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Saturday, May 30, 2015

"I want your love, BUT I don´t want your revenge"


Sabem aquela velha *e tétrica, vade retro* fras, atribuída a Confúcio,"quando empreenderes uma jornada de vingança, cava duas sepulturas"?   É melhor cavar uma sepultura para o inimigo e outra para si próprio (sepulturas, é como quem diz)  antes de brincar ao Conde de Monte Cristo; sempre se poupa trabalho. O mais certo é correr terrivelmente mal.

 Até certo ponto, acredito na máxima. Embora por vezes desquitar uma ofensa seja justo - e o caminho mais rápido para esquecer o assunto, perdoar e seguir em frente -  as emoções fortes raramente são as melhores conselheiras. As histórias de vendettas que se prolongavam por gerações em certas culturas são a viva prova de que a vingança é um fogo que se descontrola com muita facilidade e pior, que se alimenta de si mesmo.

 Mas o raciocínio de Confúcio está particularmente correcto quando falamos de ligações românticas - os bad romances, as relações de amor-ódio (ou que assim parecem), os amores byronianos, porque no amor ninguém tem o juízo todo, quanto mais domínio perfeito sobre as emoções. 

Se a retaliação nunca é uma motivação boa, se quase sempre a vingança atrai asneira, em casos de amor é muito pior.


 É que um erra e o outro de mau, de magoado, vai e faz outra coisinha para não ficar atrás. Depois o segundo, esquecendo-se do que lá vai, inventa mais uma tropelia qualquer para não se sentir mal; num momento adoram-se, noutro insultam-se; quando parece que está tudo bem, um lembra-se de um detalhezinho que lhe fez mais uma rachadura no coração há não sei quanto tempo, e toca a atirar um dardo...em suma, andam neste ping pong até que a bola salta e parte a cristaleira. Quando dão por si, os estragos já são tão grandes, os cacos são tantos que não se sabe onde pôr os pés para começar a limpar sem que haja cortes, quanto mais para pensar em reparar o que quer que seja. E assim se perde tempo, se destrói a confiança mútua e se deita pela janela algo que muita gente apenas sonha encontrar...

 Os japoneses têm um nome para estas paixões complicadas, muito usado na cultura pop: tsundere. Mas a melhor definição continua a ser a do poeta da República de Roma,  Gaius Valerius Catullus:


 Odi et amo. quare id faciam, fortasse requiris? 
Nescio, sed fieri sentio et excrucior. 


                  Odeio e amo: porquê, perguntas? Não sei, mas acontece e estou em agonia.

Expliquem-me lá, assim sem palavrões nem nada.


Porque é que um texto escrito por um punho feminino, num portal feminino, para mostrar que uma mulher tem força, tem garra, não se deixa pisar por ninguém...tem de ter palavrões? Principalmente quando se dirige a homens. A dar-lhes um pontapé no dito cujo.

Ainda ontem vi um por aí a cirandar-me nos feeds e deu-me cá uma urticária!

Assim um palavrãozinho bem feio no título, bem agressivo, a puxar ao clique. Seguido de mais umas tantas expressões brejeiras, mas tudo com um ar compungido, misturado quase sempre a um toque de "estou-me nas tintas para ti", "olha para mim tão bem sem ti, sou uma guerreira" ou ainda, "as meninas boas tornam-se más porque há muitos maus rapazes". Boo-hoo, cry me a river.

 E quando não é o discurso da raposa que não chegou às uvas, é o discurso da mulher que tem imensos casos amorosos, que se entorna, que volta para casa num bonito estado após uma noite de estúrdia e de rambóia, depois de ter enjoado e virado o barco. Blhec.

Não é que não haja por aí autores e autoras a escrever bem atirando, ocasionalmente, uma palavra feia por outra. Há, são é raros. Para escrever bem usando palavras más, é preciso escrever mesmo MUITO bem, ser um Bocage, um Guerra Junqueiro, ou então ter muitíssima piada. Ambos são coisas raras.  

E não é que uma rapariga dizer um palavrão seja uma coisa de outro mundo - conheço muitas senhoras elegantes que os dizem. Sempre em surdina, que isto as coisas desagradáveis (como as estrias, os desaires conjugais e as falências) não são para mostrar ao mundo. O que ainda mais me ajuda: pensará este mulherio que transgride muito por dizer uma asneira, por escrever uma asneira - pior, por não escrever senão asneiras?

 Estes artigos não me chocam pelo palavrão - afligem-me por soarem tão forçados. Chocam-me, muitos deles, pela frivolidade, pela mediocridade. É como se a menina se sentasse, atirasse a palavra F*** para o monitor, e pensasse "agora que já tenho a asneirola para servir de isco, que palha é que eu aqui ponho? Zás, justifico tudo com um desgosto amoroso. Ai, que difícil é ser mulher!". E o leitor engole, acha lindo, como os pequenitos que se deleitavam a escrever "palavras feias" no quadro preto quando a professora virava costas...disse uma brejeirice? É atrevido, é subversivo, é profundo.

 E eu aqui, a revolver-me de pena. Se calhar sou demasiado subtil para este mundo, mas sempre achei que difícil é escrever em termos. Difícil é ganhar uma disputa sem descer no salto ou -  como muitas Senhoras que tenho conhecido - sem dar à outra parte o prazer de uma única palavra. Ou, caso a tristeza seja uma fonte de inspiração excelente para a escrita, ao menos fazê-lo com elegância, sem parecer uma desesperada. Desesperada por mostrar que se é forte, que se está nas tintas, ou outro tipo de desespero. Mais valia irem dar um jeito à cara, espatifar o orçamento nas compras, uma patetice feminina qualquer- o estereótipo sempre era menos mau. Poupem-me. (E aqui acabava com um palavrão bem rematado, mas imaginam como ficava feio? Passo).


Friday, May 29, 2015

Haja boa disposição, que é fim de semana e ser sempre grave é cansativo.


Embora eu brade contra certas e determinadas danças que considero meras desculpas para a malandrice, nada tenho contra bailar um pouco, antes pelo contrário. 

Devo muito à minha professora de ballet (como qualquer rapariga que tenha feito a mais breve incursão pela dança clássica), acho que se devem aprender os rudimentos das danças da praxe - valsa, and the like -  para não fazer más figuras em certas circunstâncias e algumas das memórias mais felizes da minha infância e adolescência foram acompanhadas de alguma bailação. Por vezes é preciso soltar o Fred Astaire que vive em cada um de nós. Nem que seja um Fred Astaire um pouco coxo.  You can dance if you want to...



