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Saturday, May 23, 2015

Deixem o Mar em paz!


Parece que mais uma vez, Portugal não ficou bem colocado no Festival da Canção. E parece que, como de costume, levou outra cantiga sobre...o mar. Quando não é o Fado, é o mar. Quando não é o mar, é o Fado. 

 Nada contra o Fado nem contra o mar. Nada contra a canção ou a intérprete que de resto, nem ouvi bem.

Como não vejo televisão generalista nem sequer tenho opinião, reparem, quanto a valer a pena continuar a gastar meios para participar num certame que já não vale o que valia, que está cada vez mais parecido com um freak show, que - desculpem a franqueza - se fez um bocadinho eurotrash, onde nunca nos deram grande troco, que tem um sistema de votação esquisitíssimo com mais lobbies do que a máfia siciliana (dizem uns) e/ou com os vizinhos a votar todos uns nos outros (dizem alguns). 

Percebo que, se calhar, para algumas cabeças seja ponto de honra Portugal ganhar alguma vez, já que andamos desesperadamente a tentar há décadas (e claramente, a fazer mais esforço para agradar "lá fora" do que para escrever uma canção com pés e cabeça).

  E sou tão compreensiva com esta ilusão teimosa que até dou desconto a que tendo nós, coitaditos, apenas como vizinhos a Espanha e o Mar e não sendo boa ideia compor odes a Espanha, nos fuja a falta de imaginação para o mar.

O mar é daquelas coisas que andam de noite, assim neutras - como o infinito, o silêncio, a dor, o destino e o amor - que está mesmo à mão quando se tem preguiça ou falta o talento para a escrita. Não que grandes autores não tenham usado estes temas (de Fernando Pessoa a Marguerite Duras) mas são assim um pouquito óbvios.


 Dito isto, lá porque estamos entalados entre Espanha e o Mar - condicionantes que nos empurraram para a grandeza dos Descobrimentos, certo, mas essa não foi a única grandeza que tivemos mesmo que queiramos viver da História -  e tudo isto é fado, não temos de usar sempre essa desculpa esfarrapada. Falar sobre o mar em cada canção só porque  é para inglês ouvir é o mesmo que enfiar um panfleto turístico pelos olhos do júri dentro. Os estrangeiros hão-de julgar que não pensamos em mais nada. Imaginem se os russos só cantassem sobre a neve, ou os italianos sobre macarrão. É mais ou menos o mesmo. Sim, temos o mar mas também temos dores de cabeça, e dias bons e dias maus, e sonhos como toda a gente - tudo emoções que costumam inspirar os autores e com que os ouvintes se identificam.

 De mais a mais, há países tão cercados pelo mar como nós ou mais, e não os vejo a fazer essas figuras na sua música. Inglaterra, pátria de alguns dos maiores êxitos do pop e do rock, nunca se ralou com o facto de ter o mar à volta. Não sei muito sobre a pop japonesa mas suponho que poucas cantigas falem de "ai ai, vivo num país insular, que desgraçada sensação". 



  O problema é que Portugal é como certas crianças que cantam muito bem quando estão sozinhas, mas mal os pais babados lhes pedem que repitam a proeza à frente dos convidados perdem a naturalidade, cantam baixinho com voz de mimo e estragam tudo.

 Há demasiada preocupação em criar o tema que "vai ganhar o festival". Basta ver que a cada edição se mudam as regras, pensando que assim é que se vai acertar... quando bastava, se calhar, não levar uma cantiga escrita de propósito para a ocasião. Embora haja fórmulas provadas que resultam (na música pop, pelo menos) a  maioria dos grandes hits não foi escrita de encomenda.

  Canções como Umbrella (que acabou por se tornar conhecida pela voz de Rihanna) foram inicialmente oferecidas a outras cantoras. Andaram meses na gaveta, às vezes mais.

Deviam procurar-se músicas - não importa tanto a língua em que são cantadas - que fossem orelhudas, que ficassem no ouvido, que arrepiassem, que fossem boas para a rádio, que funcionassem no festival, sim senhor, mas principalmente fora dele e depois dele. Veja-se o exemplo dos ABBA, que deram nas vistas com Waterloo mas havia muito mais material de onde aquele tinha vindo.

E de preferência, sem o mar ao barulho. É que sinceramente, já enjoa e assim como assim, quem fala outras línguas nem percebe o que é que "mar" quer dizer.

Traditions - a propósito da relaxaria em Cannes




Ontem um texto que li recordou-me aquela canção do musical A Fiddler on the Roof, "Tradition".

Penso que as palavras do herói se aplicam a qualquer cultura, modo de vida ou época - e a vários aspectos da existência: todos somos como violinistas no telhado, tentando apanhar uma bela melodia sem cair. E como se mantém o equilíbrio? Através da tradição. Às vezes não sabemos como certas tradições começaram, mas por causa delas todos sabem o seu papel; cada um sabe o que é esperado de si.

Embora o mundo pule e avance e se mudem os tempos e as vontades (nem sempre para melhor) os procedimentos, os hábitos, os protocolos, as regras de conduta, de civilidade, de etiqueta, de vestuário, oferecem-nos um guião, uma moldura, expectativas e limites, linhas de orientação. Quem não sabe minimamente como proceder nunca estará confortável em lado nenhum.  Quando todos conheciam as regras, todos sabiam o seu papel, tudo encaixava sem grande esforço. Basta pensar que se  todos pusessem o próximo em primeiro lugar, como antigamente, tentando não causar incómodos, cada um de nós estaria sempre em primeiro lugar nas prioridades alheias e tudo funcionava como um relógio. Mas hoje, com o aligeirar dos bons costumes e o egoísmo que se instalou, é uma baralhada total.

 Esta semana houve grande polémica porque no festival de Cannes, algumas celebridades se sentiram indignadas pela "obrigatoriedade" de usar saltos altos na passadeira encarnada. Muitas bradaram mesmo "o que eu queria era vir de sapatilhas!" ou, mais disparatado ainda, "que regra machista! Por acaso os homens usam saltos altos?". A pressão foi tanta que a organização já veio desculpar-se, dizendo que nunca houve uma determinação exacta quanto à altura do calçado.



 Ora, vestido de cerimónia (ou mesmo cocktail) "pede" ou "recomenda" saltos altos - mesmo que não "exija" com todas as letras. Obviamente não têm de ser vertiginosos e poderão dispensar-se por questões de saúde ou mobilidade (eg: grávidas, senhoras com algum problema crónico ou que tenham sofrido um entorse ou intervenção mas não possam de todo faltar) havendo para essas situações sabrinas elegantes, por exemplo. Mas de preferência, usem-se - tal como as meias transparentes num casamento, mesmo de Verão. 

