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Saturday, October 31, 2015

Uma (literalmente) doce história de amor


Lido hoje: "(...) Dir-te-ei que muitos anos atrás me encontrei casado por causa de três coisas: um dia de Pascoela, uma merenda no campo e um soberbo bolo de mel. Feito por «ela», claro. Eu nem a conhecia: fora convidada por minha irmã e no momento propício depôs sobre a toalha algo de inaudito, de espectaculoso, de indescritível:aquele bolo de mel. Com a boca atafulhada daquela massa doce, levantei os olhos para fixar a autora daquela obra prima, e depois os acontecimentos precipitaram-se. Todas as vezes que passava por ela sentia a doçura do bolo, e a água vinha-me à boca. Por fim decidi garantir-me para toda a vida ela e o bolo..."

Achei muita graça a este texto, talvez pela ideia bíblica do bolo de mel, talvez porque na família todas as mulheres (e alguns homens, por causa da caça) costumam ter prendas de cozinha. 



Na adolescência delirava com livros de receitas, se fossem antigos, melhor ainda; bati-me valentemente pelo direito a cozinhar (algo difícil quando há uma generala na cozinha; tive de equilibrar isso com a a omnipresente filosofia de "uma Senhora tem de saber fazer tudo!") e gostava de filmes/ livros como Woman on Top, Como água para Chocolate ou Comer, Beber, Homem, Mulher. Embora não cresse que se pode conquistar o coração de alguém só pelo estômago, sem passar pelos olhos, sempre achei que há nos temperos algum tipo de comunicação amorosa e emocional. Se estiver arreliada, nada me sai bem, é escusado.



 Acabei por me impor e tinha algum talento-  chegaram a sugerir-me que me tornasse chef, o que provocou reacções contraditórias em casa (se calhar estava lindamente, embora não me apetecesse ganhar a vida de touca na cabeça e fechada entre os vapores).

Quase perdi o gosto quando a culinária se tornou moda, ganhou ares pretensiosos, pratos com direito a posts patetas no instagram, bimbies da vida e cozinheiros com honras de rockstar...mas enfim, mais vale que mal por mal, se entretenham à volta dos tachos e panelas. Podia dar-lhes para pior. A subtil magia da cozinha  perdeu talvez um pouco do mistério com tanta publicidade, mas não deixa de ter a sua alquimia, de ser uma forma subtil de comunicar. Uma mulher que cozinha bem, se for delicada e feminina, tem sempre o apelo da fada do lar, por mais independente que seja. Um homem que cozinha é sempre charmoso, tem o atractivo da sobrevivência, da protecção, do desembaraço.

 Para cozinhar é preciso sensibilidade, e sensibilidade e sensualidade caminham juntas...




A cortesia


Em Abril de 1958, a revista "A Família" - de que arranjei alguns exemplares com artigos interessantíssimos - teve um número em que a cortesia era o tema dominante. 

Hoje seria difícil ver tal assunto na imprensa a ocupar uma edição quase inteira: com o aligeirar de costumes, a disciplina tornou-se menos rígida; instalou-se um excessivo à vontade que roça a grosseria, um exagero de familiaridade, por vezes... e à custa de atropelar costumes, tradições, etiqueta, protocolo, dress codes, por vezes ninguém sabe ao certo como proceder.

Porém, não confundamos etiqueta (uma série de regras que é útil e aconselhável não ignorar) com afabilidade, gentileza. Essa é acessível até à pessoa mais arredada dos círculos mundanos e faz bem à alma. S. Francisco de Assis chamava à cortesia "a irmã da Caridade, que apaga o ódio e acende o amor".  E é verdade -basta pensar nos milhões investidos todos os anos pelos grandes grupos empresariais em Relações Públicas.

À conta de confundir cortesia com regras de etiqueta há mesmo quem ache - erradamente - que ser cortês é algo arcaico , hipocrisia ou mesmo sinal de afectação, de "peneiras". Uma tolice - ou desculpa conveniente para a má criação - pois trata-se somente de procurar agir com delicadeza, sem servilismo nem impertinência, sem timidez nem atrevimento, de não incomodar (por palavras ou actos) os outros, de lhes facilitar a vida, de lhes tornar cada dia menos complicado e se possível, mais agradável. Digo muitas vezes que se todos fizéssemos esse esforço uns pelos outros, este planeta era bem menos espinhoso para se viver.

