Recomenda-se:

Netscope

Saturday, April 11, 2015

Professor Robert Maistriaux dixit: quando beleza e galantaria são virtude

Amal Alamuddin: séria, sim. Monótona? Nem por sombras.


" (...)  certas mulheres julgam fazer obra de virtude arranjando-se horrivelmente. Isso é, antes de mais, uma falta contra a Beleza e a Graça (...). Mas terão essas nobres almas tido o cuidado de consultar o marido e assegurar-se de se ele concorda ou não com tal maneira de vestir? Não se admirem se ele andar seduzido pelos encantos de uma desconhecida.  Vestir-se com gosto e elegância não é um defeito, pintar-se não é condenável (a não ser que o resultado seja, esteticamente, lamentável) (...) . Os únicos limites que é preciso não transpor são os do excesso..."


Ao pôr em dia as leituras dei-me com um texto dos anos 1960 deste autor belga, que me pôs a pensar sobre um tema que temos analisado várias vezes por aqui.

 Quando se fala em aspectos como "elegância", "classe", "discrição" ou "sobriedade" no vestuário, muitas mulheres fazem de imediato (sem ofensa) o raciocínio de Julia Robers em Pretty Woman: nada muito espampanante nem muito sexy... conservador, logo aborrecido.

 Por isso, ao tentarem "polir" o visual (seja por razões profissionais, pessoais, espirituais ou porque querem dar um ar mais "clássico" à sua pessoa ao começarem um relacionamento estável) fazem-no com pena, como se fossem abandonar para sempre a feminilidade, e/ou com extremismo, transformando-se numa caricatura.

 Há não poucos casos de raparigas que tendo certa má reputação (e mau gosto, sejamos objectivos) em solteiras procuram compensar adoptando um visual de "matronas" demasiado pesado para si uma vez casadas. 

Ou de mulheres que tinham um look "alternativo" e ao ingressarem numa carreira mais tradicional (advocacia, banca, etc) se cingem aos fatos mal cortados. Para não falar nas devotas, que confundem "modéstia" com vestir à maneira dos Amish (o que não faz sentido para quem não é Amish).

Inès de La Fressange
 Para não falar nas mães que acham que a maternidade santifica tudo, até o desleixo...fiando-se no sentido de dever do marido, esquecendo que a galantaria, a sedução, o impulso de agradar são o cimento de uma união feliz, e que o casamento é apenas o princípio do romance e não o fim...

Para muita gente, ser "séria", estar "formal" ou "vestir de forma elegante" implica ser sem graça. Nada mais longe da verdade!

Princesa Ameerah Al Taweel

 Mulheres como a Princesa Ameerah, da Arábia Saudita (e nota bene, estamos a falar de uma princesa, papel que tem exigências muito particulares, casadíssima e muçulmana devota ainda por cima) provam que a virtude e a elegância - bem como o profissionalismo - têm tudo a ver com feminilidade e graciosidade, mas nada com sensaboria.

 Apenas é preciso bom senso e vigilância para distinguir o que é adequado a cada sítio e ocasião bem como à figura, estado e idade de cada uma. Evitar o excesso tanto no aspecto de "dar nas vistas" seja pela sensualidade e  ostentação como no tempo e recursos que se consomem na toilette...

A gravidade e aprumo que certas condições na vida exigem devem ser a motivação para um look "honesto", como dizia Eça de Queiroz: de qualidade, eficaz e refinado. O que não rima com monótono, nem sem sal, nem desleixado...




Mulher sem bâton sofre: a História prova-o.


Há uma primeira vez para tudo - até para, numa vida inteira, a rapariga mais organizada esquecer o bâton em casa.

  Mesmo não sendo uma makeup junkie nem tão pouco amiga de se pintalgar em excesso, creio que nenhuma mulher cuidada  iria nem para a guerra sem levar ao menos o pó de arroz e um bâtonzito hidratante, quanto mais para uma qualquer reunião social. Em caso de apocalipse zombie, acharia maneira de esconder o básico dos básicos nos bolsos do colete: assim como assim um bâton em miniatura não ocupa mais do que uma bala.

  Mas às vezes está-se mesmo com muita pressa. E faz-se questão de levar uma clutch mais pequena do que o costume, daquelas que enganam:  "é um amor e parece  razoável o suficiente para encafifar, entre outras coisinhas, o telemóvel, uns toalhetes, o pó, e ao menos um mini bâton" (mulheres prevenidas, arranjem miniaturas das vossas cores de eleição para estas ocasiões).

Mas naquele modo qual é que eu levo? Gosto mais desta cor - não, levo este que já estou a usar, tira, volta a tentar, desmancha e faz tudo de novo, aperta a ver se a mola fecha, ai que já estou atrasada, etc...lá esquece e só se dá  pela asneira tarde demais.



 E zás, começa uma noite - única numa vida inteira, espera-se - de frívola angústia, ou no mínimo, de desconsolo e desidratação . Pode parecer coisa pouca, mas fica-se desprotegida como naqueles pesadelos em que se ia de pijama para a escola ou o pesadelo recorrente em que se viaja sem cartão  multibanco nem passaporte.

