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Saturday, July 11, 2015

Lembram-se de quando as pessoas tinham noção do certo e do errado...



...e não se importavam de o dizer publicamente, sem faltar à delicadeza MAS sem receio de serem chamadas "botas de elástico" ou "moralistas"? Quando não se acanhavam de chamar a bicharada pelos nomes, de apontar o preto e o branco sem eufemismos nem relativismos fofinhos?

Se calhar não se lembram de quando isso era a norma - nem eu - porque o costume terá caído em desuso por volta de 1970 e picos, e foi por aí abaixo, por aí abaixo...sendo limitado ao seio das famílias e às rodas de certa intimidade. De resto, inventam-se todas as desculpas para os pecadilhos alheios...pois quem tem telhados de vidro, não atira pedras. Se antigamente a regra era "perdoar quem errou, mas abominar o erro" actualmente o erro é muito desculpável. Ou com pretextos da psicologia, ou com o de "a vida são dois dias".

 Encontrei um exemplo disso numa revista de 1960. No "consultório das dúvidas sentimentais" deu-se a seguinte resposta - sensata bofetada de luva branca - a uma leitora que se lamuriava de sofrer muito por se ter envolvido com um homem casado e pai de família:

"Se sofre, a culpa é sua, pois devia ter arranjado um rapaz livre. Se pensasse bem no que essa pobre mulher e aquela criança sofrem por sua causa, não falaria nunca no «seu» sofrimento. Não queira construir a sua felicidade sobre os destroços da vida de alguém. Volte ao bom caminho. O seu sofrimento acaba, pois a sua consciência fica livre de pesadelos. Creia que o que lhe dizemos é tudo para seu bem...".


E mais nada. Ora tome um merecido raspanete que é para aprender, sua desvairada destruidora de lares. Mas era para o bem dela, sem dúvida!

 Tenho para mim que fosse a mesma pergunta colocada no "consultório" de uma revista actual, a resposta seria algo do género "pense na sua felicidade! O que importa é ser feliz!"...sem nenhuma consideração pelos sentimentos dos outros.

 Agora continua a julgar-se, claro; a maioria das pessoas faz muitíssimo de juiz...quando os pecados dos outros a afectam directamente. Uma mulher enganada dificilmente terá com a rival a mesma "solidariedade feminina" que concede uma conhecida (ou mesmo a uma celebridade) que se envolva com um homem casado: a não ser que seja de uma classe à prova de bala, o mais certo é chamá-la de tudo um pouco, pô-la mais rasa que a lama nas redes sociais, ameaçar vinganças de meter medo.

 Caso contrário, é tudo relativo, cada um sabe de si, tudo é desculpável. "Se calhar o casamento já não andava bem" (e claro, cabe a uma serigaita acabar de o estragar!) etc. "coitadinha, iludiu-se..." (desiluda-se então, que diabo!). 

Quase se podia dizer que há mais compaixão por quem tropeça do que pelas vítimas desses "tropeços". Ou concluir simplesmente que poucas pessoas levam a sério os seus compromissos (e pior ainda, os dos outros).

 Não cai bem dizer em público ou na cara da pessoa que prevaricou "isso é uma coisa inquestionavelmente horrível de se fazer". Nem que seja para o bem dela.

   A mim parece-me que anda tudo ao contrário, não sei o que pensam vocês...

Friday, July 10, 2015

Que tal uma limpeza à gaveta dos fatos de banho?

Fatos de banho de 1947, 1946 e 1949 (um modelo novamente em voga!)

Os bikinis e fatos de banho - tal como os pijamas e o lounge wear - não são, por vezes, alvo da atenção que se dá ao resto do guarda roupa. Afinal, só se usam durante uma estação...e de ano para ano, lá vão ficando "monos" (e monos maçadores, cheios de tirinhas e fiozinhos que se embaraçam uns nos outros, o que torna a tarefa ainda mais desanimadora) que já há muito deixaram de ver a praia ou a piscina.

 Ora, apesar de o gavetão-das-coisas-de-ir-à-praia não ocupar tanto espaço nem causar grandes complicações no dia a dia, não deixa de ser importante fazer uma boa e realista selecção do que serve e não serve. E já se sabe, "servir" e "caber" não são sinónimos quando se trata de estar elegante...

Por isso, há que reunir coragem e paciência para esvaziar tudo, até ao último bikini, até à última saída de praia, experimentar rigorosamente e dar uma valente organização para perceber o que já não queremos e aquilo que eventualmente será preciso comprar...não vale ir às lojas antes de ter a plena consciência disso. Afinal, sejamos sinceras: quantos maillots ou bikinis "tão giros, em saldo" acabam por nunca ver a luz do dia?

 Vamos então aplicar o método do costume, o dos 3 sacos (ou três montes!)

Na pilha a guardar:


Modelos clássicos e com suporte (como este, disponível na H&M) são sempre de guardar,
 desde que continuem a servir na perfeição

- Como é óbvio, tudo aquilo que adora, está em bom estado e serve impecavelmente, sem vincar a pele nem sair do sítio. Se a faz sentir bem, não se desfaça só porque não é o modelo do momento.

- Saídas de praia e vestidos estilo hippie: se são de boa qualidade, guarde; dá sempre jeito ter um sortido em várias cores. Algumas túnicas, caftans, calças palazzo, jumpsuits e vestidos soltos (que se compraram porque era moda ou durante uma viagem, mas não é prático usar na cidade) podem ser convertidos em saídas de praia. Gosto de guardar para isso aqueles vestidos bonitos com decote halterneck, que não são confortáveis para o dia a dia mas dão imenso jeito sobre o bikini ou fato de banho de atilhos no pescoço...Ficam muito elegantes com um bonito chapéu e sandálias rasas cor de ouro ou bronze, por exemplo.

Na pilha das coisas a mandar embora:

- Tudo o que esteja lasso. Já se sabe, a lycra e o spandex (que só deveriam servir mesmo para este tipo de peças) não são eternos. A água salgada, o sol, as lavagens, acabam inevitavelmente por deixar os tecidos largueirões. E não é preciso recordar os acidentes desagradáveis (vulgo, "assaltos à modéstia") que isso provoca, nem o desconforto. Eventualmente uma costureira hábil, com uma agulha específica, pode remediar alguns estragos numa peça que adora... mas não espere milagres.


Se gosta de bikini triângulo (que além de confortável e intemporal, é bastante favorecedor)
 esqueça os modelos muito reduzidos. Opte antes por um look Raquel Welch, que oferece mais apoio, não fica vulgar e não prega partidas desagradáveis (vulgo sair do lugar).



- Os bikinis de triângulo mais reduzidos do que deveriam (que estiveram muito na moda há uns anos, estilo Paris Hilton). Não só é uma tolice andar tão descomposta, como o mais provável é terem encolhido um pouco, se os usou - mistérios dos bikinis, alguns alargam que dá gosto ver, outros encolhem-  e já não a favorecerem. Há imensos modelos do género, mas mais elegantes e que oferecem outro suporte.

- Tudo o que já não serve/cabe/tapa o que deveria cobrir. Ou porque encolheram, ou porque engordou um pouco e ninguém tem nada com isso, ou porque às vezes nem se engorda mas as medidas alteram-se (ex: do fim da adolescência para a idade adulta; após a gravidez ou consoante o tipo de exercício que se tem feito, etc). O que interessa é que dificilmente voltará a vestir isso.

