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Saturday, August 8, 2015

O desleixo: pecado feminino imperdoável




O cruel ditado "numa mulher, a fealdade é pecado mortal" seria totalmente justo trocando-se "fealdade" por "desleixo". Isto porque a beleza é relativa e feita de muitos detalhes intangíveis (a que não são alheios o carisma, a bondade, o encanto e o sex appeal) e porque muito poucas mulheres são tão desafortunadas que não possuam algo de belo.

 Como dizia a minha sábia avozinha, "as pessoas não se fazem". Não há culpa nem mérito  na cara ou estrutura física com que se nasceu, e mesmo na época em que as modificações estéticas estão mais democratizadas, não é possível (nem desejável) que uma pessoa altere a sua aparência até se transformar numa estranha. 

Perfeito só Deus - e até a divina Vénus teve  inseguranças ao invejar a formosura da deslumbrante Psique!

 Agora o desleixo... é culpa de cada uma - assim como a disciplina para o evitar, para tirar partido do seu tipo, é mérito da mulher cuidada.

Que uma rapariga seja redondinha? Muito bem, há que vestir e exercitar-se de acordo. Mas que faça pouco caso disso, deixando crescer um barrigão "à Obelix"?  Isso já é culpa sua.

Que se tenha uma pele difícil ou frágil, com tendência a rugas prematuras? É mais um motivo para manter uma rotina de beleza adequada. E no entanto, não faltam raparigas muito jovens com a pele numa desgraça...

 Muitas não se importam com nada disto ainda em solteiras, mas outras caem na preguiça e no egoísmo - porque não há outro nome - de se desmazelar depois de comprometidas  e ainda assim, esperar que a cara metade as veja com os mesmos olhos! Ora, bem dizia a Bela Otero, "as mulheres têm a missão de ser belas". 

Max Klinger, Venus e Psique

 Sobre isto, escreveu Julia Müller no seu livro Die Frau [A Mulher] que foi um enorme sucesso de vendas na década de 1970: 

" A beleza não é uma bagatela que uma mulher adulta possa subordinar a valores mais espirituais. A beleza, o seu aspecto da cabeça aos pés, explicarão ao seu marido a importância que lhe dá como homem. Hoje, como nos tempos remotos, não devia haver coisa mais importante do que estar bela para ele. Cada elogio que outras pessoas lhe façam, será um cumprimento para ele. Ele  precisa disso. E você precisa da sua beleza para sentir-se segura de si mesma. Nenhuma mulher formosa tem medo da vida.  Claro que há mais numa relação do que a simples atracção exterior: saber que possuem a segurança de confiar um no outro, que juntos podem ultrapassar tudo. Mas não esqueça que todas estas coisas, ele também as poderá obter de uma irmã ou melhor amiga.  

Quando conheceu o seu marido, passava muito tempo ao espelho. Não se ria do facto como de uma tonteria de juventude. Entretanto retirou-se disso, porque já o tem...

Veja um retrato desses tempos. Ainda se parece com essa foto? Claro que está mais adulta. No entanto, não só devia ser igualmente bonita, mas mais bela. Uma mulher deveria tornar-se cada vez mais bela até alcançar a sua beleza definitiva, que manterá a partir daí...".

Creio que este discurso devia ser ensinado nas escolas e estar colado em muitos toucadores e espelhos...




Friday, August 7, 2015

Um "capacete dos parvos" faz cá muita falta.


O Almanaque Bertrand de 1942 (que é giríssimo pois dedica vários artigos à "guerra actual", ou seja, à II Grande Guerra) continha um texto muito engraçado sobre as "máscaras dos parvos", de que já falámos  em detalhe.

 Ou seja, instrumentos de tortura psicológica (e em alguns casos, física) que surgiram na Idade Média mas ficaram muito na moda entre o sec. XVI e XVIII, sobretudo em Inglaterra.  Serviam para punir quem bebia demais, quem causava desordens e coisas desse tipo, mas as mais populares eram as mordaças (muito usadas em mulheres escandalosas, atrevidas e linguarudas, embora às vezes também houvesse homens cordilheiros a sofrer esse castigo) e as tais "máscaras dos parvos", umas orelhas de burro que ficavam a matar em quem dava ouvidos a mexericos.