 Mas depois há danças que me fazem rir. Que provocam pensamentos parvos, mas automaticamente felizes ou seja, são excelentes exercícios mentais para  quando estamos tristes ou irritados. Basta evocar tais coreografias para sorrirmos e fazer desvanecer o stress.

Mandaram-me estas duas durante a semana e não consigo evitar, acho-as cómicas de todo e estou estranhamente fascinada por elas. 

Esta (em modo "que raio vem a ser isto?") que podem ver aqui, mas foi baseada nesta:



E aqui a Beyoncé, em modo somewhat periguete mas como tem graça, desculpa-se (tenho uma saia parecida, by the way!):

Bom fim de semana!


O complexo Ana Bolena






Após ler este post  cá no blog e de ter estado a ver o filme "The other Boleyn Girl" uma leitora e amiga colocou-me esta questão, que dá que pensar:

"Se bem compreendi é a favor de uma posição mais tradicional das mulheres no jogo da conquista (eu preferia que não fosse um jogo, mas infelizmente muitas vezes é tratado como tal).

Mas hoje, após ter visto o filme "Duas Irmãs, um Rei" (que apesar de ser uma versão muito romantizada da dicotomia Bolena/Henrique VIII, prima pela oposição que deram às duas irmãs, Ana e Maria) fiquei com uma dúvida: até que ponto é que essa posição mais tradicional do papel feminino, ao invés de trazer homens com mais certeza do que querem e que lutam por quem lhes interessa, não poderá atrair meninos mimados que não sabem perder nem a feijões
?

Ana acaba por "enfeitiçar" o Rei mais do que Maria, precisamente porque não se lhe entrega de bandeja. Mostra que é uma mulher segura de si e leva Henrique VIII à exaustão que, como homem apreciador do género feminino que era, ainda ganhava mais ímpeto para não deixar escapar tal preciosidade. Fazia-lhe bem ao ego, pronto..

Contudo a mesma "segurança própria" que Ana transmitia acabou paradoxalmente por ser a sua perdição; porque após ter alcançado uma mulher tão inatingível, Henrique cansa-se depressa, tal qual uma criança que já conseguiu o brinquedo novo.

Até que ponto  o verdadeiro troféu não estará na mulher mais segura de si e não na que se oferece de bandeja? Será a adopção de uma postura oposta à que se assiste com frequência hoje em dia a solução para os dramas dos relacionamentos do "usa e deita fora"...ou na verdade não atrairá os verdadeiros predadores?
"


Ora aí está uma excelente pergunta! Vou tentar responder baseando-me tanto nos exemplos históricos, como no que tenho visto e ouvido de experiências em pleno século XXI.

Antes de mais, é escusado repetir que o livro/filme em causa é assumidamente fantasioso. Tem algumas perspectivas e momentos interessantes, mas inventa detalhes que nunca poderiam ter acontecido e inclui rumores da época como sendo a pura verdade. Acima de tudo, foca-se de facto na atitude de "femme fatale" de Ana (que foi real até certo ponto, embora, se ouvirmos os historiadores, não com as motivações apresentadas no filme) pintando-a como uma viborazinha insuportável, má até para a própria família. Aqui entre nós, eu própria fiquei aliviada quando a Ana de Natalie Portman foi despachada, Credo.


                                          

Sobre esse assunto, já falámos em posts como este. Sabemos hoje, graças a estudiosos isentos, que Ana não teria pensado em seduzir Henrique VIII de forma calculista, antes pelo contrário. Não direi que foi uma pobre vítima sem ambição alguma, como sustentam  historiadoras feministas, mas uma coisa é certa: não estava nos seus planos tornar-se amante do Rei e até este falar em divórcio, não é de crer que ser Rainha lhe passasse pela cabeça. Ana dançou conforme a música e apesar de ter um mau feio historicamente comprovado, será justo dizer que Henrique a venceu pelo cansaço e que ela  tentou tirar 
 o melhor partido possível de uma situação inevitável.

Sigamos a lógica: Ana tinha visto o mau exemplo da irmã: primeiro em França, onde teve vários casos amorosos e partilhou o leito real com Francisco I (que se referia à desmiolada Maria como " a égua inglesa" e "una grandissima ribalda, infame sopra tutte"" [uma grandessíssima galdéria, a mais infame de todas"]) e no regresso a Inglaterra, onde caiu rapidamente nos braços de Henrique VIII para ser posta de parte, como outras, pouco depois. 


Maria era uma rapariga demasiado sincera para seu próprio bem, e irreflectida; nota-se pelo casamento pouco vantajoso (embora feliz) que veio a fazer mais tarde, à revelia de todos, o que motivou que Ana se zangasse muito com ela e que os pais a deserdassem.

É natural que, sendo a mais ajuizada e inteligente das irmãs, Ana não quisesse o mesmo destino de Maria. O seu objectivo era, como o das raparigas do seu tempo e condição, fazer um bom casamento.

Apaixonou-se pelo filho do Conde de Northumberland, Henry Percy, que a adorava, e teriam casado se não fosse Henrique (provavelmente, já interessado em Ana) impedir o enlace com desculpas burocráticas.

   Feito isto- e sendo o Rei bem casado com a magnífica Catarina de Aragão sem perspectivas de conseguir um divórcio - seguiu-se um "namoro" de sete anos entre ele e Ana. 


Sabe-se que o sex appeal e inteligência da jovem Bolena  o encantaram e que a heróica resistência que ela lhe opôs lhe acicataram a paixão. Mas em boa verdade, Ana não podia fazer outra coisa: no momento em que cedesse, não só ele se desinteressaria logo (o que, dado que toda a gente falava no caso, a lançaria no ridículo) como ia complicar as hipóteses de fazer outro casamento honrado. A única chance seria exilar-se, mas podemos adivinhar que Henrique, ferido nos brios, não a deixaria partir sem represálias.

Quando finalmente Henrique ficou livre e coroou Ana,  viu-se defraudado não só pela falta de herdeiros (que pelos vistos, dizem hoje os especialistas em genética, seria mais "culpa" dele do que das suas mulheres) mas porque se tinha apaixonado por uma fantasia.

   Era um homem de birras, acentuadamente caprichoso mesmo dentro do seu género. Aliás, um dos meus pontos preferidos no filme, e verosímil, é quando a mãe de Ana, conhecendo o carácter voluntarioso da filha, a avisa " olhe que a arte de ser mulher é conseguir o que queremos deixando os homens acreditar que eles é que mandam!".


