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Saturday, June 20, 2015

Moral do dia: para baixo todos os santos ajudam, mas para cima...


Bem diz o povo "para baixo todos os santos ajudam, mas para cima...". E isto é verdade em muitos aspectos. Evoluir exige esforço: descambar por ali abaixo é muito fácil. 

 A um estudante aplicado podem bastar umas semanas de descuido e farra para as notas descerem. Para quem se preocupa muito com a linha, uma fase de preguiça pode deitar a perder meses de exercício e cuidados com a alimentação. Manter a pele bonita, com os devidos cuidados, é uma mera questão de disciplina - mas deixem-se andar uns meses a desleixar a limpeza, o protector solar, a hidratação e ponham-se a torrar na praia que vão ver o aspecto baço com que fica, e a canseira que é recuperar. 

 No ballet, um passo em falso compromete toda a coreografia. Uma pequena lesão pode complicar a carreira ao maior jogador de futebol.

 Num bonito visual basta um acessório a mais, um excesso de maquilhagem ou uma peça extravagante, de ar barato, para estragar o ramalhete.


O mesmo acontece com a reputação - que D. Francisco Manuel de Melo afirmava ser como a água cristalina: uma gota de tinta chega para a tornar turva, limpá-la é que é complicado. 

 Assim é em tudo; e o pior é que as "descidas" são contagiosas, como todo o exemplo. Se uma pessoa de carácter elevado e boa fama concede ( julgando que daí não vem mal ao mundo) conviver com almas de viver e ar duvidoso, com  quem não se aprende nada...está a abrir as portas a uma descida de ideias, de modos, de hábitos - para não mencionar as confusões que convida. Pessoas interesseiras e de mau porte nunca se aproximam para trazer nada de bom...

Não é só a  própria reputação se empena: as pessoas de bem que lhe eram próximas sentem-se ofendidas com tais novas amizades e ou se afastam para não se contaminarem ou ficam, na tentativa de controlar os estragos, atraindo por sua vez o mal para si; isto se, revoltadas com a situação, não permitirem elas próprias outros convívios igualmente indesejáveis, seguindo-se um efeito dominó que é desastroso. O abismo atrai o abismo. E deste modo se têm deixado cair grandes amizades, bons negócios, organizações respeitáveis, amores firmes, famílias unidas...um mau elemento basta para lançar a baixeza e a discórdia. E reparar os danos nunca é tão fácil como 
causá-los.



  Alguém disse que às vezes não é boa ideia andar por aí com uma mente muito aberta, permeável a tudo o que lhe queiram pôr lá dentro; ao que é mau, deve-se sempre fechar o ferrolho. Só assim se pode ser fiel - fiel aos valores de base que se receberam, aos princípios e objectivos de vida, às pessoas que são realmente importantes. É uma forma de inflexibilidade positiva.

 Sem ela, sem essa fidelidade que não admite dúvidas ou excepções, não pode haver paz nem estabilidade; e sem isso, o aperfeiçoamento é impossível. É como aqueles contos em que um pecadilho basta para uma alma perder a chance de entrar no céu...

Friday, June 19, 2015

Um momento de absoluta beleza (que não se repetirá)



Londres, 1956 - no âmbito da Royal Film Performance, o Palácio de Buckingham reuniu três mulheres magníficas - a Rainha Isabel II, Marilyn Monroe e Brigitte Bardot. (Anita Ekberg também lá estava, como outras estrelas, mas três é a conta que Deus fez e juntar BB e Marilyn com a Rainha equivale a uma conjugação astrológica rara e auspiciosa!).


 Sua Majestade e Marilyn, ambas com 30 anos e no auge dos seus encantos; Brigitte muito ingénua como uma debutante. Todas belas e graciosas, como seria de esperar  - Monroe roubou as atenções usando um vestido em tom de ouro que não falhava o protocolo por um triz - com umas spaghetti straps só para não dizer que não levava alças - revelador mas tão lindo, tão admiravelmente feito, moldando-a como uma estátua, que se lhe perdoa tudo.


Eram outros tempos, outro rigor, outra elegância e outro impacto. Vale a pena ver o vídeo do evento - recuperado e recentemente divulgado no Instagram da Casa Real - e a entrevista de Brigitte Bardot sobre o seu encontro com Marilyn no dressing room das senhoras:


 É nestes testemunhos que se percebe a diferença entre uma mulher bonita e um ícone - no verdadeiro sentido do termo, não com o facilitismo barato que lhe atribuem hoje a torto e a direito... 

Brigitte não era só uma beldade capaz de encostar a um cantinho a maioria das celebridades actuais: com toda a sua rebeldia, possuía elegância interior; tanta, de facto,  que apesar da sua aura - e das incontáveis imagens- de sex kitten, nunca foi vulgar. E é essa elegância que fica clara na forma como fala de Marilyn: "nunca me comparei a ela, porque a considerava  tão acima de mim!"


 Havia de ser hoje, na era das provocaçõezinhas virtuais e em que se acha moderno e engraçado chamar "bitch" umas às outras...mas de uma coisa tenho pena: que não existissem selfies nessa altura. Não encontrei um único retrato das duas juntas. Temos de nos contentar com as fotografias oficiais, e muita sorte... 


Auditoria do roupeiro: 7 técnicas avançadas


Provavelmente tem feito as limpezas periódicas ao guarda roupa de acordo com as mais eficazes regras de organização; já se livrou de tudo o que pudesse remotamente dar qualquer "ar de principiante" ao seu visual e tenta manter por perto apenas o que acrescenta alegria à sua vida.

 Porém, há sempre aquelas peças de que até gostamos, que têm piada por qualquer razão e que embora não sejam usadas, continuam a ocupar espaço precioso e a complicar o dia-a-dia. Está então na hora de usar tácticas avançadas de auditoria para avaliar se esses "monozinhos" que causam dúvidas estão ou não de acordo com os seus planos de closet impecável.