 Mas a grande verdade estava no comentário final do artigo, que subscrevo inteiramente: 

"Os tempos mudaram e já as mulheres podem falar, intrigar, gritar, vociferar e escandalizar quanto tenham na vontade, sem serem amordaçadas. Não se pode deixar de confessar, porém, que há casos em que é pena todos esses instrumentos estarem inutilizados em museus (...) pois não só nalguns exemplares do sexo fraco mas também do forte assentaria, admiravelmente e a propósito, um destes capacetes". 

É que como já se disse, se numa mulher a indiscrição e a mexeriquice são hábitos feios, num homem cobrem-no de ridículo. Não há maior sinal de fraqueza nem coisa tão efeminada.

 Mas tenho para mim que na era das redes sociais, não haveria "capacetes" que bastassem para tanto bisbilhoteiro....

Viva a bolsinha opressora e sexista!


Já me tinham elogiado a utilidade dos sacos para embalar roupa a vácuo e nos últimos dias, rendi-me mesmo a esta pequena maravilha doméstica - fantástica ajuda para ordenar o closet e/ou lavandaria.

Existem em vários tamanhos (à venda em qualquer bazar da esquina) e até os há perfumados. São excelentes para arquivar roupa sazonal sem pó, para ganhar espaço em malas de viagem (desde que as peças sejam dobrada na perfeição, de modo a não vincar) ou simplesmente, para separar e guardar a roupa que esteja para mandar à costureira.

Uma vez a bolsa cheia, usa-se o aspirador para retirar todo o ar e as peças assim "oprimidas", como por magia, passam a ocupar metade (ou menos) do espaço que ocupariam se estivessem empilhadas. 
Depois é só pôr uma etiqueta autocolante no saco, com a devida legenda (ex: vestidos para arranjar, urgente; jeans para fazer bainhas, etc)  et voilà, podem arrumar-se nas estantes sem atrapalhar horrores e sem se enrolarem umas nas outras.

Fica a dica para quem ainda não experimentou e se desespera com coisas que quer guardar, mas não estão em uso de momento.

A parte engraçada é que ontem comprei alguns (com perfume de rosas!) e reparei na legenda da embalagem...



"Nice mother assistant!", diz ela...e de facto, acredito que dê jeito a muitas mães por aí. Ou a qualquer mulher que se preocupe com as suas coisas. Claro que há homens bastante cuidadosos com isso, mas muitos pedem à mulher, à mãe ou à irmã que trate (ou mande tratar) desse tipo de tarefa. Bem dizia a minha avozinha, uma mulher sozinha sobrevive, um homem sozinho faz da casa um chiqueiro...o tipo de frase que agora cai mal.

Mas só vos digo, é uma sorte as fanáticas do sexismo -aquelas que se sentem ultrajadas por uma marca sugerir que é normalíssimo a mãe lavar uma peça de roupa- ainda não terem dado com esta, senão iam já levantar um boicote aos saquinhos machistas opressores e dizer que é por estas e outras que há mulheres a sofrer por este mundo fora. (Elas falam bem, como passam o tempo a tirar a roupa para se manifestarem devem ter pouco que arrumar...)

E isso não me convinha nada, porque não gosto de desarrumação. A única coisa que os sacos oprimem é mesmo a roupa. De resto, tratam de desoprimir os armários e ainda bem, porque não conseguir dar com nada é das sensações mais opressoras à face da terra...as bolsinhas podem ser sexistas à vontade delas, que é para o lado que me dá mais jeito.


Thursday, August 6, 2015

Review: água micelar purificante Diadermine




Por aqui já falei várias vezes dos benefícios da água micelar. É um grande aliado das peles sensíveis ou oleosas (
 já que costuma conter agentes como o zinco ou extractos calmantes) das mulheres que nunca vão dormir sem o rosto devidamente desmaquilhado por muita pressa que tenham, de quem usa lentes de contacto e em suma, de quem sabe que uma rigorosa limpeza diária é meio caminho andado para ter (e conservar) uma cútis luminosa e transparente.