É apenas um detalhe no todo, porém, se não nos habituamos a reparar nos detalhes, deixamos gradualmente de prestar atenção ao essencial. 

Esta rebeldia gratuita, este desleixo, é mais um triste reflexo daquilo que se disse aqui recentemente: se uma cerimónia não tem um guião, não tem códigos, não tem regras, ninguém sabe a quantas anda. Vivemos numa época de descontracção, de informalidade, de facilidade, de rapidez, de vale tudo. O à vontade excessivo - de que o vestuário é só o exemplo mais visível- instalou-se em vários aspectos da vida, a começar pelos mais mundanos. E essa descida de padrões acaba por não ser divertida sequer. Há todo um sentido de ritual, uma antecipação, uma preparação alegre que se perde. 



Ao ser convidada para uma festa, uma mulher tem a responsabilidade de fazer obedecer (e se possível ou necessário, elevar) os padrões. De cada convidada se espera que contribua para a beleza do ambiente. Imaginemos que uma se esquece, que outra não sabe, que outra ainda recusa adequar-se ao dress code, e assim por diante...se todas assim procederem, de ano para ano, deixamos de ter um evento especial para ficar com uma coisa igual a todos os dias. E quando se fala de Cannes - uma das últimas mostras públicas de modas & elegâncias que vai mantendo o brilho de antigamente - mais grave se torna.

 Ou como diria a "Condessa" de Gencé, "a naturalidade, desafectação e a maleabilidade das regras  não significam o seu abandono".

  Já são tão poucas as ocasiões de usar algo especial sem parecer overdressed, que não se percebe esta birra, esta desobediência sem sentido. Todos os dias se podem usar ténis e saltos rasos, jeans e t-shirts. Porque não tirar partido dos dias extraordinários? E em última análise, ninguém é obrigada a passar pela passadeira encarnada, nem mesmo a assistir à estreia. Quem não quer, fica em casa ou pede para entrar pela porta dos fundos. O mais estranho é que muitas das que reclamam não se ralarão de usar saltos assassinos para ir à padaria...

 Pressionar a organização do festival via redes sociais para aligeirar o código de vestuário não é só ridículo: é um atentado à ordem, à tradição, a tudo o que faz de Cannes, Cannes.  E receio bem que tendo esta cedido a tal abuso, podemos dizer que a decadência é obrigatória. Daqui a nada, vai-se para os óscares de pantufas. Também é só o que falta: quando se vêem mini saias em baptizados, já nada me espanta.














Friday, May 22, 2015

Rita: a Santa paciente (e uma mulher como nós)


Hoje recordaram-me que se comemora o dia de Santa Rita de Cássia, por quem tenho especial carinho desde a adolescência. Um dia, depois da escola,  encontrei na Igreja uma pequena pagela que algum devoto deixara e senti-me instantaneamente atraída pela sua história. O  apelativo título de "Santa dos Impossíveis" também ajudou a despertar a minha curiosidade...

Pouco tempo depois vi-me na necessidade de fazer à minha nova amiga a mais ingénua das novenas...e olhem que me atendeu mesmo. Pelo menos eu achei que me tinha "concedido" um desejo que se me afigurava impossível. Em boa verdade, eu não tinha pedido tanto. Limitei-me a suplicar que determinada coisa não corresse muito mal, e esse evento acabou por correr extraordinariamente bem -  de um modo que eu não me atrevera a sonhar sequer, com consequências a longo prazo. Talvez a Santa me tivesse achado graça, talvez a minha fé fosse muita; mas bastou para me confirmar que a reputação era mais que merecida. 


 Desde que foi beatificada em 1627 (embora fosse alvo de grande devoção popular ainda em vida ) Santa Rita é - um pouco a par com S. Judas Tadeu, padroeiro dos casos desesperados - uma espécie de último remédio para situações complicadas, doenças incuráveis e negócios difíceis. Porém, a fé popular não se fica por aí: há mesmo a tradição de recorrer a curiosas orações à Santa para saber uma resposta, adivinhar o futuro ou a solução de um problema espinhoso, por exemplo.

 Sendo padroeira das mães - e por ter sofrido muito às mãos do marido - Santa Rita de Cássia é particularmente querida pelas mulheres. E um belo exemplo de paciência, humildade e perseverança.


 Margherita ("Rita" era um petit nom carinhoso) nasceu em Roccaporena, no centro de Itália, em 1381, filha de um casal de camponeses piedoso e muito respeitado na terra. O seu próprio nascimento foi considerado uma espécie de milagre uma vez que os pais, de uma certa idade, não contavam já com herdeiros.

  Segundo as lendas associadas à sua vida, ainda no berço já lhe aconteciam prodígios e mostrou desde sempre uma grande inclinação para a vida religiosa. Porém, os pais temiam deixá-la sozinha no mundo, instando com ela para que casasse. Obediente, Rita acedeu a desposar Paolo Mancini, um belo rapaz de boas famílias mas colérico e nervoso, de maus costumes; embora amasse a sua jovem esposa, não deixava de a maltratar nem de se envolver constantemente em sarilhos. 


 Rita desgostava-se e chorava, como é de imaginar;  mas à semelhança de Santa Mónica, respondia às ofensas com o silêncio, a oração e todas as mostras de afecto. Teve de rezar bastante, mas ao fim de alguns anos conseguiu transformar Paolo, trazendo à superfície o lado bom do seu carácter. 

O casal viveu assim alguns anos de felicidade, tendo dois filhos. Porém, o passado violento de Paolo voltaria para assombrar a família: os seus antigos inimigos assassinaram-no à beira de uma estrada. Ao fim de 18 anos de casamento, Rita encontrava-se agora viúva e com dois adolescentes a cargo - Giacomo e Paolo Maria -  dois rapagões que tinham herdado mais do carácter do pai que da doçura da mãe... 


 Para maior aflição de Rita, os filhos queriam empreender uma vendetta para vingar a morte de Paolo. Porém, a peste levou-os antes. Sozinha, desolada, restava-lhe o consolo de seguir a sua vocação: dirigiu-se ao convento de Santa Maria Madalena das Irmãs Agostinhas em Cássia, pedindo para ser admitida. Porém, recusaram-na por três vezes ( talvez temendo represálias por a família de Rita estar associada ao escândalo de uma morte violenta) com o pretexto de não aceitarem viúvas. 

