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Saturday, August 29, 2015

Ninguém gosta do Cupido. Nem os Antigos gostavam.


Uma pessoa das minhas relações dizia que o Cupido é um filho da...outra senhora. 

Não será boa ideia ofender a mãe de Cupido, que supostamente era Vénus, deusa do amor e da beleza; fazer zangar uma divindade, ainda que simbólica e adúltera, é um luxo a que poucos mortais se podem dar. 

  Mas em boa verdade, Cupido era de tal maneira traquinas que muita gente acreditava não ser filho de coisa nenhuma, e sim uma espécie de força avassaladora que para aí andava a perder as almas e a armar confusão desde a noite dos tempos.

Evelyn De Morgan, Venus And Cupid

Algumas fontes mais antigas referiam-se a ele (ou mais concretamente à sua versão grega, Eros, "desejo") como um dos deuses primordiais, o primeiro nascido desde o início do universo, contemporâneo do caos ou gerado por ele e responsável pela paixão entre Urano (o céu) e Gaia (a terra). No entanto, a versão que ficou mais conhecida, que se oficializou, por assim dizer, foi a de filho de Afrodite/Vénus, muito provavelmente tendo como pai Ares/Marte, o seu amante preferido. Outros ainda diziam que Eros podia chamar papá a Hermes/Mercúrio, o mais astuto dos deuses (talvez por causa das sandálias aladas e das manhas comuns a ambos).

 Inicialmente, Eros aparecia nas histórias como "o mais belo dos deuses imortais", como afirmava Hesíodo; um jovem lindo e grave, muito generoso para com os homens e mulheres. Platão dizia dele:

" O amor- Eros - aloja-se nos corações humanos, embora não em todos, pois é adverso à dureza. A sua maior glória consiste em não fazer mal nem em permitir que o façam; nunca é acompanhado pela força, pois todos os homens o servem de livre vontade. E aquele que o Amor envolve não caminha na escuridão".

O filósofo pintava a imagem lisonjeira do verdadeiro amor,que tudo suporta; mas fontes posteriores focavam-se nos sofrimentos pungentes que a paixão provoca e nas loucuras que causa. Descreviam-no como "um jovem travesso, irrequieto ou pior ainda".

Esta dualidade é descrita por Apuleio na história de Cupido e Psique, em que o Deus do Amor "vai caçar e sai caçado".

 Em boa verdade, porém, nem gregos nem romanos tinham grande consideração pelo deus alado que atirava flechas dolorosas a tudo o que mexia, assim na Terra como no Olimpo. 


Zeus ralhando a Eros (Rafael)
Zeus (Júpiter) tremia de medo dele, pois achava-se constantemente em trabalhos com a mulher por sua causa; Eros fazia-o apaixonar-se a torto e a direito pelas mais bonitas ninfas e mortais, e a esposa ciumenta não perdoava; fazia-lhe cenas de tremer o céu...de resto, nem a própria mãe escapava às suas partidas. Cupido era uma peste que não respeitava ninguém.

Não admira então, que basicamente, o que diziam deste "anjinho" pudesse traduzir-se como "Cupido só faz porcaria!" embora posto em termos mais elegantes...

"Coração mau, mas boca doce como o mel; nada nele é verdade, nesse vadio. Cruéis são as suas brincadeiras (...) as suas setas voam longe como a morte. Não toques nas suas dádivas traiçoeiras, estão impregnadas de fogo..."

 Não gostavam dele, mas não podiam passar sem ele nem escapar-lhe; só os corações insensíveis estavam mais ou menos imunes, mas por vezes Eros divertia-se a castigar os que lhe resistiam com o dobro da força, pois não gostava de ser desafiado.

Era um malandreco, e assim continua para aflição e alegria da humanidade...




Friday, August 28, 2015

Até tu, Ken?



Entrar numa loja de brinquedos é o mesmo que ir a uma livraria: cada vez se torna menos seguro.

 Ora, não é novidade para ninguém que as desavergonhadas das bonecas vão de mal a pior; até já existem "bonecas trambolho" para nivelar as expectativas por baixo. Mas enfim, o Ken, eterno namorado (ou "homem tofu") da Barbie sempre ia sendo uma instituição.

Mais coisa menos coisa podíamos contar com o rapaz espadaúdo, desempenado, todo betolas, estilo jogador de futebol americano/ universitário da Ivy League.

Era assim que era em tempos que já lá vão...

 Pois bem, eis que hoje me salta ao caminho este lingrinhas: sem ombros, ameninado, com uma roupa que Deus me livre (jeans com gravata? Camisa de manga curta?) de óculos à hipster e cabelinho espetado. Que quisessem inventar um melhor amigo gay para a Barbie, era um sinal do esprit du temps porque agora toda a gente tem de estar representada e ser super aberta em relação à sua vida particular, até personagens da Disney

Mas que efeminem o noivo à pobre Barbie, é mais um sinal daquilo que temos visto: a masculinidade está fora de moda. É suposto as meninas crescerem a admirar princesas agressivas e a sonhar com mocinhos imberbes, homens beta, que não representem a mínima ameaça à supremacia feminina. Algo mais masculino que o Justin Bieber já não está de acordo com os cânones politicamente correctos.