Basicamente, trata-se de uma solução de limpeza que contém moléculas solúveis em óleo e água que geram micelas - estruturas que absorvem e "arrastam" consigo as partículas de sujidade sem agredir a protecção natural da pele.

Outro aspecto que me agrada é o facto de, apesar de adequada a peles muito delicadas (logo um must have para quem, como eu, não pode usar qualquer coisa) isenta de álcool, não deixa resíduos nem uma sensação de limpeza "assim assim" como outros produtos, nem restinhos de máscara em olhos aparentemente limpos. O rosto fica fresco e radioso. Sinceramente, acho a água micelar mais eficaz do que certos leites desmaquilhantes supostamente apropriados para remover maquilhagem espessa.

Por fim, a grande vantagem: é um produto só, que dispensa o tónico (mas deixa a sensação de ter usado um) e com um preço muito convidativo.

Ao ser convidada a experimentar a nova água micelar purificante Diadermine sabia portanto o que esperar, mas devo dizer que com muita pena minha, ter uma pele extra reactiva nem sempre me permite usufruir das inovações da marca.

No entanto, antes de testar chamou-me a atenção o facto de conter glicerina e pantenol (dois ingredientes a que costumo reagir bem) e depois de ter aplicado diariamente a fórmula por duas semanas, devo dizer que é das melhores que já usei: muito eficaz e de alta tolerância.

Veredicto: parece-me que as meninas de pele sensível podem usar à confiança a versão da Diadermine. Como digo muitas vezes "se não me causa alergia, dificilmente causará a mais alguém".



Roza Shanina, profissão: sniper


Muitas mulheres dizem "tenho cá uma pontaria!" geralmente para se queixarem das suas escolhas menos felizes. Mas no caso de Roza Shanina a frase 
aplicava-se literalmente. É que há uma enorme diferença entre ser uma mulher da luta e uma mulher capaz de lutar quando é caso disso.

A II Guerra Mundial deu a inúmeras mulheres de ambos os lados do conflito a oportunidade (já que a necessidade aguça o engenho) de provar o seu valor ao serviço da Pátria, quer nos territórios da espionagem e resistência quer no próprio campo de batalha.

A presença feminina nas forças armadas e de segurança ainda hoje é alvo de ampla controvérsia, pelo menos quanto aos papéis que podem ou não ser desempenhados por mulheres.

 Curiosamente, algumas das vozes mais assumidamente machistas consideram esta opção uma forma de as mulheres ganharem realmente respeito em vez de andarem por aí a gritar em topless contra a opressão patriarcal (e há que concordar que a haver total igualdade, é justo que passe por aí; não me consta que as israelitas e as norueguesas fiquem traumatizadas com o serviço militar obrigatório); outras discordam com base no argumento da força física, sustentando, por exemplo, que uma mulher será obrigada a sacar da arma para dominar um oponente mais forte, arriscando-se assim um número de baixas desnecessárias ou abusos.

 E por fim há quem defenda uma perspectiva que me parece a mais equilibrada: que tem de haver atenção às diferenças físicas e psicológicas, logo as mulheres devem ser colocadas estrategicamente já que algumas características tipicamente femininas, como a habilidade, astúcia, atenção ao detalhe, agilidade e paciência podem ser muito úteis. Os russos pensavam assim durante a II Grande Guerra, por isso empregaram mais de 2 mil mulheres franco-atiradoras.


Apesar disso Roza Yegorovna Shanina (uma educadora de infância com instrução universitária) encontrou alguma oposição por parte dos recrutadores, cientes da mortandade que se passava na frente de batalha. Mas Roza, querendo vingar a morte dos seus três  irmãos, insistiu e em 1942 juntou-se à academia feminina de snipers soviéticas. 

Uma vez em acção esta rapariga loura e bonitinha, aparentemente frágil e que ainda não tinha completado 20 anos, abateu mais de 18 soldados nazis em menos de um mês. Roza era corajosa ao ponto da imprudência, recusando ordens para retirar e indo além das suas funções como atiradora: chegou a capturar alemães por suas próprias mãos. 