 E uma mulher lá se resigna, pensando que alguma amiga terá algum remedeio que lhe empreste, que 
a maquilhagem ficou bem feita e há-de durar porque o  lipstain inventou-se para alguma coisa, que modelos e actrizes no plateau ou passerelle mal comem e só bebem por uma palhinha para não fazer zangar os maquilhadores e  aguentam-se e que, se a necessidade for de vida ou de morte, há-de haver uma loja por perto, bastando saltitar até lá para remediar o caso.

Mas claro que nunca costuma haver nada disso, pela incontornável lei da física quem vai para o mar atavia-se em terra



Face à privação, com as horas a decorrer, começam a passar pela cabeça as soluções mais extremas -  por exemplo, fazer como as mulheres durante a II Guerra Mundial e surripiar da cozinha ou da mesa um pedaço de beterraba, que é um pigmento infalível. Mas e se alguém vê? É melhor não.

 De qualquer maneira, mesmo sem beterraba o desastre nunca é grande e ninguém dá por nada, mas tal sofrimento é uma experiência interessante, ao estilo teste científico pouco ético de outros tempos.

Winston Churchill foi sábio quando não racionou de todo o bâton a bem da moral da população - o desfecho da Guerra podia ter sido outro.

  Privar uma mulher do seu bâton é tirar-lhe todo um ritual. Ir à casinha retocar a cara (momento de reflexão quando se aproveita para  meditar brevemente na vida)  não tem a mesma graça. 
Perde-se a pequena alegria de refrescar a cor e de sentir os lábios devidamente avivados e hidratados, que é sempre reconfortante mesmo quando não é propriamente necessário. Não há uma desculpa para se esconder atrás do espelhinho caso apeteça ignorar a vizinha do lado. Voltar com o bâton retocado para encarar quem está é o equivalente feminino aos cowboys que viravam um valente trago de zurrapa antes de um duelo. 

Não admira que durante a Renascença houvesse veneno escondido nos bâtons, como na Rainha Margot



Era o primeiro sítio onde uma potencial rival iria cair como um patinho. Pelo menos, se se tivesse esquecido do seu. Esperta, a Caterina de Medici!





Friday, April 10, 2015

A mulher de Pilatos (ou de quando eles fazem orelhas moucas)



No rescaldo da Páscoa, lembrei-me de uma figura feminina que sempre me fascinou: a esposa do governador da Judeia, que passou ao imaginário comum como Cláudia, ou Cláudia Prócula.  As Escrituras não dizem muito sobre a mulher de Pôncio Pilatos a não ser, no Evangelho de S. Mateus, que foi uma das poucas pessoas a manifestar-se contra a condenação de Jesus, implorando ao marido que nada fizesse contra "aquele justo" pois tivera pesadelos sobre isso toda a noite.

 Se Pilatos lhe prestou realmente alguma atenção será assunto para os estudiosos, tal como a sua biografia (alguns textos dizem que era gaulesa, outros livros apócrifos (?) dirão que era uma neta ilegítima do Imperador Augusto).

Porém todos sabemos o desfecho, logo poderemos supor que, mais tradição menos tradição, Pilatos há-de ter dado tanto ouvidos à mulher como eu fui ao fim do mundo. Típico. 

Quem nunca se queixou "está para vir o dia em que este homem faça caso do que eu digo!" é uma mulher de sorte. Claro que há mulheres que engoliram agulhas de grafonola logo ao nascer, falam por falar e são mandonas só porque sim, o que dá má fama a todas, mas...

 O mais provável (se usarmos um bocadinho a imaginação) é o aflito praefectus, assoberbado com o populacho aos berros, ter descartado o aviso da sensata cara metade como um assomo de sensibilidade feminina, um ataquezinho de histeria face àquela confusão toda, fragilidade de nervos. Isto mulheres!



 A verdade é que Cláudia tinha mesmo razão (embora haja teorias que afirmam que o sonho foi uma tentação do Inimigo, um segundo episódio de Eva, na tentativa de sabotar a redenção da Humanidade). No mínimo podemos considerá-la uma mulher justa e prudente, dotada de forte intuição, que temia pelo marido, que se regia pela sábia ideia "nunca sigas a multidão, que ela vai invariavelmente para o lado errado"... e uma boa pessoa, que não queria ver um inocente condenado. 

Considerada Santa nos primórdios do Cristianismo, e actualmente pela Igreja Ortodoxa, a mulher de Pilatos continua a cativar autores - algumas escritoras de ideias mais modernas vêem-na mesmo como uma "mulher poderosa" (no sentido actual e algo agressivo do termo) por ter dito o que pensava. Não concordo com essa ideia, pois o pouco que sabemos de Claúdia mostra-a como a perfeita matrona romana: recatada, subtil, capaz de influenciar discretamente mas nunca de tentar impor a sua vontade à força, pela sabedoria das mulheres daquele tempo que estavam cientes de que teimar abertamente contra um homem casmurro é tão eficaz como atirar ovos contra uma rocha

 Claro que com subtileza ou sem ela, Pilatos não fez caso do que a mulher disse, tornando-se infame por toda a eternidade. Cláudia foi corajosa, Pilatos foi cobarde. Sendo um homem temeroso e vaidoso da sua posição, não creio que bater o pé tivesse feito diferença alguma.  É um daqueles casos que se verificam desde a noite dos tempos e que hão-de continuar a suceder enquanto o mundo for mundo: quando um homem está ferozmente determinado a fazer disparates, nem vale uma mulher cansar-se; é deixá-lo ir desgovernado, espalhar-se ao comprido e aprender à sua custa...