Vejamos então:

1- Roupas maçadoras que precisam de 1001 truques para assentar




Embora algumas dicas de styling permitam "dar a volta" a certas peças, o processo de vestir deve sempre ser simples: se um vestido não pode ser usado sem um spanx/cinta/saiote, mais uma pregadeira para garantir que os botões não se abrem e AINDA um cinto....mais vale mandar arranjá-lo de vez. Caso ache que a qualidade não compensa a ida à costureira, ponha-o no caixote das doações ou reciclagem.

2- Formatos que não funcionam em si



Uma compradora sensata sabe que deve ser implacável e cingir-se à variedade de modelos que mais favorecem a sua silhueta. No entanto, há sempre um artigo que escapou - porque foi uma pechincha de uma marca excelente, porque o tecido era lindo...mas depois sente-se sempre menos confiante quando pensa em vestir essas coisas.

Nestes casos, só tem três opções: , se dispõe de algum espaço extra, arranjar maneira de as fazer funcionar (ex: reservar "aquele" vestido curto e largo para usar SÓ com meias pretas e botas compridas que tapem tudo, etc) .
, mandar adaptar ( jeans boot cut sem graça dão uns belos relaxed skinnies; um vestido largueirão de belo tecido antigo pode facilmente tornar-se num sheath dress numa boa modista) , oferecer a quem tenha um tipo de corpo adequado a essa peça. Um top muito fechado pode "engordar" uma rapariga que tenha um busto maior mas ficar fantástico na sua prima que é mais esbelta de tronco, embora as duas vistam o mesmo tamanho. Ela ganha um top, a menina ganha espaço, everybody´s happy.



3 - Comprimentos que não a favorecem



Para cada mulher há a medida certa de calças, mangas e saia/vestido (em todos os comprimentos: a midi de uma pode ser sobre o joelho e a de outra bastante mais abaixo, e assim por diante).  Uma vez descobertas as proporções ideais para si, resta-lhe não ter no armário nada que fuja a isso. O que estiver curto ou comprido mande adaptar, já que subir ou descer bainhas é uma alteração que sai barata (e se não sobrar tecido, pode sempre aumentar o comprimento de uma saia cosendo uma barra de outro que combine, renda ou bordado inglês) .


4 - Tecidos fraquinhos

Já aqui se falou  sobre isto e nesse quesito não há muito a fazer. Os tecidos naturais são sempre preferíveis, embora também haja diferentes graus de qualidade nas fibras sintéticas - por vezes, até marcas melhores optam ocasionalmente por alguns materiais desses simplesmente porque têm o comportamento certo para aquilo que se pretende. Se uma peça tem um tom/feitio/padrão bonito mas o tecido não cai como deve, se fica colado à pele ou não a deixa respirar, se é desconfortável/áspero/molengão/gelado no Inverno/abafado no Verão, se pica (isto pode acontecer com algumas lãs, atenção) se não fica no lugar, amarrota, ganha pêlo, borboto ou deforma...já sabe, liberte-se disso sem dó porque nunca vai ter remédio.

5 - Tecidos, padrões e cores que não resultam


Outro critério a ter em conta nos tecidos é a forma como funcionam no seu corpo (ou não). Os vestidos de jersey, por exemplo, ficam fantásticos em quem tem menos cintura e ancas esguias, mas não favorecem tanto mulheres cintadas e curvilíneas. Se não conseguir remediar o problema acrescentando um forro, considere desfazer-se. Depois há cores que simplesmente dão má cara
 ( principalmente se usadas perto do rosto) estampas inadequadas...
Se algo não a faz sentir bem, por algum motivo é.


6- Decotes estranhos


Já se sabe que um decote pode fazer ou arruinar uma toilette. Os que forem muito abertos ou fechados são fáceis de modificar (abrindo-os , ou, pelo contrário, acrescentando um corte de cetim ou renda no lugar certo) se um top ou vestido valer a pena. Porém, há outros - o corte império, por exemplo - que são mais complicados. Se uma peça é bonita mas não tem espaço para acomodar tudo (por exemplo, um decote que achata o peito com um soutien normal e o destapa completamente se usar um almofadado) passe-a adiante.

7 - Camisas, vestidos, t-shirts e tops que encolheram inexplicavelmente "aquele bocadinho"
Sabe, os que se compraram no tamanho exacto mas perderam uns centímetros chave na máquina de lavar. É por uma unha negra, mas já não estão confortáveis: o vestido sobe, a cintura não fica onde deve e aperta o peito; a t-shirt comprime desconfortavelmente sob os braços; a camisa não fecha bem...
 Não vale a pena conservar tais coisas porque mesmo que emagreça não pode alterar a sua estrutura óssea...e se uma peça encolheu, muito dificilmente voltará a assentar nos mesmos sítios. 


Thursday, June 18, 2015

As coisas que eu ouço: "Amor de homem". Como quem diz.

"Amor de Homem"

Há pouco uma pessoa chegada chamou-me a atenção para a imagem de uma flor que lhe tinha nascido no jardim, explicando-me que se chama "Amor de Homem". Um daqueles nomes engraçados que as plantas às vezes têm, como amores-perfeitos, brincos de princesa, sapatinhos do Menino Jesus, não-te-metas-na-minha- vida, erva da felicidade, atacadores do Diabo, erva de S. João, Rainha Isabel ou lágrimas de Job (e estas são só assim as que me ocorrem sem recorrer a auxiliares de memória).

E como apesar de me interessar pelo tema nunca em tal ouvira falar, sabendo que normalmente estes nomes advêm de alguma tradição ou propriedade atribuída à flor/erva/etc, perguntei : "então porquê? Dá sorte ao amor?".

- Não - Foi a resposta - chamam-lhe assim porque nasce num dia e morre no outro!

Fiquei cá a pensar que esse é um nome muito mal atribuído. Deviam antes chamar-lhe "amor de estudante" ou mais adequadamente, "amor de fedelho", "amor de patife"...e isto para não pôr nomes feios à pobre da flor, que já tem uma vida complicada (e curta) que chegue!