Ferida em combate, regressou rapidamente - foi uma das seis sobreviventes num batalhão de 78 elementos do qual 72 caíram - o que lhe valeu honrarias e uma fama a condizer: chamavam-lhe o Terror invisível da Prússia Oriental! Porém, a sua brilhante carreira duraria menos de um ano: morreu em Janeiro de 1945 durante a ofensiva final contra a Alemanha, pouco antes do fim da guerra, atingida no peito por um estilhaço de artilharia. 

 Mais de 50 inimigos tinham perecido às suas mãos - um número proporcionalmente extraordinário considerando que por exemplo Chris Kyle, o famoso sniper da ocupação do Iraque, contou estimadamente 255 mortes ao longo de dez anos de serviço.

 E nota bene, Roza cumpria este triste dever sem perder um pingo da sua feminilidade e elegância. Reparem na sua compostura, sempre aprumada e com um sorriso gentil. A girl´s gotta do what a girl´s gotta do...


*Fonte via

Wednesday, August 5, 2015

A lição feminina de uma felina




Há uma gata negra e lustrosa que me fez pensar nesta frase de Nietzsche analisada por aqui esta semana.

Chamamos-lhe Violeta e não tem dono, é antes uma "convidada regular cá de casa" -  um dos felinos desprotegidos que acarinhamos. Mas às vezes dá-me vontade de a mandar passear, porque é bastante malcriada. Entra em modo veni vidi vici e quando se trata de comida, não respeita ninguém.

Não obstante, tenho observado que a Violeta tem artes de fazer TODOS os gatos (até os nossos) dar-lhe primazia...e olhem que poucas vezes precisa de bufar ou levantar a patita. Eles agem como perfeitos cavalheiros perante ela. Deixam-na passar não por sentido de protecção, mas por interesse: os pequeninos porque não se desafia uma mãe; os adultos porque nunca se sabe, um dia podem querer namorar com ela e ser os autores de alguns gatinhos pretos; e os esterilizados porque enfim, é rapariga e old habits die hard!



É claro que não creio que os gatos tenham este raciocínio tão elaborado. E ainda que o fizessem, não acho que os mais atrevidos esperassem ter sorte, até porque a Violeta é uma gata séria... ao contrário de outra doidivanas malhada que costuma aparecer também. Mas é instintivo. É o poder da feminilidade!

 Os humanos, dizem os entendidos, possuem o mesmo reflexo inconsciente. Uma expectativa não racional, que às vezes nem sequer chega a formar-se na imaginação de ninguém... mas que durante séculos as mulheres usaram a seu favor, mesmo as mais ingénuas. As jovens lembravam ao sexo oposto eventuais promessas ou expectativas de romance; as senhoras mais velhas 
conseguiam-no porque inconscientemente, recordavam a mãe de cada um. Estes paradigmas estão tão enraizados que as pessoas ainda lhes respondem, embora não façam de propósito.

 Todos os instintos são controlados pela racionalidade, e convém que assim seja a bem da moral e da civilização. O que não quer dizer que se relegue para segundo plano aqueles que continuam a ser úteis. 

O mais curioso é que as mulheres nunca foram tão desinibidas como agora; algumas até fazem corar as gatas mais mal comportadas.

Porém, perderam a feminilidade e com isso, perdem um imenso poder:  agem de tal forma de igual para igual, tão "tu cá tu lá", tomam tanto a iniciativa (alguma vez viram uma gata a fazer a corte a um gato? A correr atrás dele? Eu cá não) e de resto, são tão pouco maternais, dão-lhes tão pouco desconto e mostram-se tão fortes, tão "não preciso de ti para nada" que essa expectativa, essa fronteira mental, esse desejo masculino de agradar, desaparece. 

Quando as gatas parecem mais sábias, femininas e discretas do que muitas humanas, mal anda o mundo...




Tuesday, August 4, 2015

Escândalo aparta amor


A avó citava muitas vezes este provérbio, a que às vezes o povo empresta uma métrica mais musical adulterando-o para «a "escândala" aparta amor».

 Para o compreendermos, temos de deixar de lado a conotação actual e mais comum de "escândalo" ( um mau comportamento ou crime público) e concentrar-nos, uma vez que se trata de uma questão privada entre duas pessoas, no seu significado mais puro -  vergonha, indecência, desonra, indignar, envergonhar, desencaminhar, dar mau exemplo, prejudicar a alma do próximo, corromper ou ferir moralmente. "Escândalo" vem do grego e
 relaciona-se com "tropeçar" ou "fazer cair". 