Thursday, April 9, 2015

A inutilidade de fazer por agradar


Esta semana reparei num artigo perfeitamente inócuo sobre um bonito casal que faz sucesso no Instagram com os seus instantâneos de viagens de sonho. O tema viagens não me diz muito em si, mas achei os retratos lindíssimos, a fazer lembrar a estética dos anos 70. 

 Ao que parece, ninguém sabe se se trata de um casal a sério (a viajar apaixonado porque pode e, segundo alguém disse, para distrair a jovem depois de uma terrível perda familiar) ou de uma qualquer produção glamourosa inventada secretamente por algum portal ou revista. É que de facto, parece demasiado perfeitinho para ser verdade, embora não falte por aí gente para quem esse estilo de vida é o prato do dia, e ainda bem que assim é pois de infelicidade anda este mundo cheio. 

Também não importa- na era dos social media, o inglês ver tornou-se quase uma instituição, a verdade tem mais faces do que nunca e que atire a primeira pedra quem não doura um bocadinho a pílula. Pouca diferença há entre os contos de Fadas e o Instagram, que veio substituir, para um certo público, algumas revistas na função sempre necessária de fazer sonhar.

 Mas ao contrário dos contos de fadas, as redes sociais permitem feedback, logo não faltaram comentários ressabiados - nota bene, contra um casal que não conhecem e que não se sabe ao certo se é real - do estilo "vão mas é trabalhar!", "se soubessem o que custa a vida!", "dinheiro não dá felicidade!", "raios parta os meninos ricos!" ou ainda, "eu viajei mas andei a limpar casas em troca de dormida". As pessoas são mesmo criativas e malvadas quando lhes cheira ao assunto dinheiro, o dinheiro dos outros claro, principalmente atrás de um monitor.

  Porém, calma aí - há dias uma actriz na terceira idade recebeu os mesmos comentários (vai trabalhar, o que te faz falta é uma enxada na mão, quando eras rica não pensavas nos pobres, etc) por se queixar de falta de dinheiro...

Portanto, se o mesmo casal instagramasse sobre o desemprego, conclui-se que a plateia diria "vão para as obras" ou "emigrem como eu emigrei quando era novo e fui a salto p´rá França".

  Mas deixemos de lado o dinheiro, que é feio; falemos no amor: se uma rapariga namora assim, digamos, um rapaz livre e solto, de uma cor diferente da sua, com um ar um bocadinho hippie, com rastas e toda a parafernália e decide ir viver com ele uma divertida existência de saltimbanca, haverá quem diga "o amor é lindo" mas trinta vozes que se levantam para bradar ai que se perdeu uma menina tão linda e de tão boas famílias, ou coitada, está numa de rebeldia para contrariar os pais.

 Porém, se a mesma rapariga se apaixona antes por um rapaz elegante e bem posto, ai Jesus: vai ser uma mulher troféu, um rapaz mais simples podia 
fazê-la igualmente feliz, é uma peneirenta que só lhe servem príncipes encantados, vejam só.

 Como se as pessoas mandassem inteiramente no que sentem, ou tivessem culpa de acidentes de nascença...

 É a velha história do velho, do rapaz e do burro: o povo vão precisa sempre de algo para ventilar as suas frustrações ou por inveja, ou por falta do que fazer, ou para sentir que domina alguma coisa já que não tem poder sobre mais nada, logo é inútil tentar agradar. Bem diz a outra: haters gonna hate e pronto. Ou nas palavras de S. Francisco de Sales, "não importa como procedamos, o mundo sempre nos fará guerra".

   Mas esperem que ainda não é tudo: por vezes até no seio dos íntimos isso de se desdobrar para agradar é o pior disparate. Quando as pessoas estão viradas do avesso, ou debaixo de sofisma, ou numa de não dar o valor, tanto faz correr como saltar. Se faz, é porque faz; se não faz, é porque não faz; se não diz nada, é porque se deixa pisar; se diz, é porque refila...logo, aplique-se a máxima do povo que quando não fala na vida alheia até diz umas coisas acertadas, e não nos amofinemos: quem gosta, gosta, quem não gosta arruma para o lado...

Why bother?


Wednesday, April 8, 2015

Quando eles são "Marcus Vinicius"


Um "Marcus Vinicius", para vos poupar a uma grande introdução, é assim um rapaz bonito e que até tem um óptimo coração, mas...emocionalmente bronco, brutinho como os montes.

 Esta designação vem, como já terão adivinhado, do romance que deu um clássico do cinema, Quo Vadis*. Sempre adorei essa história, para começar porque se passava em Roma e tinha o Petronius, já vos falei no Petronius. Depois, em pequena achava que a Popeia era das mulheres com mais estilo que já tinha visto. Na minha ingenuidade queria ser um bocadinho como ela: com aquele eyeliner extraordinário, o porte e o leopardo, mas sem o Nero. Depois cresci e comecei a admirar muito mais  Lígia. Adiante.



