Recomenda-se:

Netscope

Saturday, August 15, 2015

Tim Tebow: abençoada mãe (literalmente)


Apesar de perceber pouco de desporto (quanto mais de futebol americano) deparei-me com uma notícia sobre Tim Tebow, quarterback dos Philadelphia Eagles, e chamou-me a atenção a sua figura e invulgar perfil grego (devia fazer cinema! Podia dar um belo Ajax ou Aquiles nas telas).

Achei graça porque o atleta se preza de ser, diz ele, um rapaz direito, todo cumpridor, amigo da família e religioso. Um bom gigante!

Porém, o que me deu que pensar foi a curiosa história da sua vinda ao mundo. Os pais eram missionários baptistas nas Filipinas e a mãe, quando esperava Tim, apanhou desinteria amebiana, sendo por isso aconselhada a interromper a gravidez. Claro que a senhora, de acordo com as suas crenças, nem quis pensar em tal coisa e o bebé acabou por nascer saudável, crescer a olhos vistos ( até atingir mais de 1,90 m de altura e 111 kg) tornar-se um dos melhores jogadores universitários da história dos E.U.A, criar uma fundação, apoiar várias causas solidárias e fundar um hospital infantil.



Ou seja, um rapagão bonito por fora e por dentro, que deve ser quase perfeito. isto é, se encontrar uma mulher que não se importe de cozinhar bastante, ou pelo menos que seja talentosa a dirigir a cozinha, ou que não tenha a mania das dietas...é que quer-me parecer que Tim não se sustentará a arrozinho integral e pratinhos gourmet...tem cara de ter um apetite masculino bem saudável e comer como um gladiador dos tempos modernos, vulgo não sei quantos sacos de pão, batatas, um pernil inteirinho, etc.


O que é o verdadeiro amor? Um simples casal português explica.



Um artigo do Expresso foi muito comentado nas redes sociais ao longo do fim de semana. Escrito de uma forma bastante poética (mercê também da entrevistada, que desabafa a sua desolação junto à Lua Cheia) comoveu os internautas por ser a história triste de um casal, como tantos neste país, que faz frente à doença, às dificuldades materiais e à falta de apoios. 

 Mais do que o lado desanimador da história (que espero que a publicidade dada ao caso ajude a solucionar ou pelo menos aliviar, pois felizmente não falta quem tenha meios para socorrer estas tristezas sem grande esforço) chamou-me a atenção este exemplo de casal unido, Luísa e Antero. 

Diz a senhora, dotada da coragem, esperança e espírito de sacrifício que são apanágio de uma boa mulher:

«Conheço o meu marido há 41 anos. Eu tenho 57 e ele, dez anos mais. Quando começámos a namorar, foi logo para casar. Sempre levei a sério aquilo de se dizer “na saúde e na doença...”.»

Imagem via Expresso

Luísa e Antero ainda são do tempo em que o amor era suposto ser sólido e não líquido, como hoje. Em que uma mulher sabia que o marido seria o seu amparo e segurança emocional, mas que formar um lar pedia deveres, pedia heroísmo. Que tudo podia correr deliciosamente, dentro das possibilidades de cada casal...mas que o destino é uma carta fechada. O marido belo, forte e bem sucedido poderia faltar-lhe. Ou transformar-se numa sombra de si mesmo e necessitar da sua ajuda, da sua força contra toda a adversidade, da sua esperança contra todo o desânimo, da sua fé quando tudo parecesse negro, da sua confiança mesmo se fosse caso para desconfiar. Na saúde e na doença. Na abundância e na pobreza. Na beleza e caso ele fique, sei lá, doente, careca e mal encarado. Casamento era Sacramento (continua a ser para quem dá esse passo pela Igreja, mas nem toda a gente o toma a sério) e um juramento forte como o de sangue.



 Uma boa mulher ama o homem quando ele é bem parecido, admirado por todos e cheio de sucesso- mas amá-lo-á mais ainda (ou provará o quanto o ama) se isso tudo desaparecer. Segui-lo-á para o exílio, se preciso for.

Luísa e Antero são de um tempo em que o homem estava ciente do seu papel de fortaleza da família, de eterno cavaleiro andante da mulher que escolhera para si; de um compromisso que começava com uma palavra firme e forte; de uma época em que namorar para passar o tempo não era a norma, em que uma promessa tinha o valor de um escrito (havia quem a quebrasse, mas isso não passava em branca nuvem, não era normal e desculpável como agora e fazia de um homem menos homem aos olhos da sociedade).


  Outro artigo recente resumiu muito bem esse tipo de homem, o homem a sério, hoje bastante raro: o que não hesita quando encontra a mulher certa para si, pois reconhece a sorte que tem, receia perdê-la para outro ou para as tragédias da vida se esperar demasiado, é maduro que chegue para tomar o que quer sem inventar desculpas cobardes. No amor, como na guerra, é preciso coragem para tomar decisões. Num batalhão, nenhum comandante quer um soldado medroso, hesitante, que pensa apenas em si mesmo, que não saiba ser um homem. E no amor devia ser a mesma coisa. Mesmo face ao medo, pois quem se aventura a amar aventura-se a sofrer, o amor, como a guerra, pode fazer com que se lá entre como um rapaz e se saia como um homem.