Era só o que me faltava: menina da minha família não vai brincar com este enjoado. Ainda cresci a acreditar que uma rapariga deve sempre parecer mais delicada do que o homem que tem a seu lado, e tudo o que fuja a isso é sinal de casa mal governada.

Emily Ratajkowski: beleza é dote (e ter estilo também ajuda)

Com vestido de gala Safiyaa London

Emily Ratajkowski (modelo que saltou para a ribalta graças ao vídeo "Blurred Lines" e aproveitou a fama para dar as primeiras cartas no cinema) tem uma das silhuetas mais impressionantes desde Frinéia  - argumento fácil de comprovar pois quando em trabalho, a beldade "esquece-se" tão facilmente da roupa como uma ninfa num mármore grego - e um lindíssimo rosto. Perdoe-se-lhe a imodéstia, como se perdoou a Frinéia...

Emily foi dotada com os traços clássicos que apelam ao sexo oposto e causam a admiração das mulheres desde a noite dos tempos. Olhos grandes, pele luminosa, cabelo esvoaçante e lábios cheios. Em suma, "um palminho de cara capaz de lançar uma armada", como Helena de Tróia! 

Um "qi pao" Topshop na gala Met

  Porém - e ao contrário de outras starlets por aí- esta não é uma rapariga bonita só nas telas e editoriais. As suas imagens no dia a dia são igualmente dignas de nota, não só pela beleza natural mas pelo seu sentido de estilo. Seja num passeio, evento casual ou em ocasiões formais, definitivamente a modelo sabe o que pôr quando sai à rua: acessórios luxuosos, linhas simples que realçam a sua figura na perfeição (pois já se sabe, nem "tudo fica bem" mesmo quando se fala no corpo mais impecável) e uma combinação sábia de high-low fashion. Emily possui um instinto apurado para perceber a dose certa (seja de arrojo, tecido, luxo, pele à vista, maquilhagem ou simplicidade) e embora por vezes se atreva a vestir coisas arriscadas para a maioria (a quem se queira inspirar, 
recomendam-se as devidas adaptações ao contexto) dificilmente é vista com algo a mais ou a menos.
 Alguém disse "um dia a beleza governará o mundo". Se assim for, tenho cá a impressão de que Ms.Ratajkowski vai liderar o exército...

Carteira Chloé, vestido solto e cuissardes de camurça; boyfriend jeans e body Avalon.




Thursday, August 27, 2015

O complexo Jane Seymour - ou a arte do pudor postiço.





Aqui no Imperatrix fala-se bastante em elegância, dignidade feminina e modéstia ou discrição: três das mais belas qualidades da mulher. Todas estão associadas a boa educação, prudência e temperança e sem elas, até a rapariga (ou senhora) mais bonita e inteligente acaba por se tornar vulgar e perder metade do seu encanto.

Uma mulher discreta cativa pela sua beleza como um todo, física e interior;  pela forma como se atavia, que funciona como uma moldura para os seus dotes naturais (ou seja, o seu apelo não depende de uma mini saia ou de um decote monumental) e pelo seu espírito, pela forma ponderada como se expressa, pela força interior e delicadeza para com os outros. Deixa-se conquistar, em vez de procurar ganhar simpatias ou forçar relacionamentos.

Porém, convém que esses dons sejam verdadeiros. Simultaneamente espontâneos - nascidos da alma e cultivados em casa desde a infância - e mantidos pela auto vigilância e força do hábito. Ou se é reservada ou não se é (e há várias maneiras de se ser reservada, que não excluem necessariamente um feitio mais extrovertido e brincalhão). Não é possível ficar assim de um dia para o outro.



Atenção, por isso, ao que diz o povo: as sonsas são as piores. E às vezes é mesmo verdade. O pudor fingido é uma arma antiga, usada com sucesso até pelas mais afamadas "mulheres de vida alegre". Qualquer homem aprecia a ilusão de fazer uma rapariga corar pela primeira vez. Ou como se assim fosse...

 Há dias repetia-se algo que já dissemos bastante: "uma doidivanas até poderá vestir-se como uma mulher discreta, mas nenhuma mulher discreta se veste como uma doidivanas". 

Por vezes, há realmente doidivanas fantasiadas de mulheres discretas: ou porque lhes convém, ou porque enfim, fazem o tipo desmazelado e nunca tiveram dotes físicos que lhes permitissem, como gostariam, fazer jus ao feio mote " o que é bonito é para se ver" -pois se tivessem, não faltariam as mini saias e as leggings.

 Que lhes resta, então? Fazerem-se de sonsas. Usarem a sua pretensa inocência como trunfo enquanto fazem pior do que a pior das serigaitas. Parece que não partem um prato. São capazes de insinuar que nunca namoraram com ninguém (o mais certo é que ninguém lhes tivesse pedido namoro, o que não quer dizer que não tivessem feito trinta por uma linha de forma não oficial) e posar como umas perfeitas pupilas do Senhor Reitor. E no entanto, há algo que não bate certo: são de um descaramento atroz. Tornam-se umas lapas. Oferecem-se descaradamente, o que não condiz com a atitude ponderada de quem toda a vida se soube manter "nas suas tamanquinhas", que não tem experiência em usar manhas e que foi habituada a deixar-se cortejar em vez de correr atrás dos rapazes.