 Alguma vez o amor de um homem digno desse nome nasce num dia e morre no outro? Ou um homem a sério num dia é todo zelos, todo cuidados, tudo muito lindo...para dali a nada se comportar como se não fosse nada com ele? Ou está apaixonado pela Maria mas vai calculando se a Francisca lhe convém? Nada disso é varonil, adulto, masculino ou próprio. Só é pena que alguns rapazolas dêem mau nome a todos, fazendo o bom povo inventar estribilhos injustos como "os homens são todos farinha do mesmo saco, todos amassados na mesma tábua e lêem todos o mesmo livro". E nomes de flores em que paga o justo pelo pecador.

"Esto vir"- sê homem, disse um grande senhor e muito bem...

Comédias românticas x vida real.


Costumo dizer "não ia ao cinema ver uma comédia romântica nem que me pagassem mas para relaxar no sofá, não há melhor". Em especial se tiverem boa fotografia,  paisagens e roupas bonitas, para uma pessoa desligar o raciocínio. Curiosamente conheço rapazes que dizem o mesmo, o que me faz pensar se terei uma abordagem menos tipicamente feminina dos chick flicks. Se houver mais mulheres com a mesma opinião, e creio que há, é um pouco injusto chamar a tais filmes "enredos de saias". 

  Se de facto muitas mulheres adoram comédias românticas, se são minimamente influenciadas por elas, se ir ver uma comédia romântica é o programa ideal de primeiro encontro para muitas meninas e senhoras, ...isso é capaz de ser mau, porque poucas transmitem algo de válido - para não falar daquelas mais recentes em que a mulher é premiada por se portar mal (como Pretty Woman, Bridget Jones ou esta mais recente que me irritou bastante). Mais ou menos bem escritos, estes folhetins são como as gomas e as pastilhas elásticas: cumprem a sua função, distraem, mas só isso.


 No entanto, analisemos os elementos da mais banal  comédia romântica, aquela feita a pensar nos problemas e aspirações da maior parte das raparigas: quase sempre a heroína tem um azar qualquer ao amor - amiúde acompanhado do mesmo na carreira. 

Regra geral, o pontapé de saída para a história é a protagonista ser desiludida pelo noivo/namorado/marido (traída, abandonada no altar, posta na "prateleira" ou outra opção igualmente desagradável) e como uma pouca sorte nunca vem só, tem um patrão horrível que a despede ou coisa assim. Se a protagonista for rica, perde tudo o que tinha e tem de recomeçar do zero. A pobre coitada fica no fundo do poço, o que só não é totalmente trágico porque os argumentistas tratam de lhe inventar uma série de desaires cómicos, como se os planetas estivessem todos contra ela. Nas comédias românticas não se fala no Zodíaco, pelo menos que me lembre, mas a julgar pela quantidade e velocidade dos acontecimentos, parece que a protagonista está sempre a atravessar um trânsito astrológico estranho (não que eu creia lá muito nisso, mas tem de haver uma explicação).



 Então a menina faz um esforço para sair da depressão e do buraco - ou acontece ainda OUTRA mudança que parece terrível mas vai-se a ver, não é, que a obriga a mexer-se: viaja para algum lado, aparece-lhe um trabalho aparentemente detestável ou um rapaz esquisito que está sempre a tropeçar nela,etc. E pronto, a heroína lá começa a sua jornada New Age de crescimento. O que parece querer demonstrar que basta uma mudança de cenário para que a vida das pessoas se altere também (o que nem sempre é verdade). 

Mais uma vez, os acontecimentos movem-se a uma velocidade só explicável por, sei lá, Mercúrio a toda a brida ou intervenção da Fada Madrinha e - quase sempre no espaço de um ano mais coisa menos coisa, conforme indicam as legendas - resolve-se tudo. E não me venham com a desculpa "é um filme, não podia durar muito" porque as legendas podiam sempre indicar "dois anos depois" mas não.

 É tudo ultra rápido, e, apesar das peripécias, super fácil. Como nos livros da Anita (o que me faz pensar que passar a infância a ler livros da Anita e a juventude a ver comédias românticas não é lá muito saudável).



Adiante. A menina supera as suas inseguranças e dúvidas interiores, descobre o seu propósito de vida e a carreira perfeita (sempre com uma exposição/livro/formatura/projecto de sucesso a ser comemorado com todas as personagens num cenário todo catita) corrige todas as injustiças na sua vida e invariavelmente, o noivo parvo volta arrependido.

 Então, das duas uma: ou é rejeitado e castigado de forma cómica (caindo ao lago que estava enfeitado para a festa ou coisa que o valha) e a rapariga fica com o bom rapaz que apareceu para salvar o dia ao longo do enredo, ou vai-se a ver e foi tudo um mal entendido, fazem as pazes e zás, final feliz. O karma funciona sempre como um relógio nestas estórias e a fórmula é  sensivelmente esta: tal como um hamburguer do McDonald´s, não tem surpresas mas consome-se bem por isso mesmo. 

E atenção, nada contra um pouco de romantismo e "magia" na vida real, até porque tudo isso existe: muitas vezes a realidade ultrapassa a ficção. A rapariga que nunca viveu momentos que parecem tirados de um filme ou de um livro talvez deva aplicar a  fórmula das comédias românticas, mudar urgentemente alguma coisa na sua existência maçadora, porque algo está errado. Por exemplo, tive uma professora linda de morrer, bem sucedida, super amorosa, que foi abandonada literalmente no altar e que depois encontrou um noivo bem melhor. True story. E conheço outros casos mais mirabolantes...mas calma.

  As comédias românticas têm, primeiro, o defeito de não terem nada de sobrenatural, ou quase nada: ao contrário dos contos de fadas são perigosamente comuns, muito parecidas com a realidade, de modo a que as espectadoras se identifiquem com isso - o que pode causar, ainda que inconscientemente, uma certa frustração quando tudo não encaixa tão perfeitamente como nas telas. Ninguém leva um conto de fadas muito a sério, mas uma comédia romântica é um bocadinho mais plausível.