 Ora, Ana fez precisamente o contrário: confiava, como tudo indicara até ali, que Henrique a conhecia bem e que apreciava a sua personalidade forte. Esqueceu-se de que tudo o que encantava Henrique numa amante - o picante de ela o contrariar, a língua afiada, a forma indomável e inatingível de ser - não lhe dava jeito numa esposa. Ele era um homem generoso e fácil de levar quando lhe faziam as vontadinhas todas (Jane Seymor e Ana de Cleves provaram essa realidade) mas diabólico quando ofendido no orgulho


Nem Ana nem Henrique se deram realmente a conhecer antes de casar - ambos compraram a ideia romântica que tinham um do outro. E o resultado foi o desastre que se sabe.

Dito isto, voltemos à realidade do século XXI: felizmente, Henriques VIII há poucos; ou se existem homens com esse tipo de carácter, não haverá muitos com o mesmo tipo de poder material sobre a mulher que querem conquistar. A dinâmica actual é sobretudo no território das emoções.

Uma mulher com uma forma tradicional de estar (misteriosa, discreta, subtil e pouco disponível, que como se diz na gíria, "dê luta") vai, pela lógica, atrair pretendentes com uma atitude masculina tradicional, até porque - isso é certinho - afastará à partida homens ou rapazes que tenham uma personalidade mais "feminina", uma forma mais "moderna" e passiva de estar; esses 
desencorajam-se rapidamente; preferem as conquistas fáceis e as raparigas que tomam a iniciativa.

 E ainda bem que assim é, porque se faz uma filtragem prévia: uma rapariga muito feminina nunca se poderá entender com um "homem beta", que tem por norma uma perspectiva algo flexível das relações amorosas.



Todavia, é preciso ver que nenhum relacionamento é um romance histórico, por muito romântico que seja ver um homem com uma atitude dominante, a fazer tudo como manda a tradição e a cobrir a amada de atenções
  Um homem poderoso e dominante, emocional e materialmente, tentará ganhar terreno multiplicando as manifestações de apreço (presentes, mensagens apaixonadas, saídas luxuosas) mostrando que nunca se esforçou tanto por uma rapariga, o que a faz sentir-se lisonjeada e especial; por seu turno, ela vai manter o seu ascendente sendo meiga mas evasiva, o que o faz também sentir-se especial por conquistar uma fortaleza inexpugnável - exactamente como Ana e Henrique!

A grande questão aqui é que, para evitar desgostos, nem um homem pode depender só da sua imagem poderosa, nem uma mulher da sua beleza e aura de mistério. 


Acima de tudo, é preciso haver honestidade de parte a parte. Uma mulher tem de ter respeito por si mesma, como Ana, mas ser um bocadinho mais como Maria Bolena de vez em quando; não no sentido de facilitar a conquista em demasia, mas no aspecto de ser bondosa, sincera e um pouco espontânea. Não há mal em demonstrar que se gosta de alguém, quando essa pessoa se está claramente a esforçar  e já o deixou claro por sua vez. 

Por seu turno, cabe ao homem deixar espaço para a reflexão, afrouxar um pouco a "marcação cerrada" e não pressionar exageradamente, querendo de um momento para o outro inclui-la na sua vida (o que é bom, se for doseado) sem saber ao certo se a personalidade dela lhe convém e sem mostrar que  tem alma e defeitos como toda a gente. 

Convém que a mulher se apaixone por ele não pelo poder e confiança que exala, mas porque o acha atraente, e acima de tudo porque gosta daquilo que ele é por dentro. E convém que o homem veja não só a beleza do corpo, mas a da alma. Se Ana tivesse visto o homem e não o Rei, talvez tivesse fugido a tempo; se Henrique tivesse visto a mulher e não a sedutora, talvez continuasse casado com Catarina, que era de facto o tipo de esposa que lhe convinha: doce, paciente e calma.

Se não saírem dessa dança de domínio, se não se mostrarem tal como são, se houver sedução apenas e nenhuma amizade, nenhum respeito e consideração pelos sentimentos um do outro, um braço de ferro constante, então o relacionamento terá como base apenas a atracção, que nunca é um alicerce sólido. A mulher será de facto um troféu, o homem um tirano e a relação um tabuleiro de xadrez. O jogo da sedução tem a sua graça, é necessário, mas não basta para construir a felicidade a longo prazo.
















Thursday, May 28, 2015

Alexandre Dumas dixit: os novos sans-culottes


No seu fantástico conto "As tumbas de Saint- Denis" que relata (em justo ambiente de terror, com um toque de sobrenatural) a profanação e saque dos túmulos dos Reis de França durante a Revolução, Alexandre Dumas descreveu como ninguém as almas ignorantes, rudes e invejosas:

"(...) aves de rapina das revoluções, cujo olhar se sente ferido por todo o esplendor, como o de seus irmãos, os pássaros nocturnos, se sente ferido pela luz. O orgulho dos que não podem construir é destruir.»
É curioso como esta metáfora se aplica tão amplamente, nas mais pequenas e triviais situações, mas também nas tendências culturais do nosso tempo.

Quem inveja o privilégio alheio dedica-se, como um sans- culottes social, a espiá-lo, a virá-lo do avesso, a enxovalhá-lo gratuitamente por mais desmerecido que isso seja em vez de se ocupar, limpa e honradamente, dos seus assuntos.

 Existem também as sans-culottes de saias: quem se sente infeliz com o seu aspecto mas tem preguiça de melhorar, trata de berrar contra a "ditadura da beleza", de reclamar contra a depilação, os saltos altos, os padrões estéticos...e quer palmas por isso. Na mesma linha, há os sans-culottes da arte, da arquitectura, da música, do design, da literatura, que incapazes de criar algo de belo, produzem "arte" repulsiva, com a desculpa de que é "profunda" e "conceptual".



Depois temos os sans-culottes descrentes, que não toleram a fé alheia, como se ser religioso conferisse aos outros uma auréola que lhes queima a vista; e os sans-culottes imorais e viciosos, que não toleram quem defenda o mínimo de bons costumes...porque abominam que lhes lembrem que se portam mal.

  Não esqueçamos ainda os sans-culottes  mal amados: destes há vários tipos. Os sans-culottes  mal amados e amigos do alheio; as sans-culottes mal amadas que em tudo vêem machismo, para quem os homens são o diabo, mas só porque, como bem diz o povo, não têm facilidade em encontrar um diabo que as carregue...e a sua versão masculina, os sans-culottes mal amados e sinistros, misóginos de serviço que dizem que todas as mulheres são vis, interesseiras e coisas piores... porque com a sua má atitude e pouco sex appeal, nunca passaram da friend zone.

 Todos, sem excepção, têm aversão ao que é bom e belo: a harmonia, a tradição, as regras, a ordem, a disciplina, a simetria, a elevação, parecem-lhes uma tortura. Já que não constroem, espatifam. Só não são Robespierres porque não podem...