 São as "mulheres Jane Seymour". Se estão recordados, o Rei Henrique XVIII teve seis mulheres, todas elas com qualidades e defeitos: Catarina de Aragão era forte, virtuosa e filha de reis; Anne Boleyn era apaixonada, sofisticada e inteligente; Anna de Cleves não o atraiu como mulher, mas mostrou ser sensata e uma boa amiga; Catherine Howard, pobrezita, só possuía beleza e sedução; e Catherine Parr era uma mulher bonita e cumpridora.

 No entanto, aquela que nunca o desiludiu  (porque teve o bom senso de morrer de parto antes que o Rei mudasse de ideias) foi Jane Seymour.



Ora, Jane Seymour é capaz de ter sido a mais desengraçadota das mulheres do monarca. Os contemporâneos afirmaram que  Anna de Cleves, que passou à história como sendo a feia do grupo, era na realidade bem bonitinha (o casamento correu mal por falta de química e porque Anna não falava inglês nem gostava de cantar e dançar, como ele). Porém, segundo as fontes da época, Jane era mesmo uma plain Jane, termo inglês para uma rapariga do mais insignificante que há - e os retratos que nos chegaram não a classificariam decerto como bonita à luz do nosso tempo. As suas qualidades físicas resumiam-se à pele extremamente clara, do "puro branco" em voga na época, e ao cabelo claro também. Era rechonchudinha, caladinha, um ratinho e vestia como um trambolho.



 Não era culta, como Anne Boleyn, mas era esperta. E possuía - façamos-lhe justiça - um acentuado sentido diplomático. Ou simplesmente, sabia o que era bom para ela. Sendo dama de companhia de Anne (que cometeu o erro de escolher mal as aias e trajá-las com as modas sexy à francesa) observava tudo e aprendia como tirar partido de qualquer brecha.

Os parentes, sabendo que o Rei estava cansado do carácter estimulante e da sensualidade com que Anne o tinha cativado, vendo que as coisas tinham azedado irremediavelmente entre a Rainha e o Rei, não perderam tempo: trataram de lhe pôr a sonsa da Jane à frente sempre que podiam, chamando a atenção para as suas qualidades: não era dada a leituras...só se interessava por bordados e pelo governo da casa...não punha o nariz fora da porta...não olhava de frente para homem nenhum...dizia que sim a tudo...era um anjo de inocência! Um anjo de inocência que não tinha escrúpulos em correr atrás de um homem casado, note-se...

 Henrique, que sentia (tarde demais) a falta das virtudes domésticas da sua primeira esposa (essa sim, dócil e boa) deixou-se convencer como um pato gordo e tonto. E ainda a pobre Anne não tinha expiado no cadafalso as culpas de se envolver com um adúltero, já Jane estava muito repimpada nos braços do Rei.

Se havia inocência, não era inocência difícil de vencer, pelo menos quando estava em jogo um trono e uns quantos privilégios...

 Aliás, tão espertalhona era que, mal se viu casada, tratou de proibir às suas damas de companhia as tais "modas à francesa" com a desculpa da decência. Acabaram-se os decotes e os cabelos soltos voltaram os vestidos pesados e os toucados estilo caixote, não fosse alguma mais bonita cair no agrado de Sua Majestade e repetir-se o filme...que ingenuidade, hein?



  







Wednesday, August 26, 2015

A grande causa de 90% dos males de amor





(Isto aqui a fazer contas de cabeça, sem dispor de estatísticas nem nada...)

É o gigante contraste entre o que se vê na pessoa de quem se gosta e aquilo que ela na realidade é. 

Dessa dificuldade em determinar tal quociente advêm as penas de quem suporta parceiro (a)s mal comportados, às vezes anos a fio. E isso é complicado de ver - olha o paradoxo - embora se sinta na pele as desconsiderações, as desfeitas e os desgostos provocados pelo(a) "mais que tudo". Se um vizinho, um colega de trabalho ou um estranho na rua causasse tanta tristeza e aborrecimento, seria declarado um inimigo figadal. No mínimo, mereceria desprezo e indiferença. Mas como se "ama" o "inimigo", tudo parece romântico e às vezes quanto maior o drama, mais intenso o romance de cordel se afigura!

E no fundo, parece tão simples: basta olhar para o ser em causa com objectividade, pelos olhos desapaixonados dos outros. Há que colocar a questão "se não me tivesse apaixonado por esta pessoa, será que gostaria dela enquanto ser humano? Tenho ao meu lado uma pessoa respeitosa, de palavra, bondosa, decente, que se preocupa em não magoar os que a rodeiam, que se importa com o que eu sinto como eu me importo com os sentimentos dele (a)?".  É que, por estranho que isto soe, nem sempre se gosta de quem se ama. Ou da pessoa que o ser amado se revelou

 É fácil cair nisto, seja qual for o tipo de relação: nas avassaladoras e repentinas, porque não há tempo para conhecer bem quem está ao lado, antes de os sentimentos e a atracção toldarem o julgamento; idealiza-se e parte-se daí, muitas vezes para descobrir que aquela pessoa bonita é na realidade muito feia por dentro. É a causa do fracasso de muitas uniões precipitadas.