Depois, os chick flicks sugerem, na maioria, três ideias perturbadoras: 

- 1º, o que está errado na vida da heroína é sempre culpa de alguma insegurança/complexo/desconfiança/falta de desenvolvimento interior; 

- 2º, basta abanar um pouco os acontecimentos que tudo se resolve;

-  3º,  a justiça poética é sempre servida e as recompensas aparecem invariavelmente à velocidade da luz.

A realidade nem sempre é tão linear. Coisas desagradáveis acontecem a todas as pessoas, mesmo às melhores e mais seguras de si; não é preciso ser "uma mulher que deixou de acreditar no amor" um "patinho feio", "uma rapariga que era má no liceu mas decidiu ser boazinha" ou "uma loura tonta que descobre o seu potencial". Por vezes os desastres sucedem às mulheres mais "resolvidas" e sair deles não depende de nenhum truque mental. Como dizem os americanos, porcarias acontecem.

 Depois, o remédio não reside necessariamente nas mudanças. Ver as coisas por outra perspectiva, estar noutro cenário, tentar algo que nunca se fez pode distrair, pode ajudar, pode atirar dados novos para a equação ou conduzir a  uma realidade ou fase diferente, mas nem sempre. Por vezes as novidades que surgem nesse processo são transitórias e sem grande significado para o futuro. 

A rapariga pode não alcançar a iluminação: às vezes nem lhe faz falta. Até está a fazer tudo bem, simplesmente são fases e precisa de lutar sem nenhuma arma nova. Nem sempre o homem perfeito ou o sucesso absoluto aparecem no momento em que isso dava um jeito enorme, ou se aparecem, por vezes o final feliz não se conclui logo. A heroína pode ter de fazer frente às situações com um final que ainda é um work in progress - e dar a volta por cima mesmo assim.

E por fim, nem sempre o mau rapaz ou o vilão é castigado de forma divertida e a boa rapariga recompensada pelos céus com perfeita justiça poética na hora exacta. Acontece- já vi acontecer - mas não há uma regra. O que não é necessariamente pior, nem melhor. 

É como dizem: a diferença entre a realidade e a ficção é que a ficção faz sempre perfeito sentido.

  A vida, por muita magia que tenha, é sempre cheia de infinitas subtilezas que o cinema jamais conseguirá captar...



Wednesday, June 17, 2015

O cúmulo do desprezo, da aversão ou do desafecto é...


... estarem-se tão nas tintas, mas tão nas tintas para alguém que só vos importa saber onde essa alminha anda,  ou a fazer o quê, para assegurar que não há a mais remota hipótese de se cruzarem num evento qualquer. É que o Céu nos defenda! Era preferível ir a uma festa de zombies a tocar tambor  para os atrair mais depressa. Ou a um concerto do Tony Carreira com o Clube de Fãs do Chagas Freitas seguido de um jantar de lampreia (ou qualquer outra coisa que vos provoque ânsias) e acabar a noite a resolver equações de terceiro grau.

Arreda!
De resto, a pessoa até podia andar para aí de monociclo e com uns guizos na cabeça que era para o lado que dormiam melhor. Nem se davam à canseira de lhe atirar uns ovos nem uns balões de água nem nada. Mas como quem faz uma faz um cento... coisas ruins quanto mais longe, maior a felicidade!
  Entra-se em modo "não te quero mal nenhum; que sejas muito feliz, até ponho uma velinha por ti, de preferência a  Nossa Senhora do Desterro para que te desterre em bem para muito longe- andor violeta!".


O amor perfeito nos anos 1940...e a confusão do nosso tempo.


"O verdadeiro amor não admite nenhuma reserva no dom de si e não prevê termo à sua duração. Qualquer advérbio o trairia.... Negar-se-ia a si mesmo se afirmasse "eu amo-te agora", "eu amo-te por algum tempo". Diminuir-se-ia se confessasse "eu amo-te muito". Não. Ele só pode declarar "eu amo-te" englobando neste laconismo toda a intensidade e duração, negando ao mesmo tempo toda a restrição.

O amor é total e por isso quer a intimidade dos espíritos, do coração e dos corpos. Sofre com as omissões, os segredos ciosamente conservados, os recantos sombrios e misteriosos que se escondem no coração. Reclama a plenitude do coração, quer ser amado só, teme todo o rival. Por natureza é ciumento.  Aspira à união porque espera realizar o seu sonho - sempre um tanto iludido - de posse total, decisiva e definitiva, da unificação e identificação com o ser amado. 

Digamos entretanto que chegado à sua plenitude, quando a fusão se conseguiu, o amor não conhece mais o ciúme; a confiança é absoluta e recíproca. 

Tal é a plenitude psicológica do amor e as suas características humanas; tal é o amor integral e perfeito que Deus quis..."

                                                  Pierre Dufoyer


Isto retirado de um manual de comportamento (masculino) datado de 1948. Claro que - o próprio autor o diz - o texto descreve o ideal e não necessariamente a realidade daquele tempo.

 Porém, o ideal norteia os esforços; por ele se medem as atitudes pois ainda que não se alcance esse padrão em absoluto, tudo o que se pensa, faz e diz procura conformar-se com ele. Uma pessoa é sempre a melhor versão possível dos seus modelos de vida: quem aspira à maior perfeição pode não chegar lá, mas andar perto; e com certeza, não vai agir de forma muito contrária àquilo que admira e defende. É assim com tudo, nas coisas mais simples do quotidiano e nas mais sérias - no posicionamento das marcas, nas dietas, na missão das organizações, nos lemas de vida, na forma de vestir, de pensar, de viver, nos princípios de carreira, na Fé, na forma de estar em família, nas ideias políticas, nas amizades e companhias. Estabelecemos padrões e guiamo-nos por eles. 



Quando os padrões descem, a qualidade desce. E quanto menos exigente for o padrão à nossa volta, quanto mais flexíveis e relativos os ideais em que uma pessoa é educada e os que mantém para si, mais fácil é escorregar. 