Voltemos à revista, que advertia, por exemplo, as jovens contra as tais "peneiras":

"Muitas reservas e ares de ofendida não ficam bem a uma rapariga de bem. Pode-se ser uma rapariga virtuosa e educada sem perder o sorriso, a cortesia, a cordialidade". Igualmente, a um moço ou cavalheiro, é desnecessário dar-se grandes ares, endireitar-se muito - ou pelo contrário, sorrir de orelha a orelha ou cumprimentar até as panelas da cozinha- para mostrar que se é um Senhor. O porte desempenado, a amabilidade, um sorriso que pode ser tímido bastam para pôr os outros à vontade, sem fazer "figuras".

 Depois a publicação continuava, mencionando como o Portugal de então levava o "Oscar" de nação mais cortês da Europa (bons tempos!). Um jornalista italiano, Giancarlo Bertieri Bonfanti, dissera então do nosso país:

"A cortesia, qualidade que infelizmente escasseia em toda a Europa, é uma segunda natureza dos portugueses...; não a cortesia servil de alguns portos do Mediterrâneo. O português  é cortês mas não conhece o servilismo; embora sem sombra de arrogância, há nele uma dignidade naturalíssima, à qual nada concede além da gentileza".


Uma característica de elegância que tristemente se vai desvanecendo. Resta dizer do nosso povo o que André de Fouquières, escritor francês, disse do seu ao notar a decadência de costumes: "nós fomos o povo mais cortês da Terra. 
Praza a Deus que tornemos a sê-lo".




Friday, October 30, 2015

Ó avozinhas, que desvergonha.



A Casa do Povo de Ermesinde decidiu criar um calendário para angariar fundos - um calendário sensual (tinha de vir o palavrão) a provar que as idosas também podem ser bonitas e sexy.

Antes de mais, deixem-me que vos diga que não acho a intenção má em si mesma. As senhoras são bonitas, alegres e um calendário de avozinhas é uma iniciativa perfeitamente adorável, dá rostos à instituição, chama a atenção e em essência, é mais que positivo as pessoas continuarem a pôr-se e sentir-se belas em qualquer idade. Olhem para a Betty White, que é giríssima, ou para blogs como o Advanced Style, cheio de lindas anciãs. E se quisermos ser mesmo radicais e levar o assunto para a brincadeira, é sempre possível fazer algo irónico,  ao estilo the roof is on fire:


Desafiem-me a criar o styling para um calendário do género e colaboro com o maior gosto. Não é difícil criar doze imagens temáticas protagonizadas por idosas sem faltar à elegância, a sério. Uma avozinha bonita com um tabuleiro de bolachas a sair do forno; uma avozinha fantasiada de mãe Natal desde que o vestido lhe assente bem, porque não? Uma senhora dos seus 80 com um belo vestido antigo a ser cortejada por um cavalheiro da mesma idade, num retrato a sépia - encantador!

Mas atenção à palavra, gosto  - e gosto é o que faltou aqui. Para um calendário assim funcionar sem faltar à dignidade dos envolvidos e ser esteticamente apelativo, é preciso bom senso às carradas. E pôr uma senhora de chicote na mão, ou a levantar as saias, em cenários duvidosos e com uma fotografia cruíssima, não é maneira de retratar a beleza da terceira idade. É faltar ao bom senso, ao respeito e ao bom gosto. É cair no ridículo, na caricatura...chega a ser triste de ver, por muito nobre que o intento seja, por muito que se queira brincar com o tema, por mais que se tenha conseguido o objectivo de pôr a Casa do Povo de Ermesinde na boca do povo, passe o pleonasmo. 

É caso para dizer - fosse minha avó (todas elas que me desculpem, onde quer que estejam, por colocar sequer tal hipótese!) e tínhamos aborrecimentos, ó se tínhamos.