 E nas relações longas e profundas, porque se idealiza o passado, idealiza-se a história que os dois construíram, a empatia e telepatia que partilham: quando um casal, apesar das tempestades, é tão unido e por tanto tempo que já não se sabe onde acaba um e começa o outro, ver a realidade pode ser tão difícil como uma mãe reconhecer os defeitos do filho, ou como apontar as próprias falhas ao espelho, ou admitir que um membro do corpo está doente. Porém, esta necessidade existe. O amor é cego, já se sabe, mas não convém que seja obtuso.


Medo do confronto?


O medo do confronto é comum a toda a gente: quem não preferia viver tranquilo, que a barca fosse sempre num mar de rosas? 

No entanto, pela própria lei da natureza, sabemos que isso é impossível. Os ventos mudam; à tempestade segue-se a bonança e vice-versa;  há constantemente novas variáveis e para cúmulo, temos de lidar com o ser humano, que nunca é matéria totalmente maleável e previsível, por mais manuais que se escrevam a dizer o contrário. Maquiavel destacou-se entre os mais sábios dos sábios (Sun Tzu, Marco Aurélio, Séneca, Cícero, Mazarin, Richelieu, etc) ao enunciar a simples fórmula de virtude x fortuna (que é basicamente fazer o que se pode face às circunstâncias que se apresentam e que estão fora do domínio do mais poderoso). Já a Igreja Católica Romana, que tanto moldou a nossa cultura, foi extremamente sensata ao avisar que a felicidade perfeita e sem núvens não pode encontrar-se na Terra: defender o contrário é de um tremendo wishful thinking. O Homem, mesmo o mais feliz, que possua beleza, saúde, poder, riqueza, amor e estatuto, está sempre sujeito a um erro, a um revés, a um excesso de confiança que estrague tudo, a uma intriga que o perca, às partidas da economia, a uma maleita ou a uma catástrofe. Fragilidade das fragilidades! Vaidade das vaidades!

 Por isso, o ser humano deveria vir preparado para o confronto, seja o confronto pequeno ou grande. A caça e a guerra programaram-nos para isso ao longo de milénios. E para os momentos em que isso não era necessário, de modo a não perder o jeito, inventaram-se os desportos e os jogos.

Se o Homem não tivesse sem si esse instinto, os desafios de futebol, as apostas e o xadrez teriam há muito caído em desuso. O pobre homem (ou mulher) mesmo o mais afortunado e inatingível, vive num permanente estado de alerta, não vá o diabo tecê-las.



 E no entanto,na vida como na guerra, quase se poderia dividir a humanidade entre as pessoas que têm medo do confronto e as que lidam com ele sentindo a estranha alegria da batalha. Há vários graus para isto, obviamente, já que cada um é diferente, mas não deixa de ser óbvio.

 Na guerra toda a gente tem medo. Seria uma estupidez e uma imprudência não ter medo. Mas existem dois tipos de soldado: os que lá estão obrigados, tremendo como varas verdes e achando que tudo está perdido, e os que, já que lá estão, se deixam embriagar pelo entusiasmo da escaramuça, e berram "molon labe! hoje é um bom dia para morrer!". Esses são os soldados profissionais, que têm fibra de guerreiros.


E no dia a dia é exactamente assim. Há as pessoas que têm medo até dos confrontos que elas próprias criaram. Só para não terem de ouvir duas palavras desagradáveis, tomar partidos, escolher lados, fazer opções ou passar uns momentos constrangedores, deixam de resolver as coisas mais importantes ou de alcançar aquilo que procuram. Outras ainda (isto é muito comum em pessoas de bom coração) são dadas à paz, não fazem mal a ninguém, jogam limpo e por isso morrem de medo de quem não é assim. Acham sempre que o mal triunfa e que quem é mau, quem faz batota, quem não tem dignidade, quem é vigarista, falso e cheio de truques, é automaticamente mais esperto e mais forte. Sabem que têm razão mas não têm confiança em si próprias. São o tipo de pessoa que teria deixado Hitler ganhar a guerra só porque era mau, cheio de basófia e tinha umas engenhocas e umas paradas todas impressionantes. Levam tudo demasiado a sério e a cada fanfarronada do inimigo, encolhem-se e desanimam.

 Depois existem os guerreiros profissionais do dia a dia - muito comuns entre os maiores atletas, por exemplo. Não procuram os confrontos (isso não seria ser guerreiro, mas tirano); porém, já que lá estão, há que escolher as batalhas, seguir a estratégia, dar o peito às balas e seja o que Deus quiser, divertindo-se com a escaramuça e apreciando o movimento dos peões. São os que, já que é mesmo inevitável, tratam do assunto e vêem as bravatas da outra parte pelo que são: fanfarronadas, que geralmente denunciam uma tremenda insegurança. Não gostam de perder nem subestimam o outro, mas não ficam todas tristes, magoadas e assustadas com cada provocação do adversário, pois sabem que faz parte e até torna o jogo mais interessante. Encaram as bombas, as ameaças e o barulho com um sorriso de ironia e serena confiança, porque se conhecem a si mesmos e têm uma grande intuição sobre o oponente. 


Há dias viu-se um bom exemplo disso, quando a americana Ronda Rousey (acima, à esquerda), lutadora americana de artes marciais mistas, obteve uma vitória retumbante no Brasil contra Bethe Correia, que jogava em casa. Bethe vestiu a pele de vilã e usou todas as provocações possíveis para desconcertar a oponente - o que é normal nestes desportos- mas pisou o risco quando a insultou tocando num tema muito pessoal e sensível. Ronda calou-se bem caladinha. Depois resolveu tudo no ringue de forma rápida e espectacular, fazendo a brasileira engolir (literalmente) a sua fanfarronada. E o Brasil aplaudiu!

