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Saturday, May 9, 2015

As mulheres, essas santas


A frase acima, de D. Francisco Manuel de Melo, encontra eco noutra de que gosto muito "homens, tomai cuidado para não fazer uma mulher chorar: Deus conta as suas lágrimas". (Deve ser das poucas citações lacrimosas que me agradam, mas adiante).

Está certo que o que mais há por aí são mulheres de coração leve, imprudentes e que ninguém, homem ou mulher, pode jurar que nunca fará chorar as pessoas de quem gosta. Somos humanos e nenhuma afeição verdadeira é um mar de rosas. Mas quando um homem ama uma boa mulher, é amado por ela e apesar disso e não lhe poupa lágrimas escusadas (por ciúmes, por leviandade ou por mau feitio) está a cometer um grande erro. Tem tanto ele de impertinente e de senhor absoluto (que se calhar, é mais despótico em casa do que na rua, porque é fácil ser gentil com estranhos) como ela, coitada, de mártir. 


Se for extra paciente e aplicar a velha fórmula de Santa Mónica (rezar e chorar, chorar e rezar, que água mole em pedra dura, haja lenços!) talvez ganhe mesmo uma auréola. Ou lhe nasçam umas asas. Victor Hugo disse que a mulher é um anjo com lágrimas invencíveis...

 A alma feminina tem maior capacidade de sacrifício, de resistência, de aturar o intolerável, mas abusar disso é cobardia. É vontade de ser infeliz e de estragar o que podia ser o céu na Terra. O que me lembra aquele conto popular que partilhei convosco em tempos, em que um lavrador diz a outro: 

"Crê que as mulheres são santas (...) a minha chamou pelas Onze Mil Virgens e olha o estado em que me deixaram. Ainda bem que lhe deu para chamar pelas Onze Mil Virgens e não pelos Doze Apóstolos ou não estaria cá para contar a história...sempre era força de homem!".



A tibieza, um mal do século


Temos visto por aqui certas qualidades e defeitos que têm uma particularidade: deixou de se falar neles, na altura em que isso era mais preciso. 

Palavras como honra, pundonor, temperança, ou pelo contrário, garridice e descoco são convenientemente ignoradas, varridas para debaixo do tapete: assim não se gera nenhum desconforto, nivela-se por baixo, entra-se num relativismo  obrigatório and so on.

 O que nos leva a outra palavra fora de moda: a tibieza ou seja, frouxidão, falta de entusiasmo e de zelo, fraqueza. 

 Mencionada sobretudo no contexto religioso, a tibieza é, no entanto, uma falha de carácter que prejudica a vida humana em todos os seus aspectos.

 Caracteriza as pessoas vira casacas, sem palavra, medíocres, que nunca tomam partidos, que procuram agradar a gregos e troianos, incapazes de tomar a defesa do que é justo ou das pessoas de quem dizem gostar para não se zangarem com ninguém; a tibieza é apanágio de vira casacas, passivo-agressivos, políticos intrujões, alpinistas sociais, cobardes e hipócritas.

O poeta do sec. XVII, Abraham Cowley, afirmava que a tibieza é um pecado tanto na religião, como no amor.

Uma pessoa tíbia não pode ser fiel; é o tipo de criatura que prefere perder o amor da sua vida a abrir mão dos maus hábitos, das "amizades coloridas" e das más companhias. 

Não sabe amar, porque não possui emoções intensas a não ser um grande amor ao seu conforto, prazeres, prestígio ou sossego. Ou como vi muito bem dito "são almas que não têm a audácia do crime, nem a coragem da virtude". 



  Entre uma coisa e outra, é quase preferível ser abertamente mau. Para ser mau é necessária uma certa dose de ousadia que, se aplicada noutra direcção, poderia dar bons resultados. É preciso sacar da espada para traçar uma linha e dizer "é deste lado que fico, ou estão comigo ou estão contra mim" e não ter medo das consequências. Os maus enganam menos.  Se alguns vilões célebres da História aplicassem a mesma energia e zelo que puseram em fazer o mal a algo de construtivo, grandes coisas podiam ter sido alcançadas. César Bórgia não hesitava em fazer o mal sempre que necessário, mas era tido por muitos como um herói. Se a balança tivesse pendido para o lado das boas obras, talvez não tivesse morrido tão novo nem infame. Além disso, quem é mau pode fazer maldades apenas por achar que está com a razão, por andar mal guiado e um dia, se perceber que não andava a lutar do lado certo, arrepender-se. 

 Para ser virtuoso, também é preciso coragem. Muito mais do que para ser mau, pois há mais provações do que recompensas imediatas. É necessário "ter sal". Quem procura fazer o que é correcto, andar recta e honradamente, sabe que será sempre perseguido, mesmo que triunfe no fim: ora por gente invejosa, ora por aqueles que acham que podem abusar da sua bondade, ou ainda pelos vigaristas que existem em todos os quadrantes da sociedade e a quem a  honestidade não dá jeito. Como dizia um grande santo, "ser santo é uma vida de cão". 

Mas o tíbio, o morno, o insosso, consegue ser pior do que o mau, embora não lhe falte a consciência do bom: tem discernimento para ver o certo e o errado, mas dissimula porque lhe dá convém, porque não se quer maçar, porque os medíocres têm sempre sucesso (já que são sempre úteis a quem mexe os cordelinhos) porque cai mal marcar uma posição. Dante e Edmund Burke explicaram isto muito bem ao dizer que os lugares mais quentes do Inferno são reservados para os que escolheram a neutralidade em tempo de crise, e que para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada.