 De novo, Rita se voltou para as suas orações: e reza a lenda que os seus três Santos protectores São João Baptista, Santo Agostinho de Hipona - curiosamente, o filho de Santa Mónica -  e S. Nicolau Tolentino a transportaram miraculosamente para dentro do convento, onde as boas Irmãs, pasmadas, não tiveram como recusar a entrada àquela "teimosa petulante".


 Mas cedo Rita provou que de petulante não tinha nada: foi submetida a todas as provas, dando mostras da mais dócil submissão. Embora estivesse fechada entre quatro paredes durante a maior parte do tempo, a fama das suas virtudes crescia quer entre as Irmãs, quer junto da população de Cássia, graças à ajuda  que prestava aos necessitados. Incansável, a sua caridade não abrandou mesmo quando adoeceu gravemente, nem quando recebeu um doloroso estigma que a forçava muitas vezes a isolar-se das outras freiras. Logo após a sua morte, aos 76 anos, registaram-se vários milagres e uma grande peregrinação ao Convento.


S. João Paulo II, no VI centenário de Santa Rita, afirmou que mais do que pela sua fama de taumaturga, Rita foi santa pela "assombrosa normalidade da sua existência". Pela capacidade de enfrentar, contando apenas com a grandeza da sua alma, situações dolorosas ou "impossíveis" : um marido caprichoso, filhos rebeldes, a doença, o fracasso, o descaso, a viuvez...a tudo fez frente com serenidade e determinação, com uma mistura muito feminina de resignação e força. Por vezes, os "impossíveis" não têm de ser espectaculares. Alguns dos maiores impossíveis começam dentro de casa, e todas as mulheres podem observar o exemplo de Santa Rita para os levar sem desespero.











Atirar o pau ao gato... e outras violências da semana.



Quem nasceu/cresceu no final dos anos 80/inícios de 90 lembrar-se-á de uma excelente série do mesmo tipo de Os Amigos do Gaspar, que se chamava No Tempo dos Afonsinhos. Protagonizada por bonecos ao melhor estilo de Barcelos e com música de Sérgio Godinho, retratava a vida de um povo celtibero (?) que vivia numa citânia e que afirmava, apesar da distância dos "tempos idos", "não andar longe do que os portugueses são".

E era verdade. Os afonsinhos eram desenrascados, mas sempre prontos a ir com as modas e a assarapantar-se com qualquer nova, tal como os lusitanos de hoje. Não tinham era futebol nem redes sociais; de resto o barro, passe o trocadilho, era o mesmo.


 Nas últimas duas semanas temos assistido não só a um triste festival de violência, como a uma histeria, um exagero, um aqui D´El Rei em consequência disso. 

Depois dos casos de bullying e de um outro realmente trágico que pôs todos os pais do país a pensar em que erros estará a sociedade a cometer, tivemos a violência no futebol e por fim, a violência contra animais na ordem do dia. Sem querer aligeirar, parece ser para compensar as semanas em que os jornais não têm nada para escrever. E sem dúvida, os média aproveitam o "pratinho" muitas vezes com uma falta de isenção e de sobriedade de bradar aos céus.

 O que se passou no Marquês e em Guimarães diz muito de nós como povo, infelizmente: ao ver as imagens, só me lembrava dos Afonsinhos. Foi o quadro completo: houve os adeptos vândalos, o mau polícia para ser crucificado, o bom polícia para puxar à lágrima e tentar conter a fúria popular contra a autoridade, recordando desesperadamente "olhem que a Polícia é vossa amiga" e a pobre criancinha aos berros, como seria normal nessas circunstâncias, para o schock value. Como notícia, não se arranja melhor.



 Vamos por partes: o Subcomissário foi pouco profissional. O Subcomissário tinha de respeitar os procedimentos como lhe compete (e aqui entre nós, se ia perder a cabeça e largar à bastonada, não faltariam lá brutos merecedores, não havia que descarregar em velhinhos e pais de família). Foi mal feito? Foi, porque para desautorizar a autoridade já basta o que basta e a cada elemento das Forças de Segurança compete zelar pela honra da farda.

 Mas por favor, senhores, chamemos as coisas pelos nomes : três cacetadas e uns empurrões não são "espancar brutalmente" alguém, como o Correio da Manhã tratou de repetir ad nauseam com o ar mais lamechas deste mundo. Tenho por "espancar brutalmente" deixar uma pessoa assim que nem a alma se lhe aproveita, não a chorar com duas zurzidelas. 

Eu que sou mulher não me aterrorizava por tão pouco. Andamos aqui há dias e dias a discutir apaixonadamente dois sopapos entre dois homens, que noutros tempos dali a pouco já não era nada e se resolvia com uma rodada no botequim mais próximo. Estilo Asterix. Ou a nossa versão, os Afonsinhos.

 Na terra dos meus avós todas as semanas havia picardias com a GNR - ora à conta do futebol, ora em épocas mais recuadas, por pouca simpatia com a República. Os guardas davam umas traulitadas nos machos alfa lá do sítio, noutro dia os machos alfa lá do sítio devolviam a gentileza, era como no Fado "palavra puxa palavra, desata tudo à estalada para um posto ali ao lado". Ou como diria Eça de Queiroz, "no fundo todos nós somos fadistas: do que gostamos é de vinhaça, e viola, e bordoada, e viva lá seu compadre! Aí está o que é!". Ou o que era, porque agora está tudo muito sensível, pelo menos quando se trata de apontar o dedo à polícia.

Nada disto desculpa, atenção, a má atitude: mas há que pensar nas consequências, na forma como estamos a tratar publicamente quem nos defende. Porque, caros cidadãos ordeiros e muito indignados, se vos assaltarem a casa é escusado chamar os adeptos do Benfica, ou de outro clube qualquer, para vos virem acudir. 

  E a semana terminou com a violência contra os indefesos bichinhos: uma jovem, abençoada seja, terminou o noivado com o companheiro, um rapaz lá do ginásio, por alegadamente lhe ter deixado a gata neste estado depois de uma discussão. Talvez se pudesse noticiar um pobre rapaz não "brutalmente espancado", vá, mas bastante moído de sopapos, e não era a fazer festas como o senhor polícia. Não gosto de violência, mas gosto ainda menos de cobardes. Um dia é na gata, noutro é nos filhos, não?