 Quo Vadis é uma das histórias de amor mais interessantes de sempre...e incrivelmente actual, apesar de se passar na Roma Antiga.

 Não é tanto um conto de amor proibido ou trágico, em que o herói perfeito salva a donzela perfeita e a culpa dos desaires é toda dos maus da fita (neste caso, Nero e companhia). A relação entre Marcus e Lígia é muito mais subtil e bastante mais realista.

Se tirarmos o cenário, as togas, os leões e o circo (esperem, o circo fica, já lá vamos) a paixão de Quo Vadis podia perfeitamente passar-se na nossa época.

 Marcus Vinicius é o típico herói romano: bonito, patrício, sofisticado, estroina, rico e todo vaidoso pelas suas vitórias militares. Em casa de Aulus, um respeitável general reformado, Marcus conhece a encantadora  filha adoptiva deste, Calina, que todos tratam por Lígia por ser na realidade filha do Rei dos Lígios  (um povo lá para as bandas da Polónia) e uma refém de Roma. 



  Marcus é fulminado na hora pela beleza e modéstia da Princesa estrangeira, e a donzela, apesar de intimidada pela basófia e maneiras pouco respeitosas dele, também não lhe fica indiferente. Bastava a Marcus cortejá-la devagarinho, como era suposto, e seriam felizes para sempre. Mas Marcus Vinicius, recordo-vos, é um brutamontes habituado a ter tudo o que quer e estragado pelas más companhias. Que faz, então? Uma vez que Ligia é apenas uma refém - apesar do seu sangue real - decide reclamá-la para si e pronto.

 Não quer saber dos princípios nem dos sentimentos dela para nada: arranca-a aos pais, aos amigos, desrespeita uma família que o recebeu em casa, enfim; faz tudo à sua maneira sem considerar a sensibilidade dela nem o sofrimento que causa. No fundo, ama apenas a beleza exterior, não a pessoa
Acha que a "amada" tem de aceitar as suas condições e doideiras e cara alegre. Não procura conhecê-la por dentro, por isso assume que ela é uma tonta como as outras a quem basta um homem bonito e rico para caírem rendidas, no questions asked.



  Parte do princípio que ela tem de ficar muito honrada com a "distinção" que ele lhe dá e cair-lhe nos braços. Não compreende que Lígia tem uma grande maturidade emocional, logo precisa de alguém com quem seja, bom...compatível. Um homem mais íntegro, menos egoísta e menos doidivanas.

 O que ele não esperava era que Lígia, apesar de  ingénua, lhe opusesse uma resistência heróica, chegando a fugir-lhe: gosta de Marcus e sabe que ele possui, lá no fundo, as mais nobres qualidades e uma bela alma, mas não está disposta a sujeitar-se aos seus caprichos. As recusas de Lígia deixam Marcus à beira da loucura: move mundos e fundos para a convencer, vira Roma do avesso para a encontrar, mas não é capaz de fazer o mais simples e óbvio: portar-se com decência e seriedade, para que ela confie nele

Lígia também comete erros ao longo da história, mas por não entender o quanto Marcus importa com ela: é que com tantos disparates que ele faz, torna-se difícil adivinhar!


É um longo caminho até que Marcus se aperceba de que não apenas deseja Lígia, mas que realmente a ama integralmente, como se deve amar um ser humano...e que o amor dá trabalho. Não basta chegar e tomar o que se quer. Só então ela se rende ao que sente por ele. 



 Quando isso sucede, dá-se aquele milagre do amor verdadeiro, o velho cliché "estar apaixonado faz-nos querer ser pessoas melhores" e Marcus revela toda a nobreza do seu coração, toda a sua verdadeira coragem, sendo capaz dos maiores sacrifícios.

 Mas por essa altura, na sua criancice e egoísmo, já envolveu meio mundo na história (toda a corte de Nero, a Guarda Pretoriana e por aí fora) já complicou imenso a vida a todos os envolvidos, armou literalmente um circo e desencadeou acontecimentos irremediáveis que quase o fazem perder Lígia para sempre. 

Por acaso a história acaba bem, mas podia acabar mal. Como tantas histórias em que os Marcus Vinicius da vida, no seu egoísmo e tonteria, se põem a arranjar complicações, a armar circos e a desperdiçar as suas boas qualidades quando bastava procederem directa e simplesmente, como adultos.


 *(Que poderão ver ou rever na RTP, se tiverem máquina do tempo: passou no fim de semana)

Tuesday, April 7, 2015

Alguém quer um Príncipe?


Então é favor vir ao meu jardim, que eu até agradeço - andam tantos sapos nas redondezas (particularidades de morar no campo) fazendo um tal barulho, que eu ando com vontade de dar um beijinho na testa a cada um a ver se os desencanto e os mando ao reino deles para acabar com o chinfrim. É que nem se consegue dormir com tanta serenata, croac, croac, croac.

Mas a julgar pelo berreiro, são tantos que nunca mais acabo a tarefa. Por isso, all the single ladies, apresentem-se. Dou-vos um saquinho com laçarote para levar o vosso Prince Charming e tudo, caso queiram fazer a experiência no conforto das vossas casas.