- Aqueles bikinis que não se compraram em peças separadas...e a brincadeira não correu bem (ou seja, trouxe um 36 e a parte de cima serve lindamente mas a de baixo não, ou vice-versa). Poderá eventualmente guardar a parte que lhe serve e combiná-la com outros exemplares de cor/padrão compatível.

- Tangas e calcinhas que vincam nas ancas - isto sucede muito no caso acima, sobretudo nos modelos desportivos ou simplesmente, que não têm fios reguláveis. Nunca vão ser confortáveis e ainda inventam gordurinhas, por isso, adeus.

- Aqueles de que nunca gostou, ou que comprou em saldo mas nunca se decidiu a usar. Não vale a pena ir para a praia contrariada...

- Os modelos extravagantes (trikinis, tankinis, bikinis com aplicações ou cortes estranhos) que nunca lhe serviram bem e agora até parecem um pouco datados. Next!

Na pilha das coisas a consertar:

- Fechos que se quebraram (o sal e o calor provocam muito isso).

- Fatos de banho que precisam de uma apertadela na cintura;

- Tops cujas alças descaíram, mas de resto ainda estão bons (e ainda por cima gosta deles).


Os bikinis e maillots inspirados nos anos 1940/50 (como estes da Asos e Norma Kamali) são tendência e favorecem mulheres com busto e cintura pronunciados. Como são difíceis de encontrar por enquanto- e quando aparecem nem sempre servem na perfeição- pode ser boa ideia mandar ajustar um original ou adaptar a partir de outros modelos.
- Relíquias vintage (às vezes encontram-se novas, em stocks de retrosarias, mas precisam quase sempre de um ajuste).


- Pequenas alterações: agora estão em voga os bikinis estilo anos 50, de cintura subida e  boy leg; um bikini-calção sem graça pode prestar-se a isso com pequenos acrescentos (já que é complicado encontrar este modelo à venda).


Feito isto, resta avaliar se lhe falta alguma coisa e caso decida ir às compras, escolher os melhores modelos de acordo com o seu tipo de corpo...






Os 6 traços de quem anda sempre atrasado (a)


A pontualidade não é, dizem, uma das maiores qualidades dos portugueses, ou dos povos do Sul da Europa em geral (pessoalmente, acho que os espanhóis são os piores, a julgar por colegas com quem estudei...mas ouvi tantas dos italianos que já não digo nada).

Creio porém que o mal está em a pontualidade não ser levada a sério, nem considerada muito importante, ou em - hipótese mais provável - toda a gente chegar atrasada já a contar com os atrasos dos outros...

Não é que os portugueses não sejam capazes de ser pontuais, já que chegar a  horas é uma questão de simples disciplina e atenção; é que nem sequer se esforçam. Em Portugal é difícil manter uma pontualidade britânica, mesmo sendo pontual por natureza, por causa dos outros. É comum dizer-se "vamos marcar para as oito porque antes das oito e meia não chega ninguém!"  E no entanto, a pontualidade é não só um acto de respeito para com os demais, mas uma fórmula de descanso para nós mesmos...

Não há nada mais stressante (nem mais estúpido) do que fazer, a correr e a disparatar, quase sempre a ralhar com o culpado do atraso ou, se forem em grupo, a atirar culpas uns aos outros, uma viagem ou tarefa que se podia levar a cabo com tempo e com calma. Quem se atrasa acaba por ( além de maçar os que ficam à espera e se adiantaram a contar cumprir a agenda) não estar no seu melhor. Por não ter tempo nem para apreciar o processo, nem para assegurar que está tudo em condições, nem para descansar e se recompor antes de fazer o que tem a fazer. E quem está encarregue de um grupo (seja comitiva, evento ou de levar os filhos à escola) e se atrasa por sistema, acaba por prejudicar toda a gente.



 Ora, todos os "atrasados" têm traços em comum: em primeiro lugar, a incapacidade de gerir prioridades. Quem se atrasa quer tudo: acha que consegue simultaneamente fazer serão, dormir até ao último minuto mas levantar-se cedo q.b. para concluir uma montanha de tarefas antes de sair, ver os emails e as notícias, tomar o pequeno almoço nas calmas, passar a ferro, regar as plantas, voltar para trás não sei quantas vezes, falar com a vizinha que se lembra de aparecer para empatar tudo...impossível. Nem que fosse o Super Homem!

Em segundo, contar com o ovo na galinha; os atrasados são sempre uns optimistas: acham que terão tempo de manhã para despachar o que devia ter ficado fechado no dia anterior (vulgo:não vou fazer as malas hoje, quando acordar trato disso em meia hora...pois) e depois nunca contam que pode haver trânsito, greves do metro, uma falta de quem ficou de entregar o necessário (um fato da lavandaria, as cópias de um projecto, um documento etc) que pode ser preciso colmatar,  um empecilho na estrada ou qualquer coisa que já seria má se se saísse com a devida antecedência, quanto mais.



Terceiro, não levar os outros a sério: ante o berreiro desesperado de quem está a chamar, a avisar há horas, têm sempre resposta "não me apresses, que ainda me stressas mais e depois só faço asneiras...que exagero! Temos tempo". Tradução: despacho-me quando me despachar; deixa-me mas é em paz. E os outros em ânsias, a arranjar uma úlcera nervosa...

Quarto, preguiça: não neguem, que é inútil. Quem se atrasa invariavelmente, tem ali um valente fundo de preguiça, que se não for vencida incapacita qualquer um de fazer as coisas a bom ritmo. Preguiça de organizar o que é preciso rapidamente, preguiça de levantar mais cedo, preguiça de se mexer de manhã.

Quinto, um glossário de desculpas: já vou! Vou já! Só um minuto! Só um segundo! Espera! Estou quase! Deixa-me só...Espera aí! Calma! Falta pouco! Estou só a acabar isto e aquilo, sabes muito bem que não podemos sair sem *inserir tarefa* mas como sou eu que faço tudo e ninguém se rala com isso, etc (inversão de culpas típica) Peraí! Já vamos! Há tempo! etc, etc, etc.

Sexto, uma lata descomunal e uma descontracção do outro mundo, porque não sei como é que alguém prefere andar neste suplício quando bastava tão pouco para respeitar o plano estabelecido e tudo ser feito sem dramas. 

Às vezes é tão simples como dizer aos seus botões "quero estar pronto às X horas" e não condescender nisso. Até porque muitos atrasados que conheço, chegam a tempo quando não há realmente outro remédio: ao avião, ao emprego...ou seja, sabem o que é bom para eles; o mal é que em tudo o resto, acham que não precisam de se ralar. O melhor do mundo é fazer as coisas com calma, mas a calma exige a devida antecedência...

Thursday, July 9, 2015

"Filmes" impossíveis


Esta semana perdi uma hora e pouco da minha vidinha que ninguém me devolve a ver este filme - arrepiante, mas cheio de buracos no enredo que acaba por se provar não ter jeito nenhum - sobre um ardina que aterroriza um bairro inteiro. Só isso - o miúdo é esquisito que se farta, daqueles que na adolescência já ameaçam ataques à bomba, e como tem um ar psicopata de todo, ninguém se atreve a fazer-lhe frente. 