 Ora, em 1948 as relações humanas estariam longe de ser perfeitas; mas o padrão de comportamento actual, o "ideal" de hoje - se é que existe - é mais rápido, frenético, efémero, elástico, fluido, descartável, frívolo, egoísta e irreflectido. As aspirações humanas ao amor, à companhia, à exclusividade e estabilidade são imutáveis; as receitas para lá chegar, porém, mudaram, ou foram esquecidas por completo.

 Como disse Zygmunt Bauman "vivemos tempos líquidos; nada é para durar". Antigamente procurava-se ir da alma para o corpo; avaliar compatibilidades, apreciar as subtilezas do espírito e os indícios, formar laços sólidos antes de partir para o resto. As mulheres reconheciam a sua vulnerabilidade e tiravam partido dela; os homens faziam gala de a proteger e apreciar; e as fronteiras da lealdade, do compromisso, as nuances da fidelidade estavam bem definidas. Não que isto fosse sempre cumprido ou igual para toda a gente - não era. Mas tentava-se. O próprio comportamento vigente a isso obrigava - os homens apaixonavam-se pelas mulheres totalmente vestidas e à distância; oferecer um retrato a alguém era um passo muito sério, que podia cobrir uma rapariga de ridículo; em tempos mais recuados ainda, chegava-se a namorar pela linguagem dos leques, por carta...as pessoas deixavam de se apaixonar por causa disso? Não. 

  Agora o comportamento feminino é de tal maneira agressivo que um rapaz estranha se uma jovem não lhe envia, como as outras, selfies reveladoras...ou terá o descaramento de dizer, muito ofendido, a uma paixoneta que não chegou a dar-se "se nos tivéssemos envolvido fisicamente mais cedo, ainda agora estávamos juntos". 
 Entre o "amor" e um "test drive" a diferença é muito pouca. E isso funciona  para quem procura divertir-se, atenção - torna-se é confuso para quem não adere a tais ideias ou para os que procuram outro tipo de relacionamento. Aplicam-se ao amor que se quer para durar as mesmas regras das relações fugazes. É como tentar fazer um bolo com uma receita de canapés!

 Pior ainda, mesmo entre as pessoas mais sérias, mais graves ou menos desmioladas, com uma forma de pensar e de estar mais tradicional, esta cultura da "malandrice" e do "logo se vê" também veio baralhar a dinâmica, quanto mais não seja nos aspectos da decisão e da lealdade.

Não nos enganemos: ninguém é perfeito e santinhos há poucos, mas esse "tentar", esse "partir do princípio" faz uma diferença enorme. Ora se faz!

Tuesday, June 16, 2015

Nancy Mitford dixit: mau vento, mau casamento, más companhias e má memória





 "Não haveria consequências, pois as pessoas têm fraca memória para este tipo de coisas... e no fim de contas, não há nada para esquecer excepto o mau gosto"

                                                      Nancy Mitford, "Love in a cold climate"

Ante uma amizade danosa ou ligação de mau agouro, o que está feito está feito; se vemos um cavalheiro decente ou uma rapariga de juízo serem levados por amigos estroinas; ou então um bom rapaz ou uma mulher elegante e bondosa unidos a uma pessoa sem nada que se recomende, das duas uma: ou corre tudo pelo melhor e só se estraga uma casa, ou não dá em nada, 
zangam-se as comadres, vai cada um para seu lado e do mal, o menos. 

Só resta esquecer o mau gosto - que é o que por vezes choca mais quem vê.

Afinal, a má pontaria nas companhias e nos amores é como o mau vento -ou como  um faux pas de moda cometido num momento fashion victim - passa, apagam-se os retratos e esquece. E Nancy Mitford, cujo grupinho de seis irmãs encantou e escandalizou a boa sociedade inglesa nos anos 30, sabia do que falava: ela própria fez um casamento infeliz, enganando abertamente o pobre marido com um oficial francês; a irmã Diana - a lindíssima Lady Mosley, comparada à Vénus de Botticelli - socializava alegremente com Hitler juntamente com a mana Unity; a do meio, Jessica, para contrariar fez-se comunista; só a mais nova, Deborah, teve uma vida sossegada como Duquesa de Devonshire.

 Mas para a posteridade o que ficou foi a imagem de seis lindas e endiabradas raparigas do seu tempo e do seu meio...não há poeirada que um pouco de glamour e cinismo não cubram! Isso aos olhos do mundo, claro. A pureza de consciência é uma história completamente diferente. Qualquer erro, para ser sanado, exige contrição, expiação e redenção, porque só o vento não basta, nem o correr das águas...

Mudam-se as décadas, mudam-se os ideais de beleza (e as mulheres ainda se afligem com isso!)

Um artigo muito engraçado sobre a evolução da beleza "ideal" da Belle Époque até hoje anda a correr a internet. Este tipo de texto não é novidade, mas tem sempre a sua graça e numa altura em que as mulheres nos média parecem obcecadas em demonstrar que todos os corpos são "perfeitos" - embora muitas façam questão de os expor da forma mais crua e inestética, num aparente movimento de auto comiseração - mais importante se torna reparar nisto, para poder relativizar. 

1900- Durante a Belle Époque o ideal de beleza era a mulher imponente muito elogiada por Eça de Queiroz, com a perfeita figura de ampulheta, cintura fina (realçada pelos espartilhos em "S") ancas e busto perfeitamente proporcionados, pescoço de cisne e ombros muito femininos. Grandes decotes shoulder-to-shoulder, chapéus extravagantes e penteados volumosos estavam na moda. A pele queria-se clara e o rosto com um aspecto natural, sobrancelhas pouco depiladas e lábios e faces rosados. Beldades como a "Gibson girl" Camille Clifford e a cantora lírica Lina Cavalieri eram a perfeita encarnação desta "mulher Vénus".