Ora, nem todos somos atletas ou guerreiros. Mas todos podemos tirar alguma coisa do exemplo. Os fracos começam a encrenca e fazem chinfrim; os fortes resolvem-na.




Tuesday, August 25, 2015

Como perder uma mulher em 7 lições


Esqueçam a sensibilidade, o "adivinhar as necessidades dela", as flores e coisas fanadas como "ser um bom ouvinte". Tudo isso é simpático, mas não fundamental. As mulheres são umas criaturas bastante fáceis de entender, muito menos complexas do que os compêndios as pintam e capazes de desculpar muitas coisas que as tiram do sério. Para conservar o amor de uma rapariga sincera, basta evitar as manobras de destruição abaixo citadas ou seja, não a levar ao limite. Nada que custe a pessoas decentes e rectas, portanto. Por outro lado, repetir estes comportamentos é receita certa para entrar em modo sayonara, baby.



1 - Seja inconsistente



Num momento trata-a como se ela fosse o amor da sua vida, no outro parece que já não lhe convém e acobarda-se . Estes assomos de imaturidade não acontecem só em homens inconstantes de sentimentos, atenção: na realidade, sucedem bastante em relações longas e estáveis. Mesmo as mulheres mais independentes gostam de saber com o que contam; instintivamente procuram um companheiro transparente, sem enigmas, capaz de guiar as operações e que lhes dê segurança. Perante alguém que não se decide até a maior paciência e dedicação acabam por arrefecer. Se sente que encontrou uma pessoa única, que não vivem um sem o outro (viver até vivem, mas não tem metade da graça...) seja varonil e não a deixe escapar - ou pode perdê-la para alguém que saiba melhor o que quer. Há centenas de casos assim.

2 - Nunca fale a sério



Seja um eterno Peter Pan. Tente resolver cada problema da relação com brincadeiras, fazendo-a rir ou varrendo o assunto para debaixo do tapete, sem eliminar directamente as causas. É que não está bem sem ela, mas não lhe apetece nada ter trabalho a limar as arestas...
Esse tipo de descontracção, de passar por cima dos problemas, pode contribuir para uma certa flexibilidade essencial numa relação bem sucedida. Mas às vezes há assuntos que têm de ser encarados de frente, falados, resolvidos e enterrados, para se passar à fase seguinte. Se errou, desculpe-se e faça o firme propósito de não repetir o disparate. Se o erro foi do outro lado, diga de uma vez o que o incomoda e como quer ver o caso resolvido, em vez de voltar sempre ao disco riscado, arreliá-la com mais do mesmo, alfinetar, fazerem as pazes, depois discutirem de novo, e...ufffff. Não é razoável sacudir eternamente os problemas com piadas; eles acabam por avolumar-se e assombrar o brincalhão mais tarde ou mais cedo. Não se pode confiar em quem faz da vida uma comédia.


3 - Torne-se mesquinho, vingativo e castigador



Há homens orgulhosos que no início da relação fazem tudo- até em demasia - para impressionar. São generosos e dedicados ao exagero e põem a mulher na coroa da lua...até que surjam os primeiros problemas. Têm dois pesos e duas medidas (ou seja, esperam infinita tolerância para os seus erros mas são incapazes de perdoar a menor falha) e idealizam a pessoa que está ao seu lado de tal maneira que a colocam na obrigação de jamais beliscar essa imagem que criaram, por muitos disparates que eles próprios façam. Se assim não for, feridos no seu amor próprio mas possessivos, usam os hábitos carinhosos que estabeleceram como arma de arremesso, no sentido de castigar e dominar a cara metade - que por sua vez, se estiver realmente apaixonada, cairá numa espécie de síndroma de Estocolmo na tentativa de que tudo volte ao que era (pela lei da excessiva paciência feminina). Idealizar o outro e dar uma imagem maquilhada de si próprio nunca é boa receita para um relacionamento verdadeiro. Qualquer relação é feita de perdoar e ser perdoado, de saber esquecer e reparar estragos mútuos quando é preciso e sobretudo, de respeito. Quem não é capaz disso, mais lhe vale estar sozinho. O que acontecerá inevitavelmente, pois mesmo a companheira mais paciente não tolera um eterno purgatório.


4 -  Admita interferências, seja influenciável...e não tome a defesa dela




Os maus amigos, as más "amigas", ter ouvidos leves, permitir proximidades desnecessárias e excessivas a pessoas inconvenientes que adoram causar cizânia (ou porque têm interesse no assunto, ou porque não têm vida própria e gostam de fazer de "honestos Iagos" por diversão)...