 Não deixa de ser estranho constatar a quantidade de almas sem calças, sem culottes, que anda por aí a girar, tantos anos volvidos desde o Terror da Revolução Francesa. Aqui entre nós que ninguém nos ouve, será que a praga de ceroulas do demo tem algo a ver com isso?



Afinal, fica uma breve resenha dos Globos de Ouro

Após ter publicado este texto a propósito dos Globos de Ouro, alguns amigos aqui do Imperatrix comentaram comigo que tinham pena de eu não ter dado a minha opinião acerca das toilettes.

 Assim, vou mencionar apenas aquelas que me agradaram. Já se sabe que por cá ainda se nota por vezes alguma inexperiência nestas andanças, com os costumeiros vestidos "de cerimónia" que parecem comprados nas boutiques
 p´ra casório,  e outros tantos erros de fitting (que como temos visto, também acontecem "lá fora", e em eventos com obrigação para fazer melhor). Nota-se ainda, talvez, um certo descaso, como quem diz "afinal, estamos em casa".  Não deixa de haver nisto um pouco de  razão, porque esforçar-se em demasia também é sinal de pouco mundo, mas é preciso não cair no desleixo; há que cumprir com esmero o que manda o figurino. Uma ocasião especial é uma ocasião especial! Talvez urja criar mais umas quantas, ressuscitar certas tradições para dar às portuguesas a oportunidade de se exercitarem. 

Todavia, não esqueçamos um pormenor importante: embora a moda portuguesa falhe em muitos aspectos, a criação de vestidos formais não é um deles. Penso mesmo que se os criadores lusos se quiserem destacar internacionalmente, poderiam começar por destacar esse ponto forte. 

 Independentemente da nacionalidade dos vestidos, vejamos então as convidadas mais elegantes:

Soraia Chaves: preferia um decote mais definido,
mas gosto do formato em V e do facto de ter escolhido um modelo com volume e uma cor forte,
que foge ao típico "tons nude ou encarnado". É uma das mais belas mulheres do nosso país e definitivamente, os looks apagados não são para ela.


Oceana Basílio: outra menina de presença magnífica. Não acompanho o seu trabalho na televisão, mas 
capta-me sempre a vista em eventos destes. Gosto da cor e a execução do vestido é impecável. O penteado também está muito bem conseguido: é raro um apanhado não tirar metade da beleza da mulher, mas aqui não é o caso. Só trocava o cinto, já muito visto, por algo a imitar uma peça da Roma antiga, ou coisa semelhante.


Victoria Guerra: uma das nossas actrizes mais elegantes e que ao que tenho visto, prima por um certo toque "bon chic bon genre" em tudo o que usa. Este vestido clássico  não é excepção: excelente modelagem e nota-se que foi ajustado devidamente. Less is more.



Cláudia Borges, Storytailors: é certo que os corpetes e o traço da casa já não são novidade, mas nem só de novidade vive a elegância. Pessoalmente, eu prefiro criadores com uma assinatura forte. Não morro de amores pelo branco aqui, falta ali alguma coisa em termso de styling, mas tanto este como o outro modelo em preto e tons de fogo que foi muito criticado, são acima de tudo vestidos magnificamente feitos e provados ao milímetro em quem os vestiu. That´s good enough for me.

Cláudia Vieira, Carolina Herrera: o vestido não é um espanto - Carolina Herrera tem criações mais favorecedoras, mais surpreendentes. Uma manga mais curta e um decote um pouco mais desafogado dariam outra nitidez ao look. Mas ainda está para nascer uma mulher que apareça mal vestida quando escolhe Carolina Herrera. 


Diana Pereira, Elsa Barreto: muito bem. Modelagem e fitting perfeitos, com o vestido a realçar curvas femininas. Muitas modelos optam por vestidos demasiado estreitos, o que pode resultar um pouco sem graça; este acrescenta aquele "oooomph", o que é refrescante de ver.


Raquel Prates, Pedro Pedro: Fiel a um look grego, quase espartano, e com a elegância de sempre. Este vestido não é para qualquer uma, mas o tecido é magnífico. Há algo de nobre e de romântico ali. Consigo imaginar Penélope à espera de Ulisses a usar isto. (Aqui entre nós, um dia destes gostaria de ver Raquel com algo do tipo Dolce & Gabbana ou Vivienne Westwood como variante, mas só porque acho que ficaria lindíssima).


Raquel Strada, Luís Carvalho: para mim, o vestido mais imaculado da noite em termos de alfaiataria. E como estou cansada de ver tons pálidos na passadeira encarnada e não sou fã de apanhados tão rigorosos no cabelo, isto diz muito. O fitting, o tecido, o styling, tudo perfeito.


Sara Sampaio, Stella McCartney: inspiração anos 30? A silhueta estreita resultou lindamente aqui. E eis outro exemplo de como se pode usar o cabelo preso sem parecer demasiado severa. A modelo tem o condão de fazer funcionar vestidos com pouco volume, sem cair na tentação dos looks coleantes. Muito equilibrado, elegante e com um bâton absolutamente certo para ela.


E pronto, quase espatifaram Cannes.


Quando se fala em Cannes, não se esperam só os vestidos de gala da praxe. Entre estreias, photocalls, festas, after parties e outros eventos, conta-se com a mais espectacular, cósmica e fenomenal abundância de toilettes de sonho para diferentes ocasiões.

Cannes seria um festival de opulência, uma parada nababesca a roçar a ostentação e o exagero, se não se tratasse, no fundo, de uma montra. Uma montra gigante, capaz de guardar num bolsinho do casaco a maior parte das fashion weeks (porque se nestas é a assistência que se esforça por dar nas vistas, em Cannes as Casas de Moda costumam dar o seu melhor para "vestir as bonecas") e de deixar a um cantinho Mets, Óscares e outras galas mediáticas. Aliás, os faux pas que se têm vindo a verificar em muitas passadeiras encarnadas nos últimos anos (falhas de fitting, vestidos escolhidos à própria da hora) não costumam suceder em Cannes.

Sara Sampaio (Vionnet): adoro o porte, o styling, o efeito...
o decote, not so much. Estava linda, funciona nela, mas seria arriscadíssimo na maioria das mulheres.

 Fiquei por isso bastante desapontada quando, além da polémica dos saltos altos, me deparei com a fraqueza do desfile de toilettes. Muito pouca coisa de espantar, muitos vestidos pálidos "assim assim" (tantos que para os nomear, o post ficaria enorme: vejam vocês mesmos) um abuso de revivalismos dos anos 90 que favorecem pouquíssimas mulheres (não admira que o vestido Dior de Emma Stone, dentro do género, arrancasse elogios; era o menor dos males) e bastantes deslizes quer de fitting, quer de styling. 