Daí o ditado: dificilmente uma afeição pode vingar se sujeita a tropeços constantes. Embora nenhum amor, de espécie alguma, possa ser digno desse nome sem sacrifícios (que em certas fases, podem ser unilaterais) e uma enorme capacidade para os suportar com paciência, sem uma certa dose heroísmo e sem considerar o potencial (eu diria inevitável) sofrimento que advém de se importar com outrem, é preciso ser realista: não há muralha tão inexpugnável que não se abale ante ataques gratuitos e sucessivos. 

Por muitos trabalhos que haja para manter a  muralha erguida, por muito que se renovem as sentinelas, as estruturas não são infalíveis e os soldados, ainda que corajosos e dedicados, têm um limite de forças. Uma cidade sitiada podia resistir valentemente anos a fio - mas se não recebesse algum auxílio, o inimigo não capitulasse ou alguém lá dentro não tivesse uma ideia genial para se libertar dele, acabava inevitavelmente por se render.



 Quando duas pessoas estão ligadas por um laço forte - ainda que seja daqueles que resistem a ventos e marés - partilham a obrigação de se proteger uma à outra, incluindo contra tudo o que possa causar escândalo entre si. Não podem fiar-se simplesmente nos sentimentos; isso é dado, como uma graça; surge espontaneamente e alimenta-se, em grande parte, das alegrias dos primeiros tempos que o cimentam. Muita gente procura esta dádiva toda a vida sem a encontrar. Mas depois falta o resto, pois (cá vem outro ditado) 
"Deus dá-nos as nozes, mas não no-las quebra". 

Quando se recebe esse dom, é preciso cuidar dele; não em modo pisar ovos, com o constante pavor de melindrar o outro (pois isso seria falta de confiança e não há amor onde não há confiança; uma relação "vidrinho" não é saudável) mas conhecendo-lhe os hábitos e os limites, sabendo o que o magoa e evitando fazê-lo, principalmente perante terceiros, procurando trazer à relação alegrias e bons estímulos...em suma, alimentando-a (como a uma planta) com o que é bom e fugindo daquilo que é mau. 

 Não podemos fiar-nos que uma bela árvore rara, ainda que antiga e com raízes profundas, viverá no jardim só porque o nosso jardim é lindo, se não a regarmos e ainda  - para lhe testarmos a resistência - lhe dermos umas machadadas ou convidarmos as pragas a apoderar-se dela. 

 Ou noutro exemplo, nenhuma beldade se manterá por muitos anos se deixar a pele torrar ao sol sem protecção, comer tudo quanto faz mal, não se exercitar, estragar o cabelo, etc. Nem quem nasceu rico assim continuará se fizer de propósito para desbaratar a fortuna.



 No entanto, é assim que muita gente procede - não com as árvores, o corpo ou a riqueza ( tende-se a ter um pouco mais de senso com as coisas tangíveis) mas com as pessoas que supostamente lhe são caras. Confia no sentimento como se ele, como todas as coisas vivas, não precisasse de manutenção; entrega tudo aos seus encantos, ou à sorte; toma tudo por garantido e acha que continuará a provocar amor mesmo que aja de forma a causar aridez de sentimentos, ou mesmo (a longo prazo) desprezo e aversão.

 Nessas circunstâncias talvez o amor não morra deveras; mas fica sepultado sob tal quantidade de más recordações, impressões desagradáveis, cansaço, alfinetadas, rupturas, palavras ditas e retornadas, maus hábitos e repetições de comportamentos que ferem e vexam, que às vezes já não se encontra - ou quando se encontra, é em muito mau estado ou nos casos piores, a dar o último suspiro.

 O escândalo, enquanto tropeço, pode não matar logo, como uma queda leve; mas mói, cria brechas, erosão, enfraquece. Torna o amor uma recordação distante ou um hábito e a longo prazo, destrói as fundações mais firmes. Não cortará imediatamente laços, mas aparta-os. E às vezes aparta-os para muito longe...