A verdade sobre James. James Bond. (Bravo, Daniel Craig! )


Pela primeira vez eu até estava já com vontade de espreitar atentamente um filme de James Bond. Apesar de todo o glamour e dos bons actores que passaram pela franquia desde o início, 007 nunca foi personagem que me agradasse (já lá vamos...). Mas desta feita, com um elenco que inclui Ralph Fiennes, Monica Bellucci, Cristoph Waltz e Ben Whishaw (o jovem de "O Perfume") Spectre parece de facto tentador.

Depois, eu simpatizo com Daniel Craig, que até é casadíssimo com a linda Rachel Weisz (casal encantador!) e fez um figurão ao lado de Sua Majestade (acima). Mas passei a simpatizar mais ainda agora, que o actor, a viver o agente irresistível pela 4ª vez, disse que James, James Bond, não é um cavalheiro. Nem um modelo positivo para os homens




James Bond, diz Craig, é um misógino de primeira água e um mulherengo incorrigível. O que a meu ver, e no entender de muita gente, é diferente de ser um machista, se virmos "machista" como alguém que acredita nas diferenças entre homens e mulheres e em cumprir as boas regras do antigamente  - senhoras e crianças primeiro, por exemplo. Conheço machistas profundamente cavalheiros (também conheço alguns que são umas pestes, mas adiante). Um misógino é algo realmente mau- um bruto que despreza as mulheres e as vê como brinquedos para usar a seu bel talante. E James Bond é isso mesmo- um promíscuo, um fácil ou em inglês, um man-slut. Sempre me fez confusão a sua parada de Bond Girls.  Lembro-me de ser muito nova e achá-lo tudo, menos irresistível - mesmo quando James Bond era Sean Connery. 



Já na altura achava que o que é muito disputado não merece cobiça. E James Bond parecia-me, no mínimo, muito cheio de si e sem nenhum auto domínio. A precisar de levar uma tampa monumental para aprender.

O povo tem uma série de palavras desagradáveis para descrever o que é James Bond, que não pode ver uma saia e anda sempre rodeado de serigaitas que competem pela sua atenção. "Femeeiro" será o que se pode escrever aqui sem fazer corar as senhoras. E isso é desprezível para qualquer mulher que preze a dignidade (não só a sua, mas a de quem a rodeia, que isto "diz-me com quem andas"...). 

E Daniel Craig soube, finalmente, chamar James Bond pelo nome - acrescentando que, se o agente secreto se tornou mais cavalheiresco nos últimos anos, foi só porque encontrou "Bond Girls mais fortes que o souberam pôr no sítio". Haja quem!


Thursday, October 29, 2015

Para tudo há um tempo.



Sempre gostei muitíssimo desta canção dos The Byrds, que capta na perfeição o espírito do trecho Bíblico (Eclesiastes, 3) onde foi buscar a letra.


Há um tempo - ou uma altura-  para cada propósito debaixo do céu. Cada gesto, cada decisão, cada emoção, tem o seu momento: tempo de falar, e tempo de calar; tempo de amar, e tempo de odiar; tempo para rasgar e para remendar; tempo de guerra, e tempo de paz; tempo de tristeza e tempo de celebrar; tempo de demolir e tempo de juntar pedras; tempo de abraçar e tempo de apartar-se...não necessariamente por esta ordem.

A vida é feita disto tudo e não vale a pena lutar contra o facto. É preciso abraçar essa realidade e (além de confiar que o que tem de suceder vem quando é a sua altura, nem mais nem menos; e não necessariamente quando desejamos, ou seja para ontem) entender que por vezes, consoante o momento certo, a guerra, o rasgar, o guardar silêncio, o apartar-se, o demolir ou mesmo o odiar podem ser benéficos.

As frutas e flores nascem quando  bem entendem, não quando queremos; colhê-las antes não traz benefício a ninguém. Por isso é mau ser apressado. Mas quem se demora toda a vida e ainda deita as culpas à Natureza é igualmente insensato.



 Logo, o que não se pode fazer é confundir os momentos de agir assim ou assado: demolir quando é altura de construir, guerrear quando o calor da batalha já lá vai há muito e seria mais útil reerguer pontes, ferir quando é tempo de curar, calar se já é mais que tempo de pôr tudo em pratos limpos, continuar a dizer o mesmo quando é tempo de calar...ou de dizer outras coisas mais importantes.