  Mas logo a seguir foi o caso do exercício de física, em que um menino vândalo atira um gato da varanda e é suposto os alunos calcularem a velocidade a que o pobre bicho aterrava, como se fosse "o Diogo atirou uma melancia; a que velocidade aterrou ela?" (e mesmo isso, era de vândalo!). Ainda se fosse "o Diogo ia a perseguir o gato feito anormal, tropeçou e virou da varanda abaixo- a que velocidade se estatelou o bruto?".

Mal por mal, sempre havia um bocadinho de justiça na violência...

Brutalidades sem sentido e gente atarantada é que não dá.





Thursday, May 21, 2015

Sapatos x conforto: os bons, os maus e os vilões


Por aqui, temos analisado o maravilhoso mundo dos sapatos: dos melhores truques para os conservar impecáveis às escolhas certas para alongar a figura mesmo com saltos baixos, sem esquecer os 10 modelos intemporais a ter no armário.

No entanto, tão importante como o design é o conforto: afinal, nenhuma mulher parece elegante a tropeçar em saltos instáveis ou pior, torturada com dores nos pés (sem falar nos danos para a saúde e na frustração de desperdiçar recursos). A partir de certa altura ganha-se mais sensibilidade para distinguir os maus investimentos (e muita intolerância aos sapatos que só dão desgostos e ocupam espaço). Afinal, o velho ditado "uma senhora não sente dor, nem frio, nem calor" é um bocadinho hiperbólico.

 Claro que escolher marcas de confiança e bons materiais é meio caminho andado; mas quer nas marcas acessíveis quer entre os nomes mais luxuosos, as especialidades (e graus de conforto) variam. Mais importante ainda- um mau sapato "baixo" pode fazer tantos estragos como um stiletto!

Como todas temos de calçar alguma coisa e mais vale fazer boas compras, aqui fica um guia de modelos e marcas para reduzir a possibilidade de erro (e de dor, sapatos danificados, programas estragados e serões a disfarçar a carinha de sofrimento, etc).

*Nota bene: onde se refere "marcas portuguesas/espanholas/italianas" não especificando, procurar em boas sapatarias multimarcas e lojas como a Spartoo ou El Corte Inglés. Por vezes há calçado de excelente qualidade sem um nome famoso*.


 Os mais confortáveis


1 - Mules



Há quem goste, há quem deteste; mas não se pode negar que mules fechados são versáteis (ligam igualmente bem com jeans e looks menos informais) e  quase sempre, uma escolha amiga dos pés: afinal, deixam o calcanhar livre (um problema a menos) não têm tiras a sair do sítio e por muito que o pé deslize, os dedos não batem à frente. Para assegurar que não incomodam de todo, opte por uns com salto estável e que cubram q.b. o pé, não incidindo na frágil zona junto aos dedos.

Escolha sensata: marcas portuguesas  (como Sofia Costa) ou italianas em pele de qualidade. Investimento luxuoso: Michel Perry, Dolce & Gabbana, Walter Steiger (fantástico para versões de festa).


2 - Espadrilles



De origem espanhola, as alpercatas ou espadrilles são talvez o mais confortável calçado de Verão. Universalmente fabricadas numa variedade de modelos, há-as para todas as bolsas. Das versões super acessíveis vendidas em qualquer humilde sapataria da baixa às de marcas especializadas, passando por Zara e H&M até às marcas mais exclusivas, de Tory Burch a Lanvin, Hermès  e Dolce & Gabbana. A melhor relação qualidade-preço? Um par realmente feito em Espanha. Porém, o mais importante é escolher o tamanho certo (o que pode não ser fácil à primeira) bem como assegurar que são estáveis (se forem demasiado largas, podem provocar entorses) sem elásticos apertados, que o material da sola é macio mas absorvente e que o enchimento da plataforma não amolga com  facilidade. As espadrilles certas permitem passear horas e horas por praias, piqueniques, mercados e são um básico para as férias, por isso vale a pena gastar tempo a encontrar umas.

3 - Slingbacks




Já aqui disse tudo sobre eles e aconselho vivamente o complicado trabalho de encontrar uns cuja tira se mantenha no lugar (ou comprar uns de boa qualidade e corrigir o problema da tira com ajuda de um sapateiro capaz).

Boa compra: Zara  Investimento: Pura Lopez, Maud Frizon O must: Bruno Magli



4 - Botas longas (sem zipper)

Falei sobre os melhores modelos aqui, mas quanto ao conforto há que lembrar as regras de ouro: pele suave como manteiga e de preferência, sem fechos. Mesmo as melhores marcas por vezes calculam menos bem a localização do zipper e não há sola macia nem salto estável que compense as atrozes dores nos ossos do tornozelo. Umas botas que se calçam como se meias fossem, rasas ou de salto estável e num material nobre, são companheiras para toda a vida.

  Boa compra: Zara, Pepe Jeans Investimento de luxo: Casadei, Pedro Garcia, Stuart Weitzman, Givenchy


5 - Mocassins de salto médio




Mocassins, ou loafers (rasos ou com todo o tipo de saltos e de modelo mais ou menos feminino) são um clássico. E são também dos modelos mais confortáveis. Uns flats Lacoste ou Bally garantem anos de conforto e uma versão alta ou stiletto Yves Saint Laurent dura eternamente. Porém, o mais confortável e elegante para  o quotidiano é um mocassin preppy de salto médio, quadrado.

Boa compra: Zara, Uterque; marcas italianas e portuguesas em pele. Investimento: Tod´s, Charles Jourdan Versão Luxuosa: Celine  O must: Bruno Magli, Gucci


6 - Scarpins bicudos


Um scarpin pontiagudo com um salto fino, não demasiado alto nem  compensado (mas devidamente isolado na sola) é, por estranho que pareça, o melhor sapato para traje social. A biqueira pontiaguda (desde que não comprima o pé de lado) assegura que os dedos não vão chocar contra a frente do sapato, evitando dores nas unhas (cómico, mas terrível) e como não há plataforma controlamos melhor o impacto das passadas, pousando o pé mais delicadamente - o que previne lesões, entorses e calos.

Boa compra: marcas portuguesas (como a Helsar) e italianas fazem muito bem este modelo clássico. Procure nos saldos, aparecem sempre alguns. Investimento luxuoso: Jimmy Choo, Sergio Rossi, Lanvin, Casadei.


7- Pumps-de-todos-os-dias


O mais "normal" dos modelos - do intemporal Ferragamo ao comum pump arredondado, passando pelos de biqueira quadrada, com um salto médio. Convém ter vários: pelo menos uns pretos e uns castanhos ou camel. 