Imagem via Expresso
Na alegria e na tristeza: enquanto ela for sexy e bem disposta, e quando não o for tanto. Fidelidade contra toda a tentação. Força contra toda a ameaça da vida, mesmo que custe. A palavra dada servia como armadura para enfrentar todos os monstros que o futuro apresentasse.

«Ele costuma dizer que a única coisa que lhe falta é a morte e eu respondo logo: “Tu, cala-te”. Os médicos dizem que não sabem o que se vai passar. Mas eu estou cá para o ajudar. Eu sou Luísa. Ele chama-se Antero Bernardo. “Marido, já vou!”».

Luísa, que se dirige à cara metade (agora doente e com limites no seu papel masculino e assertivo) sob o respeitoso título de "marido" e Antero, têm, na sua vida de momento menos feliz, a coroa máxima do casamento; o resultado de uma mulher virtuosa e de um homem honrado, unidos na saúde e na doença. Esperemos que tudo o resto lhes seja acrescentado por darem tão bom exemplo.


Friday, August 14, 2015

Antes de detalharmos as tendências de Outono

Dolce & Gabbana

Se já começaram a reparar nas tendências para o próximo Outono-Inverno (quero voltar aí em pormenor esta semana) podem ter notado que não há nada de espantosamente novo.

Eu diria que a década que atravessamos se podia resumir a uma tríade de mistura, revivalismo e styling. É como se nos últimos anos se tivesse aplicado à moda (e em particular, ao street style - ou será por culpa do street style?) a máxima da Magia do Caos: nada é real, tudo é permitido.

 Em termos de materiais, silhuetas e calçado - ou mesmo nos cabelos e maquilhagem- deixou de haver uma tendência dominante. Vêem-se nas ruas calças slim, skinny, flare, pantalonas, cropped; mini saias, saias lápis e saias de balão; vestidos ultra femininos e visuais francamente andróginos; plataformas e saltos tão clássicos - ou mesmo oxford shoes e loafers - que parecem saídos do armário da avozinha. Foram-se buscar referências à belle époque, aos anos 20, 50 e 60; há dois, três anos, os anos 80, que nunca se esperou que regressassem, voltaram dos mortos, até em ombreiras. E os anos 90, demasiado recentes, deram um ar da sua graça com mom jeans, denim com  lavagem, cabelos coloridos, lip liner visível e mesmo - pasme-se - as horrendas gargantilhas de elástico!

 Desta feita, no Outono vai manter-se o espírito dos anos 70 que ainda não houve tempo de explorar a fundo- as calças flare e boca de sino, as franjas e camurças...mas acompanhado da riqueza de materiais que o Inverno permite, tornando-se muito mais étnico e boémio, com peles, rendas, brocados...

Também os anos 80 estão de volta, mas sob a forma das diversas tribos urbanas da década: os new romantics, com inspirações vitorianas e do sec. XVIII; os yuppies e o seu power dressing; o punk; o gótico...sendo que estas duas últimas estão quase sempre presentes em quaisquer compêndios de moda de Inverno, com mais ou menos relevo de uns anos para outros.

 O look rockabilly continua a trazer as linhas dos anos 50, mas também veremos alguma influência mod da década de 60...portanto, continuamos na mesma: o vintage mantém-se na ordem do dia, e a "moda" tem mais a ver com o styling que se faz do que com as peças em si.

Pessoalmente isto agrada-me, por muita falta que sinta de ver uma colecção realmente espectacular e marcante de alto a baixo. 

No meio disto tudo, resta recordar que ao fazer misturas é preciso, para não perder o foco nem a elegância, manter um grande sentido das proporções e ter presente a regra de ouro: procurar que pelo menos a base de cada outfit seja composta de peças de boa qualidade. 

 Uns jeans skinny da Primark podem fazer um panache enorme num look punk, desde que coordenados com um perfecto de material nobre, não necessariamente de griffe (se sim, ouro sobre azul!).

Ao assaltar o armário da avó para o misturar com as novas aquisições, há que não esquecer uma regra que as avós recomendavam sempre: "o que é bem feito, bem parece".






Nas férias, nas obras e no amor...cuidado com a febre de cabine!


O termo "febre de cabine" designa as reacções claustrofóbicas mais ou menos extremas que ocorrem quando uma pessoa ou grupo se encontra muito tempo num espaço fechado. Mas não se pense que os sintomas - paranóia, stress, embirração mais ou menos extrema com os companheiros - se dão apenas em situações limite, como prisões ou submarinos em pleno cenário de guerra.

A "febre de cabine" é o motivo de alguém muito sábio ter inventado a velha máxima "não podes realmente dizer que conheces uma pessoa até teres viajado com ela". Ou seja, acontece muito nas férias. Quantos casais estão muito bem até fazerem a primeira viagem juntos? Se um relacionamento sobrevive incólume às peripécias de uma viagem (uma road trip longa ainda é um teste melhor) então é realmente sólido. E férias em família, ou pior, em grupo? Quem nunca viu o lado negro, mais implicativo, egoísta, preguiçoso e desorientado da família/amigos durante as férias, que atire a primeira pedra. Principalmente se caírem na asneira de partilhar um espaço não exactamente grande e que não tenha , no mínimo, uma casa de banho, para cada duas pessoas. Caos iminente.

 E quem nunca se zangou com alguém após uns *demasiados* dias  de proximidade?