1920 - Após as privações e tristezas da Primeira Guerra Mundial, e como que a adivinhar o que se seguiria- a Grande Depressão e a II Grande Guerra- viver depressa e intensamente passou a ser a palavra de ordem. A entrada das mulheres no mercado de trabalho (e as conquistas femininas a nível social/civil) determinaram o fim do espartilho - com uma ajudinha de Mademoiselle Chanel. Flappers como Louise Brooks e Josephine Baker (de cabelo à garçonne, olhos e lábios pintados dramaticamente, boquilha e joelhos à mostra maquilhados com rouge para dançar o Charleston) eram o modelo a seguir. A figura "perfeita" de então era a de rectângulo: mais pequena e esguia do que a Gibson Girl, com  peito pouco pronunciado e ancas escorridas (ideal para fazer funcionar os vestidos de cintura descida). As mulheres que pouco antes enchiam o cabelo e o peito de extensões e chumaços agora cortavam as madeixas e enfaixavam o busto para obterem a desejada silhueta ágil "à rapaz".
  
1930 - As bainhas das saias descem ligeiramente e há um regresso discreto às curvas, com uma figura de ampulheta magra- cintura vincada e um busto delicado, mas feminino e uma anca um pouco mais pronunciada. A elegância de Jean Harlow, Vivien Leigh ou Bette Davis era o objectivo a atingir, mas o look de Mae West, mais voluptuosa, continuava a fazer sucesso.




1940 - Face à escassez da  II Guerra, e ao facto de as mulheres precisarem de deitar mãos à obra, a figura esguia, mas com curvas, continua em voga. Dior reinventa a saia lápis, que destrona os vestidos sem estrutura de décadas passadas e faz furor por revelar o contorno das ancas.  No entanto a mulher torna-se mais majestosa, austera e com um certo toque masculino no seu look- comunicando respeito, coragem e espírito de sacrifício. Manter a beleza com poucos recursos torna-se um dever patriótico. Churchill incentiva o uso do bâton para manter a moral da população. A beldade ideal é mais alta e tem ombros mais largos, com uma silhueta de triângulo invertido. Lauren Bacall, Katharine Hepburn, a nadadora Esther Williams e a graciosa Veronica Lake dão cartas... mas Rita Hayworth, uma ampulheta perfeita,  tem o seu nome escrito na bomba atómica e Ava Gardner começa a causar sensação.


1950 -  Com a paz (e o fim do racionamento nos tecidos) as mulheres querem voltar ao lar, criar uma família e tirar partido da sua feminilidade. Christian Dior lança o New Look (deixando os maridos à beira de um ataque de nervos, porque mandar fazer vestidos com tanta roda ficava bastante caro) mas o formato lápis mantém-se, acentuando as curvas em saias e vestidos. Surgem as calças cigarrette e capri. Marilyn Monroe populariza os jeans. A figura de ampulheta volta a representar o ideal de beleza, em vários tamanhos - das muito esguias, como as modelos Dovima, Dorian Leigh e Suzy Parker, às mais voluptuosas, como Jayne Mansfield. 
  Elizabeth Taylor, Gina Lollobrigida, Bettie Page, Mamie Van Doren e Grace Kelly - cada uma no seu género - encarnam a mulher perfeita. 


1960 - A "cultura da juventude" instala-se, em 1964 Mary Quant estabelece a mini saia e a figura "arrapazada" ou de rectângulo volta a estar em voga. Para fazer resultar os vestidos de trapézio e as saias curtas era preciso ter pouca anca, uma barriga lisa mas cintura recta, busto pequeno e pernas longas de rapariguinha. As dietas ficaram na ordem do dia, com milhares de mulheres a quererem ser como Twiggy, Jean Shrimpton e Audrey Hepburn (que curiosamente, devia a magreza às privações sofridas durante a II Guerra). Mas Veruschka, com as suas formas amazónicas, encanta o mundo da moda e a silhueta de Sophia Loren e Brigitte Bardot continuará a fazer sucesso pelos anos 60 fora...


1970 - À semelhança do que aconteceu durante a década de 1930, a silhueta rectilínea dá lugar a algumas curvas. A figura continua a ser muito esbelta e quer-se longa, realçada pelas calças boca de sino, mas um bocadinho  definida e feminina, numa ligeira forma de triângulo invertido: mais volume no busto, cintura a direito, barriga sequinha e ancas estreitas. Esta é a forma ideal para permitir usar os novos tecidos coleantes, como o spandex, e os jumpsuits da era da disco music. Farrah Fawcett, Marisa Berenson e no final da década, Gia Carangi, são as raparigas a copiar: atléticas, bronzeadas e alegres, com uma beleza muito natural.

1980 - Impõe-se a cultura da "mulher de sucesso", forte e independente, com conquistas definitivas no mercado de trabalho. Entra o power dressing, com os fatos e vestidos de ombreiras pronunciadas, mas também  a rebeldia colorida da New Wave e os looks opulentos inspirados em novelas como Dallas e Dinastia. A mulher perfeita pretende-se  majestosa, com formas femininas mas longas, esculpidas no ginásio - ainda é um triângulo invertido mas a anca é um bocadinho mais larga, quase, quase a roçar uma ampulheta em versão mais forte e com músculos definidos. Elle McPherson ganha o cognome "O Corpo" e modelos como Paulina Porizkova e Carol Alt fazem sucesso. Cindy Crawford e Stephanie Seymor ficam famosas mais para o final da década: nascem as supermodels.

1990 - As top models Claudia Schiffer, Linda Evangelista, Cindy Crawford, Helena Christensen, Naomi Campbell e Christy Turlinton, entre outras, ditam um padrão de formas perfeitas e majestosas. Mas por volta de 1994  Kate Moss vem, como uma nova Twiggy,  contrariar esta tendência com a sua figura petite e delicada de rectângulo - e surge o look heroin chic, influenciado pela música grunge. Jodie Kidd e Amber Valetta são outros rostos que representam o novo visual. Porém, as curvas não desaparecem por completo: Eva Herzigova apresenta o Wonderbra e Laetitia Casta conquista a indústria com a sua beleza intemporal.