Quem ama tem de fazer a si mesmo duas perguntas: primeiro, qual (e quem) é a sua prioridade? Porque se é ser o centro das atenções, divertir-se como um adolescente irresponsável ou manter "amizades coloridas", mais lhe vale ser honesto e esperar até ter a hombridade e maturidade suficientes, antes de se envolver seriamente com alguém. Uma relação precisa de privacidade, lealdade total (ou seja, nada de "infidelidades leves") e confiança mútua. Segundo, "quem conhece melhor?". Ou seja, se acredita em tudo o que lhe contam sobre a sua cara metade (mesmo coisas infundadas ou ditas por gente pouco fiável) se toma a sério a opinião de pessoas invejosas/ com segundas intenções e pior, se incentiva tais conversas, está simultaneamente a sujar a água onde pretende beber, a insultar o seu próprio julgamento e inteligência e a ter muito pouco domínio sobre a sua vida.
 Por fim, já se sabe que os homens têm mais medo do confronto e menos facilidade do que as mulheres em cortar relações. Relativizam as ofensas, principalmente se forem indirectas ou visarem somente a cara metade e não a eles. Conheço vários casais que se separaram por o homem ter recusado afastar-se (ou ter insistido em manter uma certa cordialidade) com pessoas que causaram danos à relação, com as mais variadas desculpas. No entanto, um casal deve ser uma unidade: o que fere um, deve ser tomado como um insulto sério a ambos. Mesmo que a pessoa o tenha elogiado ou bajulado a si. Se não é capaz de sair em defesa da sua dama, não se aventure a fazer de cavaleiro andante. Gostaria que ela tratasse com grande consideração e mantivesse por perto o ex namorado que tentou separar-vos, a falsa amiga que causou intrigas entre vós, o colega que lhe enche os ouvidos contra si, etc?


5 - Faça de Othello



O ciúme é o sal do amor; sustentar o contrário é relativismo new age, apanágio das relações mornas e sem graça. Porém o ciúme desgovernado, doentio, é um frasco de piri-piri inteiro virado para a panela: torna intragáveis as maiores delícias. Uma coisa é ser um homem apaixonado e 
fazer-se respeitar; outra é insultar a dignidade da parceira espiando-a, pondo em causa a sua palavra e capacidade de se conduzir honestamente, enchendo-a de dúvidas e recriminações, ou fazer cenas em público. A médio prazo, o ciúme excessivo pode obrigar uma mulher que tenta conservar o relacionamento a "caminhar sobre gelo fino" e ser um tormento para os dois. A longo prazo, torna-se insustentável.

6- Faça-lhe ciúmes



Por retaliação (ou seja, comum nos homens ciumentos) ou por imaturidade (em modo "vamos lá ver se ela gosta mesmo de mim") há quem recorra a essa táctica, fiando-se no instinto de competição de algumas mulheres. Nomeadamente durante uma separação ou numa fase complicada do relacionamento ...para  "espicaçar" a pessoa de quem se gosta, a ver se "ela" se revela. 
 Más notícias, cavalheiros: isso poderá funcionar com serigaitas ou simplesmente, com raparigas imaturas, mas é a fórmula mais rápida para afastar de vez uma mulher com um grande sentido de dignidade pessoal e/ou que tenha intolerância a qualquer forma de deslealdade. Mulheres assim preferem desaparecer de cena a tolerar um homem que gosta de ver o mulherio a esgatanhar-se por causa dele. Uma rapariga tola pensa "se esta o quer, tenho de ficar com ele". Uma rapariga de brio terá muita dificuldade em apagar essas imagens da memória, por mais que queira perdoar a desfeita. Vai viver no permanente receio de que a brincadeira se repita, fazer o raciocínio "o que é muito cobiçado, não vale a pena ser disputado" ou simplesmente, ficar tão furiosa que o mande à outra (ou outras) com um lacinho na cabeça e um bilhetinho a dizer "guarde-o". Volte ao ponto 4 e reveja as suas prioridades antes de pensar em tal estratégia.

7- Teste-lhe a paciência...porque *acha que* pode


Ou seja, tome tudo por garantido. Seja pouco respeitoso, não mostre consideração por ela, dificulte-lhe a vida, faça ouvidos moucos a qualquer conversa séria (vulgo "sermão"), seja repisador, cruel, frio, mesquinho e mostre-lhe que ela tem muita competição por isso precisa mais é de tolerar tudo com paciência de santa, comporte-se como a última coca cola do deserto, não seja de confiança, não confie nela, arranje dramas, aja como se estivesse sozinho e tivesse agora 15 anos, deixe-a pendurada até à semana dos nove dias, enrole o melão e desenrole a melancia... enfim, parta a louça toda, deite os foguetes e apanhe as canas.

 Afinal, para ela é Deus no céu e você na Terra e nunca, em tempo algum, ela poderá deixar de o amar incondicionalmente. 
 Nem vamos discutir se agir dessa maneira é um comportamento saudável para ambas as partes (porque não é) mas quando se trata de sentimentos às vezes as fronteiras esbatem-se.
 Agora a sério: as mulheres têm de facto essa capacidade de sacrifício pelas pessoas de quem gostam, uma grande paciência e um enorme saco de desconto (foram equipadas com isso para poderem ser mães e tendem a usar tal instinto mesmo quando não é preciso). Porém, nada disso é inesgotável. 


Monday, August 24, 2015

Quando é que a masculinidade passou de moda?



A passar finalmente os olhos pela versão de Anna Karenina de há três anos atrás (tenho a estranha mania de às vezes ir adiando  filmes que fazia questão de ver) chamou-me a atenção o erro de casting que cometeram ao escolher (e caracterizar, vá) o Conde Vronsky (Aaron Johnson).