Desconheço totalmente o motivo: só espero que para o ano voltemos à qualidade do costume porque se nem Cannes restar para elevar a fasquia, temos o descalabro.

Vejamos então os revivalismos dos anos 90, as toilettes que desiludiram e as que foram como manda o figurino:

                           That 90´s show

Aberturas estratégicas, slip dresses, minimalismo, spaghetti straps...Doutzen Kroes (Atelier Versace) Lily Donaldson (Calvin Klein Collection) Sienna Miller, Ntalia Vodianova, Emily Blunt (Calvin Klein) e de novo Sienna Miller (Prada) foram algumas das convidadas a optar por esta tendência. Pessoalmente não sou fã de vestidos com tão pouca estrutura: embora o minimalismo me agrade
  per se, não funciona de olhos fechados nem em todas as silhuetas.

Os faux pas

Alicia Vikander teve pouca sorte: tanto com este ensemble (ou vestido?) Louis Vuitton que lembra aquelas tentativas infrutíferas de criar um outfit com uma camisola de malha antiga, um cinto e uma saia perdida no fundo do armário, como com o Valentino Couture que era lindo em teoria, mas lhe achatou o peito. O naked dress de Chanel Iman é...bom, mais um naked dress. E Jane Fonda merecia algo com um ar mais dispendioso do que este Atelier Versace. Jersey nunca é boa ideia para vestidos formais e os cortes são duvidosos em qualquer idade, mesmo quando se tem boa figura como a actriz...

Sienna Miller, que costuma marcar com um estilo boho, abusou dos tecidos esvoaçantes e modelos sem forma: do coordenado Sonya Rykiel com demasiada informação (a capa, os sapatos, as estrelas, o penteado, as transparências) ao modelo com folhos da Gucci, terminando no Valentino Couture inspirado nos papagaios de papel...pareceu um pouco desmaiada e sem grande definição, apesar da tentativa de ser extravagante. Já Natalie Portman parece ter emagrecido bastante e tanto o Rodarte preto como o Lanvin verde realçam-no da pior maneira. Poderia ter tirado partido do facto usando algo mais ajustado ao corpo e com volumes estratégicos: assim, desaparece.

Gosto muito da ideia do vestido (Gucci) de Salma Hayek, apesar de não ser fã deste tipo de tecido, como referi: tem uma bela modelagem e uma cor marcante. Porém, o decote exagerado dá-lhe um ar barato. Natasha Poly (Atelier Versace): o corpete é bem executado, o resto parece-me forçado para schock value. Lara Stone: é lindíssima, mas veste sempre tudo o que uma figura de ampulheta devia evitar. Quanto ao vestido de Rachel Weitz, tem tecido a mais, pouca consistência e o modelo só poderia resultar -remotamente - numa mulher altíssima e magríssima. Um sacrilégio numa actriz tão bonita como ela.

A honra do convento

Aymeline Valade (Ulyana Sergeenko) Cate Blanchett (Armani Privé - a única escolha boa de uma das minha actrizes preferidas para o festival) Charlize Theron (Dior Couture) Miranda Kerr (que nunca está mal, e ficou um amor de Emanuel Ungaro) e Adriana Lima (num Ulyana Sergeenko de veludo com um corte fabuloso, embora pessoalmente ache que teria ficado perfeito com uns cm de bainha a menos) foram uma alegria para os olhos.



Mas pode dizer-se que a espectacularidade do evento foi salva por Ralph & Russo; de Fan Bingbing (que nunca desilude nestas andanças) a Sonam Kapor, as convidadas que optaram pela dupla britânica estavam na medida exacta entre impacto e elegância: nem uma costura fora do sítio, um ajuste a menos, uma falha: a perfeição. Design extravagante sem alfaiataria de excelência não é nada, e esta é uma soberba prova disso.








Wednesday, May 27, 2015

S.Francisco de Sales dixit: ciúme é quantidade, confiança é qualidade



"Como o verme se cria na maçã mais delicada e madura, também o ciúme nasce no amor mais ardente e afectuoso, cuja substância aliás, estraga e corrompe; porque pouco a pouco acarreta desgostos, desavenças...(...).  É uma pretensão tola querer dar a entender com os zelos a grandeza do amor. O ciúme é um sinal da magnitude e corpulência do amor mas não da sua bondade, pureza e perfeição; a perfeição do amor pressupõe a firmeza da virtude da coisa que se ama, e o ciúme pressupõe a incerteza".

                                          S. Francisco de Sales


A perfeita confiança é uma das maiores bênçãos - e um dos mais complicados desafios- de qualquer casal. Afinal, trata-se de um dom, só possível no tipo mais profundo e evoluído de amor humano. 

  É fácil não desconfiar, não sentir qualquer insegurança, quando se gosta "assim assim" de alguém. Difícil é haver esse tipo de confiança e serenidade entre duas pessoas que sentem um amor realmente apaixonado uma pela outra e consequentemente, o constante medo da perda.

 Quando um casal se adora e mesmo assim confia, estamos perante um amor imenso e equilibrado, que se torna indestrutível. Mas por isso mesmo, a confiança também é um exercício mútuo, uma prática diária que nasce do altruísmo, do auto domínio que permite calar consigo próprio (a) as pequenas arrelias, as partidas da imaginação, as suspeitas injustas. 

Conclui-se então que para não haver ciúmes desordenados, são precisas duas coisas: honestidade e virtude a toda a prova, de ambas as partes, e mútua crença na honestidade e virtude do outro. Afinal de que servem essas qualidades, se quem mais beneficia delas não acredita que existem?

Tuesday, May 26, 2015

Dois conselhos preciosos (e cómicos) para lidar com homens e mulheres*



*(Retirados do livro que mencionei ontem, e que me divertiu imenso desde a noite passada).

1- Para viver em harmonia com o namorado/noivo/marido que cabe em sorte a cada uma:

"Ou formá- lo como desejamos, ou aturá-lo como o achámos"

Que remédio! Ou há jeito, paciência e jogo de cintura para carinhosamente polir os defeitos ao mais que tudo (que isto as pessoas são como as pedras e água mole sempre a passar-lhes por cima algumas arestas há-de limar; as virtudes são contagiosas pelo exemplo) ou se aceita o cavalheiro exactamente como ele é, que assim como assim, podia dar-lhe para muito pior. Senão, não...

2- Para lidar com uma mulher de pouco juízo...(ou para levar a melhor sobre uma mulher ajuizada, quando a razão está do lado dela).