O conselho que os vizinhos dão uns aos outros  é "não assine o jornal, que esse é doido". Boa. E ninguém contacta o jornal a exigir "troquem de ardina, que este mete-nos medo". Claro que depois acontece o costume: o vilão faz toda a sorte de patifarias inexplicáveis e a polícia não quer crer, e entretanto os guionistas cansam-se de tentar arranjar um motivo assustador mas plausível (ainda que sobrenatural) para o raio do catraio meter assim tanto medo, e tudo acaba numa grande chachada (não digo como- o filme ainda pode ser visto no AXN Black). A única coisa realmente perturbadora é o que Rose McGowan, que era lindíssima, terá feito à cara com tanto botox. 

 Mas enfim, são filmes. O pior é quando há assim coisas inacreditáveis na vida real, como a história do pobre gatinho que foi vítima de uma vilania terrível mas- de acordo com a GNR - não sofreu nada. Não tem um indício, nem a pelagem estorricada, nadinha. Ou é faquir, ou tem uma capacidade de regeneração cutânea fenomenal. Adorava acreditar nisso (o caso deu-me pesadelos) mas custa-me a crer que um animal a quem foi ateado o fogo não tenha sofrido nada, não esteja sequer chamuscado, e ainda tenham a ironia de lhe chamar Farrusco.  Quando eu era pequena a avó contava-me a história da mulher do Senhor Popô, que passou pela água e não se molhou. Agora dizem que temos um super gato que passou pelo fogo e não se queimou? Antes seja. 

De Sara Carbonero: "seguirás o homem que escolheres..." (ou não).


É curioso como os tempos, sem mudar muito os factos (porque há comportamentos que são inatos e intemporais) alteram bastante a perspectiva sobre eles.

Noutras épocas, a maior coroa de glória para uma mulher considerada bela, inteligente e capaz, era estar ao lado de um homem bem sucedido e poderoso - de preferência, mais poderoso do que ela. Zás, êxito, missão cumprida. Entre as raparigas americanas, chegava a dizer-se "para que quer ela ir para a faculdade, se já tem noivo?".

Nos nossos dias, em que a educação e o sucesso feminino deixaram - para o bem e para o mal - de ser meios para um fim para passarem a ser um fim em si mesmos, quando uma mulher bonita e inteligente (principalmente, se tiver uma carreira de sucesso) escolhe abrir mão de alguma coisa para acompanhar o homem que escolheu e/ou ser mãe, o reflexo já é dizer "que desperdício".

  Esta discussão tem estado de novo na berlinda, a propósito da recusa da jornalista Sara Carbonero em vir morar para Portugal quando, afinal, pode gerir a carreira, a maternidade e o casamento a partir de Madrid, que fica a 45 minutos de avião. Desculpem se não adianto mais que isto, porque percebo tanto de futebol como de matemática aplicada...



  Há quem argumente que Sara deve o sucesso à carinha linda e ao mediatismo do homem com quem viria a casar; sem isso seria uma repórter mais. Há quem aplauda a decisão de não virar a sua vida do avesso escusadamente, por causa da carreira da cara-metade. Haverá quem ache que faz mal. Eu não tenho opinião, já que a escolha de uma mulher  equilibrar (ou não) uma carreira com a vida em família é uma liberdade inalienável. É uma arte difícil, sim; às vezes é impossível fazer tudo bem, certo; mas é um direito de cada uma. De todos os direitos conquistados, acho que este é dos mais relevantes e  sobre o qual ninguém tem nada que dizer batatas.  Sara quer apostar na carreira? More power to you. Sara quer largar tudo pelo marido e a prole? You go, girl, embora eu defenda sempre que o mundo não mudou tanto como isso. Que quero eu dizer? 



Que desde a noite dos tempos- e não vale a pena estar com hipocrisias, nem filosofias, nem argumentos feministas ou anti feministas - uma mulher tinha poder se efectivamente possuísse poder material seu - não do marido ou companheiro, nem concedido por ele. Se tivesse onde se agarrar ou para onde voltar. A beleza, o fascínio e ascendente que detivesse sobre o marido e/ou os homens à sua volta (no caso, por exemplo, das  maîtresses-en-titre ou cortesãs famosas) a inteligência, até os filhos com que se assegurasse, não valiam nada sem bases sólidas, ou seja, uma família poderosa que a apoiasse (o que não valeu de muito a, por exemplo, Catarina de Aragão) ou algo de seu. 

Sem isso, estava à mercê da paixão masculina (que é caprichosa) e da sua capacidade (ou arte feminina) para a manter viva. Claro que o amor verdadeiro, uma união indissolúvel, tem muito mais que se lhe diga, mas não contemos que cada homem leve isso à letra...

A minha avó, que era a mulher mais feminina, mais tradicional que conheci, dizia sempre, no entanto, "uma mulher nunca deve desfazer-se da sua casa. Deve ter sempre um lugar para onde voltar, não vá o diabo 
tecê-las.". Talvez porque os exemplos de algumas antepassadas estavam bem presentes: quando um marido dominador queria ter o controle absoluto (e não por boas razões) a primeira coisa que fazia era desfazer-se do dote da mulher. Zás, lá ficava ela de pés e mãos atadas. Isto em Portugal, até ao início do sec. XX. Na China Imperial - e mesmo depois - esposas e concubinas tratavam de se agarrar às jóias que pudessem vender, just in case. Porque nunca se sabe. Ou como diz o povo, "hoje estamos bem, mas amanhã vai-se a ver".



 O arrebatamento romântico, a entrega absoluta, tudo isso é lindo...mas há que contar com uma certa fragilidade que se espera sempre que esteja lá. E volto ao que me diziam sempre (e que eu achava estranho quando acreditava, na minha ingenuidade, que as coisas já não eram "bem assim"): os homens, se puderem, dominam. Isto não é necessariamente mau; o mundo anda mal precisamente por culpa de homens que não sabem ser masculinos. Mas como o que é demais é moléstia, às vezes a máxima traduz-se antes em os homens, se puderem, pisam. E se o contraste for muito grande, mais arriscada a dinâmica se torna.

 Por mais feminina, por mais antiquada mesmo que se seja, nunca é bom depender demasiado de ninguém, seja financeira ou emocionalmente. É importante ter presente aquela frase sábia atribuída a Oscar Wilde "everything in life is about sex, except for sex. Sex is about power". A relação mais sincera, mais desinteressada e apaixonada entre um homem e uma mulher tem sempre o seu quê de jogo de xadrez. O ser humano sente uma necessidade inerente e constante de se assegurar, e o ego masculino é frágil. É muito mais fácil para eles se uma mulher não puder arredar pé - o que curiosamente, leva à morte do amor a longo prazo, já que o ser humano deseja sempre aquilo que é de certo modo inatingível.



Digo muitas vezes que as mulheres estão demasiado obcecadas em mostrar-se independentes e mandonas, esquecendo que há muito poder no mistério e na subtileza, na arte tão difamada de "sit there and look pretty" ou seja, de não fazer de chica-esperta. É uma estupidez dizer da mulher que optou por ser dona de casa e mãe, se quer e pode, "coitada! uma rapariga tão inteligente agora vai ser tratada como um troféu!". Mas os receios têm uma razão de ser: é a tal dúvida do "nunca se sabe". 