E sobretudo o contraste em relação à versão de 1997, que tinha o deslumbrante Sean Bean no papel. Sou franca, a minha opinião não é imparcial porque considero Sean Bean um dos cavalheiros mais interessantes das telas - além de que preciso de reler o livro. Mas tenho de concordar com quem chamou ao Vronsky de 2012 um "caniche" ou um "vampiro do Crepúsculo".

 A tendência de dar um certo ar adolescente a cada produção televisiva e cinematográfica não é nova, nem se limita às personagens masculinas, mas há exageros e exageros...


Sophie Marceau e Sean Bean (1997)

Mind you -  se estou bem recordada... no romance, Vronsky era suposto ser ligeiramente mais novo do que Anna, mas não um adolescente de ar perverso. É certo que nos finais do sec. XIX alguns jovens "da moda" levavam o tipo dandy à caricatura: eram os peraltas, frisados, empoados, envernizados, esguios como um fuso, muitas vezes ridicularizados e nem sempre conotados com uma imagem propriamente viril. Dorian Gray escapa por um triz à tipologia (é bonito demais, mau demais e ao mesmo tempo, ingénuo demais)  e Octave Mirbeau, em O Diário de uma Criada de Quarto, descreve o Sr. Xavier, um jovem facínora, vicioso, de leve bigodinho louro e olhos felinos que tem um encanto acanalhado e escravizador sobre as mulheres. O seu fascínio dura pouco, no entanto: apenas o suficiente para explorar financeiramente a criada de quarto que caiu na asneira de ter uma paixoneta por ele...


Keira Knightley e Aaron Johnson (2012)

Reconheço até que possa haver um certo apelo venenoso no género, mas daí a uma mulher perder-se por um rapazote desses, dar cabo da sua reputação, atirar-se para a linha do comboio à conta de um peralvilho mais delicado e mais perfumado do que ela, vai uma certa distância.

   Claro que há gostos para tudo, mas não vejo uma mulher sofisticada e até ali imune aos galanteios dos jovens elegantes, como Anna Karenina, a largar barcos e redes para fugir com este Vronsky efeminado que tem mesmo carinha de mau carácter, de malandro. Não estou a dizer que seria aceitável fugir com o Vronsky de Sean Bean, mas ao menos entendia-se - sempre disfarçava e era homem para carregar o mundo nos ombros, para fazer face à adversidade; em última análise, homem por quem se perdesse a cabeça.

Então, porque é que isto está a acontecer? Será da tal doença que anda no ar?

É este o ideal masculino que é suposto encantar as plateias? Ou as mulheres andam de tal maneira atrevidas que só conseguem conceber relacionar-se com alguém que fisicamente não intimide, mas que compense pela velhacaria? Terão medo de que um homem de traços mais masculinos, mais imponentes, seja demasiado dominador? Ou serão os homens que ganharam receio de ser másculos e se sentem mais identificados com esta imagem?

 O problema levanta perguntas, não respostas...

Sunday, August 23, 2015

Styling espinhoso #1: como usar saia midi rodada (sem parecer uma perfeita totó)




As saias midi com ligeira roda, além de confortáveis e frescas, são tendência;  bem usadas, podem ficar encantadoras, de uma elegância discreta. 

No entanto - tal como as saias de balão - precisam de algum golpe de vista  para que favoreçam.

Afinal, apresentam três desafios: primeiro, algumas são fluidas, pregueadas e/ou menos estruturadas, o que pode ser complicado para definir a silhueta; segundo, a questão do comprimento: na maioria dos modelos a bainha incide na zona dos gémeos, o que pode cortar consideravelmente a figura (a não ser no caso das raparigas muito altas e magras); e terceiro, o look, que se não for bem pensado deixa de ser trendy para dar um certo ar de "crente" de alguma seita. 

E embora esta seja uma saia adequada a cerimónias religiosas, baptizados e casórios, não é por isso que tem de parecer exagerada. Ou dar-lhe um aspecto de totó, entre hippie que perdeu o norte e rato de biblioteca...


Vejamos então alguns truques para as fazer resultar:

- Atenção à bainha: o ideal é deixá-la um pouco abaixo do joelho. Esse é o comprimento mais democrático para mulheres de todas as alturas e tamanhos.

- Se não deseja chamar a atenção para as suas ancas e coxas, evite os modelos com pregas (caso queira mesmo usar uma, assegure-se de que a saia é forrada ou utilize um spanx).


- Escolha uma saia de cintura alta e use-a com um crop top ou uma camisa/blusa ligeiramente folgada por dentro, para uma linha mais esbelta.


- Para quebrar o aspecto muito "certinho" da saia, coordene-a com uns pumps ou slingbacks pontiagudos. Plataformas não estão fora de questão, porém podem não favorecer tanto as pernas, principalmente se forem muito arredondadas ou a direito. No Inverno, opte por botins ou botas pelo joelho (para um look muito anos 70 que agora está na moda).


- Estas saias podem ser realmente complicadas, mas o modelo resulta com facilidade sob a forma de vestido, porque não corta a figura a meio. 


Happy styling!

A cansativa arte de fingir por ambição



Quem anda no mundo de olhos abertos e faz um mínimo de vida social, reconhece facilmente certos tipos caricaturados por todos os autores de costumes de todos os tempos.