Não há como, ou é muito complicado de conseguir. Ora vejam: "com as mulheres não se leva a melhor. Houve um único que venceu uma. Foi o demónio, disfarçado de serpente.".

Moral da história: quando se trata da dinâmica homem - mulher, não serve de nada o wishful thinking. Mais vale aceitar "o inimigo" como ele é e partir daí...




A propósito dos Globos de Ouro: há criticar como stylist...e há ser desagradável.




Eu estava para não me pronunciar de todo sobre os Globos de Ouro. Costumo fazê-lo só se algum detalhe/vestido me chamar a atenção ou se pudermos tirar alguma lição, em termos de estilo, do evento, porque a televisão me passa bastante ao lado. Reparo apenas como se apresentaram pessoas minhas conhecidas, e olha lá...

Isto para explicar que alguns zunzuns que li me fizeram mudar de ideias. Vou então dizer de minha justiça: não para avaliar as toilettes, não para defender ou apontar gaffes a qualquer convidada, mas para analisar o comportamento de quem avalia, por vezes levianamente.

Pondo de parte nacionalismos gratuitos e escusados, a César o que é de César: se nas mais mediáticas galas internacionais as coisas já não são o que foram, chega a ser disparatado que bloggers, stylists, jornalistas de moda, et cetera portugueses- com mais ou menos propriedade para opinar - se ponham com demasiadas exigências, com ares de rainha ultrajada, perante os esforços nacionais.

 Há que elevar os padrões nas ocasiões certas? Isso sem dúvida, defendo mais que ninguém que não honrar o dress code é um vício imperdoável; mas ser mais papista que o Papa, salvo seja, pode transformar uma crítica equilibrada numa anedota e pôr em causa o profissionalismo de quem faz esse juízo (se estivermos, claro, a falar de críticos com algum conhecimento de causa ou experiência/formação nesse sentido). 

 Se é para chamarmos o Papa a estes assuntos, lembremo-nos sempre, antes de opinar, da grande humildade de Clemente XI:  "fazei-me prudente nos conselhos!". 

 Há formas pertinentes - dentro do estilo de cada um, do mais sereno ao brincalhão - de fazer crítica de moda. E há formas inconvenientes, grosseiras e que nada acrescentam de tentar a mesma coisa. Podemos apreciar mais ou menos o discurso: o que interessa é se a crítica é estruturada e fundamentada.

  Há dias o stylist Nuno Tiago, do blog Polícia da Moda, foi notado nas redes sociais por "arrasar" (era este o termo, ou exagero semelhante?) uma apresentadora. Ora, fazer uma crítica justa a um vestido que está torto e reparar no styling (em termos de penteado) não é arrasar quem quer que seja, muito menos quando se percebe realmente de fitting e alfaiataria, como é o caso. Tais críticas, por mais que sejam ditas em tom de graça, são construtivas e bem vindas.

 Afinal é esse o trabalho do stylist, ou do crítico de moda: ao estudar e avaliar o visual alheio, tem de isolar o mais possível o seu gosto pessoal (que é sempre relativo) e deter-se nos critérios que importam: nas proporções, na adequação ao dress code e às tendências (não estar na última moda não é necessariamente um defeito, mas não convém que um visual pareça "cansado" por ter sido já muito visto recentemente, ou datado), na qualidade dos tecidos, no fitting, na alfaiataria, na riqueza dos detalhes, na harmonia e impacto do conjunto, nas cores (se é uma cor clássica ou do momento, se favorece a pele, traços e cabelo de quem usa) no styling (o penteado, makeup, calçado e acessórios) etc. 

Só esses aspectos interessam para uma crítica feita com profissionalismo, que sirva para governo da visada e para ensinar o público que lê ou vê o comentário. O gosto de cada um, as tentativas de fazer humor gratuito, são irrelevantes.

Um visual pode não fazer o nosso género, mas se está bem conseguido, tem bom ar, favorece quem vestiu e não atropela nenhuma regra de elegância, é isso que tem de  se ter em conta e ponto final. É lícito dizer "fulana não costuma acertar, mas desta feita saiu-se bem" ou vice-versa, mas deixemos de lado simpatias e mesquinhezas.

 Pois bem- sem querer dizer nomes, pois sabem como sou avessa a tolices desse género- deparei-me com um blog (amplamente publicitado via anúncios nas redes sociais) da autoria de alguém com alguns pergaminhos académicos aos quais juntava formação em personal styling. Ao ver tanta insistência, 
segui a página por curiosidade: gosto sempre de conhecer o trabalho que se vai fazendo por aí e se a pessoa tiver obrigação para escrever correctamente, tanto melhor.

  Entretanto o blog em causa dedica um post aos Globos de Ouro...e não direi que fiquei surpreendida ao ver a crítica pueril, no mínimo, que escreveu: da adjectivação com termos brasileiros menos polidos, usados como se fossem nossos, ao redutor "este vestido é uma piroseira porque sim!" ou chistes do género "parece um guardanapo", a apelar à  piadinha fácil, era o costume. O costume que dá mau nome aos bloggers e o costume que granjeia aos profissionais de moda, mesmo aos mais sérios, a reputação de fúteis e desmiolados. Em última análise, serenidade e elegância cabem em toda a parte. Que cliente gostaria de contratar um(a) stylist que classifica as outras (potenciais clientes também, e pessoas com quem essa blogger parece querer vir a cruzar-se em certos círculos) de "foleiras"? Quem quiser ouvir de si... 

Foi, em suma, um discurso de rapariguinha de shopping,  baseado apenas na sua opinião e (entremos, uma vez sem exemplo, em modo ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão) no seu gosto pessoal que, se tivermos em conta os critérios atrás descritos e só esses, eu classificaria de questionável. E como este há imensos!

 Sejamos sérios, rigorosos e sobretudo profissionais nos conselhos...porque fazer crítica de moda tem mais que se lhe diga do que cortar na casaca. 





Monday, May 25, 2015

Palavras que podiam ser minhas: dura veritas sed veritas, ó desmioladas.


Hoje encontrei este texto dos anos 1970 e não resisti a retirar algumas partes para vos mostrar, não só porque poderia ter sido eu a dizer isto mas porque é um retrato - um pouco cru, mas fiel- da mentalidade feminina vigente, quase quarenta anos volvidos: vacuidade nos sentimentos, leviandade, atrevimento, ausência de temperança, prudência e elegância interior, um apego frívolo aos aspectos mais superficiais e materialistas da moda, paixão pelas más leituras, falta de discrição e vontade de dar nas vistas, adesão cega às tendências sem pensar se são apropriadas ou esteticamente correctas...