 É tão mau querer as coisas antes do tempo devido como protelá-las demasiado, arrastá-las ou agir de forma contrária ao que a estação pede. Já se está em tempo de paz ou renovação e continua-se preso ao que lá vai; já passou a altura da hesitação, mas não se faz nada...são tantos exemplos!

Cair nesse erro crasso pode mesmo fazer com que se perca - ou se escangalhe - até o que estava escrito no céu. Quando não se dá às coisas o seu devido tempo, ou não se honra o tempo correcto para cada coisa, o tempo passa e pode nunca voltar, como a flecha atirada, a palavra dita e a oportunidade perdida. 

Como a canção diz, não há nada - ou há muito pouca coisa - tão imutável que seja insensível às danças do tempo ou ao virar das estações. Tudo tem o seu tempo e o seu modo, o resto é com cada um, que o Céu e o Universo dão os limões, mas não fazem a limonada...

Brutos. Homens das Cavernas. Garotos. Cobardolas.



O Centro Europeo Neurosalus, uma clínica de desintoxicação e reabilitação, decidiu fazer uma experiência em Madrid para provar como pode ser perigoso uma jovem andar por aí num estado...bom, alterado. Uma actriz nova e bonita fingiu estar perdida de bêbeda em plena luz do dia para testar a reacção dos homens que passavam. Resultado? Nem um só se ofereceu para chamar um táxi, levá-la ao hospital, chamar a polícia ou pô-la em segurança. 


Todos tentaram de algum modo aproveitar-se do seu estado e alguns até a incentivaram a beber mais, apesar de a actriz dizer "é a primeira vez que me emborracho". Num momento a equipa responsável pela experiência teve mesmo de intervir, porque um dos brutamontes tentou agarrá-la e beijá-la. 

Quanto a mim, este teste prova mais do que o útil e eloquente "é perigoso intoxicar-se em público". Dava pano para mangas, para um estudozinho antropológico ou no campo da sociobiologia. 

Primeiro, para esfregar na cara de certas alas feministas e de esquerda, que vivem na utopia - ou seja, acreditam que ninguém é mau neste mundo, que  o importante é educar para respeitar as mulheres, mudar mentalidades (como se brutos e psicopatas tivessem remédio) que os agressores são todos uns coitadinhos, que as mulheres também não são responsáveis pelos seus actos, pobrezitas, e que o "direito feminino" a andar despida e bêbeda como um cacho se preciso for em ruas perigosas é mais importante do que criar, aqui e agora, medidas de segurança e leis que castiguem fortemente quem se aproveita da vulnerabildade (ou doideira) alheia. Experiências destas mostram que brutos, como os pobres, sempre os haverá, infelizmente. Cabe a cada uma ser prudente e evitar que as ocasiões façam o ladrão. Deal with it.


Segundo, para ilustrar uma ideia que eu tenho defendido imenso por aqui: é que a hombridade está pelas ruas da amargura. O cavalheirismo morreu de morte matada (muito por culpa das mulheres, não o nego) e muitos, se já seriam escumalha no sec. XIX, quando as regras de conduta eram outras e as saias eram até aos pés, no sec. XXI a igualdade dá-lhes um jeitão para tirar proveito...sem sentirem um bocadinho de vergonha sequer.


A maioria esquece (ou nunca aprendeu, que isto o que o berço dá a tumba leva e nada feito) que um homem a sério, um homem sério, um cavalheiro, jamais tira partido da situação. Aliás, acha isso baixo e indigno de si.  Não se considera tão pouco sedutor que uma rapariga precise de estar com os copos para lhe dar confiança. 

Se for preciso, protege uma mulher contra ela própria. Não se aproveita da fraqueza dela para a levar a fazer o que está errado, para forçar o que quer que seja, para pressionar de modo algum - seja essa fraqueza motivada pelo álcool ou outra substância, pelo amor, o entusiasmo ou qualquer coisa que a impeça de pensar direito. É forte, tem autodomínio. Trata as outras mulheres com o respeito que gostaria que tratassem a sua irmã numa situação parecida.