2000 -  Gisele Bundchen, considerada a "rapariga mais bonita do mundo" ressuscita brevemente a ideia de supermodelo (praticamente extinta no final da década de 90, substituída por hordas de modelos magrinhas, pálidas e anónimas) e dita o novo padrão: uma mulher de aspecto mais forte e saudável,  semelhante à dos anos 70 -magra mas com algumas formas, bronzeada, musculada, com abdominais trabalhados, busto pronunciado, mas pouca cintura e anca. Volta o triângulo invertido! Britney Spears populariza o abdómen definido e as calças de cintura descaída. Paris Hilton dá nas vistas com esse tipo de silhueta e de jeans, acompanhados dos "pequenos tops de sair" que não deixam grande coisa à imaginação. 

2010 - Cansadas dos looks demasiado informais e de dietas excessivas, as mulheres reivindicam o direito às suas curvas. Os designers recuperam a silhueta ladylike inspirada nos anos 1950: volta a figura de ampulheta, a saia lápis e acima de tudo, a cintura. Actrizes como Scarlett Johansson e Sophia Vergara encarnam este ideal e Casas como Prada, Dolce & Gabbana e Louis Vuitton apostam em campanhas que recordam o New Look. A sociedade e os média, procurando combater o ideal "anoréctico" de anos anteriores incentivam à "beleza real": as modelos plus size exigem o seu lugar e  imagens de mulheres "comuns" exibindo-se sem photoshop tomam de assalto as redes sociais. Por sua vez a música, a televisão e de certo modo, as ruas exageram a ideia da figura curvilínea até à caricatura; se Beyoncé democratizou as saias curtas para mulheres de pernas fortes e pôs na moda o visual "bootylicious", celebridades como Kim Kardashian impuseram de vez os grandes derrièrres. Pela primeira vez as mulheres não têm complexos de levar o "grande rabiosque" para o mainstream e 2014 é considerado "o ano do dito cujo". A figura de pêra, com glúteos e pernas mais fortes do que o tronco, fica na moda realçada por calções, vestidos bandage ou transparentes e outras peças até então "reservadas" a mulheres mais magras. Para muitas, a nossa é a época do excesso e de uma forma de feminilidade quase agressiva e vulgar. Como todas as novidades, prevê-se que acalme, alcançando-se um bom equilíbrio.


E o que podemos concluir de tudo isto? Que os "padrões de beleza" sempre foram linhas de orientação, reflexos das mudanças económicas e sociais, e não regras para tomar a sério. Afinal, uma mulher pode engordar ou emagrecer, definir mais ou menos os músculos, bronzear-se ou não...mas não pode alterar o seu biótipo. Um rectângulo nunca será uma ampulheta por mais que faça, e vice versa. É sempre possível actualizar o visual sem aderir a silhuetas que não são pensadas para nós. A maior vantagem das mulheres em 2015, em relação às décadas anteriores, é a grande liberdade e variedade nas musas e nos looks: Sophia Vergara está na moda, mas Cara Delevingne também; Kim Kardashian pode ter tomado de assalto as primeiras filas dos desfiles (gostemos ou não) mas a sua irmã Kendall, com um tipo totalmente diferente, está em cima da passerelle. O streetstyle oferece uma diversidade de visuais nunca vista. Já não existe "uma só tendência vigente".  Há lugar para diferentes belezas, silhuetas e tamanhos. Resta vestir de acordo com aquilo que a natureza deu a cada uma, e não perder a cabeça e a saúde querendo por força acrescentar ou reduzir isto e aquilo, ou pior - deitando abaixo quem tem um tipo diferente ou dizer "isto e apenas isto é que é ideal, real ou bonito"...



Monday, June 15, 2015

Eça de Queiroz dixit #5: o dever moral de estar atento



"Para fazer Acácios e Julianas basta uma atenção imparcial,
 e uma perseverança lúcida"

                                               (Eça de Queiroz em carta a Guerra Junqueiro, 1878)


Digo muitas vezes que é uma pena que Eça não ande entre nós, com acesso à blogosfera

O grande romancista pasmaria com a abundância de espécimes mesmo a
 pedi-las, prontinhos a ter o tipo traçado, caricaturado e criticado. Também sempre achei que para escrever, a imaginação pode ser importante, mas... nada faz tanta falta como o poder de observação. 

É  que as fontes de inspiração são tantas, os figurões tão escabrosos ou cómicos, há por aí episódios tão caricatos que mais vale ter espírito de jornalista e registar o que se vê e ouve do que inventar grande coisa...e às vezes nem é preciso sair de casa; com as redes sociais as pessoas revelam-se de cada maneira que mais parecem personagens do Decameron, quanto mais de O Primo Basílio

Claro que nem todos temos o formoso talento de um Eça, mas cabe a cada um o dever moral de dar bengaladas naquilo que é pernicioso, inestético, escandaloso, ridículo...é que se ninguém notar essas coisas, se não lhes der nome, se não houver um "já viram bem isto?" para alertar consciências...olhem que não sei. Claro que com esse dever moral vem também a obrigação de ter delicadeza e caso ser subtil não baste, usar de capacidade de encaixe e sentido de humor, já que quem diz o que quer, pode ouvir o que não quer. Eça tinha disso às carradas, claro.
 Isso e um monóculo super atento...

Moral amoral do dia





Estava eu a preparar um post sobre a evolução das silhuetas femininas da Belle Époque para cá, precisando para isso de exemplos de it girls de cada década, mais coisa menos coisa - ou seja, de um retrato de corpo inteiro por tipo. De preferência com o estilo de roupa que estava na berra na altura.

Então não é que foi MESMO difícil encontrar imagens que não fossem ordinarecas, ridículas ou sem roupa de algumas das senhoras? Vi-me aflita para que o nível cá do salão não descesse por ali fora...

Pelo andar da carruagem, estava a ver que me saía um post de "sucesso".

Ou apareciam muitas fotografias de rosto, o que não servia para ilustrar a ideia, ora sem roupa nenhuma, ou com farrapos e poses que pouco mais adiantavam. E estamos a falar de modelos famosas e actrizes que fizeram escola, não de glamour models... 