Boa compra: Lanidor, Zara, Lotuche, marcas portuguesas e italianas. Investimento: Charles Jourdan, Marc Jacobs, Lotusse. Conforto luxuoso: Pollini, Sergio Rossi, Gianvito Rossi, Bruno Magli, Stuart Weitzman, Balenciaga.


8 - Sandálias abertas de salto quadrado
Bottega Veneta

Quando se trata de sandálias, o modelo perfeito para os pés mais sensíveis precisa de uma sola de qualidade, macia mas absorvente, para evitar que o pé escorregue e vá bater contra as tiras. Estas (de couro ou tecido) não devem ser demasiado finas nem apertadas, para não marcar a pele, e convém que a abertura frontal seja ampla o suficiente para deixar os dedos médio e grande à vontade. Se assim não for (um problema muito comum em sandálias) com o calor e o inchaço normal em dias quentes, os pés vão deslizar, especialmente se o salto for alto e inclinado, provocando dores e vergões. O melhor material de todos é o couro entrançado (estilo Bottega Veneta) que é maleável e macio, adaptando-se ao formato do pé sem deformar. As sandálias na imagem acima são o ideal em termos de conforto, mas poderá usar as mesmas linhas de orientação para comprar  umas de plataforma, com um salto maior e/ou mais decotadas.

Boas pistas: marcas espanholas (eg: Hispanitas) brasileiras e italianas; Zara. Se conseguir encontrar stocks vintage em sapatarias antigas, aproveite: poderá ter de as levar a um sapateiro só por prevenção (pois os materiais guardados muito tempo às vezes cedem) mas o modelo é intemporal e o fabrico de outros tempos corresponde muitas vezes ao que hoje se faz apenas em marcas mais dispendiosas. 

Investimento luxuoso: Ferragamo, Bottega Veneta, Pedro Garcia, Dolce & Gabbana, Sergio Rossi.
 
9- Botins de salto texano



Se tiver de escolher só um tipo de botim, opte por este. Dá uma postura elegante mas permite andar horas a fio sem dores nem instabilidade. A única regra é optar pela camurça mais suave que conseguir encontrar.


Os melhores: Zara. Versão luxuosa: Isabel Marant, Valentino



Os mauzinhos


1 - Clogs (ou qualquer soca, tamanco ou sola de madeira)


Abrasivos e peritos em calejar a pele (quando não provocam problemas mais sérios) até à data só encontrei um par que não incomoda de todo. 
Para descobrir uns assim, pense em três pistas: italianos, almofadados e forrados a camurça. Se tiverem algumas aberturas, melhor ainda: mesmo os modelos em couro, se forem totalmente fechados, não deixam a pele respirar (o que faz escorregar, fora o resto). Evite também os exemplares muito altos, que raramente funcionam em termos de conforto e estabilidade. Uma plataforma média, como a destes Gucci (acima) é o melhor. Nota adicional: um salto de madeira partido não tem arranjo, por isso pondere bem. 

2- Plataformas muito altas 



Não resisti a colocar aqui este exemplo extremo (e de mau gosto) daquilo que acontece quando se abusa das plataformas ou cunhas. Embora pareçam à primeira vista mais confortáveis, dificultam o equilíbrio em qualquer terreno minimamente irregular e se houver humidade no chão, pior. Sobre como as usar da melhor maneira já se falou aqui e aqui, mas ao escolher umas há que evitar os exemplares pesados (além de cansativos, são péssimos para a circulação das pernas) e com um interior rígido (que não a deixe sentir onde põe os pés nem se adaptem à forma deles, o que força os delicados ossos sob os dedos, formando calosidades). Fuja também de plataformas que "oscilem" quando anda (comum em solas de borracha). 

Os melhores materiais são fibras leves, além da cortiça e corda para o Verão.

Boas pistas: Hispanitas, Aldo (fazem plataformas leves, mas escolha-as em pele) Investimento: Dolce & Gabbana, Miu Miu, Ferragamo ( porque ninguém contribuiu tanto para a história das plataformas!).

3 - Bailarinas



Quanto a estas, não há meios termos: há quem não calce outra coisa, há quem (eu incluída) afirme que em encontrando umas que sirvam realmente bem são do mais agradável que há; o pior é achá-las! Em poucos sapatos é tão difícil encontrar o tamanho certo - umas caem do pé, outras magoam o tendão de Aquiles ou a zona lateral dos dedos devido à pressão que empregamos para as segurar. Também não é bom abusar delas, porque como muitas não oferecem qualquer apoio ao calcanhar, podem causar problemas sérios

As fãs empedernidas do género juram por marcas-investimento, como as Pretty Ballerinas ou as portuguesas Josefinas. A minha recomendação pessoal: Zara (se só calça sabrinas de quando em vez, ou gosta de variar: fazem-nas super macias e duram bastante) Vicini ou, para todo o terreno, Marc Jacobs


4- Stilettos vertiginosos


 Ou seja, os que não só são altos e finos, mas forçam o arco do pé com uma inclinação muito acentuada. Quanto a isso, nada como experimentar de forma realista: se magoam na loja, se a obrigam a esforçar o tornozelo para se segurar, esqueça-os. Isto vale para toda e qualquer marca e uma vez que há imensos stilettos igualmente altos que não fazem "dobrar" os pés como se estivesse em pontas, é melhor considerá-los um investimento a longo prazo.  Jimmy Choo, Casadei (os famosos "Blade") e por vezes, Balenciaga fazem exemplares destes em que milagrosamente, não se sente qualquer pressão. Em todas as outras? Testar com olho clínico!

5- Peep toes 


Em relação a estes, vale o que foi dito acima sobre as sandálias: procure uns bastante abertos nos dedos e correrá tudo bem. Caso contrário, mesmo que o salto seja baixo calçá-los pode ser um purgatório - especialmente em materiais mais rígidos, como o verniz. Curiosamente, seguindo esta regra já encontrei boas aquisições mesmo em lojas onde habitualmente não confio tanto no calçado, como Mango ou Seaside. Se quer bom e barato, tente na Zara: de colecção para colecção, costumam repetir um modelo bonito com salto fino e plataforma frontal. Para um investimento sofisticado sem erro: LK Bennett ou melhor ainda, Sergio Rossi.