Estes "homens" são desprezíveis. Pouco mais que hienas em duas pernas, mortinhos por tirar partido da menor chance, por muito pouco orgulho que mereça essa conquista. "Aproveitei-me de uma rapariga bêbeda" - grande coisa! Como se dizia na terra dos meus avós, são garotos. Ou garotelhos, que ainda é um insulto pior lá para aquelas bandas...





Wednesday, October 28, 2015

Who´s that girl?


Na controversa sequela de E Tudo o Vento Levou, "Scarlett", de Alexandra Ripley (como continuação terá os seus defeitos, como romance gostei bastante)  há uma espécie de Consultora de Imagem, contratada para tornar a irrequieta americana uma sensação na boa sociedade irlandesa, que lhe diz algo do género "pode ser original; seda e perdiz num dia, batatas cozidas e meias às riscas no outro. Tudo isso só fará parte da sua lenda".

Scarlett aprimora a sua beleza e sofistica-se sob a direcção desta mulher, que soube ver directamente o que ela era. Afinal, a inesquecível personagem imortalizada por Vivien Leigh tinha dois lados distintos, que toda a vida tinham entrado em conflito: por um, a sua aristocrática ascendência francesa e a suave influência da mãe, uma perfeita Senhora; por outro, o impetuoso sangue irlandês. Só depois dos 30 Scarlett consegue equilibrar ambos, tornando-se uma mulher plena. Sendo igual a si própria, não há mal nenhum em ter - usemos um exemplo mais nosso -  caviar num dia e sardinhas no outro!


Scarlett entende finalmente que pode ter o melhor dos dois mundos - o campo e os salões, a maternidade e o espírito de aventura, a delicadeza e a coragem, o domínio de si própria mas também a entrega de um amor verdadeiro ao lado do único homem que, sendo feito da mesma massa que ela, podia - ao fim ou apesar de muita zaragata - compreendê-la verdadeiramente.

Sempre achei a bela O´Hara a heroína ideal (ou pelo menos, aquela com quem mais me identificava, talvez por ser uma irish lass) e parece-me que muitas de nós enfrentam esse tipo de dúvida, principalmente quando chega a hora de assumir as responsabilidades da vida adulta. Ocorreu-me este pensamento precisamente num bar irlandês, com o rufar da percussão a falar à alma e ao espírito dos avoengos. Uma mulher complexa nunca é feita de uma faceta só. Tem infinitas nuances e pode ser diferentes coisas, em diferentes momentos, desde que nunca perca a noção de si mesma, dos seus valores, e saiba adequar-se. E é preciso entender que embora sendo complicado por vezes, podemos gerir a ocasião de ser impetuosas e o momento de guardar silêncio, a elegância e a voz do coração, que não pode ser abafada. Momentos "tenho de ser eu própria, se não rebento" assistem a todas. 

Mais subtil é saber realmente "quem sou eu?" e aceitar que essa mulher pode não ser uma rapariga só, ou que pode ser mulher às vezes, e uma eterna rapariga noutras...




5 imagens que mostram a nobreza da verdadeira masculinidade

What makes a man? 

Esto vir- em latim, sê viril, sê homem!  Já se falou tanto disso por aqui...é a hombridade, a coragem, a palavra, a honradez, a bondade, a honestidade, a força, a gentileza, o autodomínio, a capacidade de trabalho, de liderar, de proteger, de lutar quando é preciso, de dar o peito às balas, de dar a cara, de fazer opções, de fé e decisão, de assumir sentimentos, acções e ditos, de enfrentar dragões, de sacrifício. 

Sem isto, não há masculinidade, quanto mais cavalheirismo. Nem pode haver elegância, por mais refinados que sejam os modos, por muito requintados que sejam os trajes e por muito convincente que pareça a basófia. Um "homem" sem essas qualidades, é-o apenas biologicamente falando. Todo o homem, qualquer que seja a sua condição e estilo de vida, tem dentro de si um herói, um apaixonado, um pai, um soldado, um líder. Essas são- mesmo em sentido figurado - as suas missões mais nobres. Se decide ou não aceitá-las, se escolhe crescer e amadurecer...isso depende da sua bravura..ou da sua cobardia.