Ninon de l´Enclos dixit: uma mulher chora, mas...



"Uma mulher deve ser sempre graciosa, até quando chora."


O nome da cortesã, autora e mecenas do sec. XVII, Ninon de l´Enclos, é sinónimo de beleza e de espírito. Lindíssima, fez voto de nunca casar. Também não acreditava na alma: no seu entender, podia perfeitamente ser-se feliz sem alma, nem marido

Deve ter funcionado para ela, pois ao contrário de tantas celebridades do amor galante, não dissipou a sua fortuna nem se arrumou confortavelmente junto de um apaixonado que lhe desse o nome para mais tarde lhe lançar injúrias em rosto...

Esta mulher brilhante, que encorajou e protegeu a carreira de Molière e Voltaire, morreu velha, mas ainda para amores -  encantadora até ao fim, riquíssima, com um salão frequentado pelas mais famosas mentes do seu tempo. Era estimada pela rainha Cristina da Suécia e, apesar de descrente, pela piedosa Madame de Maintenon.

Mas se não se tornou mulher de ninguém, foi apenas porque amava a sua independência acima de tudo:  candidatos não lhe  faltavam, entre os homens mais interessantes e poderosos de França. 


O famoso penteado "bob" à la Ninon

Apesar de uma lista de amantes de fazer corar a própria Vénus, não era, como tantas mulheres do seu género e do seu meio, causadora de duelos e desgraças (talvez porque o seu pai fora exilado do País depois de um duelo). Dizia-se que só tomava um adorador de cada vez: despedia-os delicadamente, sem cenas, e eles contentavam-se em continuar a frequentar-lhe a casa e as luzidas soirées como bons amigos. Tinha uma singular habilidade para estas separações cordiais, mas ela própria reconhecia que é preciso mais génio para gerir o amor do que para comandar um exército...

Apenas o Marquês de Villarceaux, que amou durante três anos e com quem teve um filho, Louis, não se conformou: quando viu que Ninon não voltaria para ele, caiu doente. Para o consolar, a amante cortou as suas magníficas tranças e enviou-lhas, lançando uma moda : o "bob" à la Ninon.

 Logo, há que tomar a sério o aviso de Ninon: uma mulher deve ser graciosa em todas as circunstâncias, nem que precise de chorar. Por vezes demonstrar vulnerabilidade pode ter o seu atractivo (e Ninon mais do que ninguém devia saber disso) mas há a compostura e a serenidade que cabem nos momentos mais angustiosos. Para histerias, não há paciência. Se Oscar de la Renta disse "caminhe sempre como se três homens a observassem" Ninon ia mais além, aconselhando as mulheres a nem no choro se descabelarem de modo a ficar feias ou descompostas...

Monday, August 3, 2015

Quando o amor e a conspiração caminham de mãos dadas


Por estes dias dei um segundo olhar a Spartacus, talvez a minha série preferida dos últimos anos. Os detalhes são tantos, o enredo é tão rico em peripécias (e esquemas!) que há sempre algo que escapou. 

 Detive-me então em Glaber e Ilithyia, o casalinho de romanos que, não contente tramar contra todo o elenco, ora se ama, ora se odeia, a pontos de conspirar entre si. O mais curioso é notar como actualmente há por aí tantos casais assim...

Duas almas intensas e orgulhosas, os dois patrícios tantas fizeram um ao outro que a dada altura era difícil acompanhar as suas idas e vindas...Glaber era capaz de adoração, mas também da mais fria crueldade para com a mulher. Por sua vez, a arrogância e tibieza dele irritavam-na e ela fazia outro tanto, mas pelas costas. O certo é que ele abusou, castigando-a severamente. Tão mal a tratou que Ilithyia achou que todo o amor que sentia por Glaber se tinha esgotado, e urdiu uma trama para se livrar dele e casar com outro - tarefa simples na República de Roma...



 Ele descobriu, ficou reverdido, desmanchou a marosca, fez dela uma prisioneira, traiu-a e só não a mandou para o outro mundo porque desejava muito o herdeiro que vinha a caminho...