 Ou seja, quando um homem muito confiante e/ou poderoso escolhe uma mulher por ser um bom complemento para ele - porque a acha linda, espirituosa, capaz de o apoiar e fazer boa figura- há o risco (antiquado, pateta, mas um risco) de, com o hábito, começar a vê-la como uma espécie de ornamento, pela velha lógica "a familiaridade gera a falta de respeito". De se centrar no lado superficial e funcional da relação. A dada altura, pode ter infinita confiança nela para tratar de tudo o que se refere aos aspectos mundanos, mas desconfiar dela no resto porque afinal, se ele se encantou com ela outros poderão sentir o mesmo. Pode ficar cego para as qualidades do seu carácter



Face a um ressentimento- daqueles que são normais em qualquer relação - o facto de ele ser o elo mais forte pode levar a um distanciamento emocional, a uma frieza que gera o mal que tenho visto em muitos elegantes casais: cada um entretém os convidados para o seu lado, mas já não olham um para o outro, já não conversam um com o outro e em privado, alfinetam-se. Não é que deixem de se amar, mas é um amor bastante doentio e retorcido. O homem remói lá consigo as suas queixas, não trata a cara metade lá muito bem, e a coitada vai suspirando e encolhendo os ombros, definhando um bocadinho por dentro. Se ela não tiver bastante energia para velar por si própria, pode mesmo acabar num papel muito ingrato - "acachapada emocionalmente", para usar uma metáfora-  isto se tudo correr pelo melhor.

 Logo, eu não sei se Sara faz bem ou mal em não seguir o marido, nem tenho rigorosamente nada a ver com isso. Mas concordo que queira manter uma parcela de território só seu na sua vida. Um santuário emocional e material, um plano de contingência que é válido e útil por mais fervorosamente que se creia em "até que a morte vos separe". Sem isso, até o "viveram felizes para sempre" se torna demasiado bom para ser verdade.



Wednesday, July 8, 2015

Duas princesas "feias" (mas lindíssimas por dentro)


A beleza (ou a fealdade) é uma coisa bastante relativa. Embora seja hipocrisia negar os padrões ou ideais eternos  e a existência de certos conjuntos de características que apelam naturalmente aos olhos desde que o mundo é mundo (é frequente as crianças muito pequenas, cuja sensibilidade estética ainda não está formatada, sentirem-se impelidas para as pessoas consideradas "bonitas") há que ter em conta que até certo ponto, o que é belo varia de acordo com as preferências, as circunstâncias, as culturas, as modas e as épocas. Há traços de beleza intemporais e/ou universais, outros que variam.

No tempo dos Tudors, por exemplo, um nariz comprido não desfeava ninguém, mas uma pele ligeiramente bronzeada ou um nariz de batata podiam complicar muito as perspectivas matrimoniais de uma jovem; mais recentemente, durante a Belle Époque, embora algumas beldades do tempo arrasassem qualquer passadeira encarnada dos nossos dias, outras senhoras louvadas pela formosura possuíam um rosto demasiado cheio, com um ligeiro "duplo queixo" que actualmente seria causa de muitos desgostos!

Os franceses, povo muito sábio nestes aspectos, costumam dizer "nenhuma mulher pode ser verdadeiramente bela se não for, por vezes, verdadeiramente feia". E se olharmos para algumas modelos e actrizes famosas com atenção, veremos que é exacto: os traços mais marcantes, mais exóticos, ainda que muito harmoniosos, podem parecer estranhos ou exagerados sob determinado ângulo ou luz.

 Depois temos o carisma, o encanto, o sex appeal, que não são tão mensuráveis. Há mulheres desengraçadas que ninguém se lembraria de designar como feias, porque são dotadas de outras qualidades: elegância, estilo, espírito, meiguice, bondade...e raparigas muito bonitas que parecem totalmente apagadas...ou que se tornam mesmo antipáticas e repulsivas se o interior não corresponder. Tal como há muitos homens bonitos por aí com tanto charme como um cepo ou uma abóbora crua...

 "Nenhuma mulher pode ser verdadeiramente bela
se não for, por vezes, verdadeiramente feia
"

A fealdade plástica mais flagrante só é irremediável se vier acompanhada de maldade, falta de jeito, preguiça, depravação e uma certa dose de estupidez. É o velho mal da fealdade "double face", por dentro e por fora, que felizmente é raro. Conheci uma mulher exactamente assim: sofria do complexo "as raparigas feias têm de se esforçar o dobro para não acabarem sozinhas" por isso era a coisa mais atiradiça, mais devassa que já se viu - e o que é pior, tentava roubar os namorados das outras, agarrando "paixões" mal um rapaz lhe dizia olá. Era feia, inegavelmente - sem pescoço, narigão adunco, olhos descaídos e pequenos, queixo retraído, dentes encavalitados, um rascunho de Picasso mal sucedido, fora a figura mal feita. Fazia lembrar a Ciutazza do Decameron. Salvava-se o cabelo, que era bonito.

E no entanto, estes traços desafortunados podiam passar por outra coisa - por um perfil aristocrático, até - ganhar um certo encanto,  se não fosse o olhar parado e cobiçoso, a expressão aparvalhada e maliciosa a tentar ser "sensual", o descaramento e as asneiras de fazer corar um carroceiro que bradava e escrevia...

    Isto para dizer que a beleza da alma pode embelezar o resto. Será mesmo justo arriscar que se a alma não for bonita, contamina o exterior mais cedo ou mais tarde.

 E como a beleza, ou a falta dela, não escolhe berços, houve várias meninas do mais elevado estatuto que sofreram bastantes dissabores por não corresponderem à norma. O que era particularmente sério nos tempos em que viveram, quando o poder e o sucesso de uma mulher dependiam muito mais dos seus dotes físicos do que hoje. Algumas, como Catarina de Medici, deixaram-se amargurar por isso, vingando-se em intrigas palacianas; outras, como Santa Joana de França e Carlota Isabel da Baviera, voltaram-se para o seu interior, que era belíssimo, ganhando assim um lugar na História.


Joana de Valois, filha de Luís XI, teve uma infância infeliz: sendo a terceira rapariga numa família ainda sem herdeiro varão, o pai, que não era um prodígio de sensibilidade nem de inteligência, não lhe ligava nenhuma. A mãe, a Rainha Carlota, estimava a pequena frágil e enfermiça, mas não se atrevia a demonstrá-lo por medo do marido: a princesinha (que olhando para os retratos, teria mais de tímida e achacada do que de feia) cresceu assim num castelo sombrio, entregue a tutores. Isolada, sem carinho, Joana desenvolveu muito cedo uma intensa vida espiritual e por sua vontade teria passado a vida num convento, mas o pai não consentiu. Em vez disso, arranjou-lhe um casamento muito mal pensado: o noivo escolhido era um primo, o belo, alegre e popular Luís, Duque de Orleães (futuro Luís XII de França).


 Apesar de pouco confiante na sua capacidade para conquistar o coração do marido, Joana sentiu-se deslumbrada por ele. Porém, depressa se desenganou: Luís abandonou-a na própria noite de núpcias e não perdia a oportunidade de a humilhar em público. No entanto, o carácter de Joana nunca se azedou: à indiferença e crueldade do marido, respondia com a mais doce resignação, o que o irritava mais ainda.