As imagens abaixo, que têm circulado pela internet, ilustram bem esta ideia de força - por fora e por dentro!

1 - Soldado russo beija o Rosário antes da batalha de Koursk, 1943 ( para quem não se recorda: os alemães, que lançaram a ofensiva, foram corridos com uma enorme sova. Um homem fortalecido pela fé numa causa maior do que ele é capaz de tudo.)


2 - Brandon Smith, morador no Iwoa, E.U.A, salvando os seus dois gatinhos durante uma inundação em 2008.


3 - Um pai emocionado ao abraçar finalmente o seu bebé recém nascido, depois de sete anos a lutar contra a infertilidade.


4 - Uma jovem família posa para um retrato recordando os seus bebés que não chegaram a nascer.


5 - O Tenente-coronel John Malcolm Thorpe Fleming "JackChurchill, mais conhecido por "Mad Jack", que cunhou a expressão "qualquer soldado que vai para a guerra sem a sua espada está mal ataviado". Famoso por usar não só um espadeirão escocês, mas também arco e flechas (mais uma gaita de foles que tocava lindamente, para provocar o inimigo) durante a II Guerra Mundial, Jack foi responsável por façanhas que superam Hollywood. Curiosamente, depois da Guerra  chegou a participar em filmes. E era fã de surf. E tinha um estilo tremendo, além de ser uma bonita figura de homem.





Tuesday, October 27, 2015

Too little, too late?


Há cantiguinhas pop que como quem não quer a coisa, dizem muito. Aliás, a versões mais eruditas de alguns hits do easy listening provam que se na música comercial há muita pastilha elástica e encher de embutidos para alienar as massas e atafulhar as playlists, também há canções realmente bem escritas.

Desta já antiga sempre gostei muito - pela melodia que tem alguma coisinha de tocante (o que é diferente de ser lamechas) e pela letra, que embora referindo-se a um drama universitário (basta ver o vídeo) se aplica a relacionamentos em qualquer fase da vida. 


It's just too little too late

A little too wrong

And I can't wait
Boy you know all the right things to say
You know it's just too little too late
You say you dream of my face
But you don't like me
You just like the chase
To be real it doesn't matter anyway
You know it's just too little too late



Isto de de gostar mais do jogo e da caça do que da pessoa em si; de agir da forma certa mas pouco demais e tarde demais... é um dramazinho que estraga amores desde que o mundo é mundo, em qualquer época, em qualquer idade e que transcende sexos, embora tenha para mim que nesse tipo particular de parvoíce os homens são mais useiros e vezeiros. O mulherio tem montes de defeitos mas costuma ver melhor o que está à frente do seu nariz. Just thinking.




Ná, não é assim que se lida com isto like a boss.


Shelby Swink, uma jovem americana, teve o desgosto de ser abandonada à própria da hora pelo noivo. E a maneira que encontrou de enfrentar o ridículo e o choque da situação foi, no dia em que a cerimónia se realizaria, marcar uma sessão fotográfica muito empowering (tinha de vir a palavrinha do momento) junto da família e amigos, em que pintalgou e escangalhou o vestido de noiva.

 Também o sacrifício não há-de ter sido grande - era um suspiro de cai cai igual aos outros todos, pois então. Os convidados espatifaram igualmente as roupas que iam usar nessa data, fingiu-se (eu não acredito) que foi tudo uma ganda festa e claro, como a única coisa mais na moda hoje em dia do que fazer books e sessões de retratos é colocar isso tudo nas redes sociais, a história saltou para os média.

Ora, eu cá não sou ninguém para dizer que há maneiras boas ou más de lidar com uma desilusão dessas - cada um as supera a seu modo - mas quer-me cá parecer que dar ainda mais nas vistas é um pouco raposa que não foi às uvas, tipo "olha para mim tão bem sem ti, I will survive". 


Em tais aflições, o melhor é apanhar um avião, se possível. Espairecer discretamente, de preferência se a Lua de Mel já estiver reservada e paga assim como assim.

E se é para dar nas vistas, mais vale fazer como outra noiva que passou pelo mesmo mas não desmarcou a boda e convidou os sem abrigo da cidade para o luxuoso copo-de-água. Ou leiloar o vestido para alguma obra de caridade a favor de mulheres em risco - ao menos tirava-se bem do mal, alguém aproveitaria da desgraça.