Creio que a febre de cabine também será a verdadeira responsável pelo ditado "os hóspedes ao terceiro dia aborrecem". Se com pessoas íntimas já é o que é, com gente não tão íntima - e que tem pouco tacto para perceber quando está a abusar da hospitalidade - o enfado e a impaciência crescem a níveis nunca vistos.

 Durante mudanças, ou obras em casa - algo comum durante esta altura do ano-  há sérias possibilidades de um surto de febre de cabine. A presença de estranhos a precisar de orientação ("chegue-me um paninho, por favor! Onde penduro esta estante?") o cansaço, o barulho de berbequins e picaretas, o frio ou o calor (ou um dia lindo lá fora que estava bom era para passear) o transtorno de ver a casa virada do avesso e em última análise, o pó, o cheiro a tinta e a cola, são bons para pôr doido o Buda mais plácido.

  Mas também em certos relacionamentos pode ocorrer a febre de cabine, mesmo que não se esteja fechado num sítio, não se viaje para lado nenhum nem estejamos a falar de relações sufocantes. Aqui entra outra máxima antiga: a familiaridade gera falta de respeito

Os antigos defendiam que para haver felicidade num namoro ou casamento, para evitar que uma relação azedasse ao tornar-se tóxica ou asfixiante, convinha que nunca se perdesse uma certa formalidade e mistério; que o marido fosse tratado como um convidado de longa, longa duração na sua própria casa (aqui não se aplicava, claro está, a regra do terceiro dia) e fizesse outro tanto por sua vez. Afinal, com os convidados faz-se uma certa cerimónia: não se aparece vestida (o) de qualquer maneira, tenta-se ter tudo em perfeita ordem, fala-se respeitosamente, não se perde a cabeça nem se cai num excessivo à vontade. 

 Nas férias, nas obras em casa, em família, nas amizades e no amor, há que arejar as ideias o mais possível, para evitar a febre de cabine. E é preciso que cada um se comporte como um perfeito anfitrião,  com toda a cerimónia e sangue frio, de modo a esconjurar tais sintomas...


Thursday, August 13, 2015

Não há estrelas no céu.


A primeira vez que ouvi falar em Perseidas foi verdadeiramente inesquecível. Eu teria uns 11 anos e - ouro sobre azul- calhou que tínhamos convidado a minha prima e melhor amiga para umas férias na praia. Inseparáveis e cheias de imaginação, na altura estávamos interessadíssimas em mitologia grega e começámos logo a conjecturar que sinal divino seria aquele. Andávamos sempre com ar de grande secretismo a inventar teorias e a escrever histórias.

Adicione-se a isto a sensação de liberdade que toda a gente nessas idades sente quando está com os amigos de férias, e a multidão que se juntou no areal para assistir àquele chuveiro de estrelas cadentes. Foi realmente mágico! As estrelas espalhavam pó prateado pelos céus, que parecia bater nas ondas. E toda a gente às escuras, com mantas pelos ombros a olhar para o sete estrelo e "ah!" e "oh" e "depressa, pede mais um desejo!". Muitos desejos pedimos nós! E não sei se alguns não se vieram a realizar ao longo dos anos, através de coincidências muito curiosas. No entanto, esqueci a maior parte. Mas o que me ficou foi a sensação de que aquela noite era mesmo importante e que predestinava grandes feitos.

 Todos os Verões se fala em chuvas de meteoros por volta desta altura, mas só voltei a assistir a algo vagamente semelhante uns cinco anos depois. De novo, estava de férias com o meu irmão e as amigas mais chegadas. Decidimos passar a noite ao ar livre, a "caçar OVNIS" no meio do nada...e ainda hoje falamos das peripécias desse serão, que só acabou quando a avó de uma delas se aventurou a vir caçar-nos ao meio do milheiral em trajes de noite, pregando-nos um susto de morte.


 Logo, quando anunciam que vai haver chuva de meteoros, aquela sensação de "uma noite diferente das outras" assalta-me involuntariamente. Mas é um pouco como acreditar no Pai Natal por hábito, porque já não me lembro de estar "programada" uma chuva de estrelas sem que se juntem no céu quantas nuvens há, a estragar tudo. Nem uma estrelita parada se vê, quanto mais estrelas cadentes! Ora Perseidas! É uma publicidade enganosa. Alguém (um desmancha prazeres cósmico) havia de ser responsabilizado por dar cabo do espectáculo e por arruinar a magia da minha infância e adolescência.

Se calhar chega-se a uma altura em que a magia se esbate um pouco, em que o firmamento fica toldado no firme propósito de nos chamar à realidade. É daquelas coisas parvas da vida em modo "o desapontamento molda o carácter", "é sofrendo que se aprende" e "a vida não é como nos filmes" (tretas, muitas vezes é mais extraordinária, eu já vi) etc, etc.

Em todo o caso, há maneiras mais construtivas de aprender: nomeadamente, aproveitando as vezes em que as estrelas se deixam ver no dramático acto de se despencarem do céu abaixo. Se não agarrarmos a oportunidade, pode haver anos a fio a olhar para o sete estrelo sem que haja sete estrelo à vista. Ou pode até acontecer que nunca mais haja outra chance de céu límpido, que isto estrelas cadentes e oportunidades são coisas muito ariscas...