 Mal se sentou no Trono, pagou-lhe a devoção conseguindo junto do Papa Alexandre VI  que o casamento fosse declarado inválido, por não ter sido consumado nem contraído por vontade própria - e apressou-se a casar com a cunhada, Ana da Bretanha...que aos 21 anos ia no terceiro casamento e era amiga de Joana. Obediente e boa como tinha sido sempre, a infeliz aceitou esta punhalada com a mesma seráfica paciência: foi então feita Duquesa de Berry e retirou-se para Bourges, onde viveu calma e santamente, governando o seu território e acudindo aos necessitados. Nunca esquecendo o fervor religioso, fundou a Ordem da Anunciação em 1500, pedindo que fossem rezadas contínuas orações pelo ex marido. Apenas retirou a aliança no fim da vida, antes de tomar votos e vestir o hábito. Só aquando da sua morte, aos 40 anos, Luís se comoveu, mandando que fosse sepultada com honras de verdadeira Rainha. Joana foi beatificada em 1742 e canonizada por Pio XII em 1950.


Já Carlota Isabel da Baviera, conhecida por Liselotte - que curiosamente, também casou com o Duque de Orleães, Filipe, mas em 1671- tinha uma forma totalmente diferente de estar, e encarava a sua "fealdade" com boa disposição. Sem se ralar, dizia de si própria: "tenho de ser feia por força, com os meus olhinhos pequenos, um nariz que mal se vê, lábios sem desenho e feições sem carácter..." e continuava por aí fora, troçando de si mesma de modo demasiado rigoroso, já que parece bem bonitinha nos retratos "sou gorda e mal feita, em suma, sou um estafermo...".


Esta franqueza excessiva tinha a ver com a sua educação algo desvairada. Alegre por natureza, Liselotte, cujos pais não se entendiam, crescera como uma perfeita maria rapaz, e desenvolvera os modos de uma pequena selvagem: chegava a bater nos criados que lhe ralhavam por trepar às árvores e comportar-se de um modo pouco apropriado à sua condição...
 As maneiras rudes e um pouco masculinas, destituídas de graça senhoril, não deixavam porém de ganhar a simpatia dos que a rodeavam, pois eram acompanhadas de lealdade, de um espírito que divertia quem estava por perto e de um óptimo carácter. Protestante, não se opôs a converter-se ao Catolicismo (aprendendo o catecismo em 20 dias!) por um marido que nem sequer conhecia.


E apesar da vaidade do esposo - que nisso, era o oposto dela, passando o tempo a arrebicar-se e a comer bombons, enquanto Liselotte preferia a comida sã e a cerveja da sua terra - o casal entendeu-se bem. Liselotte, que se revelou uma mãe extremosa, fez muitas amizades na corte do Rei Sol com quem, aliás, tinha excelentes relações. Apenas cultivava na corte um odiozinho de estimação: Madame de Maintenon, a quem, com os seus modos desabridos, alcunhava de todos os nomes que lhe vinham à cabeça, de "bruxa" a "velho farrapo"! Mas até com essa viria a reconciliar-se...
 O seu sentido de humor também transbordou para a escrita, que era mais abundante do que perfeita: a Princesa deixou numerosas cartas que hoje são uma preciosidade para os historiadores: ora em francês, ora em alemão, bastante trapalhonas na gramática e recheadas de duras críticas a este e aquele e anedotas um tanto grosseiras...mas que encantam pela vivacidade e pitoresco e permitem fazer uma ideia de como era a vida na corte de Luís XIV.





As "Zecas" da vida - ou um cartoon que faz cá muita falta.

A revista Crónica Feminina tinha, nos anos 60, um cartoon muito engraçado: "Zeca e a Vida". Os desenhos, que eram um encanto, vinham sempre acompanhados de uns versinhos moralizadores, que lembravam como uma jovem não se devia comportar, que nesse tempo não se escrevia só o que o mulherio queria ouvir...também se avisava "não façam assim!".

A protagonista, a Zeca, era uma rapariga tola que, pretendendo ser muito moderna, muito informada e independente, esquecia o básico e só fazia disparates; e pretensiosa, achando-se uma grande senhora, caía em várias más criações fosse no cinema, na praia, nas lojas, etc.


Exactamente como muitas hoje em dia que sofrendo da "ilusão da experiência" se tornam imprudentes porque se julgam imunes a tudo, fingindo ignorar que o mundo não mudou tanto como isso...e fiando-se no facto de serem mais (formalmente) instruídas (mas não necessariamente mais cultas nem mais sábias) que as mulheres de gerações passadas, se sentem mais espertas do que na realidade são. A Zeca era uma chica -esperta. A diferença é que naquele tempo o fenómeno era recente, logo dava nas vistas e motivava brincadeiras que na altura eram consideradas justas, mas hoje seriam olhadas de lado.



É curioso: surgisse um cartoon destes em 2015 e mais facilmente se criticaria a rábula do que as mulheres que a inspirassem...e no entanto, quantas "Zecas" conhecemos por aí? A ler porcarias e a orgulhar-se de as ler; a fazer tristes figuras e a não ver mal nenhum nisso, antes pelo contrário; a fazer-se muito fortes, muito independentes, mas a postar frases lamechas nas redes sociais, vulgo "já não te quero, já vens tarde" para alfinetar um homem que nunca as levou a sério, se é que alguma vez as quis? A tratar com desprezo a senhora da limpeza ou quem estiver sob a sua autoridade no emprego, só porque deram um passinho em frente?



Zecas não faltam, o que nos falta é sentido crítico. E o mais caricato é que as autoras ou leitoras que jamais admitiriam uma "Zeca e a vida" nas suas revistas, alegando solidariedade feminina, serão muitas vezes as primeiras a cortar na casaca de uma "Zeca" que se atravesse no seu caminho...nessa altura qual girl power, qual carapuça. Faz falta um cartoon da Zeca estampado a letras gordas em muitas publicações, oh se faz...

Tuesday, July 7, 2015

Hotel da Estrela: um retiro encantador no coração de Lisboa




Quem por aqui passa já conhece o meu fraquinho pelos ambientes de outros tempos. E quando se trata de me deslocar, prefiro instalar-me num local com carácter- se possível, com história. Ou neste caso, com diferentes histórias e uma atmosfera diferente. Que transmita uma sensação acolhedora, familiar, tranquila e com um toque de mistério.

O Hotel da Estrela (cujo edifício começou por ser, no sec. XIX, a residência dos Condes de Paraty, e mais tarde foi convertido em escola) é um desses lugares especiais. 

Junto à Basílica e Jardim da Estrela e ao bairro de Campo de Ourique, a 10 minutos do bulício do Chiado e da Avenida da Liberdade - ideal para quem viaja em passeio, lazer ou negócios, portanto - o Hotel da Estrela oferece, porém, a ideia de um retiro perfeito. 

Como precisei de usar um vestido de noite
 durante a estadia,  não resisti a captar a atmosfera para partilhar convosco!

Sabem os romances vitorianos em que um cavalheiro vê passar uma perturbante desconhecida, perde-a de vista e depois indaga onde ela mora, sem sucesso, pois está escondida numa qualquer casa encantadora na grande cidade? Pedro da Maia às voltas, em busca de Maria Eduarda? Foi essa romântica sensação que tive ao chegar. Uma mulher enigmática podia refugiar-se ali dos olhares dos admiradores, esperando o amor de quem se desencontrara em Paris ou no Cairo. Ou, numa perspectiva mais actual e optimista, um casal poderá escolher o Hotel da Estrela para um passeio elegante e cheio de significado.