De uma forma mais privada, conheço duas mulheres que enfrentaram esse trauma admiravelmente e sem queixinhas. De uma delas já falei aqui

Mas a outra lidou realmente com o caso como uma patroa que é. Recuperou do choque, ligou aos convidados a cancelar a festa, recompôs-se, tratou de andar bonita e em menos de um Credo, arranjou um noivo melhor. E a cereja em cima do bolo foi esta: como os vestidos de noiva custam os olhos da cara e ela gostava deveras do modelo que tinha escolhido para o casório que não chegou a ser, não esteve com superstições nem tretas e usou-o que foi um gosto! "Ora essa...se eu gostava do vestido, era o modelo que eu queria, havia de ir comprar outro?"- dizia, toda divertida, a quem a queria ouvir. Guardado estava o vestido para o noivo de jeito que havia de chegar...fez um figurão e continua felicíssima. Quanto ao facebook, nem era para ali chamado...isso sim é empowering! E discreto, que a classe cabe até nas desgraças. Ou principalmente nelas.



Monday, October 26, 2015

O sapato perfeito está de regresso




 Coco Chanel popularizou os sapatos de biqueira preta, que acreditava tornarem o pé mais delicado e alongarem as pernas...um look que foi reproduzido em vários modelos.
Em 1957, lançou a versão slingback e neste Outono, Karl Lagerfeld trouxe-a de volta, gerando uma febre imediata. 


E não é de surpreender - o lendário sapato Chanel tem todos os benefícios de um slingback (um dos meus modelos preferidos, como já vos contei) a beleza da intemporalidade e o conforto de um salto baixo, estável o suficiente para caminhar à vontade, mas elegante que chegue para favorecer a silhueta. Além disso, fica igualmente bem com saias, vestidos, calças cigarrette, e assim por diante...

Apostar neste modelo é garantia de ter um sofisticado sapato de confiança por uns bons anos - seja para as apreciadoras do género que queiram fazer um investimento acertado no original ou estando atenta às reproduções em pele de Zaras e afins, que inevitavelmente acabarão por surgir. Fica a dica.



Sunday, October 25, 2015

O amor da sua vida...ou o atraso da sua vida?


O conceito "amor da minha vida" é muito amplo. Essa designação abarca vários tipos de "amor": aquela paixão avassaladora que não dá fruto mas deixa marcas para o resto da dita; o amor de rajada que contra todas as expectativas (e avisos dos amigos e parentes) dá em casamento e descendência (em quase todas as famílias há pelo menos uma história assim) ou aquele grande, grande amor, grande, demasiado grande em todos os sentidos - até na duração. Esse tipo de amor romântico - e por vezes conturbado, byroniano -pode ser, de facto, o amor da vida de alguém e ter um final feliz.

 No entanto, também é possível que seja simplesmente o amor que ocupa a vida de alguém durante longos meses ou anos, talvez em excesso. Talvez sem resultado. Em modo amor-karma. 



Nesses casos, a diferença entre amor da vida ou atraso de vida é ténue. São aquelas duas pessoas tão semelhantes uma à outra como duas gotas de água, duas almas muito parecidas que se fundem na perfeição, que completam as frases uma da outra, gostam das mesmas coisas, pensam e sentem da mesma maneira, que combinam um amor profundo e tranquilo, cheio de resistência e certeza interior (fruto do tempo e das vezes que tentaram separar-se sem sucesso) onde já não se sabe onde começa um e acaba o outro, com as ribanceiras da paixão e do ciúme.

Porém, onde há isso tudo, devia existir outra condição essencial ao amor: o crescimento, a evolução, a superação dos males passados e a frutificação. Apesar de exigir toda a privacidade possível, o amor não é estanque, não é hermeticamente fechado - nem um bibelot que uma vez obtido, ali está até ao fim dos tempos, um pouco arranhado dos tombos em vez de ser reparado como deve mas ainda o adorno favorito...ali, por estar.