6- D´Orsay




Basta observar este modelo com atenção para perceber que temos de ser exigentes com ele: afinal, a parte frontal do sapato depende apenas de um prodígio de engenharia para se manter no sítio. Se forem demasiado largos, apertados ou de um material menos fiável podem saltar (magoando os dedos) descalçar-se (o que cansa imenso os tornozelos, na tentativa de os segurar, fora o risco de queda) ou no mínimo, fazer vincos dolorosos na pele. Isto vale para os designs enviesados, como o da imagem, ou para as versões mais tradicionais, com frente a direito, que são um pouco mais de fiar. Existem alguns com fivelas no tornozelo, o que facilita, mas se quiser um d´orsay típico, procure um par Paulo Brandão - fantástica qualidade-preço e nem se sentem. Pena que nem sempre apareçam!  Pode também, se quiser investir, tentar uns Casadei ou Jimmy Choo, mas já sabe: tal como no ponto acima, seja rigorosa ao testá-los na loja.


Votos de boas compras no futuro, com poucas dores e queixumes!



A moral dos Conguitos (nem tudo o que parece é)




Esta semana abri o frigorífico para tirar um snack qualquer e dei-me com o que me pareceu ser uma tablete de Conguitos.

Como agora inventam barras de chocolate com tudo e mais alguma coisa - tabletes com Oreos, com Nutella, eu sei lá - e como não ando propriamente informada acerca da vida privada dos chocolates nem das novidades do mercado, não estranhei nada. Se há Conguitos de chocolate branco (esta novidade eu soube, vá) também podiam muito bem inventar Conguitos em barra.

Achei mesmo uma óptima ideia, porque gosto de Conguitos mas não tenho paciência para tirar um a um. E embora nem aprecie por aí além bombons e chocolates (estilo Kit Kat e afins) gosto de tudo o que seja de chocolate preto e frutos secos; costumo mesmo  ter uma barra desse género em casa, até porque sempre ouvi que cacau negro é saudável (e um óptimo entretém para impedir quebras de tensão). Isto para vos situar: parti um pedaço, achei uma maravilha, até elogiei "não foram nada forretas com os amendoins!", "que bom, parece uma daquelas barras para atletas!" e voltei a guardar a outra parte no frio.


Entretanto vem o senhor mano para casa, vê o chocolate, acaba com o resto e vai à vida dele sem me explicar onde tinha comprado tal coisa. De modo que no dia seguinte, muito bem impressionada com a misteriosa barra de Conguitos, quando passei no supermercado fui procurá-la.

 Só depois de um bom bocado às voltas, a olhar para todas as embalagens cor de laranja, é que percebi o engodo: não existe nenhuma tablete de Conguitos (pelo menos por cá...e as que há em Espanha poupam nos amendoins, como eu imaginava)! 

Sucede que a marca decidiu aumentar a embalagem e em vez do pacotinho minúsculo de antigamente (vejam no vídeo abaixo) agora tem um pacote rectangular e mais longo, que parece mesmo o formato de uma barra...



Soube ao jantar que o meu irmão tinha comprado Conguitos, mas da loja para casa apanharam um pouco de calor (são Conguitos, não M&Ms) e ficaram colados uns aos outros, sendo necessário guardá-los no frigorífico...o que provocou o inadvertido mas delicioso resultado!

 Achámos muita graça ao equívoco, ficou a "receita"...mas é curioso pensar que há pessoas e situações exactamente iguais à suposta barra de Conguitos: parecem uma maravilha, uma coisa única. Achamos que nunca vimos nada tão perfeito, uma combinação de qualidades tão grande. E até nos pomos às voltas, a fazer esforços, a organizar a nossa vida para nos adequarmos à situação ou para agradar a essa pessoa. Assim como perdi no supermercado uns longos minutos que ninguém me devolve em busca de algo que não existe, há quem gaste dias, meses, anos da sua vida a virar-se do avesso para merecer participar num projecto ou para contentar alguém que na realidade, não é uma barra de conguitos, nem sequer o último Conguito do pacote: é apenas um pacote de conguitos que apanhou sol e passa por algo melhor ou mais especial do que na realidade é

 Mas vai-se a ver e afinal é tudo um truque, uma coincidência de felizes acasos que lançam uma luz demasiado positiva sobre simples amendoins que, com um bocado de sorte, podem custar uma valente dor de barriga...






Wednesday, May 20, 2015

A diplomacia é muito bonita, mas...


Há muito de verdade na famosa frase acima. Primeiro, porque temos o dever moral de nos perdoar uns aos outros ou no mínimo, de dar o desconto ao próximo. Isto é válido para qualquer pessoa civilizada que siga as normas de boa sociedade, mesmo que não seja religiosa ou (como agora está mais na moda dizer) espiritual. Quanto mais não seja, a raiva pode ser legítima (e se surge, convém resolver o problema o mais depressa possível) mas a raiva prolongada, ou o ódio velho que não cansa, são emoções muito exigentes - exactamente como estar apaixonado, mas em versão desagradável.   

Poucas coisas são tão reconfortantes como uma trégua, o desvanecer de uma animosidade, o esclarecer de um mal entendido. Sou uma grande crente nas primeiras impressões, mas por vezes as pessoas que são mais parecidas connosco, que são um adversário à altura, podem chocar inicialmente contra nós em determinadas circunstâncias. Transformar um desafecto num amigo não é só sábio e estratégico: é um alívio.

 Também Mario Puzo, em O Padrinho, tem uma versão igualmente célebre mas menos altruísta (e muito mais desconfortável de levar a cabo) : mantém os amigos perto, e os inimigos mais perto.

 Não compreendo as pessoas com paciência para fazer isto durante muito tempo, talvez porque distingo "oponente" de "inimigo". Ou seja, só daria o título de inimigo a um ente que não me inspirasse o mínimo respeito; podemos não gostar de uma pessoa, pode ser impossível estarmos ambos felizes porque queremos o mesmo, e nem por isso deixarmos de ter uma certa admiração por ela.  Um inimigo é outra coisa: é alguém que nos faz encarquilhar o sangue, que nos causa aversão. Ora, para estar perto de uma pessoa que nos provoca asco e desprezo, é preciso ter estômago e sangue de barata...acho que nisso a minha costela siciliana me atraiçoou.


 No entanto, tenho conhecido muita gente assim - perita em transformar (ou tentar) inimigos em amigos ("amigos" é como quem diz, porque uma vez conseguido, continuam a pensar a mesmíssima coisa acerca dessas pessoas). 