Mal por mal, antes Pombal...




Friday, May 8, 2015

Um mau gosto de causar terramotos




Diz um líder religioso do Irão que os sismos são provocados pelas "mulheres que não se vestem de forma apropriada". 

Esta é que eu não sabia. Claro que se vê por aí mulherio vestido com faltas de gosto e decoro de bradar aos céus. Atentados à estética, aos bons costumes e aos olhos, susceptíveis de causar urticária, vergonha alheia e quebras de tensão. 

Mas daí a desencadear terramotos...já ponho as minhas dúvidas. Pondo de parte que a noção de decência do senhor será diferente da nossa, é fácil de provar que ele está errado

Senão, vejam: com o que para aí anda de bonecas de feira vestidas com ceroulas do demo, vestidinhos de lycra, calçonitos-cueca infernais, tops reles de poliéster, etc e nós portugueses numa zona de risco que foi o que se viu em 1755, já não restava pedra sobre pedra. Lagarto lagarto, o diabo seja cego, surdo e mudo, bate na madeira três vezes.

 A falta de modéstia e de elegância pode danar os olhos, as almas e a paciência, mas haverá pecados mais graves (guerras, assassinatos, you name it ) com maior potencial para provocar sismos, dilúvios, raios e coriscos.

 Atirar uma burka para cima dessas pessoas era uma obra de caridade estilística, mas não exageremos...

7 pecados contra a elegância


Independentemente do estilo pessoal e das tendências do momento, há aspectos que traçam a linha entre um look inspirador e um visual duvidoso. Não importa se a inspiração de cada uma é Grace Kelly, Françoise Hardy, Debbie Harry, Carine Roitfeld, Taylor Swift ou Beyoncé, estes sete pequeninos hábitos  põem em causa a beleza e a elegância, logo há que fugir deles.

1 - Dormir maquilhada

Lá diziam as avós japonesas: "uma pele bonita depende da limpeza, não da maquilhagem". Quanto à minha, sempre insistiu que a educação de uma menina se via na pele. Os tutoriais no Youtube e certas celebridades criaram uma verdadeira mania de experimentar tudo; mas o pior vem à noite, para desfazer o trabalhinho...e depois vemos raparigas novas com uma cútis estilo camponesa da China Comunista. Nada denuncia tanta falta de delicadeza e feminilidade como uma pele grosseira e pouco luminosa. Por muito cansada que se esteja, não há desculpa para não passar pela cara uns toalhetes de óleo de amêndoas doces, ao menos.

2 - Abusar da maquilhagem

Repetindo  que foi dito acima e o que foi dito aqui sobre o assunto: é muito engraçado brincar com o contouring e outros truques, mas nenhuma maquilhagem "de palco" ou de estúdio fica elegante fora desse contexto. Se não se consegue criar um look natural, o melhor é usar menos produtos até dominar bem a técnica e cingir-se a um bold lip ou outro make mais democrático.

3 - Amarrotar a roupa ao fim do dia

 Roupas bonitas exigem cuidados. Algumas é mesmo melhor serem tratadas na lavandaria e já se sabe a virtude de uma boa maquineta a vapor. Mas em todo o caso, despi-las a trouxe-mouxe (principalmente malhas delicadas, casacos e calças) e lançá-las para cima de uma cadeira não é política para as conservar, nem mesmo para as manter decentes entre utilizações (no caso de sobretudos e saias, por exemplo). Essa atenção tão simples é uma das  razões para algumas mulheres parecerem imaculadas enquanto outras, usando a mesmíssima coisa, têm sempre um ar menos polido. As peças, mesmo que se lavem de seguida, devem ser dobradas suavemente e/ou colocadas num cabide a arejar, para recuperarem a forma e perderem qualquer humidade.

4 - Usar muitos artifícios (e pior, não os conseguir manter)

Sobre o "menos é mais" já se falou imenso por aqui. Se pensarmos nas mulheres mais elegantes de todos os tempos, nenhuma abusava de looks muito elaborados. Não só uma panóplia de "postiços" (unhas, pestanas, lentes de contacto, extensões, uma cor de cabelo muito oposta ao natural, etc) polui o visual e afasta demasiado a pessoa do tipo com que nasceu - que é quase sempre o que lhe cai melhor - como é, pela lógica, muito difícil de manter. Mesmo quem prima por um estilo alternativo terá um visual com mais impacto se não complicar muito a produção (e.g: se gosta de tatuagens e cabelos às cores, poderá escolher roupas dentro do seu género, mas mais minimalistas). Façamos contas: ainda que haja tempo e meios para isso, se usar extensões de cabelo, nail art, permanentes de pestanas, extensões de cabelo, alisamento, coloração, bronzeamento artificial, etc, etc (já estou cansada e não é nada comigo!) e ainda um outfit cheio de fru-frus, alguma coisa há-de ficar para trás. Pior do que um visual com muita coisa, só juntar-lhe  cabelos a denunciar falta de cuidado, sobrancelhas a despontar, and the like.