Ao início, esta constatação não acontece sem surpresa: parece incrível a qualquer alma sensata ver, em carne e osso, trajando roupas e usando engenhocas do sec. XXI, um Dâmaso Salcede (ou uma "Dâmasa") pretensioso e ridículo, um Conde d´Abranhos, uma Becky Sharp (espertalhona, sonsa e sem escrúpulos) à procura de um homem que lhe dê uma vida regalada e estatuto, o perigoso tipo de um Barry Lyndon, de um Bel Ami ou de um talentoso Mr. Ripley, capazes de usar mulheres e de recorrer à violência ou ao crime tentando dar um golpe à Conde de Monte Cristo por ganância ou ressentimento, uma Juliana disposta a tudo, uma Mrs. Bennet virando-se do avesso para arrumar as filhas com um bom partido, filhas essas que por sua vez procedem como autênticas serigaitas, uma Madame Bovary com a doença das grandezas, as "preciosas" de Molière imitando os tiques das celebridades ...e assim por diante. 



Thackeray, Oscar Wilde, Eça de Queiroz, Jane Austen, Maupassant, Flaubert e tantos outros viram de perto esses tipos, caracterizaram-nos em cruel detalhe...e receio bem que não seja preciso grande poder de observação para os encontrar hoje. É que dão muito nas vistas!

No entanto, não devia ser novidade para ninguém - afinal, já era o prato do dia na Roma Antiga: Cícero dizia que a par com os tolos, os ambiciosos são um dos desafios a que qualquer nação precisa de sobreviver. E Marco Aurélio, que a ambição é a inspiração que move a gente vulgar. 

 Ora, já se sabe que mulheres da luta interesseiras ou falsos cavalheiros estilo parvenu são atraídos por tudo o que reluz, como as traças e os corvos. Os traços e as armas são sempre iguais, não importa a época ou o meio em que se movem: uma simpatia untuosa, um ar de inocência falsa, muita abertura, muita solicitude, marcação cerrada ao alvo, uma devoção que soa a postiço (mas pode desorientar quem está desprevenido) um desespero por agradar e uma aflição danada para "fazer o boneco".



 E é aqui que a maioria falha...ou que é mais fácil detectar o engodo. Tomemos como exemplo uma alpinista doidivanas (já que a versão masculina foi vista por aqui em tempos). A partir do momento em que escolhe a mira, procurará reparar em tudo o que a pessoa faz (para concordar com tudo) facilitar encontros e ocasiões de interacção, dar toda a graxa que puder. Até aqui, como não tem noção do apropriado nem do decoro, não mede as distâncias, não pensa se tem ou não qualidades para o lugar que pretende ocupar, é tarefa fácil.

 Resta o mais complicado: vestir a pele. A não ser que se trate numa expert na matéria (espécie particularmente complicada que não vamos analisar aqui) este tipo age por oportunidade. Ou seja, pode nunca ter sido acostumada a estar/pensar/ agir/vestir de certa maneira e de repente, eis que para chegar onde quer, para se colar ao homem que será o seu passaporte, não pode continuar a ser a hippie desleixada ou a flausina vulgar.

O que fazer? Resta aplicar a táctica da carteira falsa. Se já viram uma carteira de imitação, sabem como é: mal acabada, com materiais de segunda e uma preocupação superficial com copiar o design. Ou seja, lêem-se umas revistas à pressa para ver os modelitos, pergunta-se aqui e ali, tem-se particular atenção às amigas, namorada, mulher, parentes ou ex do alvo (as redes sociais são particularmente úteis para isso) e vai de copiar. Mal.



Dá-se então uma mudança radical; aqueles programas de extreme makeover não seriam mais alucinantes. Se dizia e escrevia palavrões, deixa de o fazer; se costumava usar o cabelo estilo escova de arame e aparecer em retratos ao melhor estilo Woodstock e pior, agora aparece bem penteada, a tentar fazer de Jackie Kennedy. Se está fora de forma, trata de disfarçar o melhor que pode. 

Claro que isto é muito cansativo. Na maioria das vezes errará o dress code, porque "vestido de noite" tem muito que se lhe diga, encerra infinitas subtilezas que lhe escapam. E como fazer, de um momento para o outro, para ter uma postura perfeita quando se andou sempre corcovada, para ficar na linha, quando toda a vida desleixou a silhueta, para distinguir um vestido bom de um mau se até ali ia à Bershka sem olhar sequer ao que trazia, para alinhavar duas frases com jeito, para parecer que se porta bem quando sempre fez só o que quis?

É um esforço titânico, e tal como não se pode esperar que uma Hermès comprada em Canal Street (ou na banca da esquina) aguente ventos e marés como uma verdadeira, não se conte com grande resistência destas pessoas. As alças rebentam, os pontos cedem, o verniz estala e ou se desinteressa  - porque o que nasce rápido, morre rápido - ou se espalha ao comprido. O cavalheiro falso mostra o brutamontes que na realidade é; e a Cinderela trapalhona esquece-se que nunca teve realmente uma varinha de condão que lhe valesse, agindo como a gata borralheira que nunca deixou de ser.

 Na ficção a maioria destas personagens acaba mal; mas na vida real, observar os seus malabarismos é uma autêntica comédia...

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