A outra linda Inês



Tal como o seu pai D. Pedro I amara perdidamente a linda Inês de Castro, D. João, Mestre de Avis (filho da sua união consoladora com Teresa Lourenço, após a morte da "colo de garça")  teve uma linda Inês na sua vida.
Aos 20 anos, o futuro Rei D. João I encantou-se por uma deslumbrante judia, Inês Peres, filha de um humilde mas honrado sapateiro. Apaixonadíssimo, não resistiu: seduziu-a e trouxe-a do Alentejo para o Convento de Santos. A bela Inês dar-lhe-ia um filho, o infante D.Afonso (que viria a ser o 1º Duque de Bragança) e uma menina, D. Beatriz de Portugal.
A estima de D. João pelo filho natural não diminuiu apesar de o entretanto Rei estar bem casado com D. Filipa de Lencastre, com quem teve vasta e ilustre prole. Encarregou-o de diversas missões importantes e cumulou-o de mercês.
Casamento de D.João I com D. Filipa de Lencastre, em 1387
Porém, apesar do tratamento privilegiado que D.João deu a uma amante de origem tão modesta, desonra não deixava de ser desonra; o pai de Inês, que era homem de brio, não se conformou por ver a filha subir tão alto a tal preço. Preferia vê-la pobre e honesta, casada com um homem de bem, a barregã bem instalada e mãe de bastardozinhos reais. Ainda pensou atentar contra a vida de D. João, mas conteve-se por reconhecer nele uma boa pessoa. 
Assim como assim, o mal estava feito; restou-lhe mandar o ducado à tábua, e para demonstrar a toda a gente o seu desgosto com tal arranjinho, nunca mais cortou a barba. Ganhou por isso a alcunha de “o Barbadão”.
 Afonso de Portugal
Pais íntegros destes estão quase extintos hoje, mas mesmo naquele tempo em que o pundonor estava na moda, dava nas vistas um homem a quem nem o ouro nem as honrarias podiam comprar. Quantos não colocariam as filhas na fila e cortariam a barba se fosse preciso para estarem no lugar do Barbadão!

 E no entanto, como Deus escreve direito por linhas tortas e o fruto não cai longe da árvore, a futura dinastia de Bragança ficaria para sempre ligada ao digno judeu, cujas filhas até se podiam deixar roubar por sua cabeça, mas jamais estariam à venda…

Wednesday, August 12, 2015

A bela Clara de Assis




A 11 de Agosto homenageia-se Santa Clara, fundadora da Ordem das "Damas Pobres" (Clarissas).

Embora os Santos, desde os primeiros tempos, tenham surgido de todos os cantos da sociedade e com todos os perfis imaginários (de antigos criminosos como S. Dimas a reis, como S. Luís de França) por vezes é fácil esquecer como foram pessoas muito próximas de nós. 

Com qualidades e defeitos, virtudes e fraquezas, alegrias e frustrações, que enfrentaram grandes obstáculos e que comiam, dormiam, riam e choravam como toda a gente. E às vezes, tomavam decisões radicais e não muito bem aceites...

  Clara de Assis - nascida Chiara d'Offreducci em 1193- é um exemplo de mulher forte, e uma bela referência para as jovens. Como tantas raparigas hoje em dia foi rebelde, desafiou os pais e chegou a fugir de casa, mas para seguir um ideal mais elevado.



Nobre, rica, bondosa e de uma beleza deslumbrante, o conde seu pai e a mãe, Ortolana (senhora profundamente religiosa, que descobrira estar grávida de Clara ao regressar de uma peregrinação à Terra Santa) destinavam-na a fazer um lindo casamento. Porém, Clara, provavelmente através do seu primo Rufino, travou conhecimento com S. Francisco de Assis - com quem viria a partilhar um eterno amor espiritual - e decidiu segui-lo na sua pobreza evangélica, dedicando-se a uma vida austera e de castidade, votada a servir os mais necessitados. 

 A família, claro está, escandalizou-se com o que lhe pareceu  uma excentricidade - tal como a família de S. Francisco se tinha revoltado, anos antes. A ideia de um grupo de jovens privilegiados, com um futuro brilhante pela frente, deixar uma existência de conforto para trás para viver em alegre comunidade junto dos mais carenciados, era perfeitamente nova e estranha (mesmo aos olhos da Igreja, que via poucas probabilidades de uma Ordem perseverar com uma regra tão rigorosa). Seria o mesmo sentimento que causaria hoje uma rapariga criada com todos os mimos escapar de casa para viver com um grupo de hippies errantes. 


Como seria de esperar, os parentes tentaram por tudo impedi-la. A própria mãe, se lhe compreendia a vocação, não percebia porque não professava numa ordem rica, como tantas meninas fidalgas daquele tempo. Protestaram, proibiram as visitas do excêntrico primo Rufino, seguidor de Francisco, o pai ameaçou ajustar contas com o futuro Santo, a quem chamavam "aquele doido", prometeram castigos, fecharam-na em casa...
Debalde: aos 18 anos Clara fugiu com uma amiga, juntando-se a S. Francisco e aos seus irmãos, que a esperavam com tochas acesas. Iam ricamente vestidas, para se despedirem das vaidades mundanas para sempre. A fugitiva foi recebida com grande alegria, houve música e declamação de cantigas trovadorescas em moda naquele tempo e S. Francisco, com as suas próprias mãos, cortou-lhe os longos cabelos louros.  Depois, encaminhou-a na vida religiosa, instalando-a inicialmente em mosteiros beneditinos de modo a que também as mulheres pudessem seguir os ideais franciscanos de pobreza, amor e simplicidade.