5 - Cabelão à "Rosy Sheila Priscila"


Sem ofensa  -  mas uma rapariga pode usar couture, acompanhar isso com uns sapatos Jimmy Choo, estar super bem maquilhada...e dar na mesma uma imagem de dançarina de funk carioca ou estrela de cinema adulto se usar o cabelo demasiado comprido (possivelmente com "megahair") e esticado como se um cilindro de alcatrão tivesse passado por ele, com as pontas espetadas. Se for demasiado preto/louro ou com madeixas mal feitas, pior se torna. Don´t get me wrong, sou totalmente a favor do cabelo longo - mas vá, estilo Giselle Bundchen ou para quem gosta de extremos, O Senhor dos Anéis. A não ser que se seja oriental, índia ou por algum antepassado remoto se tenha nascido com o cabelo extra liso, é melhor manter algum movimento (que cai bem melhor em feições europeias). Apará-lo um pouco e sobretudo, não o carregar de produtos que o deixem com ar sujo e passado a ferro pode fazer a diferença entre o bom ar e o desastre.

6 - Fazer questão de usar brincos muito grandes

Usar (ou não) brincos e de que tipo depende das tendências e do gosto de cada uma, mas é sempre mais seguro reduzir os berloques e de qualquer modo, grandes penduricalhos nas orelhas não são o primeiro acessório que vem à mente quando se pensa em elegância. Estou para aqui a meditar e não me ocorre nenhum ícone de estilo que fizesse disso imagem de marca (Madonna usou-os nos anos 80, mas os anos 80 foram como Las Vegas, o que lá se passou não conta). Há uns anos as argolas finas e grandes eram um acessório aceitável para quem gostava de um visual clássico e preppy, mas entretanto descaracterizaram-se e passaram a estar associadas a outro tipo de imagem. 
 De qualquer modo, não é impossível usá-los como apontamento uma vez por outra- com um vestido de noite, uns brilhantes em forma de gota podem ficar muito bem (nesse caso, prescindindo de outras jóias) - ou associados a um look hippie chic/boho. Isto porque com ponchos, túnicas, vestidos longos e outras peças soltas, uns brincos étnicos e longos misturam-se no todo. Com roupas reveladoras e justas, pelo contrário, remetem para...enfim, uma imagem menos recomendável.


7 - Fazer do dia a noite, e da noite o dia


Este ralhete do meu avozinho aplica-se a muitas mulheres por aí: fazem do dia a noite e da noite o dia! Ou seja, não lhes custa nada  ir à baixa com um vestidinho preto curto e sapatões ou vestir um casaco com aplicações douradas só para dar um pulo ao supermercado. No entanto, para sair, ou num evento especial, são incapazes de obedecer ao dress code. Se for preciso, aparecem de jeans (provavelmente com bordados e brilhinhos, mas não deixam de ser jeans). Embora as regras do antigamente já não se apliquem com tanto rigor e haja algumas mulheres com estilo suficiente para usar uma peça brilhante durante o dia sem que isso fique mal, não é a opção mais segura, nem para tentar à pressa; não fica bem a toda a gente e definitivamente, há ocasiões para tudo. E claro, mesmo para eventos especiais há roupas adequadas ao horário. Casório ou festa não significa automaticamente lantejoulas!


Thursday, May 7, 2015

Saltos sem sobressaltos - achei, achei!


Lembram-se de eu ter comentado convosco neste post como seria prático encontrar por cá protecções para saltos? Uma pequena "armadura" que resguardasse as capas e evitasse os inestéticos arranhões provocados pela calçada portuguesa, paralelos e jardins?



 Pois bem, logo a seguir uma amiga falou-me na Sobre Salto, (nome adequadíssimo) uma empresa nacional que distribui esses pequeninos salva sapatos. E eu, a bem da minha estimada colecção e de evitar tantas corridas de emergência ao sapateiro (deviam ver a cara dele quando entro por ali com ar de dó, acuda-me, ai que estreei estes e já têm um risco, que é que eu faço?) quis imediatamente conhecer. 

É que já me estava a ver a mandá-las vir da Ásia, porque não há paciência para sapatos novos que parecem velhos após a primeira utilização. Se forem pares raros ou mais exclusivos (e o pavimento português é muito democrático, tanto espatifa pechinchas como Ferragamos e Manolos) então é um desgosto. E com o Verão a aproximar-se antecipam-se muitas mazelas aos stilettos, já que jardins, quintas e outros locais para eventos são território fértil para os inutilizar.


Ta-dah! As protecções colocadas em dois dos meus pares preferidos

Pois bem, as protecções para já disponibilizadas pela Sobre Salto existem em três tamanhos (6-8 mm, 8-11 mm e 11-14 mm). São transparentes e feitas em plástico ligeiramente maleável para permitir a colocação. Aplicá-las em certos modelos parece um pouco desafiante (podem ver o vídeo explicativo aqui) e exige algum cuidado, eventualmente usando um pouco de creme no caso dos sapatos de couro, mas é uma questão de hábito.

 Caminha-se facilmente com elas e estou certa de que vou recorrer bastante a este truque em dias especiais. É o ideal para quando temos de saltar de um carro, atravessar um terreno acidentado e passar horas ao ar livre antes de um evento propriamente dito. Para as encomendar, basta contactar a marca: cada par tem o preço de €2,50 + portes.

 Quem procura acha, não é verdade?

"Nunca mais me ponho bonita para um encontro", disse ela.




Hoje li um artigo curioso na Marie Claire americana, que se pode traduzir mais ou menos por 
 "Desleixei-me com a minha aparência e quem me dera tê-lo feito mais cedo".

Conta a autora que decidiu estar-se nas tintas para o visual antes de qualquer encontro romântico. 