Já agora, a título de curiosidade histórica, as décadas que me levantaram mais dificuldades foram os loucos anos 20, a década de 80 e...claro, a nossa - esta última não tanto pela ausência total de tecido, mas pela sensualidade boçal e forçada e pelos trajes de péssimo ar. A forma de revelar o corpo feminino em fotografia, ainda que integralmente, era mais inocente - e elegante - em tempos idos. Fazia-se moda, fazia-se arte...actualmente a diferença entre isso e a Playboy é mínima. 

  Mas o mais estranho será pensar no que passa pela cabeça de algumas das protagonistas dessas imagens - algumas ainda jovens. Uma pessoa sabe que uma modelo ou actriz trabalha com a sua figura e que ter alguns retratos mais ao natural faz parte. Porém, deve ser esquisito olhar para trás e ver pouquíssimos instantâneos com alguma coisa vestida. Acho que devem chegar a velhinhas e pensar "não me lembro nada como era a roupa no meu tempo!" (e não, não é maleita da senilidade) ou "muito friozinho devo ter apanhado!".



Sunday, June 14, 2015

6 maneiras de "dar a volta" a fatos


A maioria das mulheres tem em casa fatos de calças ou saia que comprou por motivos de trabalho, por graça ou para uma ocasião especial (sem falar em relíquias vintage que possa ter herdado da mãe, avó ou tia) e que por qualquer motivo não voltou a usar, ou não veste com frequência.

Já se disse aqui que nem todas as peças ditas "clássicas" são intemporais - mas se o tecido e corte das mesmas for de boa qualidade, são um investimento; convém por isso tirá-las do armário para uma boa actualização quer em termos de styling, quer de fitting.

Nunca é demais lembrar que não vale ter um fato guardado "para as ocasiões" sem fazer ideia de como lhe assenta actualmente: ou porque as medidas mudam sempre alguma coisa, ou porque as tendências recomendam pequenas modificações na silhueta. Um fato que não é revisto é um mono!

 Além disso, tailleurs e smokings voltaram a estar em voga de há  dois anos a esta parte,  por influência das tendências "ladylike" e "borrowed from the boys".

Muita gente adopta os blazers dos fatos que não usa, mas há mais soluções para além dessa.

 Assim, além de rever o óbvio (mangas, ombros, cintura, bainhas) com um pouco de atenção e criatividade é possível dar aos tailleurs um uso mais regular, vide:

1- Cinja-o com um cinto


Se tem um fato simples, de calças rectas, um cinto com impacto dá-lhe imediatamente outra graça. Num tailleur de saia é o suficiente para ganhar um ar vintage, muito anos 50.

2- Actualize calças e saias


As calças usam-se novamente soltas ou "pata de elefante", por isso alguns fatos de há uns anos atrás poderão vestir-se sem problemas. No entanto, o afunilado é o modelo mais chic e intemporal- é boa ideia mandar estreitar as calças de corte a direito (aquelas "nem carne nem peixe") que parecem mais datadas e regra geral não alongam tanto a figura. Sem falar que calças cigarrette se usam com quaisquer sapatos, altos ou baixos! Poderá também considerar aproveitar o tecido que sobre (ou descortinar uma "emenda") para subir a cintura, tornando qualquer fato mais elegante e confortável de usar. Esta dica é especialmente útil em saias: as de cintura descida quase sempre alargam com o tempo e são um inferno para segurar tops ou camisas no sítio.


3- Use-o "like a boss"


Há anos que não havia tanta liberdade para vestir um fato sem parecer demasiado formal. Por isso, se estiver na dúvida quanto ao que usar numa ocasião de trabalho ou que peça um look smart casual (convenção, semana de moda, etc) aproveite para tentar o look total, fazendo depender o tecido e estilo do clima, da hora e tipo de ocasião em causa. Acompanhe com uma blusa ou camisa bonita e deixe o resto o mais simples possível (se quiser mesmo acessorizar...gravatas ou pregadeiras são uma possibilidade, tendo sempre em mente a norma less is more).


4- Se é colorido, rejuvenesça-o


Fatos de cores fortes estão na moda e podem ser uma boa alternativa a  vestidos para ocasiões que peçam uma certa elegância. Para isto também se podem reciclar algumas versões vintage (ver ponto 2). O fato que a sua tia Leontina usava com camisas de folhos pode ganhar um ar clean e chic se lhe tirar todo e qualquer fru fru! A usar com nude sandals e com um top "invisível" - ou sem nada- por baixo. Nesse último caso, não convém imitar Cara Delevingne (nem tudo o que as modelos fazem é para tentar em casa). Recorra a truques de alfaiataria ou a uma pregadeira para manter tudo no lugar, mostrando só um pouco de decote (principalmente se decidir ir de fato ao casório da sua prima!). A evitar também os wonderbras sob o casaco - deixe esse look nos anos 90, onde pertence.

5- Transforme-o num smoking


Se acumulou fatos pretos sem grande graça, pode pedir à costureira que transforme um (ou mais) num bonito smoking de senhora. Há várias inspirações que pode empregar, consoante os fatos que tiver em casa: Yves Saint Laurent criou modelos soltos e oversized, mas essa Casa - nomeadamente sob Hedi Slimane-  como outras entretanto, também popularizou versões mais cingidas e femininas. Sem contar com os smoking-colete, vestido-smoking, jumpsuit-smoking...(caso disponha de um orçamento maior para alterações e o tecido valha mesmo a pena).


6- Desconstrua e descontraia


Fatos de linho ou de outros tecidos simples e maleáveis (bem como certos "conjuntos" de túnica e calças ou estilo safari, muito na moda nos anos 90 e que agora voltaram às lojas) podem ser usados no dia a dia - para uma reunião de família, um  almoço de trabalho, uma festa ao ar livre, um beberete descontraído ...
 São sempre elegantes, muito confortáveis para os dias quentes e poupam trabalho na hora de decidir o que vestir. O truque está em não os usar de forma "pesadona"- combine-os com sandálias confortáveis (as da imagem à esquerda são um extremo, mas dão uma ideia) ou outro calçado casual. Pode ainda enrolar as mangas e sob o blazer, ponha um simples tank top ou t-shirt de algodão. Se quiser, junte um colar ou pulseira com pouco brilho. 

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