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Saturday, January 2, 2016

O estilo que Deus manda


Soará estranho colocar "estilo" e o acto de chamar o nome do Senhor em vão, salvo seja, na mesma frase. Mas pus-me cá a pensar que reflectir naquilo que é correcto, elevado, esteticamente harmonioso na hora de estar e de se ataviar é meio caminho andado para a elegância, mesmo que as motivações para isso nada tenham de religioso ou espiritual (embora essa seja uma inspiração tão boa como qualquer outra). 

Poder-se-á argumentar que evil is cool, que o Príncipe das Trevas é que é, por excelência, a man of wealth and taste, como dizia o Mick Jagger. Mas não esqueçamos que primeiro, o Príncipe deste mundo era antes de tudo um anjo, o mais bonito de todos por sinal, e que aprendeu o que sabia no seu berço celestial junto dos outros anjinhos e Arcanjos. Segundo, que  (como tantas pessoas com grande sentido de estilo mas pouco miolo que eu conheço, que se dedicam cinicamente a conviver com gente grosseira por diversão) Lúcifer, figurado ou crendo-se literalmente na sua existência, adora fazer pouco dos humanos inspirando-os a vestir tudo o que é mau e a agir ainda pior. Faz, por assim ser, a troça baudeleriana - "a única vantagem do mau gosto é o prazer aristocrático de uma pessoa se rir dele". 





Daí engendrar ceroulas do demo, nail art e outros horrores para perder almas, como temos visto. A eternidade dá-lhe tempo para se entreter com disparates, e o Diabo, bem ataviado nos seus fatos Savile Row e nos seus acessórios Hermès, devorando pela enésima vez Dante e Milton (porque é vaidoso e gosta de ler sobre si mesmo) ri-se a bom rir dos homens e mulheres mortais que por aí andam semi-vestidos de lycra e poliéster, pasmando para o Jersey Shore.

 Mas ora vejamos: se a condição para a elegância é sobretudo a elegância interior, que passa mais que qualquer outra coisa por se fazer leve, por se adequar às circunstâncias, por agir sem atrevimento nem timidez,  por colocar o próximo em primeiro lugar, por usar sempre de delicadeza, agir como se nunca se estivesse realmente a sós e por não fazer de si motivo de falatório (logo, não depende tanto de conhecimentos acessíveis a quem quer aprender nem de recursos económicos) então agir e trajar com elegância é, creia-se ou não, andar como  manda não só o figurino, mas o Criador.



A Bíblia está pejada de referências quanto às vestimentas, quase todas focadas em evitar a ostentação (logo, o mau gosto) e a sensualidade grosseira (e já se sabe, é quase impossível estar elegante usando peças reveladoras em demasia). Mas vamos mais longe (os meus leitores ateus ou agnósticos que me dêem aqui um momentinho, já falo convosco). Se o Criador é Todo- Poderoso, podia muito bem ter inventado, por exemplo, o poliéster, certo? Bastava-lhe estalar os dedos. Mas não. De forma amorosa, rigorosa, pensando em tudo, criou a  matéria-prima para as fibras naturais, bonitas de ver, confortáveis, que se adequam à pele. Criou as amoreiras, os bichinhos da seda, o algodão e a lã. Depois inspirou a Humanidade a tecer. Claro que se pode argumentar aqui que foi a Natureza, inexplicavelmente perfeita, o que vai dar ao mesmo. Mas para criar fibras sintéticas já foi preciso complicar os processos, além de ter em mente propósitos menos elevados, como os custos e a facilidade.

 E voltemos ao uso que se faz das fatiotas de gosto duvidoso: a exemplo, os vestidinhos de viscose ridículos que têm o único propósito de revelar as formas, formas essas que ainda por cima nem sempre estão na sua melhor forma, passe o trocadilho. A crer em Deus, já se sabe que não atraem nada de bom. Mas não crendo, também se sabe a atenção negativa que acarretam, além de serem um convite a tudo quanto é desordenado, bagunçando assim a sociedade mais um bocadinho. Seja por obra de uma entidade inimiga, ou por acção da Humanidade sempre pronta a escorregadelas....