Isto após anos a suar as estopinhas para agradar aos solteiros de Nova Iorque 
(que como já devem ter reparado, as revistas e séries femininas insistem em dizer que é o pior sítio do planeta para relacionamentos saudáveis, vá-se lá saber porquê) de marcar cabeleireiro, esteticista e experimentar quantas toilettes havia para não ter sorte nenhuma e ainda ser tratada com falta de respeito. Farta de se virar do avesso, começou a "não fazer mais do que passar uma escova no cabelo" antes de se encontrar com um pretendente. E ao que parece funcionou, pois só depois disso começou uma relação estável.

A moral da história, para ela, resume-se a solteiras, desleixem-se que os homens não merecem tanto trabalhinho.



Devagar com o andor. Afinal, qual é a graça de um encontro romântico sem a devida antecipação e preparativos? 

Primeiro, parece-me que o problema não estava na aparência mas no facto de a menina parecer desesperada, ou de se notar à légua que se tinha esforçado muito. Quando se trata de qualquer dinâmica humana (seja namoros, negócios, etc) é ilusão ignorar o lado animal que vive em cada um. Como qualquer bicharoco, o Homem  detecta inconscientemente a ansiedade, o desespero ou insegurança alheias. 

 Se uma rapariga se emboneca toda só para impressionar um cavalheiro quando não tem esse hábito, logicamente vai ficar pouco à vontade. Como qualquer pessoa que esteja a fazer-se passar pelo que não é.


 Uma mulher disciplinada, acostumada a pôr em prática uma rotina de beleza, consegue estar pronta num ápice sem estafa. A sua única preparação - seja para um encontro, seja para um evento de qualquer tipo - é adequar-se ao dress code do sítio onde vai. Poderá optar por uma toilette que seja mais consensual para o gosto masculino e evitar experiências de styling arriscadas mas em tudo o resto, segue o procedimento habitual. É natural nela.


 Já uma mulher que seja mais descontraída só terá a ganhar em não complicar muito, se essa não é a sua natureza. Se costuma andar sempre de ténis, parecerá tola empoleirada nuns stilettos vertiginosos; é melhor ter um calçado de sair mais razoável. E assim por diante...até porque não faz sentido, caso tudo corra bem, o rapaz descobrir que se apaixonou por uma estranha. Como se "descalça a bota" depois?

Em ambos os casos, o melhor é a abordagem what you see is what you get. Estar vestida para a ocasião, mas sendo igual a si própria.

   Permitam-me então corrigir a moral da história: meninas, não façam num encontro o que não fariam noutro dia qualquer. Os homens não merecem tanta farsa, nem as mulheres tanta canseira.

Wednesday, May 6, 2015

Para saber com quem estamos a lidar- pirilampos ou pessoas é tudo o mesmo.


Muita gente se aflige ao lidar com determinada pessoa, não sabendo o que ela vai fazer a seguir. Isto é complicado quando se trata de quem não se conhece bem, mas não tanto quando é ao contrário...ninguém age muito diversamente da sua natureza. O ser humano é um bichinho previsível. Se alguém é teimoso, não se pode esperar que comece a ceder a tudo; se é vaidoso...já se sabe onde está o ponto fraco. Se é dado a repentes...há que esperar que lhe passem. E assim por diante. Logo, ou se gere a situação aceitando cada um como é e procedendo de acordo, ou mais vale desistir porque ninguém se entende mesmo. Não se pode esperar que um gato relinche, que uma cerejeira dê pêras, que o sol nasça à meia noite, que os pirilampos façam barulho em vez de brilhar. É a vida.



Dois remédios contra a ganância e a soberba



Ganância e soberba são dois males discretos, que andam por aí disfarçados de virtudes.

 O esprit dù siecle convida a que se demonstre garra, ambição, assertividade, determinação e confiança (estamos na era da selfie, e isso diz tudo). 
Isto faz com que se confunda ambição saudável com ganância, e soberba com um certo orgulho nativo, com uma dignidade inabalável que não é incompatível nem com a humildade que convém aos grandes, nem com a modéstia que é apanágio dos sábios. 

Depois, o materialismo da nossa época influencia as pessoas a agarrar-se a coisas, em vez de usufruírem delas com o devido desprendimento. Não se deve ser perdulário, mas por vezes, na ânsia de aproveitar ao máximo as alegrias materiais que a vida oferece, a maioria esquece que isso passa num instante e do mundo não se leva nada. Se meditarmos nisto, não vale a pena perder o sono por causa de um carro bonito, de prestígio social ou da última it bag

  Quem é ganancioso e soberbo perde mais do que ganha: perde paz de espírito, porque nunca está satisfeito; tenta constantemente impressionar, superar, amesquinhar ou bajular os outros; qualquer coisa melindra o seu frágil ego e passa a vida a invejar, a ressentir-se, a comparar-se com os demais. 


Perde elegância, porque quem pensa demasiado de si mesmo e se embevece com as suas conquistas nunca é capaz de se criticar a si antes de reparar nos males alheios, de se pôr em último lugar (é o tipo de pessoa que causa complicações no trânsito e nas filas) de se fazer leve, de estar à vontade (ora se sente inferiorizado num ambiente mais selecto, ora se dá ares junto de pessoas que considera "gente humilde", ora entra em modo "você sabe com quem está a falar?" ). 

Perde ocasiões de ser feliz, porque se coloca num pedestal de tal ordem que não sabe perdoar nem dar o desconto: espera muito pouco de si, mas perfeição de quem o rodeia. Quer ter tudo, dando quase nada em troca. E por fim, também desperdiça boas oportunidades de aprender, de se aperfeiçoar. É bom ter confiança em si mesmo, mas achar que se sabe tudo, que não se comete erros, é convidar desgostos e vexames. É verdadeiro que quem se exalta será humilhado. Verdadeiro e lógico...