 Os pais e tios desconsolados acabaram por dar com a rebelde Clara, mas ao tentarem puxá-la para casa o véu arrancou-se e viram, chocados, que ela tinha rapado a cabeça. Ficaram tristes e zangados, mas perceberam finalmente que a sua decisão estava tomada e de que a bela jovem teria de seguir o seu caminho.

 No entanto, não tardou que muitas jovens de boas famílias a seguissem; a própria irmã, Inês (que viria também a  ser canonizada) e a mãe, depois de viúva, viriam a juntar-se-lhe. 


Clara viveu feliz, embora com pesadas responsabilidades sobre os ombros, até aos 60 anos. Ainda em vida foram-lhe atribuídos imensos milagres. Sempre bondosa e alegre, mesmo quando estava doente - e esteve doente muitos anos- continuou determinada em todos os momentos da sua vida. Esta delicada mulher chegou mesmo a fazer frente a um exército de sarracenos que invadiram Assis: temendo pela segurança das suas irmãs, levantou-se da cama sabe Deus como, tomou o Ostensório com a hóstia consagrada e mostrou-a ao inimigo, que fugiu possuído de um terror inexplicável.

Seria um longo trabalho detalhar a sua influência na história da Igreja e na vida de incontáveis mulheres.

Clara foi poderosa ao prescindir do poder, e demonstrou como uma simples rapariga pode fazer a diferença usando como armas a simplicidade, a gentileza, mas também uma tenacidade de ferro orientada na direcção certa.






Termómetro do ciúme: em 1961...e hoje

Uma "escala mundial do ciúme" elaborada por psicólogos

" O ciúme tem sempre por base um complexo de infantilidade, porque quem é tendente a este defeito possui um espírito que não se fez adulto. Será mais ciumento o homem ou a mulher? Geralmente é a mulher, porque é particularmente exagerada nos seus defeitos (...). Em contrapartida os excessos de ciúme, inclusive os crimes passionais, são mais frequentes nos homens do que nas mulheres, porque estas suportam melhor o tormento do ciúme e não temem tanto como o homem o ridículo da traição, que faz explodir os seus sentimentos de forma violentíssima.
(...) um conselho a todos os ciumentos: é preciso pensar que este defeito pode matar o amor mais forte...".

in Crónica Feminina, Junho de 1961

 Este curioso artigo vinha acompanhado de um gráfico (acima) que indicava, de acordo com cada país, "o número de ciumentos e a intensidade do ciúme".  Não sei ao certo como se mede tal coisa numa população inteira, mas suponho que tenham usado um questionário semelhante a este, que ilustrava o mesmo texto:


Tem graça observar que nos nossos dias, muita gente podia perfeitamente rever-se neste "termómetro do ciúme". 

Basta substituir, na sexta questão (para eles) "uma carta na carteira" por uma espreitadela não autorizada ao telemóvel e (nas questões femininas), "mandar alguém vigiá-lo" por um intenso controlo do facebook e instagram.  De resto, tudo igual. É claro que algumas perguntas indicam um ciúme perfeitamente saudável ainda hoje: responder afirmativamente a 3 ou vá, 4, não é nada do outro mundo. Que um homem não goste de ver a sua mulher feita Kim Kardashian ou coisa pior na rua, é um elogio que lhe faz. Mas se a ideia dele de "roupa provocante" é um vestido minimamente cingido, ou um ligeiro decote nas costas; se lhe faz uma cena simplesmente porque ela foi alvo de admiração numa festa; e no feminino, se basta o esquecimento de uma data para se sentir traída ou algo tão inócuo como "a tua amiga é tão simpática" para perder o juízo, algo não bate certo.

O "monstro de olhos verdes": a temperar ou tornar intragáveis os relacionamentos desde que o mundo é mundo...



Tuesday, August 11, 2015

Know thy place


Tenho um antigo fascínio por geishas, um tema que hei-de explorar melhor por aqui um dia destes. (A certa altura, coleccionei bastante material sobre elas...até tenho duas figuras de seda antigas a decorar o meu quarto.) Eram tão misteriosas que ainda hoje é difícil explicar o conceito: é que não há uma figura equivalente noutras culturas.

Uma geisha, como saberão, não é uma cortesã de classe alta semelhante às antigas "cocottes" ou demi- mondaines europeias ( cuja correspondente japonesa seria a tayu ou oiran). A geisha tinha um papel mais sério e gozava de outra  segurança: era essencialmente uma artista de refinada cultura que vivia dos seus ganhos como cantora e bailarina- um pouco o equivalente às "presenças" de celebridades em festas actualmente. E as geishas de maior sucesso eram verdadeiras celebridades! 

O-Yuki Morgan, geisha que ficou famosa
por casar com um magnata americano.
Isso era complementado pelo apoio de um, eventualmente dois, danna [patrono] influente ao longo da sua vida. Se o danna quisesse casar com ela, a geisha tinha de abandonar a profissão. Claro, haveria mulheres desta arte com os seus pecadilhos e esquemas, como há em toda a parte e em todas as épocas; mas muita da má fama das geishas no Ocidente foi motivada pelos soldados americanos após a II Guerra Mundial, que conviveram com meretrizes disfarçadas...