Membro da Small Luxury Hotels of the World, este pequeno hotel de charme oferece essa atmosfera intimista na dose certa, colorida por toda uma envolvente retro que evoca as escolas de outros tempos. 


 O conceito está presente desde os quartos e corredores, sarapintados de rabiscos a giz, até ao restaurante (que se chama, precisamente, a Cantina da Estrelarecomenda-se o pequeno almoço, com doces tradicionais e vista para o delicioso jardim) onde não faltam sequer os bengaleiros em fila.



O bonito jardim, com vista para a Basílica.

 A suite, muito espaçosa, combina habilmente o design contemporâneo e a cama Hästens - considerada a melhor do mundo - com a iconografia da nossa infância. Só a atenção ao detalhe vale uma visita. De notar também os produtos de toilette da Real Saboaria, sempre um agrado para os sentidos presente nos hotéis do grupo.


Quem estudou em edifícios antigos antes de começarem a substituir todos os adereços por versões modernas e eficientes (mas também assépticas e sem metade da magia) encontrará aqui um regresso às ardósias, ao giz, às secretárias de madeira, aos mapas e transferidores de pinho, aos livros que cheiravam a biblioteca... enfim, à boa antiga portuguesa, mas sem réguas nem palmatórias assustadoras. Afinal, é para isso que as memórias servem: para conservar os aspectos belos e que nos fazem sentir bem. Não há nada de melancólico no Hotel da Estrela. Só o charme e elegância de tempos idos, adaptado ao conforto e exigência do sec. XXI.


 de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.


O Hotel da Estrela tem um tema que traz de volta o espírito das escolas antigas, oferecendo uma experiência de estadia verdadeiramente original. O hotel, que em tempos foi uma escola, fica situado ao lado de duas das mais emblemáticas escolas de Lisboa, o Liceu Pedro Nunes e a antiga Escola Machado de Castro (actualmente Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.
O Hotel da Estrela tem um tema que traz de volta o espírito das escolas antigas, oferecendo uma experiência de estadia verdadeiramente original. O hotel, que em tempos foi uma escola, fica situado ao lado de duas das mais emblemáticas escolas de Lisboa, o Liceu Pedro Nunes e a antiga Escola Machado de Castro (actualmente Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.

Mixórdia de morais: que lições ensinam a cake art, Freddie Mercury, Kanye West e Santa Catarina de Siena?




1- Um amigo partilhou este engraçadíssimo vídeo - haja dom para a edição, senhores! - de Kanye West a assassinar Bohemian Rapsody...e de como seria a reacção do meu adorado Freddie Mercury, caso estivesse entre nós para ouvir o sacrilégio. Ora, a brincar se ensinam lições valiosas...Mr. West é um compositor de talento. Pode ser um parvalhão, um malcriado, um inconveniente de primeira que não sabe estar e casado com uma Kardashian, mas mérito ninguém lhe tira. É também, suponho, um rapper de gabarito ou pelo menos, um rapper de sucesso. O que estraga tudo é ser metediço. 



Querer dar passos maiores do que a perna e achar que, mexendo cordelinhos e movendo influências, será aceite e louvado em áreas que não são a sua. É na indústria de moda, que quer porque quer tomar de assalto e agora, na divina música dos Queen. Se ele tentasse rimar, sei lá, Another One Bites the Dust, acredito que resultasse lindamente. Gostava de ouvir, palavra, sem ironia alguma. Mas Bohemian Rapsody? Já agora, porque não Love of My Life dedicado à Kimmizinha? Só faltava essa. E que nos demonstra isto? O valor da modéstia. É que é impossível ser fantástico em tudo. Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré... mas até podemos ser fantásticos jacarés numas coisas e simples lagartixas noutras, por vezes em áreas bastante próximas. Há quem faça bolos do outro mundo e seja um desastre nos outros cozinhados. É a vida. Não é preciso transformar todas as fraquezas em forças. Basta ser muito bom numa coisa ou duas, não se pede mais...

2 - E por falar em bolos, um bolo de aniversário que era para ter a cara da Princesa Elsa, de Frozen, saiu esta coisa de meter medo. Espero que o bolo fosse saboroso, porque isso da cake art está muito na moda, mas tem bastante que se lhe diga. Antes da cake art estar na berra e de toda a gente se armar em pasteleira, antes das redes sociais, já se faziam bolos muito engraçados. O primeiro de que me lembro foi um palhaço giríssimo na festa de anos do meu primo (eu tinha dois anos, mas lembro-me como se fosse hoje, don´t ask why). Pessoalmente achava mais piada a comer as rosas do bolo do que aos ditos, mas fiquei encantada com ele e chocadíssima quando ao cortar o pastel, zás- começaram logo por decapitar o boneco. Pimba, uma facada no pescoço. Nunca mais quis bolos em forma de coisa nenhuma, mas lembro-me de o de um amigo que era em forma de campo de futebol, com coco tingido de verde a  fingir de relvado!



  O pior, porém, estava por vir: o senhor mano sempre adorou carros, especialmente muscle cars. E os pais, querendo fazer-lhe uma surpresa na festa de anos, encomendaram numa boa pastelaria da cidade um bolo admiravelmente executado, em forma de "Kit" ou de Lamborghini. Um carrão preto que era um encanto. Ficámos todos admirados com aquela  beleza de bolo, e muito curiosos para descobrir a que saberia a "pintura" do carro. Seria chocolate? Seria groselha? Seria...coisa nenhuma. Alguém se esqueceu de pôr açúcar naquela obra de arte da pastelaria ou não sei, mas nunca provei porcaria tão insípida. Ficámos tão desconsolados que o bolo nem foi retratado, logo não vos posso mostrar. E a moral da história? É que na pastelaria, como em muita coisa na vida, a apresentação, a beleza, o aparato, as maneiras, o esplendor, o prestígio contam bastante. É irrealista dizer o contrário. Mas se não forem acompanhadas de conteúdo genuíno e qualidade, nada feito. 

3 - Quem nasceu num país Católico toda a vida ouviu, quanto mais não seja por hábito, que é preciso perdoar os desafectos, ser melhor do que quem nos faz mal, dar a outra face e rezar por essas alminhas a ver se se arrependem, etc. Tenho para mim que essa é uma das lições mais difíceis de pôr em prática (e a que por isso mesmo,  mais pessoas varrem para debaixo do tapete; face à fúria, que às vezes é legítima, a maioria dirá como aquele padre de O Crime do Padre Amaro, "qual Cristo, qual cabaça!" e vai de não só dar o troco, como fazer trinta vezes pior sem pensar duas vezes). 