Há sempre alguém maior - mais bonito, mais talentoso, mais sortudo, com mais vantagens de nascimento, mais meios, mais talento. De qualquer modo tudo isso é relativo, portanto é ridículo obcecar-se com competições vãs.


 Sem essa elegância do espírito,  sem a  noção de que a vida dá e tira logo é inútil maçar-se com isso, sem o desprezo pelas vaidades do mundo, não se pode sequer usufruir delas em paz e sossego.

 Por exemplo, a rapariga vaidosa que teve a sorte de nascer bonita nunca se sente feliz, porque anda no terror de que outra lhe faça sombra, de engordar, de envelhecer; o ganancioso que enriqueceu passa a viver no medo da ruína; a celebridade que alcançou o êxito teme cair no esquecimento, dando-se a figuras patéticas para continuar a ser notada...e assim por diante.

 Ora, contra esses males, duas elevadas almas portuguesas escreveram verdades que são grandes remédios: a respeito de ganância e soberba, recomenda Gonçalo Fernandes Trancoso que "nem por alteza de estado nos ensoberbeçamos, nem por baixeza, desesperemos" e dá como exemplo um certo fidalgo de Veneza que era felicíssimo pois além do respeito de todos e de uma esposa que amava, possuía a riqueza necessária para viver "em honra e quietação"

Ora, é essa a prosperidade a que se deve aspirar -  ter a segurança que permite viver em paz  (e que difere consoante o gosto, estado e  condição de cada um) honestamente, sem andar em aflições. Desesperar-se por mais do que isso é ganância e vaidade.

  Sobre soberba, relata D. Luiz de Lancastre e Távora acerca da educação da Marquesa D. Leonor: "o que tantas vezes os pais lhe havia dito sobre a vacuidade de ufanar-se de coisas que só ao acaso se deviam (...) o orgulho pode ser legítimo...mas só quando não assume a forma de arrogância".

 Possam todas as pessoas sensatas viver em honra e quietação sem se ufanarem do que é frágil, perecível e  fruto do acaso. Vanitas vanitatum et omnia vanitas...

Tuesday, May 5, 2015

Only know one way to love




"I only know one way to love, my lord- and that is

 body and mind and soul."


Esta frase vem de um filme em que a personagem que a diz jura falso (Guinevere, uma mulher com um coração demasiado espaçoso e pouco juízo) mas as palavras não deixam de ser verdadeiras: ou se ama muitíssimo, ou não vale a pena brincar aos amores. E quem ama com tanta intensidade, com o único tipo de paixão em que é meritório gastar o tempo,  não pode regular a força dessa emoção como quem escolhe o nível de calor de um secador ou de um forno.


  Um dia convém, noutro já não se sabe; num dia avança-se, no outro o medo ou o orgulho fazem erguer as barreiras; ora se está capaz de arriscar tudo, ora o egoísmo, os erros passados, a cobardia e a soberba falam mais alto. Em Amor de Perdição, Simão Botelho confessa, falando de Teresa: Sabe que estou ligado pela vida e pela morte àquela desgraçada senhora? O amor dele não se altera um milímetro por estar condenado; é o que é, for better or worse. Morrendo Teresa, ficando Simão desquitado da sua promessa e sozinho, mesmo assim não teria coração para dar a outra.


  Mas nem um amor desses - extremo, despótico, possessivo, incurável, eterno, irremediável, dos que impossibilitam para todo o sempre a capacidade de sentir da mesma maneira por outra pessoa e podem não matar mas também não morrem -  floresce a meio gás, de reserva, funcionando só com a alma, ou só com a mente, ou só com o corpo, preso a  juramentos implícitos, fiado na comunhão das almas, à espera do momento e lugar adequado. Se o ser amado é ad aeternum  o ideal, a figura que se imagina perfeita e cuja fímbria das vestes não se toca com receio de abalar essa crença, o arm candy que fica bem ter ao lado, a obra que se gosta de contemplar mas se receia descobrir não vá o encanto quebrar-se, não resiste. Permanece, mas como uma cidade lendária onde não mora ninguém, envolta em brumas e sem valor real; porque o amor pode ser eterno, mas os homens não; nem as mulheres...

Met Gala: quando o politicamente correcto dificulta o dress code

Um dos vestidos presentes na exposição que
 deu o mote para a gala (Alexander McQueen, 2006)

A gala Met (Costume Institute Gala) é sempre muito aguardada. Mas este ano, como o tema para o dress code era a exposição "China: through the Looking Glass" (que celebra, precisamente, a estética chinesa e a sua influência na moda ocidental) houve logo quem lembrasse que havia de se ter cuidado "para não ofender" e para evitar qualquer "apropriação cultural" (como?) usando algo que fosse vagamente uma caricatura.


Outra imagem promocional da exposição (vestido John Galliano)

  Ora, qualquer pessoa de gosto e não completamente ignorante concordaria com os argumentos óbvios "não vão para lá de traje de carnaval comprado no bazar chinês da esquina nem com pauzinhos na cabeça pois enfim, é a Met Gala e não o entrudo no club Sonero Caliente nem vestidas de geisha, porque, nota bene, as geishas e os kimonos não sêle chinês, sêle japonês" (Jesus,  Duarte e Companhia seria crucificado nos tempos que correm). 