Em suma, quis a mulher de volta... mas para dar alívio ao orgulho ferido maltratando-a. Não deixou de estar apaixonado por ela, mas amor atraiçoado tinha-se transformado mesmo numa espécie de ódio, uma raiva surda e sádica que só encontrava alívio nas retaliações mais mesquinhas.
Tornou-se ainda mais cruel e vingativo do que era, a pontos de ela ter medo dele e dizer "mas como é que eu pude julgá-lo fraco? Há um tal ódio nos olhos dele que nem uma tempestade o poderia apagar".



E pela lógica "quanto mais me bates, mais gosto de tiIlithyia  desesperou-se, porque não conseguia voltar a cair-lhe nas boas graças por mais que fizesse. 

Voltemos à actualidade: relações complexas destas, com pessoas que se adoram mas se arreliam (e às vezes fazem pior do que isso) não são raras. Tenho visto muitos belos casais a sorrir para os convivas enquanto sussurram insultos e juram vinganças (reconhecem-se facilmente: ele de olhos em fogo e ela a fazer-se pálida como a cera). 

 São relacionamentos em que nunca se respira livremente, em que se exagera a frase de Oscar Wilde, "everything is about sex, except for sex: sex is about power". Amores em que a mulher procura fazer-se respeitar mas acaba por sair a perder, e em que o homem não tem, já que odeia, a sinceridade do repúdio: é como um alcoólico que se cura, mas mantém a garrafa por perto não se sabe bem porquê...









A paixão acima dos interesses


O bikini de Ursula Andress, que a catapultou para o estrelato em 1962, foi responsável por encorajar muitas mulheres a  finalmente experimentar um (embora o modelo moderno se estreasse em 1946, existissem fatos de banho de duas peças já nos anos 30 e até na Roma Antiga se usassem uns antepassados do dito cujo). Claro que no início dos anos 1960 todos os bikinis eram apropriados e tinham classe; hoje é preciso procurar um bocadinho melhor.

Bikinis à parte, Ursula nunca ficou conhecida por muito mais além da beleza, do seu lindo cabelo, da boa figura e das feições cinzeladas: até fez de Afrodite em Clash of the Titans.

 Mas também primou por ser sincera. Quando lhe perguntaram porque é  em 1965, no auge do êxito e sem necessidade alguma disso, concedeu posar para a Playboy, respondeu: "porque sou linda!" (o que vá lá, sempre é uma motivação melhorzinha para dar nas vistas e ganha um ponto pela honestidade...). 

 Ursula também disse em tempos "em mim sempre tiveram mais força as paixões do que os interesses". E acredito que fosse verdade. Não seria a primeira nem a última mulher bonita a ser destituída de cálculos, a ir onde o coração a levava em vez de fazer da sua beleza arma de arremesso. 


 Sinceramente, pelos casos que tenho visto, as mulheres mais pretendidas não têm tempo para ser fatais, para estratégias nem cálculos: a vida apresenta-lhes espontaneamente tantas opções (nem todas boas; daí haver tantas beldades infelizes) que a dificuldade está em fazer escolhas acertadas. 



Por exemplo, lembro-me de uma jovem professora que tive de quem gostava muito. Não se parecia com Ursula Andress; tinha mais de Cleópatra como a imaginação popular a pinta. Era linda, além de inteligente e gentil. Tinha uma pele perfeita, olhos verdes rasgados e um narizinho que parecia obra de bisturi, sem ser. Eu conversava bastante com ela mas achava-lhe sempre um ar um pouco triste. Um dia comentei o facto com uma rapariga da minha turma, que me contou que aquela mulher linda e elegante, tão simpática, tinha sido abandonada no altar pelo noivo. Além da vergonha, fora um grande desgosto porque gostava mesmo dele...perdi o rasto à professora, mas nunca me esqueci disto. 

 Muitas vezes homens e mulheres têm mais a recear das raparigas sem graça, mas ambiciosas e atrevidas, dos que de muita Ursula Andress por aí - mesmo das que têm a imodéstia ou a ingenuidade de se reconhecer umas Afrodites, como ela.

Sunday, August 2, 2015

Beatriz Costa dixit: que mereciam estes "ricos maridos"?