 Uma viagem pode ser bela, levar o viajante a ver coisas incríveis, incluir aventuras memoráveis...mas se não tiver um destino, uma conclusão, se for um constante volta-atrás, não é uma viagem: é simplesmente andar errante. E o amor pode ser uma aventura, certo; mas é uma aventura no sentido de demanda. Numa demanda os heróis arriscam-se com um propósito. Que seriam os argonautas se não procurassem o Velo de Ouro? Um bando de temerários num barco a fazer maluquices, a sofrer para nada.

E sofrer para nada, uma demanda sem prémio, é o que sucede quando o amor da vida se revela o atraso da vida: vai e volta, regride, ilude, destrata, ocupa espaço, gasta emoções, gera conflitos, desgasta os nervos, não evolui nem deixa evoluir, torna-se todos os dias o mesmo, sofre erosão simplesmente porque uma das partes pensa que a outra estará sempre ali - não importa quantos safanões esse "amor" leve, nem o pouco estímulo que receba.



Esse amor-atraso-de-vida até poderá ter impacto; ser uma grande história de amor, boa para os livros, os filmes e para contar aos netos, não há que negar; mas o seu (ou a sua) protagonista dificilmente será a pessoa certa, o tal ou a tal, porque não basta amar, ou achar que se ama. É preciso saber 
fazê-lo.

A pessoa certa pode não ser perfeita (dificilmente será!) mas não vai dificultar a vida da cara metade onde puder facilitá-la; não magoará intencional e gratuitamente; vai procurar o perdão, nunca a vingança pueril; não vai criar brechas e montanhas - que acabam por se tornar intransponíveis - por causa de coisas mesquinhas, separar onde é possível unir, ferir onde pode curar, ser infeliz quando pode construir felicidade. Não colocará acontecimentos ou pessoas secundárias à frente da pessoa que considera "o amor da sua vida"- pois o que é importante, defende-se com unhas e dentes. Não duvidará sem causa. Jamais perderá tempo, antes agirá e falará em tempo útil, porque cada momento passado ao lado de um amor da vida é precioso e nunca se sabe de quantos se dispõe.

O amor da vida, do verdadeiro, não se atrasa desnecessariamente. Ainda que tenha o potencial da imortalidade, nunca age como se tivesse todo o tempo do mundo. Não se houver outro remédio...

Brilhante comentário da semana: hic sunt dracones




A propósito deste post, a nossa amiga Carla Santos Alves, que lançou um livro sobre relacionamentos saudáveis, teceu um comentário que me deixou a pensar:

"As desculpas não se pedem, evitam—se. Quando se entra, de mansinho, na violência psicológica e emocional está-se a um passo de perder o controlo— é exactamente neste ponto que temos que ser mais fortes do que as cordas de um piano ( para que a nossa melodia se faça ouvir.)".

E é verdade, daquelas verdades tão simples que abalam as estruturas interiores.

 Alguém - e estou cansada de dar voltas à cabeça mas não recordo quem foi - disse que quando se trata de violência ou crueldade, é quase escusado separar a psicológica da física: são faces da mesma moeda, estágios, e a emocional é um meio para um fim. Certa vez, uma amiga psicóloga disse em conversa sobre o assunto que em cenário de crueldade psicológica, ficar para procurar entender o porquê ou tentar consertar os danos é entrar no território da loucura. 


É olhar para o abismo, e já se sabe: abyssus abyssum invocat. Quando olhas para o abismo, o abismo olha para ti. Cuidado, quando enfrentas um monstro, para não te tornares um monstro também. Ou o resultado do toque do monstro...

Tolerar a crueldade de qualquer tipo é estar, de facto, a um passo de perder o controlo, de deixar que as fronteiras entre o bem e o mal se esbatam de vez. É mostrar-se disponível para suportar mais. Abrir a porta para maus tratos piores - ou pelo menos, mais visíveis.

Se uma ligação entre duas pessoas tem como resultado o constante choro, mágoa, constrangimento, ansiedade, desilusão, se um não se importa de infligir sofrimento ao outro, então essa relação está num num território escuro e perigoso, onde seria justo e sensato colocar o aviso medieval que se punha nas zonas desconhecidas dos mapas: hic sunt dracones - aqui há dragões. Aqui há perigo. E tende a piorar. 

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