No entanto, em muitas situações, não dar importância e desculpar a doidice é mesmo a melhor coisa a fazer; há pessoas tão empedernidas, tão malvadas, que antes vale "matá-las com gentileza" porque quanto mais avisos ou bolachadas se lhes dá, mais enfurecidas ficam. 
Mas claro que esse é um remédio complicado, pois muitas dessas criaturas, por mais mostras de boa vontade que recebam, não desistem. Principalmente se forem pessoas invejosas, que em vez de ficarem contentes, pensam "olha esta, armada em superior!". Há que ter paciência, como Santa Catarina de Siena. Se bem que nesse caso, o "matar com gentileza" foi levado um bocadinho à letra (sem culpa da Santa, óbvio). 
 Havia uma irmã da Ordem Terceira chamada Palmeirinha que em vez de se inspirar nos méritos e sabedoria de Catarina, lhe tinha um rancor de morte. Invejosa, levantava contra a futura Doutora da Igreja toda a espécie de calúnias. A Santa, coitada, via a sua paz em risco por essa injustiça, mas que fazer? Rezava por ela. E como Palmeirinha cada vez se portava pior, rezava que rezava. 

Talvez porque as boas intenções caíam em saco roto, talvez porque Deus trabalha de maneiras misteriosas, como se costuma dizer, Palmeirinha ficou doente (alguns autores dizem que o Céu lhe castigou o corpo para lhe curar a alma). Catarina ficou cheia de pena e foi para casa da inimiga fazer-lhe de bondosa enfermeira. Claro que a outra mais zangada ficou e pô-la na rua!
  Como castigo, a doente entrou em agonia sem possibilidade de receber os sacramentos  e Catarina, receando que ela morresse e fosse para o inferno, fez o que qualquer santa faria: redobrou as orações e penitências para que ela recuperasse a saúde, ou pelo menos se redimisse caso o pior acontecesse. Palmeirinha lá se arrependeu e morreu na paz do Senhor, e Santa Catarina, que era mística, viu a sua alma subir ao céu muito brilhante, com uma beleza indescritível. 
 Isto dá que pensar que a reconciliação é bem melhor do que a vingança, que embora possa ser justa, a Deus pertence pois a dos homens é quase sempre exagerada e tem mais de mesquinhez que de justiça. Se bem que uma história destas dá algum medo de rezar por gente mazinha...uma bofetada causava menos dano! Then again, como pouca gente terá os méritos de Santa Catarina acho que é seguro querer bem aos inimigos, sem risco de matar gente por aí.





Monday, July 6, 2015

É o corpo que se deve adaptar à roupa, ou o contrário?


Provas de Jacques Fath (1951) Madame Grés (1940s) e Givenchy (1952), via

Quando se olha para roupa (e consigo ouvir a minha avozinha reclamar comigo, num tom muito engraçado: é só roupa! roupa! roupa!) com olhos do ofício, mas também com olhar atento de consumidora, reparam-se em certos aspectos que podem às vezes passar ao lado.

Digo muitas vezes: tivesse eu a oportunidade de criar uma colecção que (olha eu a sonhar) fizesse sucesso, como facilitaria a vida às mulheres! Porque ao comprar ou recomendar, me foco sempre mais naquilo que é útil, naquilo que poupa complicações e inseguranças, no que resulta, favorece e funciona, no que impressiona discretamente (bem dizia Coco Chanel, quando uma mulher está mal vestida reparam na roupa; quando está bem vestida, reparam na mulher) do que na originalidade gratuita.

Porém, essa busca constante - tantas vezes desesperada - por dar nas vistas, pela criatividade, pela novidade, pela originalidade - é a causa de muita dificuldade para as clientes...e da perda de identidade de algumas marcas.

A novidade é importante, a originalidade também...mas a boa originalidade está, tantas vezes, mais na beleza do corte, no primor dos detalhes, do que nos enfeites e exageros, nas transparências e recortes!


Balmain

 Embora certas fantasias resultem nos editoriais ou na passerelle, quando toca à realidade as roupas que perduram são as que se podem vestir uma e outra vez, usar a noite inteira confortavelmente, sem erro. As colecções que fizeram história, as peças que fizeram um nome, respeitavam não só o desejo feminino de elegância e beleza, mas também- de diferentes modos - as necessidades das mulheres.

 Chanel possibilitou-lhes o conforto que desejavam para a vida activa. Christian Dior, por seu turno, respeitou e enalteceu as curvas femininas. Ele era  um grande adepto da "arte do disfarce" e da ideia realista e prática de que nenhum corpo é tão perfeito que dispense, para obter a desejada harmonia, pequenas "ilusões de óptica" que cabem à arte da costura!


Dior, nos anos 1950 e actualmente. Embora a qualidade se mantenha
 e seja preciso dar desconto às tendências, o cuidado com o fitting já não parece por vezes ser o mesmo.


Nos nossos dias, há tanta liberdade criativa e tantas opções (para não mencionar que mesmo com etiqueta de luxo, as coisas já não são, frequentemente, o que eram)  que esse conhecimento é posto muitas vezes nas mãos de stylists, capazes de interpretar e colocar a favor das clientes ou modelos as criações dos designers. Mas quem não tem um stylist - ou contratou o profissional errado - precisa de muito bom senso para não se deixar guiar mal pela imaginação ou pelo desejo de consumo.

 Autores como Eça de Queiroz criticaram muitas vezes as roupas do seu tempo, que sufocavam as formas naturais, contrapondo a beleza do modelo grego: mente sã em corpo são, e roupas que acompanhavam a silhueta em vez de a transformar.

Não estou totalmente de acordo com isto, até porque nem toda a gente conseguirá, por mais que se esforce, uma figura tão correcta que um simples vestido solto caia bem. Mas quando ouço mulheres dizer "fiz uma operação ao peito para poder usar aqueles vestidos sem costas" acho que se chegou a um distanciamento enorme entre moda e ergonomia. 

Até porque, com implantes ou sem, não há-de ser confortável abusar de roupas sem qualquer suporte. Quando penso nisto...acho que os espartilhos estão mais que perdoados, goste-se ou não deles (eu gosto, embora andar assim todos os dias tem que se lhe diga). Mal ou bem, podiam forçar um pouco a figura, mas mantinham-na no lugar e tinham o intuito de a favorecer para que a roupa "de fora" caísse como devia. Agora o mais comum é vestir-se um farrapito - as mais sensatas usam um spanx por baixo - e fé em Deus!


Rita Ora (em Donna Karan) pouco pano, pouca costura.

 E desde que na adolescência me interessei mais a fundo pela indústria de moda, isto sempre me pareceu estranho. É certo que há- e convém que assim seja - roupas criadas a pensar em todos os biótipos femininos. Mas não considerar as necessidades de um corpo em movimento (não um manequim de montra, com os tecidos devidamente puxados no sítio com alfinetes e fita adesiva), de um corpo que tem curvas e cintura (sejam mais acentuadas ou menos) e atirar-lhe simplesmente pano para cima, esperando que tudo corra bem, é utópico.

 Ora, isto vê-se todos os dias; e afecta especialmente quem não dispõe de recursos ilimitados para escolher a dedo cada peça nas marcas mais habilitadas para a fazer, ou pelo menos de conhecimentos aprofundados e vagar para procurar nos lugares certos a bons preços. É fantasioso crer que cada consumidora, ainda que possua meios, comprará rigorosamente vestidos clássicos Dolce & Gabbana, casacos Max Mara, e assim por diante. Ou mesmo que se dará ao trabalho de levar à costureira tudo o que compra (hábito muito recomendável) pois mesmo que o faça, se a peça for inadequada à partida, pouco remédio há.

As senhoras que encontram mais desafios devido à sua figura e/ou tamanho, mais dificuldades têm. Já aqui se falou na falta de bons básicos nas lojas comuns, mas o problema afecta todos os segmentos...