(Por outro lado, não sei se é boa ideia transformar sapinhos, que não fazem senão saltitar e coaxar, em rapagões desempenados: mal por mal, os sapos refilam menos do que um homem, têm menos manias, menos esquisitices e menos exigências: deixo ao vosso critério).

Christian Dior dixit: a fórmula da elegância

Donaire sem afectação; distinção sem pretensão; cuidado e disciplina, mas sem pressão nem esforço; uma combinação de aprumo  (o) e desprezo pelas obsessões mundanas; uma dignidade interior, um certo orgulho nativo, mas sem pensar demasiado em si ou de si próprio (a).

 Beleza no porte, circunspecção, acompanhados de bondade e serenidade; eficácia e simplicidade; sofisticação desobrigada, que se vê nas pequenas amabilidades e na diplomacia em situações constrangedoras; pensar nos outros primeiro, não incomodar, fazer-se leve, adaptar-se aos meios e às ocasiões; não se melindrar por coisas mesquinhas, que é sinal da única superioridade que importa; reserva temperada por gentileza; vaidade apenas no sentido de procurar a qualidade e a harmonia estética; um certo requinte, mas descaso pela frivolidade; atenção ao detalhe, mas uma frugalidade aguçada nas maneiras, na forma, nos materiais... de tudo isto se compõe o je ne sais quois que admiramos nas pessoas verdadeiramente elegantes.

 Nas que o são sem se cansar para isso, embora ponham algum cuidado naquilo que pensam, dizem, usam e fazem; nunca saberemos se é um dom ou um sacerdócio, mas tem muito pouco a ver com as roupas lindas que se vestem ou os lugares impressionantes que se frequentam: isso é uma consequência, isso pode ser dado e tirado. Uma pessoa elegante pode ver-se privada de todas as suas belas coisas e não perder nada da sua aura. Pessoas assim são o que são, e não procuram ser mais do que isso; quando muito, têm a consciência de limar diariamente os seus defeitos, pequenos ou grandes, pois isso, e isso apenas, está na mão de cada um...o resto, que não pode ser previsto nem controlado, vem por acréscimo.

Monday, April 6, 2015

De pequenina se educa a menina.


"Se duas filhas têm tipos físicos diversos - uma gorduchinha e baixa, outra magra e pernalta - não ocorrerá certamente à mãe vesti-las com o mesmo manequim, só por serem irmãs. Maiores são as diferenças de espírito e carácter, igualmente visíveis a olho  nu. Tratá-las nos mesmos moldes não é tão ridículo, porém é muito prejudicial".


Mons. Álvaro Negromonte, in Corrija o seu filho


Observar a educação dos filhos dos outros é um curioso exercício antropológico - se a compararmos com aquela que recebemos - e sempre interessante para o governo de cada um, mesmo que não se pense ter crianças em casa tão cedo.
 Educar, ter a cargo a formação de carácteres com as suas particularidades aos quais é preciso aproveitar as boas qualidades e atalhar os defeitos, é uma responsabilidade assustadora. Ninguém pode afirmar aos pés juntos como o fará: pode-se apenas partir do que se aprendeu em casa... e reparar no que não se quer fazer de certeza absoluta, pois os exemplos negativos também são úteis.

 As educações diferem - pelo contexto socio-económico da família, pelas ideias (políticas, religiosas, etc) dos pais- embora, salvo as especificidades de hábitos, haja crianças bem e mal formadas em todos os cantos da sociedade - e pelo contexto da época, apesar das regras intemporais que alguns continuam a respeitar.

  Não creio que  velhas normas, que arrepiarão muitas mentes modernas, como "os pequenos não têm grandes quereres e são mais para ser vistos do que ouvidos a não ser que falem com eles primeiro" sejam, se aplicadas sensata e carinhosamente, tão más como isso. 


 A maior prova a favor dessa "educação à moda antiga"  são as vendas astronómicas dos livros dedicados a corrigir, tarde demais, os "pequenos ditadores".

Nos seres humanos em formação é necessário refrear os excessos (não deixando tagarelar demasiado uma criança atrevida, por exemplo) e estimular o que não está tão desenvolvido (obrigando a criança acanhada a dizer as frases da praxe: bom dia, boa tarde, como passou, com licença, desculpe, obrigada (o)!).  É para superar os defeitos de cada um que se inventaram as normas de conduta...

 E se a educação dos rapazes dava um livro, educar meninas daria um volume um bocadinho maior, tanto pela complexidade do carácter feminino (que é um dos seus encantos) como pelos desafios de comportamento que esperam uma rapariga actualmente.


 Como educar para a discrição, numa época em que é suposto uma mulher ser assertiva até quando isso não é necessário? Como fazer uma jovem sentir-se atraída por modelos de elegância e distinção quando a frivolidade extrema é a regra, os ídolos da sua idade são Minajs e Kardashians e as suas condiscípulas aparecem de forma tão reveladora no Instagram? Ou torná-la prestativa, feminina, amável, serena, corajosa e modesta no tempo em que "bow down, bitches" é a palavra de ordem? Como fazer tudo isto e ao mesmo tempo garantir que ela não desenvolve uma personalidade "demasiado gentil" e fraca, que a pequena seja capaz de se defender neste mundo cada vez mais agressivo (por um lado) e sem normas claras (por outro)?