O que sempre me intrigou nestas mulheres, além da relativa independência de que gozavam, de serem sex symbols sem mostrarem nada além do pescoço e de um pouco de décolletage e de viverem numa sociedade (os "distritos") praticamente matriarcal, foi a sua subtileza, a rigorosa disciplina e os anos de treino que dedicavam a tornar-se mulheres "perfeitas" de acordo com os padrões do seu meio. 

A geisha era uma criatura de sonho: a voz, os gestos, o andar de uma geisha não eram os de uma mulher comum. A sua maquilhagem, os decotes, o próprio penteado, destinavam-se à ilusão. Acima de tudo, elas dominavam a arte feminina de saber ouvir, da conversação, do silêncio, do poder sobre as suas próprias emoções e sobre as dos outros, do auto domínio  e de dominar o interlocutor. Eram uns Richelieus de kimono, que usavam a sua beleza para triunfar mas mantinham os acontecimentos sobre o seu controlo.


 Lembrei-me disto porque hoje me ocorreu uma passagem do famoso romance Memórias de uma Geisha, em que uma delas, Mameha, vai num riquexó com a sua discípula e decide apear-se no meio de uma ponte. O condutor protesta, os ciclistas vaiam-na furiosos, mas ela conta o dinheiro calmamente, paga, e mais calmamente vai à sua vida, como se não fosse nada com ela...

É que Mameha era uma pessoa "tão certa do seu lugar no mundo que não podia imaginar que alguém ficasse aborrecido por uma coisinha como ela estar a bloquear o trânsito".
É claro que nenhuma mulher normal será tão fora da realidade como esta personagem, que tinha levado uma vida dura, mas protegida e fora do comum.  Porém, houve uma ideia que sempre me ficou deste trecho; é que é muito importante não esquecer outra arte feminina: a de ter exactamente consciência de quem se é, do lugar que se ocupa na vida e de para onde se vai. Não se deixar perturbar minimamente pelas circunstâncias exteriores nem aceitar menos, ou outra coisa como uma possibilidade. Nem que isso provoque alguma confusão na ponte...

Pais que dizem "deve de ser" e não se portam como deve ser.


O texto é de 1982, mas quase podia ter sido escrito hoje. Talvez agora os casos de miséria sejam, felizmente (apesar da triste crise que por aí vai) mais atenuados. 

Talvez o "deve de ser" não seja, infelizmente, apontado entre aspas como era há 30 e poucos anos; se nessa altura usar o "deve de ser" classificava socialmente mal quem o dizia, hoje vê-se essa desagradável forma de falar (e escrever) até nos jornais.

Pior ainda,  o comportamento descrito no artigo como próprio de um rapazinho com carências de vária ordem... é hoje o prato do dia, muitas vezes entre pequenos cujos pais supostamente evoluíram em comparação com os seus antepassados - pelo menos economicamente. Perde-se a conta aos pequenos malcriados que dão pontapés nos bancos (até na Igreja) que incomodam porque sim, que têm a mania de cantar melopeias irritantes em crescendo, só pelo prazer de dar nas vistas e arreliar quem está, sem que os pais os disciplinem discretamente, ou agarrem neles em silêncio para os distrair por um bocado. Qual! Parecem antes deliciar-se com o seu papel de "educadores" e com a estridência da própria voz...

Provavelmente os pais mais rústicos  fazem-no de forma absolutamente genuína -  recorrem à asneira, gritaria e tapona em público para tentar mostrar que "dão educação", não sonhando que a educação é uma coisa invisível, que se dá entre quatro paredes precisamente para evitar a necessidade de correctivos públicos e humilhantes para eles, para a criança e para quem assiste...nunca percebi se reproduzem em público os mesmos teatros que fazem em casa ou se no seio do lar deixam os miúdos agir como selvagens e só quando há pessoas a ver é que lhes chegam os brios.

Depois há outros, que tentam por tudo disfarçar um background igualmente pouco educado (logo abstêm-se dos palavrões e das lamparinas, além de ralharem mais baixo) mas ainda conseguem ser piores. Puseram aos filhos um nome da moda, a imitar o antigo para encadernar a coisa (provavelmente com um segundo nome lá mais ao seu gosto); exigem ser tratados por doutores e se calhar olham de cima para os primos lá da terrinha, mas o procedimento é mais irritante se possível, porque também não sonham que a educação é uma coisa discreta que acontece em casa e não é palavra que precise de ser usada - ou provada - junto a estranhos.

 Perante a cantilena repetitiva que se vê mesmo que é para chamar a atenção, os guinchos exagerados que furam os tímpanos a quem está, os piparotes no banco do vizinho, são incapazes de levantar o dito cujo da cadeira, acalmar a criança e afastá-la por um bocado; também não se ficam, como pais discretos e embaraçados por uma birra inesperada, por um simples "shhh, caladinho...já vamos embora, etc". Qual! Elevam a voz a fazer um sotaque "culto" muito postiço, e vai de "Martim Daniel, estou-te a avisar; vais ficar de castigo!". Dali a bocado: "Constança Patrícia, vais ver o que te acontece!". Quando não é: " Caetana Susana, páre quieta...coma a sua natinha...já avisei..." e dali a minutos "Caetana Suzana, se não páras quieta e não te portas como «deve de» ser, levas uma carga de po***, m***" (juro que já vi isto). E tal pantomina quinze, vinte, trinta minutos, ou o tempo que uma pessoa aguentar sem zarpar dali para fora com uma enxaqueca...