Friday, January 1, 2016

Ai que me deram cabo dos diálogos interiores d´Os Maias



Que raio de ideia a minha começar a primeira manhã do ano a espreitar na RTP a versão de João Botelho de Os Maias. Quem aqui vem muito sabe que Eça, mas em especial o Carlinhos e o João da Ega, estão sempre a surgir a talho de foice, por isso sou suspeitíssima. E já se sabe que nenhuma produção de TV ou cinema consegue jamais estar à altura do modo como imaginamos os livros, por muito que não tome liberdades criativas com o enredo ou os diálogos (a versão brasileira até fez uma Maria Monforte morena e vivinha da silva, a aparecer aos filhos no melhor modo novela mexicana!). Mas pronto, apesar de eu já ter comentado em tempos, em função do que vi no trailer, que a Maria Monforte estava vestida como a Eliza Doolittle quando vendia flores, usava uns vestidos que mais lembravam a descrição das "confecções baratas dos armazéns da América" totalmente contrárias à descrição de "mulher de gosto e de luxo" e caminhava com a passada de um soldado, algo impensável numa Senhora daquele tempo, eu não sou muito exigente. Não espero de tudo o que se faz por aí o rigor de figurino de um E Tudo o Vento Levou, e olhem que quanto a actores sou muito benevolente, até porque não é a minha área: desde que me soe natural, por mim está bem. Logo, qualquer coisa que se faça com Os Maias tem da minha parte infinita condescendência, gosto sempre de ver. Mas...que ferro!!!

Eça de Queiroz será dos nossos grandes autores o mais acessível de representar, talvez mais até que Júlio Dinis. Não há linguagem menos empertigada e arcaica;  mais intemporal, mais corriqueira (apesar de rica) mais ritmada nem mais simples. Não é difícil imaginar os diálogos boémios do João, do Carlos e dos amigos a serem tidos por quaisquer dois rapazes à porta de um bar hoje em dia, com a maior naturalidade. Ou as queixas furiosas da Condessa de Gouvarinho a serem atiradas por qualquer mulher ciumenta: "vai para a outra, para a brasileira!". Pois sim. Eis que os actores declamam solenemente o livro como se, lá por se passar no século XIX, tenha forçosamente de soar a uma época em que as coisas e as pessoas eram a preto e branco e não se mexiam. O Ega bem havia de troçar desses modos postiços...

Depois, sem querer elaborar muito que não estou para isso, haverá autor mais descritivo que Eça de Queiroz? Impossível. Quem não aprecia, de que é que se queixa logo? Das descrições intermináveis, minuciosas, obsessivas mesmo, de ambientes, fatiotas, decorações, cozinhados, sentimentos, objectos. É um pratinho (ou um inferno) para qualquer produtor ou realizador, pois para recriar a ideia não é preciso imaginar grande coisa. Mas nem assim: Afonso da Maia tinha cabelo cortado à escovinha, é o signature look dele...pois aqui aparece de farta cabeleira; depois ele, de uma contenção que roçaria a fleuma se não agisse sempre com o espírito recto e são que Eça tão carinhosamente explica, reage à notícia da desgraça do neto com um drama, uns modos trágicos de Imperador de Carnaval...Afonso que no livro diz duas coisas ao Ega, quase sem poder falar, esmagado com a má nova.

E a Maria Eduarda, "essa senhora que nem brasileira é, é tão portuguesa como tu e eu" que até o Dâmaso, estúpido como um melão (esta expressão não vem nos Maias, é d´O  Crime Padre Amaro, mas seja) diz que "ela fala como a gente, não tem "sutaque" nenhum" zás, tem um "sutaque" brasileiro que baste.