 Só há uma forma - a trindade da referência, do hábito e do exemplo. Nenhuma criança crescerá insensível ao certo e ao errado se, para começar, for alertada para a existência do certo e do errado, algo que vai rareando hoje em nome de uma falsa tolerância.


 Ninguém achará "normal" coisas que nunca viu em casa. Ainda que observe comportamentos menos correctos na rua, que ouça música duvidosa na escola, vai estranhar e perguntar decerto "pai, que é aquilo?" - cabendo então aos adultos exercitar a sua sensibilidade para as nuances. E isso as crianças têm de sobra, são umas esponjinhas pela sua natureza curiosa...entendem muito bem se lhes disserem "há pessoas que dizem/ouvem/fazem/usam assim, mas nós não". "Então porquê"?. "Porque é feio". Pronto.

 Do mesmo modo, é inevitável que se copie aquilo que está à vista diariamente: são referências que não desaparecem mesmo na idade rebelde, em que será preciso aos pais orientar a escolha das companhias.

  Ora, muitos pais desleixam tudo isto. Surpreendentemente, vejo imensos progenitores inteligentes e supostamente cultos permitir programas e hábitos pouco elevados. Depois, há os pais cegos, para quem tudo está bem e que acham que a pior coisa que se pode fazer é melindrar a auto estima dos filhos, nem que seja pelo menor reparo. Com medo que a filha cresça complexada, exacerbam-lhe a vaidade, se é bonita, com péssimas consequências; se não é, permitem-lhe vestir roupas pouco adequadas à sua silhueta, dizendo-lhe sempre que ela é linda, ainda que não esteja lá muito...em vez de a ensinar a melhorar. Depois, quando ela ouve coisas desnecessárias no colégio, dá-se o velho "chorar com razão". E quem diz isto, diz outros erros de palmatória...


















Os 10 melhores truques salva-sapatos!

À falta de duendes-sapateiros...



Como diria a Carrie Bradshaw, suma-sacerdotisa do calçado, posso não perceber de muita coisa na vida mas acredite, de sapatos sei eu.  Qualquer mulher que preze a sua colecção (e o conforto dos seus pés) terá um número considerável de truques após sofrer uma  série de desgostos inevitáveis. Vivendo e aprendendo!

 Um sapateiro competente é um dos melhores amigos de quem gosta de andar sempre impecável, mas quanto mais a cliente souber, mais lhe facilitará o trabalho ( às vezes terá de colaborar com ele para juntos descobrirem a melhor solução; o meu sapateiro faz assim uma cara quando me vê, estilo o que é que ela vai inventar desta vez? Sou um verdadeiro desafio, mas aprendemos bastante um com o outro).

 Não faltam tutoriais na internet sobre o assunto, mas partilho convosco as dicas que uso regularmente com excelentes resultados.

1- Calçado de verniz, esse tormento


Um bom sapato de verniz pode acompanhá-la toda a vida, tal é o número de toilettes a que se presta, mas... lamento dizê-lo, por vezes nem as marcas mais luxuosas escapam às inevitáveis manchas logo nas primeiras utilizações. Para os limpar, nada como um pano embebido em  limpa-vidros comum.
   Se apareceram aquelas manchas escuras horríveis em verniz claro, só há duas coisas a fazer, logo que dê pelo problema: primeiro, esfregá-los com toalhitas de bebé: já me livraram de mazelas que nem um profissional conseguiu tirar. Em outros casos, um algodão com acetona resolve. Se nem assim...resta-lhe rezar para que o sapateiro tenha uma cor de verniz muito semelhante para aplicar com mão de mestre. Ou arranjar essa cor de verniz (em tons nude, poderá ter de fazer misturas para chegar à nuance certa) e ter uma mão muito firme.

 Arranhões são uma tarefa mais complicada, principalmente no verniz preto - neste quesito, tenho comprovado que alguns sapatos de designer realmente compensam, já que não riscam com tanta facilidade. Sapateiros old school conseguem repará-los aplicando uma camada ou spray de verniz; outros vão mandá-la recorrer ao esmalte de unhas na mesma cor, o que resulta razoavelmente em pequenos vincos ou marcas.
   Em ambos os casos, convém limitar estes exemplares a preto, branco, nude ou encarnado, porque é quase impossível consertar outras cores. Assim como assim, ninguém precisa de sapatos de verniz em cores estranhas, eu acho...

2- Sapatos apertados

Truques para isso não faltam por aí (meter os pobres coitados no congelador com papéis lá dentro, aquecê-los com um secador e calçá-los em casa com umas meias grossas, pedir ao sapateiro que os ponha num molde...) mas o melhor que me ensinaram, tried and true...é a dica do álcool. Ou seja, colocar bastante álcool etílico no interior do sapato e nos pés e calçar o sapato por um bom bocado. Quando secar, repetir. Fazer isto até estar satisfeita (o). Obviamente isto só funciona se o seu pé entra completamente no sapato  e resulta melhor em calçado de couro ou camurça.