Mas quando a  premissa de uma festa é, passo a citar, "explore the impact of Chinese aesthetics on Western fashion, and how China has fueled the fashionable imagination for centuries" 
torna-se um bocadinho ridículo falar de apropriação cultural, esse modismo paranóico que de repente está por todo o lado. 


A imbatível Fan Bingbing durante a festa

 Seria o mesmo que chamar racista a um vestido com padrão de Lenços dos Namorados do Minho, criado por um designer francês para uma festa cujo tema fosse A Influência Portuguesa no Mundo na Moda (que com muita pena minha, acho que não tem bases para acontecer). Ou uma actriz americana inspirar-se no look de Amália Rodrigues para aparecer na dita festa, e os lusitanos vaiarem-na por estar "a fazer pouco de nós". 

Há uma linha que separa a fantasia e celebrar uma determinada cultura de não fazer a devida pesquisa aos seus elementos antes de se inspirar nela. Chama-se bom gosto - tudo o resto cai no modismo paranóico da apropriação cultural, do pânico de ofender.

  Voltemos a imaginar a tal festa A Influência Portuguesa no Mundo na Moda: ofensivo seria as convidadas aparecerem vestidas de sevilhana.  Tudo o resto - saias da Nazaré, vestidos de noiva do Minho, xailes de Tricana...era uma homenagem bem vinda. 

Do mesmo modo, se num evento dedicado à moda chinesa não aparecer seda bordada, encarnado e amarelo imperial, peónias, jade, salgueiros, dragões, fénix, brocado, veludo dévoré, borlas e outros elementos à mandarina nem cheongsams ou qipaos...mais vale não haver tema e pronto. 


Rihanna, em Guo Pei - espampanante mas a condizer: couture chinesa, amarelo Imperial, bordados e seda

Ao pensar no dress code para tal ocasião, as linhas de orientação são indiscutíveis: a dinastia Tang, Xangai nos anos 30 e os filmes de Zhang Yimou.  Marcas de luxo e designers chineses, como Yang Li ou a maravilhosa Shanghai Tang.



Fei Fei Sun, de Michael Kors e brincos de jade

 Mas com todo esse receio presente, caiu-se numa confusão ainda maior do que a costumeira neste tipo de eventos. Houve looks muito bonitos, mas podia ter sido bem melhor se as convidadas não sentissem tanto medo de errar. Ora vejamos:

Quem acertou:
Emily Ratajkowski (Topshop), Georgia May Jagger (Gucci), Emily Blunt (Prada) a lendária Gong Li (com uma abordagem clássica em Cavalli) Irina Shayk (Atelier Versace) Diana Agron (Tori Burch) Joan Smalls (Roberto Cavalli) Bee Shaffer (Alexander McQueen)

Anna Ewers optou pelos adornos de cabelo em forma de ramo de salgueiro; Bella Hadid; Karolina Kurkova; Kate Hudson (Michael Kors) Liya Kebede de e com Philip Lim; Lizzy Caplan (Donna Karan Atelier).

Sienna Miller (Thakoon) Wendi Murdoch (Oscar de la Renta) e Zendaya (Fausto Puglisi)


Lauren Santo Domingo (Proenza Schouler)

Quem não fez o trabalho de casa:
Karen Elson, como outras personalidades presentes, optou por um magnífico Dolce & Gabbana: o único problema é que o look teve mais inspiração bizantina do que chinesa (embora o toucado pudesse adaptar-se, com outro vestido). Já Lady Gaga (Balenciaga) deixa algum lugar a dúvidas: com o obi, a escolha de cores e as mangas totalmente largas, recorda mais uma oiran ou tayu (cortesã  japonesa) do que uma concubina do Imperador (que me parece ter sido a ideia aqui). 

Quem ao menos fez o esforço:


Alexa Chung (Erdem)
Jessica Hart (Valentino)

Lizzie Tisch

Amal Clooney (Margiela) o encarnado majestoso sempre dá o toque;  Justin Bieber (Balmain) Janelle Monae, Chloe Sevigny (J.W. Anderson) emma Roberts (na dúvida, usou seda verde e um dragão na clutch) Hailey Baldwin (Topshop) Naomi Campbell, com um Burberry em dévoré.

Quem exagerou e seja o que Deus quiser:


Grace Coddington com o mais simples e literal: um fato-pijama em seda
Sara Jessica Parker, com vestido H&M e acessórios Cindy Chao: um toucado menos espampanante e estaria belíssima; Solange Knowles, que levou demasiado a peito a inspiração nas porcelanas com este "vestido-jarrão" de Giles Deacon; Tabitha Simmons, também de Dolce & Gabbana,

Quem jogou pelo seguro e foi à ocidental e mais nada (ou seja, a maioria):


Cara Delevingne (Stella McCartney)


Jamie Bochert, Kate Beckingsale (Diane Von Furstenberg) Katy Perry (Moschino) Julianne Moore (Givenvchy Haute Couture) Caroline Trentini (Atelier Versace) Madonna (Moschino)


Quem, face a tanta baralhada, optou pela abordagem "vai nua que fazes um sucesso" ou "ir nua é menos ofensivo do que caricaturar a cultura dos outros" levando um naked dress a expor as abundâncias: 

Jennifer Lopez (Atelier Versace) Beyoncé (Givenchy) e Kim Kardashian ( Roberto Cavalli)