 Depois, a falar em Dâmaso, como é que se lembraram de fazer um mais charmoso que o Carlos da Maia, e quase nada ridículo? Então Carlos, que tinha uma figura de belo cavaleiro da Renascença, um verdadeiro Príncipe, é aqui um homem perfeitamente normal, sem nada que dê nas vistas nem na estatura, nem nos trajes, nem na figura - só lhe faltava o chapéu de coco para ser tão banal que Maria Eduarda não desse por ele nas ruas de Lisboa. Já Dâmaso também é do mais normalinho - razoável nos modos, nem tão gorducho como isso, simpático até. What the hell!

 A única coisa que me pareceu a condizer com o que é descrito no romance foi mesmo o ambiente sinistro das cenas finais do adulteriozinho e do incestozinho, quando Maria Eduarda, à luz da revelação, se afigura a Carlos como algo de predador e de ferino, mas nem por isso menos irresistível. O que é difícil de fazer saiu bem e sem exageros, o que era de caras foi feito à bordoada, ou quê?

Vou precisar de reler yet again, passe o pleonasmo, para desfazer esta impressão desconsolada...que má ideia a minha!




Thursday, December 31, 2015

Momento politicamente correcto de passagem de ano (só cá faltava)


A minha querida avó era uma santa Senhora, mas dada às suas manias como toda a gente. Uma delas era benzer-se e persignar-se com uma ladainha só dela se por acaso alguém mencionava o coisa-ruim. A outra era - por mais imaculada que a casa e a roupa estivessem - não vestir peça alguma sem antes a passar a ferro ou, em caso de pressa, "pelo lume" (lareira ou chama do fogão)...por via dos aranhos ("por via", ou por causa, de algum aranhiço que lá tivesse passado deixando peçonha que causasse alergia). Era um medo de quem mora no campo, que nos fazia rir e causava algumas atrapalhações, mas não deixava de ter a sua razão de ser: descobri-o recentemente, com terror, quando uma centopeia teve a desfaçatez de passar numa roupa minha que estava pousada...

Mas pronto, hoje em dia já não há apesar de tudo tanta causa para passar a roupa "pelo lume". Porém, eis que recentemente saiu uma notícia qualquer que diz que a roupa a estrear também deve ser lavada primeiro, não por via dos aranhos (que sempre tinha mais piada e outro pitoresco) mas por via de umas mixórdias anti-humidade e fungos ou coisa que o valha, que lhe põem nas fábricas... e que causam doenças ruins se entrarem em contacto com a pele. Eu encolho os ombros a tudo isso porque sou pouco dada a alarmismos e mitos urbanos; só que um engenheiro químico confirmou isso a alguém cá de casa, alminha essa que só por acaso tem os seus instantes de hipocondria. 

De modo que as peças novas e azuis para estrear na Passagem de Ano tiveram, porque tiveram, de ser escaldadas e bem passadas, não vá o coisa ruim, os aranhos ou os químicos fazer das suas. Ainda argumentei que por vestir uma coisa conforme veio da loja uma vez não vem mal ao mundo, ora agora ter trabalho com isso, mais químico menos químico o que eu quero é ter Boa Fortuna no Ano Novo. Pois sim...que tratassem disso com mais antecedência porque não vou apanhar uma macacoa à conta das crendices, nem da festa. E porque não vale a pena arreliar-se por causa disso, lá fui eu fazer um apressado e politicamente correcto serviço de lavandaria à toilette de toda a gente. Estou a perder a rebeldia a bem de entrar com o pé direito em 2016, mas é temporário, juro. Happy New Year!

A mania de dificultar TUDO. Só porque sim.


Sabem aquele filme do Jim Carrey em que ele quase acaba maluquinho ao tomar à letra as ideias de um guru que o ensina a ser mais positivo, a estar aberto à vida e a dizer "sim" em vez de fazer cara feia a tudo?