3 - Sapatos rígidos

O melhor é evitá-los de todo (esse mal acontece bastante em calçado que até é de couro, mas de fraca qualidade). Porém, se aconteceu um engano, é encher o sapato, ou bota, de creme corporal e/ou vaselina. Calçar e repetir até que amacie. Estes dois produtos também são excelentes para recuperar carteiras e mesmo casacos de couro.

4 - Saltos riscados ou com buraquinhos...e calcanhares maltratados

Saltos forrados a couro/camurça, ou de madeira... com marcas e riscos são intoleráveis. Ganham imediatamente mau ar, por muito caros que sejam. E o pior é que às vezes isso acontece mal saem da caixa, mercê da cruel calçada portuguesa. Isso não poderá reparar em casa - vai precisar de paciência para encontrar um sapateiro que os consiga polir com cera especial e escovas super sónicas. Ficam como novos, mas muitos sapateiros comuns juram que não há solução. Há, prometo - terá é de ter trabalho a procurar um profissional à moda antiga.
 Se arranhou os calcanhares nos paralelos, pode pedir ao sapateiro que cole sobre a mazela uma tira em meia-lua do mesmo material, ou num que combine. Não é uma solução perfeita mas é melhor do que deitar fora um par novo ou usá-lo arranhado, esperando que ninguém note.

5 - Sapatos de camurça


Limpe-os sempre quando estiverem secos (nunca tente tirar manchas depois de uma chuvada) com uma escovinha macia. Para manchas, existem borrachas próprias (à venda em alguns sapateiros) mas uma borracha branca de apagar lápis funciona igualmente bem. Sujidades mais entranhadas poderão ser retiradas com um toalhete de bebé ou uma escovinha com água e um bocadinho de condicionador de cabelo (deixar secar bem depois). Para manchas de gordura ou óleo, colocar uma camada generosa de pó de talco sobre elas e esperar que absorva antes de limpar com um pano de flanela ou insistir com a escova.  E já se sabe, para os conservar é preciso um spray adequado, coloquialmente chamado Nobuck.


6 - Sapatos de cetim



Estes são um problema porque tal como acontece com os de verniz, nem sempre uma marca melhor garante mais resistência. Para manchas o truque da borracha funciona bem, desde que esfregue suavemente. Em alternativa, usar o toalhete ou um paninho com um pouco de água e sabão. Se estiverem mesmo muito sujos (e.g: apanhar lama num casório!) recorra à lavandaria. Em caso de arranhões, implore ao seu sapateiro que lhes faça uma pequena cirurgia plástica puxando o tecido levantado com uma pinça fininha, colando-o no sítio e/ou aplicando uma quantidade quase invisível de verniz na mesma cor. Não tente fazê-lo em casa...

7 -  Manchas de humidade


Podem acontecer, mesmo que guarde o seu calçado nas respetivas caixas e dust bags. Para as retirar terá de deixar secar um pouco ao sol (evite a luz directa).  Em calçado de camurça, esfregar suavemente com uma escova própria; caso seja de couro, com um paninho húmido. Depois de secar, engraxar ou aplicar spray para camurça. O mesmo se aplica às carteiras.

8 - Capas, prevenção e mistérios insondáveis



Protectores de saltos-  estou fã!
Dogma do calçado: vá-se lá saber porquê, as capas de origem NUNCA prestam, especialmente as de saltos finos. São rígidas, desconfortáveis e por vezes, chiam quando caminhamos (say what?). E frequentemente, nas marcas mais exclusivas, piores são as capas de origem (não me perguntem porquê: talvez para lembrar as pessoas de que é sensato substituí-las). A maior parte estraga-se nas primeiras utilizações, especialmente (outro mistério que não sei esclarecer) se pisar alcatifa. Por isso, se comprou uns sapatos lindíssimos para uma festa num hotel - locais onde abunda tal "pavimento" - troque as capas antes de os usar. Igualmente, há muito quem reforce logo as meias solas de couro  (e por vezes, biqueiras) com umas de borracha, o que é uma ideia inteligente não só para a durabilidade, mas também para tornar os sapatos mais confortáveis. Pode ainda comprar alguns protectores de saltos - muito úteis para proteger sapatos delicados em eventos ao ar livre.

9 - Palmilhas e acrescentos




Não resistiu e trouxe dos saldos aquele sapatinho lindo um bocadinho maior que o seu pé? Acontece a todas. Para não falar que os tamanhos variam de marca para marca e que muito calçado de griffe engana imenso com a  história dos meios números - por vezes compramos o mesmo número, na mesma marca, e um está óptimo, outro não serve bem, outro fica enorme. Tudo males que pioram na era das compras pela internet. Não há nada mais desconfortável - e perigoso- do que caminhar como uma gata em sapatos instáveis...

 É bom não confiar demasiado em palmilhas e companhia, porque não fazem milagres, mas cada vez mais existem "acrescentos" e almofadinhas autocolantes para as diferentes partes do pé ("adesivos" de calcanhar, "calcanheiras", enchimentos para biqueiras, meias palmilhas) que permitem salvar mesmo sapatos de modelo aberto. Um conselho: evite palmilhas de couro escorregadio. É pior a emenda que o soneto. A sorte extrema? Encontrar um sapateiro que se preste a levantar a palmilha original e introduzir uma maior, cortada à medida, por baixo. Não se nota nada e o sapato fica do tamanho certo e super confortável. Se achar quem faça esta delicada cirurgia plástica, fidelize-se.  Em caso extremo, também pode sempre mandar pôr uma fivela de tornozelo em alguns sapatos. Melhor que nada...