 Realmente as crianças aprendem pela tríade da referência, do hábito e do exemplo: se os pais se portam como não «deve de ser», esperam que os filhos saibam estar como deve ser?





Monday, August 10, 2015

Confiança: alegoria do amor e da lavandaria



Ontem li num qualquer livro antigo uma frase que era mais ou menos isto: as mulheres sabem perfeitamente a quem confiar a sua roupa; se uma lavandaria lhes devolve uma peça queimada pelo ferro, dificilmente voltam a recorrer aos seus serviços. Então porque é que lhes falha essa percepção perante alguém a quem pensam confiar a sua vida?

Dá que pensar. É claro que as pessoas não são lavandarias e que quando se trata de amor - ou de afectos no geral- nada se faz sem tolerância, sem confiar além da confiança, sem esperar além da mais viva fé, sem uma dose de heroísmo, de peito às balas. Quem vai buscar amor, é bom que leve fundos para trazer consigo um bom saco de perdão e uns quilos de paciência.

 Mas não subestimemos a importância da máxima "quem faz uma, faz um cento". Na dinâmica entre duas pessoas pode ocorrer um - ou mais - erro grave. Por um mal entendido, na sequência de uma crise ou por aquela dose de estupidez que às vezes assiste a toda a gente, as coisas más acontecem. E a bem de salvar o que se tem, perdoa-se (seja a mágoa, a deslealdade, a frieza, a traição, a desfeita, a falta de respeito, a brusquidão) como se espera ser perdoado. 

Porém, quando o mesmo erro se dá uma e outra vez, isso não é um deslize. 
É algo mais grave; trata-se da boa e velha falta de respeito. 


De alguém que acha que tudo está garantido ou que se julga uma pessoa tão extraordinária que se pode dar ao luxo de cometer as piores acções, esperando que lhe desculpem coisas que provavelmente jamais deixaria passar se fosse ao contrário. Isto acontece muito: quanto mais desrespeitadora uma pessoa é, mais respeito e constância espera da outra parte.

Voltemos à lavandaria: podemos compreender que a empregada, se calhar sobrecarregada e exausta, quem sabe com problemas graves em casa, se distraísse, estragando-nos um vestido de noite ou uma blusa. Ficamos lesadas e tristes porque confiámos a uma profissional uma peça que tinha significado ou nos fazia falta.  Mas por uma vez, desculpa-se. No entanto, se acontece mais vezes, das duas uma: ou o pessoal daquele estabelecimento é incompetente de todo, não dá para mais (logo, não nos serve) ou então considera-nos clientes de segunda. Cuida da nossa roupa a pontapé, pensando "aquela é uma pateta, não vai dizer nada". Ora, ninguém quer ser tratado como um cliente de segunda.

Logicamente, nas relações devia aplicar-se a mesmíssima lógica: um comportamento feio poderá ter a sua ocasião, o seu atenuante. Mas se é cíclico, então há aí uma atitude de desprezo, de descaso, de falta de respeito. Ou  a pessoa não se sabe portar melhor (portanto, não interessa) ou age assim porque quer e acha que pode. Quem o permite - pois são sempre precisos dois para dançar o tango- está a deixar-se tratar como um interveniente de segunda categoria, como um vestido que vai à lavandaria para sair de lá pior do que entrou: queimado e amachucado.

Se uma mulher sensata não permite que lhe façam isto à roupa, vai tolerá-lo quando se trata de si mesma?

Sunday, August 9, 2015

Ah valente.





Diz que esta semana, na Viagem Medieval em Santa Maria da Feira (onde ando há que tempos para dar um saltinho, embora gostasse mais de feiras medievais antes de pipocarem para aí como cogumelos...) houve pancadaria entre grupos rivais, que parecia uma versão medieva da aldeia do Asterix.

E eu só digo que gostava de ter visto, e que as coisas divertidas só acontecem quando eu não estou. Os homens andam tão choninhas e as pessoas tão politicamente correctas que chega a ser refrescante ver meia dúzia de marmanjos que não se ensaiam de dar duas traulitadas uns nos outros, uma gaita de foles na cabeça de um, uma espadeirada pelos ares e zás trás, tudo a fugir, a bicharada a correr, pipas a rolar e o mulherio aos gritos. Também , o que é que esperavam de uma feira medieval com um mínimo de autenticidade? Claro que a autenticidade se acabou quando interveio a GNR, que não estava mascarada...mas sempre se pôde gritar "aqui d´El Rei!" e "ó da guarda" com alguma razão de ser.

Isto sem defender cá violências, que eu não sou pela selvajaria... mas aquilo é lá violência, dali a nada vai tudo para os copos e não se fala mais nisso. Sempre é mais varonil, mais digno do povo do senhor D. Afonso Henriques e mais saudável do que o hábito enjoado de agora: não sabem beber, travam-se de razões e depois processam-se, uns grandalhões de lagriminha no olho, a choramingar "ele deu-me um soco". 

Vá que ainda por motivos disparatados, ainda há homens capazes de puxar uns colarinhos neste país...não morreram todos em Alcácer Quibir, nem foram pela barra fora nas caravelas...


Os fanáticos do "cedo erguer" e os extremistas do "dormir até querer".




Acho que toda a gente conhece exemplares de uns e de outros. 

Os fanáticos do "cedo erguer" são, como o nome indica, aquelas pessoas que só funcionam deitando-se com as galinhas e levantando-se cedíssimo, mesmo nas férias ou dias livres. 