Já por aqui mencionei várias vezes como gosto dos livros de memórias de Beatriz Costa. A nossa simpática actriz viajou por todo o mundo e privou com as personalidades mais extraordinárias, de Picasso a Lana Turner. Tudo quanto se possa imaginar de gente interessante, de ícones vivos ou mortos, das artes às letras passando por pessoas da melhor sociedade, de todos guardou histórias para contar.

 Apesar de ter aprendido sozinha a ler e escrever aos 13 anos (alfabetização que completaria mais tarde à mesa da Brasileira, com a ajuda de Almada Negreiros e outros grandes vultos) descrevia as suas aventuras com uma graça, uma eloquência e uma vivacidade ímpares. As suas recordações são um verdadeiro estudo de costumes...

 Ora, a dada altura Beatriz passava largas temporadas em Paris e era íntima de Elsa Schiaparelli, em casa de quem se faziam animadas tertúlias. Como ao Sábado a aristocrática designer dava folga ao pessoal doméstico, cada convidado dava a sua colaboração para fazer o jantar e lavar a louça, de modo que havia frango cozinhado por Greta Garbo e copos limpos por Salvador Dali!



 Também se tornou uma fiel cliente da Maison Dior e das Galerias Lafayette, o que fazia com que muitas senhoras brasileiras e portuguesas a maçassem para lhes servir de cicerone para compras na Cidade-Luz. E assim pôde Beatriz Costa aferir um triste facto:

"Nisto de gastar dinheiro, a brasileira é mais arrojada. A mulher portuguesa depende muito do visto conjugal para os seus gostos...conheço senhoras riquíssimas que nunca vestiram um modelo! 
Em compensação, conheço maridos dessas mesmas senhoras que sustentam concubinas que só vestem de Paris e de Roma...".

Que na época uma mulher, se não tivesse muito de seu (ou muita mão nos seus haveres, pois conheço não poucos casos de dotes espatifados pela cara metade) dependesse do marido para pagar os seus arrebiques, vá que não vá. Agora essa dupla punhalada era imperdoável, e o pior é que não é coisa do passado...tenho ouvido muitos episódios aviltantes e recentes a provar o adágio popular "as primeiras são vassouras, as segundas são senhoras". Insulto a dobrar, à fidelidade conjugal e ao armário!

 Como se não bastasse sujarem de lama os vestidos das legítimas, ainda tratam, como uns perfeitos palermas, de garantir que os compram de melhor qualidade às malucas com quem passam o tempo, na maioria dos casos indignas de engraxar os sapatos às mulheres que têm em casa...


Isto enquanto as esposas, coitadas, sabendo ou não, ricas ou não, se privam deste ou daquele pequeno luxo ou conforto pela boa economia do lar. Tal como antigamente...

Se um homem infiel é o piorio do intolerável - ou seja, nenhuma mulher digna tem obrigação de suportar tal humilhação - um que é assim mas não distingue o trigo do jóio e coloca uma doidivanas no mesmo plano (ou até acima) da mulher que leva o seu nome, não sei o que merece.

 Enquanto actualmente a maior parte opta pela tristeza do divórcio (cujas consequências são muito relativizadas) a solução de outros tempos e menos comum agora, para uma senhora de brio, era a separação como mandava a Igreja e a boa sociedade. Sacudia-se a lama das saias e retribuía-se o sofrimento com o desprezo. 


 Algumas iam além disso e desciam a pagar na mesma moeda, como uma certa duquesa encantadora cujo marido trocou o conhaque pela aguardente e só estava contente nas piores companhias femininas: separou-se, manteve os seus privilégios e fez outro tanto. Tomava amantes e despedia-os antes que dessem problemas, dizendo-lhes "se alguma vez nós, mulheres, fôssemos falsas e cruéis para os homens, estaríamos no nosso pleno direito; seria uma mísera compensação da muita perfídia com que os senhores nos tratam...". 

 Não concordo que se proceda assim, mas é compreensível que o abismo atraia o abismo, que asneira atraia asneira. Até S. Gregório Nazianzeno avisava com que cara quereis exigir honestidade de vossas mulheres, se vós próprios viveis na desonestidade? Como lhes pedis o que não lhes dais?". Haja juízo...



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