10 - Dustbags, sempre




Principalmente quando viaja. Protegem de qualquer impacto, da luz, do calor, da humidade...Encontrar dustbags avulso é um problema (marcas, pensem nisto) mas caso o seu novo par de sapatos não inclua uma bolsa, pode sempre recorrer a saquinhos de musselina ou cetim para presentes (à venda nas lojas de brindes, feiras de artesanato e até bazares chineses) ou pequenos sacos de pano, vulgo sacos de pão (idem). Isto é essencial também para guardar carteiras e clutches no armário, especialmente as de verniz que tendem a colar-se umas às outras, ganhando riscos. outro truqe para preservar saltos finos em viagem: envolva-os em espuma (do género que vem nas caixas de electrodomésticos) antes de os guardar no dustbag.


Sunday, April 5, 2015

Renascer sim, mas...




...é sempre bom lembrar uma coisa que parece óbvia, que se diz imenso mas que raramente se exercita de facto.

É que o passado não volta. Todo o ambiente de Páscoa nos chama para isso. Cada dia é em si mesmo uma novidade, mas este tem - espiritualmente falando - uma dimensão de página em branco mais profunda do que, por exemplo, o Ano Novo. 

  Certo, o Ano Novo promete 365 dias a estrear e na Páscoa o ano já vai a meio, mas ainda mais me ajudam: tempus fugit. E se o tempus fugit e já é curto para as situações de hoje que temos de resolverqual é o sentido de o esbanjar a pensar no tempo passado que já fugiu, sobre o qual já não temos nenhuma influência e que não presta para construir nada que nos sirva?

 Após 40 dias de purificação e recolhimento, de sacrifícios e meditação, de silêncio e contrição, de uma descida interior à escuridão e ao Inferno, é suposto voltarmos mais fortes, limpos e renovados, com as feridas curadas. Mas há quem se recuse a curá-las, mesmo aplicando todos os bálsamos e tendo à mão todos os recursos para eliminar as cicatrizes. Continua a sofrer por hábito, por orgulho ou porque julga que estando sempre alerta isso jamais acontecerá de novo; a zangar-se porque é suposto, a recuar mental e sentimentalmente a coisas que, se já não podem ser alteradas, tão pouco têm o poder de ferir ou incomodar.

Quem age assim é como aquela velhinha que chorava junto a uma fonte de água abundante, a lembrar os dias de seca quando era nova, em que passara muita sede...

Pior: perde, como Orfeu, a oportunidade única, preciosa, de um novo começo, porque está constantemente a olhar para trás

Se pusermos frente a frente a Religião e a Mitologia, surge uma comparação curiosa: Jesus, após mil tormentos, desce à mansão dos mortos, mas ressuscita e segue a sua missão como Deus. Orfeu passa trabalhos terríveis e desce ao inferno para resgatar Eurídice; comove os deuses com o seu desalento e é-lhe dada uma chance, inaudita entre os mortais, de a levar consigo para o mundo dos vivos, de começar tudo de novo. Com uma única condição: não olhar para trás. E que faz Orfeu? Duvida. Olha para trás. Orfeu é um homem de pouca fé.





 Em termos concretos, esses espinhos do passado já não arranham ninguém; estão secos e mortos e não cresceram mais, pelo que não podem enrolar-se nos pés, nem picar, nem fazer tropeçar. É a memória dos espinhos, o recuo mental ao momento em que esses espinhos existiram e magoaram, que continua a causar problemas. Quem assim procede, obriga, por sua vez, quem está a seu lado a viver do passado, a voltar constantemente atrás: a penitenciar-se pelo que poderia ter evitado, pelo que poderia ter feito, pelo que podia ter sido diferente (não há nada pior que a triste suposição do "se ao menos") a andar ainda mais para trás alimentando as memórias boas do que havia ANTES dos tais espinhos.

 Mas nada, bom ou mau, vive do passado. O passado cria bases, forma raízes, determina a solidez das coisas, mas o seu poder termina aí. Nenhuma árvore é linda só porque tem grandes raízes- o que há mais para aí são belas raízes de árvores mortas. Porque lhes faltou a água, porque o terreno se tornou infértil ou foi envenenado, porque lhe cortaram selvaticamente as hastes, ou porque ninguém cuidou delas. Árvores, como pessoas, não se alimentam de memórias. Ninguém vive da fortuna que já gastou. Até pode obter crédito fiado nisso por algum tempo, mas o dia acaba. Ninguém pode beber água parada. 

Podemos fazer mil alegorias para isto, mas a verdade é que por muito glorioso que o que foi tenha sido, esbate-se com o tempo. É preciso continuar a  construir coisas novas e preservar aquilo que ainda se tem. E por muito mau que o que foi tenha sido, também se dilui - por si próprio, e SE for sendo substituído por memórias novas e melhores. Se. Viver no meio de fantasmas e espectros não é vida.
 

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...