 Embora ninguém espere detalhes de Alta Costura no pronto a vestir, mesmo nos melhores, bastaria que as colecções fossem desenhadas para a realidade das mulheres - pois reais somos todas, e mesmo uma modelo não aguenta correr de top "cai cai" para cima e para baixo  um dia inteiro.


Oooooops! 

Sem ergonomia, não pode haver elegância. Então com se explica que numa colecção, haja muito mais vestidos de alças finas (que não permitem usar a devida roupa interior, e não me venham atirar areia para os olhos com os soutiens sem alças, que são um triste remedeio, ou com os de apertar no pescoço, que provocam dores nas vértebras se usados por mais de duas horas) do que vestidos normais, quando bastaria colocar alças de 5 cm de largura para que nada se visse por baixo? Ou que os vestidos de noite sem costas apareçam sempre, mas os modelos mais favorecedores, simples de vestir e manter toda a noite no lugar, com um decote bonito, sejam um sarilho para encontrar?



Este vestido da Mango é o tipo mais fácil de encontrar
 quando se  procura um modelo "clássico", adequado para o emprego.

 Que - mesmo nas secções de "roupa para o escritório" - as saias sejam quase sempre muito acima do joelho, o que não é apropriado, nem democrático para todas as idades e pernas? Que seja facílimo comprar tops de manga curta, mas muito mais complicado achá-los com manga a 3/4? Ou que as saias sejam tão largas na cintura que, a não ser que uma mulher as ajuste à medida ou fique quieta todo o dia, acabe inevitavelmente desfraldada? Para não falar nas roupas mal forradas, ou de tecidos que se está mesmo a ver que vão realçar o que não devem. Problemas que afectam todas as mulheres, de todos os tamanhos, rectângulos ou ampulhetas, pêras ou triângulos, altas ou baixas, ricas ou remediadas, bonitas ou nem tanto.

Imaginem agora uma senhora gordinha, sem grande informação nem recursos, a ir às compras: a não ser que tenha muito sentido estético e muito amor próprio, optará pelas peças em que consegue caber e em que se sente minimamente à vontade. E o resultado é desastroso, já se sabe.

 Meia dúzia de truques simples de alfaiataria, não necessariamente caros, resolveriam todos estes problemas. Era uma questão de banalizar a roupa bem feita, bem pensada, fácil e agradável de usar. Se vemos tantas mulheres mal vestidas, tantos braços de lavadeira à mostra, tantos "rolos" e gordurinhas por baixo das blusas, a culpa não é só do mau gosto das pessoas. É que quem faz as roupas, que tem obrigação para as desenhar e confeccionar como deve, descuida muitas vezes o seu papel de embelezar e educar a sociedade. E mais importante, de lhe facilitar a vida...








Qual é o pior dos males: hipocrisia ou pouca vergonha?


A hipocrisia- bem prega Frei Tomás, faz como ele diz, não faças como ele faz - é uma coisa terrível; saber que algo está errado, condenar esse mal pela frente e ir por trás e fazer a mesmíssima coisa, tendo obrigação para mais e consciência do erro que se comete...é péssimo, principalmente se a pessoa cai repetidamente nisso, tornando-se uma anedota ambulante.

 No entanto,  parece ser o mal do século condenar a hipocrisia...com o propósito de absolver qualquer descalabro (feito com muita sinceridade, pois claro).

Agora até parece que é moda fazer toda a sorte de tropelias e orgulhar-se disso, com a desculpa "ao menos não sou hipócrita!" e pronto, fica tudo santificado...

Uma falta de delicadeza, dizer rudemente coisas que magoam sem necessidade? Quem diz a verdade não merece castigo -  ao menos não sou hipócrita! - é a resposta pronta, esquecendo que franqueza sem delicadeza é grosseria.

Promiscuidade, comportamentos desviantes, excessos, tristes figuras em público...ao menos não sou hipócrita! - algo que até ofende quem é bem comportado, pois é o mesmo que dizer que TODAS as pessoas, sem excepção, que procuram ter uma forma honesta e limpa de estar são umas mentirosas que mal se apagam as luzes, mal se apanham longe da vista, fazem trinta por uma linha...ou pelo menos, gostariam de o fazer e não se atrevem!





Pela ordem de ideias vigente qualquer alma discreta, cavalheiresca, digna e/ou religiosa é automaticamente um satã encapotado...

Todos os seres humanos são frágeis e se ser virtuoso fosse fácil, não era virtude nenhuma; e é claro que, em modo "do mal, o menos" por vezes há quem, embora falhe, tenha no mínimo a discrição de não dar nas vistas segundo a máxima "vícios privados, públicas virtudes".  Não basta ser sério, há que parecê-lo. Mas não exageremos. Quero acreditar que ainda há quem ponha em prática o que prega.

E embora seja certo e sabido que muita gente elegante, discreta, bem educada e cumpridora - muita gente religiosa, até - diz uma coisa e faz outra, entre o mal da hipocrisia e a devassidão declarada, não sei se a segunda não será pior.

Quando ouço alguém desculpar a sua corrupção com "eu cá não sou hipócrita" penso às vezes "olha que grande avaria! Um hipócrita não é bom, mas ao menos tem vergonha na cara!"

 Ora pensemos: a hipocrisia é má porque nos faz descrer de tudo. Se este, que parece tão boa pessoa, um exemplo para a sociedade, um modelo de virtudes....vai-se a ver e é do piorio...não resta gente boa neste mundo. Mas a hipocrisia choca pelos exemplos isolados. Um hipócrita tem consciência (a consciência pesada, muitas vezes) do mal que faz. Se comete uma maldade, tem pelo menos a noção de a classificar como tal. E por vezes os erros de um hipócrita são pontuais; tendo os princípios, sabe o que está certo e o que está errado e pode sempre emendar-se. No mínimo, possui a percepção de que deve esconder as suas maldades, quanto mais não seja para não escandalizar e contaminar os outros.


 Já um degenerado, um desavergonhado...não vê mal em nada, ou finge que não vê. Gosta verdadeiramente do que faz. Não se importa de corromper o ambiente que o rodeia - por vezes, faz de propósito para contagiar os outros, já que o vício adora companhia. Ainda troça, se for preciso, de quem tendo as suas falhas, se envergonha delas, chamando-os, precisamente, hipócritas. Não tem remorso ou se o tem, abafa-o. Se lhe chamam a atenção, arranja toda a sorte de desculpas tíbias e cobardes: sou íntimo de fulano, que tem uma fama horrível...não me importo com o que as pessoas dizem de mim! Sou amigo de fulana, que se entrega a esquemas duvidosos...a vida é dela! O desavergonhado, o dissoluto, o rebelde por conveniência, com uma moral que não existe ou se existe é de uma elasticidade que dá volta a um estádio, desculpa tudo... menos os preceitos, menos os princípios.

Porque os princípios podem falhar - como todos os padrões, não são garantia de nada. E quanto mais exigentes, mais difíceis são de cumprir na perfeição.  Mas elevam a fasquia e ditam as regras, mostram como as pessoas se deveriam conduzir. Têm pelo menos a virtude da tentativa. Um hipócrita pode ser mau, mas um devasso, um amoral assumido, nem sequer se esforça. É muita lata.


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