Bom, eu não acredito lá muito em patacoadas new age que juram que TUDO, rigorosamente tudo o que nos acontece de mau, desde a falta de oportunidades às maleitas passando por escorregar numa casca de banana ao sair de casa é responsabilidade nossa (ou como "eles" gostam de dizer, "co-criação"), assim como também não compro a ideia oposta de que todos os males vêem dos astros, dos espíritos desencarnados, de macumbas ou de embirração divina. No meio é que está a virtude ou como dizem os americanos, crê como se tudo dependesse de Deus, trabalha como se tudo dependesse de ti.

Mas há pessoas, até bem intencionadas e adoráveis, que realmente são muito negativinhas. Até parece que gostam de complicar por hábito, de propósito, porque é mais confortável assim. 

Tudo lhes parece uma molhada de brócolos e fazem questão de colocar entraves ainda uma ideia mal foi verbalizada. E palavra de honra, isso reflecte-se na vida delas, que acaba por andar sempre no mesmo chove-não-molha. "Vamos jantar com fulano e beltrano?" - NÃO! NÃO QUERO SAIR DE CASA QUE TENHO MUITO QUE FAZER! (mas se não chegar a sair, provavelmente acaba por não adiantar nada na mesma) . Se há um passeio projectado mas ameaça chuva, ai que bela desculpa para cancelar tudo. Manter planos é um problema para estas almas, mas calma: as mudanças também lhes fazem confusão, porque até mudar para melhor significa dizer "sim" a alguma coisa, estar receptivo ao que quer que seja. Por isso preferem agarrar-se a um objectivo velho e que não dá em nada, complicar a mudança alheia se for preciso, só para ser do contra. E isto nas questões grandes e pequenas, familiares, profissionais, amorosas, de lazer, de negócios. 

É tudo não, tudo não, tudo não. E depois esperam que a vida lhes ofereça o que quer que seja? É que acreditando ou não nisto, há-de haver uma lei da física que diga, lógica e racionalmente, que nada entra numa porta constantemente trancada ...a não ser que a sucessão de acontecimentos sucessivamente barrados acabe por acumular e abrir caminho à martelada, pois é impossível que a vida fique eternamente na mesma.

Ser receptivo, ter alguma abertura e flexibilidade, um nadinha de sentido de aventura, levar os planos até ao fim e não complicar for the sake of complicating parece-me condição essencial para criar, receber ou activar algumas coisas, para que haja movimento na existência. Mas que sei eu, que não sou guru nem quero...

Wednesday, December 30, 2015

Mais uma vítima dixit: ai os piropos é que são o mal do mundo?


"Esquecer a primeira agressão é tão difícil como esquecer o primeiro beijo".

Maria da Luz (assassinada pelo marido)



Eu ia falar sobre a questão do piropo que tantas piadas tem gerado por aí, apenas para acrescentar ao que já disse aqui ou aqui

Há quem confunda assédio com um galanteio inocente, na onda do politicamente correcto que dita que é pecado ser bonita para não ofender as desengraçadas, ou que é suposto a forma como se anda na rua não provocar qualquer impacto no descaramento aheio (wishful thinking much?) bem como na ditadura do ofendedismo, do melindre,  não-se-pode-dizer nada

Há por aí piropos com graça e educados: saber ouvi-los, sorrir para dentro e andar faz parte da arte de ser mulher. 

Será uma pena que os exageros belisquem uma parte tão característica da nossa cultura. 

Há piropos chocantes que beiram a agressão? Há, todas já os ouvimos, muitas infelizmente desde muito novas. Mas esses já estavam contemplados, de certa forma, na lei.

Qualquer menina ou senhora pode dirigir-se a um polícia e queixar-se de estar a ser incomodada. Ou fazer como uma rapariga que vi uma vez, a correr um atrevido rua abaixo à chapelada, porque ainda há Mulheres com "M"  grande. Se as pessoas não fazem uso disso por ignorância ou timidez, então é outra história; urge educar a sociedade (e em particular, as mulheres)  para a auto defesa; talvez mais do que tentar educar potenciais agressores, como se tem feito. 