A diferença é que muito disto é hoje encarado como virtude, como "qualidades da mulher moderna e poderosa "e que um texto assim, publicado nos média da actualidade, seria corrido a apupos de "slut shaming", caretice, chauvinismo, eu sei lá. Paciência.


" Nem todas as mulheres sabem amar. Amar só o sabem as que sabem entregar-se ao sacrifício. Mulher que não ama assim não compreende e não se dedica (...) . Os defeitos de certas raparigas são principalmente: leviandade de espírito; vacuidade de pensamento; falta de educação moral e muitas vezes, social; ausência absoluta, ou quase, de consciência. (...) Vestem-se como as outras, porque é moda. E se a moda é extravagante, cara e indecente, elas tornam-se extravagantes, dispendiosas, indecentes, sem custo e sem recear o ridículo a que se expõem; lêem tudo o que lhes cai debaixo dos olhos, mesmo que sintam que é mau. Relacionam-se com quaisquer pessoas, frequentam quaisquer lugares, quaisquer divertimentos...perdido todo o sentido do pudor, oferecem-se demasiado para serem desejadas; perderam todo o bom senso; sabem tudo-tudo o que não deviam saber - e sempre despropositadas de tudo riem, de tudo escarnecem, tudo criticam, sem conhecimentos que as autorizem a isso. As qualidades viris que conquistaram não compensam de facto a feminilidade que perderam.

 Que fazer, então, dessa palhaça, dessa doidinha? Guardá-la como jóia rara? O melhor é atirá-la pela porta fora...".

                                      L. Chiavarino

Vestidos normais, clássicos e bonitos, onde encontrar?


Como por aqui se faz muito a apologia do vestido, perguntam-me frequentemente "onde comprar vestidos elegantes que não sejam curtos nem estilo saco?". E é uma questão mais que justa, já que eu própria dou bastantes voltas quando quero adquirir um sem gastar uma pequena fortuna.

 Já aqui falámos do incompreensível hábito de muitas lojas, nomeadamente as de fast fashion, por vezes não terem disponíveis os modelos intemporais - não só de vestidos, como de calças, sobretudos e saias - que estão sempre a ser necessários e que ficam bem à maioria das mulheres. Porquê? Não faço ideia nenhuma; talvez se foquem demasiado nas tendências do momento desprezando aquilo que as pessoas precisam realmente de usar, ou façam por produzir apenas aquilo que fica mais barato (coser uma túnica não custa nada, afinal).

 A verdade é que "vestidos" tipo balandrau ou camiseiro largo vão sempre aparecendo, mas encontrar um vestido para trabalhar, ou de cerimónia, que não seja bandage/curtíssimo/sem forma, dá algum trabalho. Daí a minha máxima "compre quando está à venda e não quando precisa com urgência".

 Um dia ainda me encho de coragem para criar uma marca que resolva este e outros problemas femininos, mas até lá aqui fica um mini guia (e alguns truques).


1- Esteja atenta a várias fontes

Como a maioria das marcas costuma fazer pelo menos um vestido ou dois, o modelo certo pode estar onde menos se espera. Treine a vista para detectar vestidos em lojas pouco habituais - há muita variedade online e por vezes, o comércio tradicional tem exemplares interessantes. Uma vez que os designs clássicos nunca passam de moda, não é imperativo comprar o último grito: preste atenção a outlets (que frequentemente acumulam todos os vestidos clássicos que sobraram das últimas estações) e outros pontos de venda onde haja escoamento de stocks de diferentes marcas. Vintage é outra boa pista.

2 - Se não é perfeito, dê um jeito:

Muitas vezes aparecem vestidos que até têm o formato certo mas são demasiado curtos (ultimamente surgem alguns sheath dress muito acima do joelho) ou num tecido interessante, mas grandes e /ou de corte a direito (isto acontece bastante com exemplares vintage e outros achados). 
 Um vestido curto demais pode ser remediado mandando colocar na bainha uma barra larga de tecido que combine, ou de renda, veludo, cetim, bordado inglês (ideal para vestidos de festa)...
 Um vestido a direito em seda ou fazenda pode transformar-se num sheath dress, se tiver uma costureira hábil. 

 3 - Marcas com provas dadas:

É sempre bom saber onde procurar, já que algumas marcas são mais versadas - e vezeiras - em vestidos do que outras.

Asos

Acessíveis: além da Zara (que como vimos, ocasionalmente repete bons modelos com certa qualidade) da Mango (sobretudo em outlet) e da Primark (que de longe em longe reproduz dois tipos de sheath dresses realmente bem feitos em cores e padrões diferentes- dependendo do tecido, vale a pena experimentar porque parecem muito mais dispendiosos) é boa ideia, se der um pulo a Espanha, Reino Unido ou quiser comprar online, espreitar a Dorothy Perkins: tem sempre vestidos clássicos que vestem bem por um preço amigo. A Lanidor faz sheath dresses e vestidos linha A perfeitos que correspondem ao tamanho, não precisando de nenhum ajuste. A Sfera é também uma marca a ter em atenção - assim como outras disponíveis no El Corte Inglés. Muito boa para vestidos formais. Algumas amigas minhas juram pela ASOS: tem sempre modelos lindíssimos, preços convidativos para todas as bolsas e ouvi boas referências quanto a entregas e devoluções.


Segmento médio: a Tintoretto (como outras à venda no El Corte Inglés, dentro dos mesmos preços) é fantástica para vestidos de cerimónia bem cortados. Compensa estar atenta aos lookbooks da Globe: bons tecidos e moldes. Marcas como Adolfo Dominguez, Gerard Darel e Purificación Garcia têm frequentemente boas opções. Mas para comprar sem erro, tente a Karen Millen: tem invariavelmente sheath dresses de perder a cabeça a cada colecção.

Armani
Entry level/luxo: se pretende investir em exemplares que vão durar muitos anos, Ralph Lauren (nas suas várias linhas) e Hugo Boss (para vestidos sofisticados ou de look profissional) são escolhas seguras. Para um vestido de dia ou de noite que a faça sentir-se como Marilyn Monroe, nada como Dolce & Gabbana. Um modelo Vivienne Westwood nunca cairá mal num evento, unindo o melhor estilo vitoriano ao corte dos anos 50. Caso deseje um luxo sóbrio, Gucci, Armani e Lanvin.