Já os extremistas do "dormir até querer" agem de modo inverso: adoram fazer do dia a noite e da noite o dia, como dizia o avô (mesmo que passem o serão em casa, andam até às tantas a fazer isto e aquilo) e para eles as manhãs são uma coisa que não existe, que não serve para aproveitar, a não ser que o horário de trabalho a isso obrigue.

Mind you, cada um tem o seu relógio biológico: há pessoas matinais e há quem funcione melhor da tarde em diante. Há quem não tenha problemas em fazer uma directa para entregar um trabalho e quem prefira levantar-se às cinco da manhã para tratar disso. Há quem seja de uma forma ou de outra desde que nasceu e quem se tenha tornado noctívago ou madrugador por vício de profissão (polícias, enfermeiras, médicos, padeiros, militares, entertainers e outras pessoas que tenham empregos com horários pouco certos).  Depois existem as pessoas (entre as quais me incluo) que estão algures no meio, dependendo das circunstâncias.

O problema não está no ritmo (natural ou adquirido) de cada um. Ser um galo que se levanta cedíssimo ou um morcego que detesta as manhãs é lá com cada qual, desde que cumpra as obrigações que lhe competem e não tente impor aos demais as suas manias.

Isso só é um problema quando alguém se torna um fanático ou um extremista de uma ou outra coisa, quando não se sabe ser tolerante e flexível - com os outros e com as situações.



 Por exemplo, um madrugador fanático tem uma disciplina excessivamente rígida e mete na ideia que toda a gente em casa há-de alinhar pela mesma cartilha. Às dez em ponto quer tudo na cama, sem chus nem buz nem catrapuz, e ai de quem precise de estudar até tarde, de chegar mais tarde, de lidar com uma criança que tenha acordado aos berros ou simplesmente, queira ver um pouco de televisão ou ler no quarto ao lado. É o tipo de pessoa que se acompanhar a família ou a namorada ao cinema, na sessão das onze, adormece na cadeira. Em férias, nem que se tenha saído à noite, quer tudo a pé ao toque da alvorada, para aproveitar a manhã na praia todos os dias. Nunca relaxa. Se há convidados em casa, é capaz de cabecear ou fazer má cara quando passa da "sua hora" de dormir. São uns bebés e se tiverem o mínimo de autoridade, é vê-los a marcar qualquer passeio para uma hora ridiculamente próxima da madrugada, pelo simples prazer de arreliar quem gosta de dormir até mais tarde. O seu lema é "quem muito dorme, pouco aprende" e como geralmente têm o sono leve, dão péssimos vizinhos.




Já o extremista do "dormir até querer" é aparentemente muito chill out, um hippie zen, um boémio, tudo na boa. Só que não. À sua maneira é capaz de ser tão control freak como o madrugador fanático, por contraditório que isto pareça numa pessoa indisciplinada. Ou seja, só está feliz sem limite de horários e quem os tentar impor, quanto mais não seja em modo "amigo não empata amigo, queres ficar a ganhar musgo na cama fica, mas não me obrigues a fazer o mesmo" torna-se persona non grata.  

É que para começar, um tardio fanático também costuma ter o sono leve, quanto mais não seja por andar com os horários meio trocados. Então acha naturalíssimo exigir que toda a gente ande em bicos dos pés até ao meio dia e fica uma fera se o acordam ao fazer as coisas que as pessoas normais fazem, como preparar o pequeno almoço. E por falar em pequeno almoço, esqueçam ir para um bom hotel com uma destas pessoas e levantarem-se a horas de o tomar. Pelo menos, na sua companhia. Poderão até conseguir, mas não vai sem luta: por muito que argumentem que é um desperdício pagar a estadia com tudo incluído e ficar no quarto até tarde, estas almas não têm lógica antes das onze da manhã. 




Quando conseguirem ir comer, já vão com uma telha que não vos deixa apreciar nada. Estes espécimes odeiam levantar cedo porque odeiam e pronto, nem que seja para fazer a coisa que mais adoram. É uma forma de rebeldia gratuita. O mesmo vale para passeios ou férias: a manhã não é para aproveitar, por mais que os outros argumentem que para dormir até tarde, ficavam em casa que era menos cansativo e mais em conta. Ou que insistam que o evento a que querem assistir é de manhã e mais nada.
 Depender destas pessoas para chegar a horas - mesmo a algo de responsabilidade - também é mentira, a não ser que o dorminhoco corra o risco de ser despedido por causa disso. Em tudo o que haja alguma flexibilidade, trata de se atrasar e acontecem invariavelmente este tipo de cenas e dramas. E quem reclamar arrisca-se a ouvir ainda mais cenas e dramas, vulgo "estás a enervar-me e a piorar tudo! Dás cabo de mim com tanto stress! Por tua causa não dormi nada e sinto-me doente". 

A única coisa pior do que lidar com um fanático do "cedo erguer" ou com um extremista do "dormir até querer" é mesmo ser apanhado no fogo cruzado entre os dois. Nenhum cede e qualquer programa inofensivo torna-se o Inferno de Dante.

Uma tolice, pois não é complicado ter o melhor dos dois mundos: levantar cedo e aproveitar a beleza da manhã quando isso é necessário ou sabe bem, dormir até tarde quando apetece e é possível.

Os extremos não dão saúde nem fazem crescer, só atormentam quem está...




Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...