Monday, May 4, 2015

As coisas que eu ouço: duas de bradar aos céus


1- É sabido como é penoso conseguir que um matrimónio celebrado pela Igreja Católica Romana seja considerado inválido ou nulo (por muito que isso desagrade a imensa gente na era em que as relações são descartáveis e poucos têm vontade de cumprir regras mas ao mesmo tempo adoram assinalar a ocasião com os sininhos todos). Porém, conheço casos de pessoas que o conseguiram. Um deles, o de uma senhora que - ou não fosse ela americana-  foi mesmo assim uma cena à Hollywood. Nunca me contaram os detalhes, mas a verdade é que conheceu um indivíduo não sei onde, apaixonaram-se, casaram...e ele quis assassiná-la em plena Lua de Mel. Tentou atirá-la borda fora durante o cruzeiro, nem mais. Sempre gostava de saber onde terá ela conhecido tal biltre, se terão chamado o Poirot para averiguar a ocorrência, como se arranjaram até o barco atracar e, mais importante, como é que não viu os sinais, porque os maluquinhos costumam dar pistas. Certo é que escapou e se desligou do escroque tanto no céu como na terra, que foi um ar que lhe deu. É caso para dizer, como uma pequenita minha conhecida "mas como é que casaste com esse homem? Foi mesmo amor à primeira vista!" . Ou para exclamar, como se diz na minha terra, "rai´s te partam, casamento".




2- Uma amiga minha (habitualmente super organizada) andou tão desatinada esta semana que - entre outras calamidades-  inundou a casa de banho enquanto trocava mensagens no telemóvel. Não contente com isso, antes de dormir pôs as lentes de contacto num copo (esquecera-se da caixinha das lunettes) e a meio da noite deu-lhe sede, encheu o copo com mais água e zás- bebeu água e lentes e tudo. O caso é considerado um mito urbano, mas não é inédito: depois de nos termos rido bastante com o disparate, dei-me ao trabalho de pesquisar e parece que já houve até pessoas famosas a fazer o mesmo.


  Ficou super enjoada com este levar a extremo do ditado amiga é nossa barriga e não há-de ela doer que lhe deixou a sensação de ter borboletas na dita cuja sem ser por uma razão boamas diz ela que agora vai apurar a sua visão interior.

Olha se os gurus de auto ajuda descobrem esta...

Os tiranetes emocionais (o carisma não é tudo).


Já vos tinha contado que ando a acompanhar os especiais do Canal História sobre Hitler e a II Guerra: cada um analisando o cenário por  diferentes ângulos e com espectaculares imagens, algumas inéditas e a cores.

De todos, recomendo vivamente este programa produzido pela BBC com base em entrevistas realizadas ao longo dos últimos 20 anos a testemunhas de todos os lados  (vítimas, diplomatas, simpatizantes, civis, militares...)  na tentativa de esclarecer como foi possível que alguém tão vulgar como o menino Adolfo arrastasse milhões para o precipício. Um enviado da Coroa inglesa descreveu-o na perfeição: "não era um cavalheiro...tratava-se do cãozinho mais banal que imaginar se possa".

 Apesar de todas as condicionantes, a desgraça não teria sido grande se Hitler não fosse um líder carismático: a dizer o que o povo ansiava por ouvir,  iluminado de todas as certezas mirabolantes, muitíssimo cheio de si (nem sequer ouvia conselheiros para não comprometer o seu "brilhante raciocínio inspirado pela Providência") capaz de jogar com os ódios e frustrações do vulgo, de falar ao coração (ou à falta dele) de cada um e habilíssimo quer a deitar as culpas aos que o rodeavam (ou seja, em passar a ideia de que o Führer nunca tinha a culpa toda e de que se passava muita coisa que o Führer, coitadinho, nem sonhava...) quer a eliminar toda e qualquer oposição, mesmo entre os seus.


 Uma data de truques de guru de auto ajuda (olhar as pessoas nos olhos, apertar-lhes demoradamente a mão, etc) e um talento (genial, isso ninguém lhe tira) para a organização de eventos e para criar uma imagem majestosa (as paradas, os uniformes, as gritarias de Sieg Heil! etc) faziam o resto. Podemos pensar como o curso da História seria diferente se Herr Hitler, em vez de andar a planear uma destruição nunca vista, se ficasse por empregar os seus dotes artísticos para ser Herr Hitler, produtor de festas com grande cenografia inspirada nas óperas de Wagner, orçamentos grátis para noivas puramente germânicas dos quatro costados.

Mesmo os que acharam, a início, tudo aquilo uma patacoada perigosa de um revolucionário excêntrico acabaram por se convencer. Se ainda hoje as imagens impressionam, sabendo o que sabemos, é compreensível.

 O pormenor que achei mais interessante, porém, foi realçarem que o sucesso de um líder carismático depende de corresponder, em resultados, à imagem que cria para si. E isso foi a derrocada de Hitler. Prometer é fácil; dizer que os alemães eram o povo mais lindo, mais vigoroso, mais tudo à face da Terra também, porque é tudo uma questão de perspectiva e cada um crê no que lhe dá jeito. Usando a fórmula de Maquiavel, tudo isso era virtú: obra do próprio. O pior é que qualquer líder, mesmo este, tem de se ver com os ventos da Fortuna, que não estão na sua mão: neste caso, a pouca vontade dos Britânicos para lhe sofrer os desvarios e o terrível Inverno Russo, entre outros factores. 


E aí já a virtú lhe faltou - graças aos Céus - pois crente na sua invencibilidade, foi incapaz de dançar conforme a música. Continuou fiado numa vitória impossível e a usar precisamente os mesmos métodos. Pior - continuou a exigir fé e lealdade, independentemente dos resultados e da sua actuação.