Top 6 dos melhores "Jesus" no ecrã


Como hoje se assinala o Dia de Pentecostes, lembrei-me que já há tempos desejava fazer um mini ranking das que são - para mim, vá- as mais interessantes interpretações de Jesus Cristo no cinema. Não é uma escolha fácil, porque desde pequena tinha um enorme fraquinho pelos "filmes Bíblicos" que passavam pelo Natal e Páscoa. Devo ter devorado a maior parte dos "obrigatórios" mas gostaria de ver ou rever alguns clássicos importantes. Por isso vou basear-me apenas nas minhas impressões e no impacto emocional/visual de cada versão. De resto, interpretar o Divino Redentor no ecrã, embora seja um prémio para qualquer actor, é realmente estar um pouco na pele de Cristo, até no aspecto de não se agradar a todos. Ou porque o filme tem algo de controverso, ou porque cada um imagina a figura de Jesus lá à sua maneira e é impossível corresponder a tais expectativas... 

 Aqui fica então o top 6, terminando com o meu favorito.

6 - Diogo Morgado - Son of God (2014)


Aqui estou a fazer um bocadinho de batota patriótica, confesso. Falta-me ver boa parte da série. Mas quando um actor português conquista o papel icónico dos papéis icónicos  e consegue boas críticas, merece algum crédito. Mais importante, Diogo Morgado tem uma figura majestosa e ao mesmo tempo, um sorriso doce que vão bem ao Rei dos Reis


 5- Christian Bale - Mary, Mother of Jesus (1999)


Este foi o filme que vi mais recentemente, e deixa a desejar - com uma interpretação no mínimo muito livre dos acontecimentos e da personalidade quer de Jesus, quer da Virgem Maria. Não estou a imaginar a mãe de Jesus, um modelo de força serena e de doçura, a acusar os Apóstolos, a gritar com guardas e sacerdotes para impedir que lapidassem uma mulher (por muita razão que houvesse nisso) nem Jesus a ser pouco amável com a própria mãe porque andava entregue à sua vida de pregação junto dos discípulos. Mas a película vale por duas razões: Christian Bale (que além de fazer um lindo Jesus, é virtualmente incapaz de desempenhar mal um papel por mais fraco que o material seja) e uma sequência da Crucificação verdadeiramente artística, baseada no imaginário da Pintura.


4- Ralph Fiennes - The Miracle Maker (2000)


Sou suspeita, mas tinha de incluir Ralph Fiennes na lista apesar de neste caso, ter apenas emprestado a sua poderosa voz à versão stop motion do Messias (se estão recordados, Fiennes saiu-se lindamente a cantar como Faraó em O Príncipe do Egipto, mas é refrescante não o ver a fazer um vilão, para variar). Aliás, sou duplamente suspeita porque gosto muito de filmes em stop motion com marionetas bonitas (Jesus está muito bem conseguido, com uma presença majestosa em vez da figura franzina preferida por alguns autores) e se tiverem temas bíblicos, melhor ainda. Fica a sugestão para um serão familiar, até porque as cenas violentas foram reduzidas ao mínimo. Child friendly, mas muito interessante.


3- Robert Powell, Jesus of Nazareth (1977)


Um daqueles clássicos-que-passava-sempre-na-Páscoa (agora já é raro apanhar-se um filme apropriado à quadra...bons tempos!) esta super série italo-britânica (que também esteve nas salas de cinema) contou com um elenco estelar, de Laurence Olivier (Nicodemus) a Peter Ustinov (Herodes, comme il faut) passando por Anthony Quinn, não faltando mesmo Claudia Cardinale como a mulher adúltera. Embora ande com vontade de o rever com atenção, recomendo-o principalmente por tanto a Virgem Maria (Olivia Hussey) como Jesus (Robert Powell) parecerem tirados a papel químico das imagens tradicionais (e passarem realmente por mãe e filho, com o mesmo tipo de rosto e olhos claros). 

2 - Jim Caviezel - The Passion of The Christ (2004)



A versão de Mel Gibson, largamente baseada nas visões místicas de Anne Catherine Emmerich e da Venerável Maria de Jesus de Ágreda sobre a Paixão, dispensa apresentações. É um transporte artístico e devocional ao mesmo tempo, um filme que ou se adora ou se detesta. Eu acho-o difícil de ver, mas emocionante (tão emocionante que o facto de ter ido ao cinema com um amigo tolo que me perguntou se o Judas "era o mau" não estragou tudo; só a mim!). No entanto, já era fã de Jim Caviezel antes e percebi perfeitamente que tivesse sido escolhido para o papel pelo seu olhar grave e triste, perfil aquilino e figura imponente. Só achei pena terem-lhe alterado ligeiramente o nariz e os olhos (com a intenção de o assemelhar o mais possível à imagem no Santo Sudário de Turim) - a meu ver, o rosto de Caviezel era perfeito como estava. O facto de o actor se entregar de corpo e alma a este trabalho, com um zelo só possível num Católico devoto como ele (adoeceu várias vezes, foi atingido por um raio e intoxicado com o gás do cenário enquanto estava pendurado na Cruz,etc) também ajudou, com certeza.

1- Ted Neeley, Jesus Christ Superstar (1973)


Este é possivelmente o filme da minha vida. Rodado na Terra Santa com poucos recursos (e muita, muita criatividade; é preciso manter a mente aberta para não estranhar legionários com metralhadoras e outras inovações) mas realizado com uma perfeição rara. A iluminação,a fotografia, a direcção de actores, a edição, é tudo extraordinário. Sei a banda sonora de cor, sem exagero, e recuso-me a ver qualquer versão do musical em palco. Por muito boa que seja, é sempre um assassinato. Adiante: hippies, danças e polémicas associadas ao elenco à parte (os actores que interpretavam Pedro e Pilatos tinham estilos de vida pouco condizentes com a temática, digamos assim...) o libretto é bastante fiel aos Evangelhos, embora preencha alguns "campos em branco" com o que Jesus e Judas terão sentido ou pensado em determinadas situações. Temos também a oportunidade de imaginar o que Anás e Caifás (este jovem e bem parecido, com uma voz espantosa) terão conspirado entre si, de sentir a imponência do poder de Roma na Casa de Pilatos (aquela música!) e a decadência cómica na de Herodes (o que calculo, não andaria longe da verdade, mais cantiga menos cantiga...).
 Mas vamos a Ted Neeley: além de uma voz absolutamente fabulosa - com uma extensão incrível- que consegue num trecho expressar meiguice, poder, tristeza e raiva (a cena dos vendilhões do Templo é épica, e foi rodada num take só porque não havia mais adereços para partir, tão parco era o orçamento) tem ar de anjo, com os olhos mais lindos e doces. Posto em termos queirosianos, "é uma pintura de Nosso Senhor Jesus Cristo!", logo o meu preferido, sem desfeita aos restantes...




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