Ou por medo do confronto e insegurança, ou pelo sentido político próprio de quem está em posições de poder ou destaque. Face a um insulto, um enxovalho, uma incompreensão qualquer, deixam de parte o reflexo natural "quem não se sente, não é filho de boa gente" e tratam de dar a outra face - não com um desprezo altivo, não ignorando de alto, não deixando rosnar quem rosna, mas dando o peito às balas, convidando a pessoa a esclarecer o assunto ao jantar, chamando-a para o seu lado.

 Não digo que isto seja sempre uma má abordagem: não me parece é boa ideia aplicá-la invariavelmente, com todo e qualquer ser que nos salte ao caminho no firme propósito de causar dano.

 É que nem toda a gente critica, detesta ou embirra por um mal entendido, porque não conhece bem, porque está mal informada. Há quem seja mauzinho e virulento por inveja, por ruindade, por baixeza. E nesses casos, das duas uma: ou recusa qualquer forma de "amizade", fazendo ainda pior (o que envergonha quem estendeu a mão) ou finge aceitar, fazendo trinta por uma linha na mesma. E de forma ainda mais perigosa, pois aplica a fórmula de manter os inimigos perto com todas as vantagens da proximidade.




Depois, porque há companhias e amizades que rebaixam qualquer pessoa honrada; é mesmo um elogio e prova de carácter não se dar com elas, não ser conivente; é um dever de decência reprová-las para quem quiser ouvir.

 A gente assim pode dar-se a outra face, mas dando a face e girando dali para fora. E convém estar atento daí em diante, pois como ouvi um reverendo Padre dizer uma vez " Nosso Senhor mandou dar a outra face, mas não disse quantas vezes".

 Não esqueçamos que Abraham Lincoln era um anjo de pessoa, super bem intencionado, mas a sua abordagem demasiado plácida das inimizades acabou mal: morreu assassinado numa noite de teatro, e ainda lhe chamaram tirano por cima.

Há a diplomacia, há o perdão...e depois há a imprudência. Tenho para mim que certas pessoas são imunes à diplomacia, e é tolice tentar...


Vatsyayana dixit: dignidade feminina (para evitar figuras de ursa)


" Por muito ardente que seja o amor de uma jovem por um homem ela nunca deve oferecer-se nem dar os primeiros passos, porque se assim actua perde a sua dignidade e sujeita-se a ser desprezada e rejeitada"...

                                                                   Vatsyayana


Pois - a famosa "obra fundamental acerca do amor" insiste no mesmo, nem mais nem menos, que Jane Austen, que as avozinhas de muito boa gente, que os homens sensatos e varonis desde que o mundo é mundo. Quer-me parecer é que a maioria , cheia de risinhos infantis e achando que está a ler uma coisa muito proibida, muito "sensual", salta directamente para as ilustrações, em vez de prestar atenção àquilo que é realmente importante... e depois de as decorar, complementa a leitura com romances e baboseiras light daqueles que dizem o que as mulheres querem ouvir. Bem avisava Desnoyers, " a mulher que se atira à cara de um homem há-de achar-se aos pés dele". 

Tuesday, May 19, 2015

Elegante não é "sem sal" (ou como dar a volta a esse estereótipo)


É curioso: sempre que leio um bom artigo sobre "como parecer elegante gastando menos" há comentários a dizer "quem escreveu isto não entende o conceito de moda divertida" ou "que coisa maçadora, eu uso o que gosto e mais nada [mesmo que fique com um ar low cost]". 

Vi isso num dos melhores textos que para aí andam sobre sapatos, escrito por por um stylist extremamente talentoso da Cosmopolitan americana e mais recentemente, noutro, da Elle, sobre Olivia Palermo (que goste-se mais ou menos dela, está invariavelmente imaculada) em que ela recomenda tininho quando se trata de pintar as unhas, só para citar dois exemplos. Tudo isto são ideias que já temos discutido por cá (recordar também aqui, aqui e aqui) embora até ver ninguém tenha reclamado comigo.

 Tentemos então descodificar a ideia. Uma coisa é o gosto pessoal, outra são as linhas de orientação intemporais (relativas à qualidade das peças, fitting, proporções, harmonia do conjunto e adequação às circunstâncias) que é preciso ter presentes SE e APENAS a elegância e um aspecto "dispendioso" ou sofisticado forem um objectivo. 



Dior (1950s): uma silhueta intemporal

Porque quem não se preocupa com isso e só quer divertir-se com a roupa, plenamente de acordo: use o que bem entender.

Vejamos: há pessoas que se vestem de modo "divertido", sexy, colorido, extravagante mesmo, e nem por isso têm um visual duvidoso. Vai tudo do ar que se tem, do carisma (nem toda a gente consegue escapar ilesa com certas coisas) do tipo de corpo (ex: não é uma regra, mas uma mulher muito magra e "sem peito" faz com que peças volumosas, curtas ou coleantes caiam de modo mais "inofensivo") e - muito importante - do facto de, se calhar, aquela roupa espampanante ser muito bem executada.



Isto é difícil de conseguir usando apenas marcas muito acessíveis, ou numa figura que exija mais cuidado para a roupa assentar sem surpresas.

 Não esqueçamos também que o que fica engraçado na Beyoncé em palco não é necessariamente boa ideia usar na rua - nem mesmo para a própria.



A moda comunica sempre uma mensagem - e a mensagem dos padrões vibrantes, das tachas, das aplicações, da nail art, etc, etc, não é a da ordem estabelecida, do rigor, dos grandes salões. É a mensagem das ruas, da transgressão, da rebeldia, de uma certa criatividade e revolta.  Goste-se ou não dessa ideia, ache-se ou não justo, alguma vez se viu um ícone de moda eterno (como Coco Chanel) uma primeira dama (como Jackie Kennedy) uma Princesa, ou mesmo uma it girl bem nascida e algo boémia como Bianca Brandolini, aparecer com vestidos coleantes, cabelo espetado e unhas às bolinhas?  

  Na dúvida, peças e silhuetas clássicas, bons materiais, designs minimalistas e clean, cores sóbrias, padrões eternos, oferecem sempre mais segurança - e parecerão inevitavelmente mais "caros" mesmo que tenham sido acessíveis. 

A simplicidade é a chave do intemporal, da fiabilidade, da elegância clássica, de um certo look bon chic bon genre que nunca passa de moda e que é bem aceite em toda a parte. 