Claro que o povo murmurou e começou a pôr em causa se, face a tanta desgraça e com os vermelhos à porta,  o líder não teria dado um passo maior do que a perna. E que fez ele? Mandou fuzilar quem se queixava, e não eram poucos,  por... "derrotismo".

Dali a pouco, foi o que se viu.

 Sem querer comparar o incomparável, sem querer hiperbolizar mas já hiperbolizando, há muita gente (e não necessariamente más pessoas) que faz um bocadinho como o Hitler. Ou antes: age como se fosse o Hitler e as pessoas próximas, o povo alemão. É super cativante quando faz por agradar. Depois julga que já tem tudo na mão e que, aja como agir, quem está à volta continuará preso do seu carisma, do seu apelo, não importa quais sejam os resultados ou as consequências. Se vê que não é assim, que nenhuma devoção é 100% incondicional e que a lealdade tem de ser bilateral (ou então não é lealdade, é escravatura e um pulinho para o abismo) espanta-se imenso, sente isso como traição, arma o fim do mundo porque quer palmas na mesma. Carisma não é tudo na vida, não há fascínio que sempre dure se não for acompanhado de uma dose de realidade, nem ninguém fica hipnotizado para sempre...



Sunday, May 3, 2015

Frase do dia: diz-me o que lês, dir-te-ei quem és.



"Os bons livros pertencem ao próprio lar para onde foram levados"


Esta semana comprei mais uma edição de uma das minhas obras preferidas - tenho esta mania, até por causa de outra mania: como sublinho e faço anotações, gosto de ter um exemplar mais modesto para não estragar as versões antigas, bonitinhas e encadernadas...quanto mais amo um livro, menos respeito lhe tenho, é um facto.

A frase acima vinha então na nota do editor do referido livro-comprado-para-reler-e-riscar -sem-dó, e deu-me que pensar. 

Poucas coisas dizem tanto das pessoas como um rápido olhar à sua biblioteca (ou à sua lista de livros favoritos nas redes sociais, que vai dar mais ou menos ao mesmo). 

É uma daquelas pistas essenciais para um bom profiling, tão eficaz como notar as subtilezas no vestuário (as aparências podem enganar, mas também esclarecem muita coisa a um observador experiente) ou na linguagem. As leituras que uma pessoa faz  - ou mais eloquente ainda, os livros que tolera - desmascaram mais fachadas que um bom desmaquilhante. São as coisas que não suportamos, mais do que aquelas que se apreciam, que denunciam verdadeiramente o carácter, o gosto e a bússula moral de cada um. Em suma, cada casa tem os livros que merece e os que lhe são necessários ou condizem com os hábitos, referências e estilo de quem os compra...

 Podemos dar o desconto a quem sabemos ser um leitor compulsivo, trabalha na área editorial ou compra livros por atacado (já o fiz e juro que andei meses a desfazer-me de porcarias). Estas pessoas podem ter em casa livros que passam adiante pouco depois de lhes dar uma olhadela na diagonal, e isso não conta.  Mas regra geral o conteúdo da livraria (salvo seja) põe rapidamente a nu o curioso, o poseur, o que não gosta de ler (banda desenhada que lhe ofereceram e um qualquer livro da moda escrito por um qualquer pivot de telejornal) o sonhador inveterado, o ingénuo, o alpinista social, a desmiolada ( testemunho lamechas de uma celebridade, literatura light pseudo erótica) o imaturo  - ou que não leu muito mas gosta de fingir que enfim, leu alguma coisita para não parecer parvo de todo (A Lua de Joana, Os Filhos da Droga, o Principezinho e, para dar um ar de profundidade, Fernando Pessoa) o aspirante a escritor (livros publicados por outros autores praticamente anónimos, Nicholas Sparks, poesia sem grande critério) e tantos outros tipos. Isto sem falar na profissão, condição e background de cada um. E quanto mais instruído o sujeito, mais contrastante pode ser o veredicto da estante, passe a rima...


 Lembro-me de um caso que foi claro como água. Uma conhecida minha, amiga de uma amiga, não era má rapariga mas sempre me pareceu um pouco superficial - do género que tem mais ambição do que miolo e tenta a muito custo refinar-se. Vinha de uma família simpática mas sem meios nem estudos e nada na sua conversa fazia entrever grande sensibilidade, quanto mais mundo. Por isso fiquei bastante surpreendida quando soube que era uma aluna excelente, com vários prémios na faculdade, mas quem sou eu para julgar o intelecto dos outros... Finalmente, quando estive em casa dela, olhei-lhe para a estante, que era bastante parca...e estava explicado. Além dos livros de Direito  só lá estavam meia dúzia de romances light, do mais básico que imaginar se possa, e se não estou em erro, um Paulo Coelho. Nem um só clássico da literatura, um Aristóteles, um Platão para leitura complementar, os Lusíadas que fosse! 

Todo o seu pensamento, todas as suas referências, vinham do propósito (legítimo, mas mercenário) de subir na escala social para se parecer com as personagens daqueles Sexo e a Cidade à portuguesa. Era, afinal, apenas uma rapariga muito esforçada.

  Mais tarde a mãe, coitada, veio contar-me, desvanecida, que ela se tinha mudado para a capital porque sempre fora muito cosmopolita - confirmando a noção delirante de que se pode ser cosmopolita toda a vida sem nunca ter arredado pé da santa terrinha. Zás, tinha de vir o palavrão, aprendido sem dúvida nas páginas dos folhetins...



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