pensa em dinheiro (defeito terrível) mais virulento se torna, porque o amor ao vil metal é capaz de virar uma alma do avesso.



 Pois estávamos nisto, e uma das pessoas presentes (extraordinária rapariga!) admitiu, sem falsos pudores, que era o pai que lhe oferecia tudo. Afinal, era justo porque também ela ajudava aos negócios da família. Mas também isso não vinha grátis: o "PAItrocinador" exigia, como é suposto, o retorno do seu investimento. Ou seja, sustentava-lhe o necessário até ela ser capaz de voar sozinha, o que claro, é um recurso valioso. Mas o paitrocínio não coloca ninguém no lugar certo, dizia ela: é preciso sorte. E depois disso, estar disposta a ter lata, a levar com muitas portas na cara, a ir ao tapete, a ter desgostos, a trabalhar longas e extenuantes horas (às vezes de graça) o que mesmo tendo o básico assegurado, muita gente teria pejo em fazer.

 Sorte, paitrocínio, contactos, berço, beleza, talento e outros acasos de nascença não asseguram nada em si mesmos; são, como digo muitas vezes, leves de ter e pesados de manter. O que não falta por aí é gente que tem isso tudo e fica pelo caminho ou deita a perder as benesses que recebeu. O resto depende do bom e velho desunhar-se, de sujar a camisola, de - dentro daquilo que é honroso e ético - pagar a factura. Não há ninguém tão maravilhoso que não tenha nada a provar nem de sofrer como os outros. Mas sem isso, nenhum êxito teria sabor...




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