 Porém, nem todas têm de ser Grace Kellies, Amals, ou Gwyneth Paltrows. Também precisamos das Gwen Stefanis, Daphnes Guiness e Annas Dello Russo deste mundo. Mas será possível à comum das mortais equilibrar ambas as correntes? Ter um estilo divertido, rebelde, porém correcto e clean?



Gwen Stefani e Gwyneth Paltrow: duas mulheres elegantes em estilos díspares

Decerto, com alguma habilidade - como aliás vimos aqui. Exemplos disso são Vivienne Westwood (cujos vestidos tanto caem bem a mulheres classicamente elegantes, pelo seu formato, como às de estilo alternativo, dependendo do styling que se faz) e as criações e porta-vozes mais recentes de marcas como Balmain. Mas claro, cingir-se a roupa de designer não é possível à maioria...e de qualquer forma não garante nada: veja-se Nicki Minaj e os seus louvores a Alexander McQueen...


Os vestidos de Vivienne Westwood prestam-se
tanto a um look clássico como a combinações extravagantes

 Consideremos então 4 dicas para um visual rebelde ou vistoso sem perder a elegância:

1- Respeite sempre o seu tipo de silhueta: há peças adequadas a todos os corpos dentro de todos os estilos. Por exemplo, se tem pernas muito fortes, evite botas ou calças de napa com aplicações: opte antes por um bom blusão  em pele com alguns desses enfeites, que sem dúvida vai durar muitos anos.
 E escusado será dizer, procure sempre materiais da melhor qualidade possível dentro do seu orçamento. Em peças extravagantes, tecidos inferiores são mais evidentes. 

2- De igual modo, respeite a sua idade: esta "norma" não tem de ser rígida. Se toda a vida foi hippie, não vai agora transformar-se noutra coisa (a não ser que queira, claro). Evite o que é de qualidade duvidosa (faça um upgrade de peças dentro do mesmo género, mas um nadinha mais sóbrias e mais nobres). Fuja também do que transmita uma tentativa desesperada de parecer mais nova. Se a sua barriguinha já não é o que era (ou até está fantástica, mas o rosto parece um pouco cansado) poderá querer deixar de parte os tops curtos que usou nos anos 70 mas manter os vestidos longos, os acessórios de camurça com franjas e as calças boca de sino. Qualquer estilo precisa de actualização para não ganhar vícios.

3- Faça escolhas: se gosta de elementos como tatuagens e cabelos às cores, poderá dar mais impacto ao seu visual ao deixar-lhes o protagonismo, apostando no preto para a escolha das toilettes, nos looks monocromáticos, em silhuetas simples e bem definidas (jumpsuits, vestidos estreitos estilo Morticia Adams, fatos de corte masculino, skinny jeans com tops básicos ou t-shirts de bandas com uns scarpins luxuosos )...less is more

4- Por outro lado, se aprecia um look clássico e elegante mas não dispensa alegria e originalidade, invista em cores ricas (como a  Rainha Máxima dos Países Baixos) e/ou em apontamentos mais chamativos (peles, statement shoes...) como Olivia Palermo.


A elegância cabe em todo o lado, e nunca será maçadora...










B***ches be crazy (às vezes as mulheres envergonham-me)


Ao saber-se da notícia super importante para a Humanidade "Irina Shayk namora com o bem parecido Bradley Cooper" e mais crucial ainda, "afinal Ronaldo andava a trair a modelo russa como um perfeito bruto", os comentadores do costume largaram as bombinhas de veneno da praxe, feridos no seu zelo patriótico (ou na sua idolatria à bola e ao vil metal) como se o caso lhes dissesse intimamente respeito. 

Ai a malvada, a interesseira, só quer dinheiro - isto em termos bem mais categóricos, mal escritos, agressivos e malcriados (essa nunca perceberei; a rapariga trabalha e até é uma self made woman, interesseira porquê? Naturalmente vai namorar com alguém com quem se tenha cruzado nos meios que frequenta, nada mais lógico) . 

 Ou por proteccionismo (o atleta tinha era que namorar com a filha de todos eles, não com uma russa) ou por antipatia pura (o facto de não ser brejeira nem muito sorridente parece nunca ter caído bem à lusa gente, que se pela por "humildade") ou sei lá, a menina nunca conquistou grandes simpatias cá no burgo. Eu que não ligo a futebol acho que uma rapariga culta e com algum porte ter-lhe caído em graça foi intervenção divina - adiante. Claro que não lhe perdoam, porque não entendem que haja melhor que o Ronaldo, que Irina não esteja devastada, a chorar pelos cantos, ou a descabelar-se em entrevistas amargas como se lhe devesse os 15 minutos de fama e a única chance de felicidade nesta vida. Azarito. You go, girl



 Mas o que me fez deveras confusão foi, face à possibilidade de o jogador ter traído a ex como gente grande (ou a ser verdade, como um garoto deslumbrado com idade para ter juízo) haver montes de mulheres, de várias idades,  a dizer "bem feita!", "é novo, tem é de aproveitar", "peneirenta, mereceste", etc, etc.

 Quando leio/vejo coisas destas, sinto um desprezo a crescer por mim acima que não calculam. São estas pérolas que dão má fama às mulheres - de invejosas, de competitivas, de uma coisa que agora não digo. São atitudes assim que fazem com que os homens não nos respeitem e no limite, que nem no mundo do trabalho sejamos tão levadas a sério, com prejuízo de muitas mulheres honradas e competentes por aí. São sujeitinhas com esta forma de pensar - competitiva, rasteira, cúpida - que não hesitam em interferir em relacionamentos alheios (nem que não tenham chance alguma) em lançar a desconfiança entre os casais, em destruir lares, em recorrer às maiores baixezas. 

E são tais barbaridades  - defender uma atitude que não presta e não ter a menor empatia umas com as outras - que levam a que certos misóginos sustentem que as mulheres são burras, um poço de iniquidade e incapazes de gerir as liberdades que conquistaram.

 Digam-me lá, "senhoras", mereceu porquê? O que é que faz uma mulher que (não há vozes em contrário) respeitou o seu compromisso... merecer a dor, a humilhação, a punhalada de uma infidelidade? Uma mulher que nem conhecem? Por ser bonita? Por estar lindamente? Porque o Ronaldo namorou com ela em vez de ter namorado convosco ou com a vossa filha/neta/etc? Se o sentissem na pele, gostavam? Era bem feito, não era? Ou só porque ele tem meios, já não se importavam, mais traição menos traição era tudo lindo? E nesse caso, quem são as interesseiras?

A notícia é uma treta, mas o problema é sério. De fundo.





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