Esta actualização super mediatizada, um bocadinho populista, boa para manchetes e status nas redes sociais,  vem apenas dar realce à moldura existente (de forma cómica e exagerada, sim; com um toque feminazi que não fazia cá falta nenhuma, sem dúvida; são malhas que a Esquerda tece, esperavam o quê?). Vai tolher a liberdade de expressão? Provavelmente, porque se devia ter posto, nos devidos termos, que é o piropo malcriado, a falta de respeito e a ordinarice que se condena, não o piropo per se. Mas se calhar, como falar em "haja respeito", em "recato" e "decoro" soa mofento e salazarento, tiveram vergonha de o explicar devidamente e deu-se esta confusão toda.

Agora a falar francamente, eu que sou a primeira a saltar contra os chiliques feministas, acho que este aditamento ao artigo 170 º do Código Penal, "importunação sexual"  não está mal de todo, está é mal explicado. Tenho dito.

   Mas em todo o caso, criminalizar (ou pelo menos, estigmatizar) pomposamente todo e qualquer piropo é mais uma feminice ou esquerdice que, como de costume, se entretém com o acessório e o enfeite em vez de agir à bruta quando é preciso para travar as consequências realmente graves. 

Posto desta forma, parecem ralar-se mais se um "Alá é grande!", um "casava-me já" ou um "Abençoado pai que fez tal filha!" embaraça...mas não tanto se as penas para quem desanca a cara-metade são capazes de meter medo a alguém. A violência doméstica - e mais grave, o sempre desculpado crime passional -  é realmente um problema das mulheres, e dos sérios. Não só das mulheres, claro, mas pela lei da natureza quem é fisicamente mais fraco tem menos possibilidades de se defender caso tenha caído na asneira de unir o seu destino a um doido cobarde que acha que a pessoa amada é saco de boxe.

A vítima do chocante homicídio de há dias, com recurso a tiro e granada (chamaram-lhe femicídio, mas eu acho isso mais um fim do mundo de quem não tem que fazer) tinha denunciado, antes do trágico desfecho, a violência através de desenhos, com a frase "Esquecer a primeira agressão é tão difícil como esquecer o primeiro beijo". Se a Lei e a Polícia não foram capazes de proteger a Maria da Luz, como têm falhado para defender outras Marias desde que a violência começa a ameaçar, escalando por aí fora, então é para essa moldura legal que temos de olhar, a bem de uma sociedade civilizada. Agora o piropo, o galanteio, francamente.






Tuesday, December 29, 2015

Breaks my heart, or I think I´m just happy? (ontem, hoje e amanhã)

Kurt Cobain e Courtney Love; e actualmente, a filha deles com o marido

Eu era muito novinha quando Kurt Cobain deixou este mundo com o seu belo rosto e olhar triste que parecia uma pintura do Divino Redentor, mas o meu universo pré-adolescente ficou abalado pela tristeza que assolou o liceu- especialmente na figura do M., um rapaz simpático de cabelos compridos que era fã empedernido e desatou a chorar como uma rapariguinha quando a notícia da morte do seu ídolo se soube. 

Os Nirvana estavam por todo o lado e era impossível escapar aos seus poemas. Os rapazes com quem me dava (os que se atreviam a não ser betos e a fugir dos encerados, parafernália de rugby e sapatos de vela num liceu que dividia amigavelmente "betolas" das tribos mais "alternativas", mas igualmente betolas porque era quase tudo gente civilizada, embora houvesse problemas ao melhor estilo do que viria a ser Morangos com Açúcar) vestiam como Kurt Cobain e as meninas queriam namoriscar rapazes como Kurt Cobain. 



Eu cá era muito sossegada, mais tímida não podia... e continuava orgulhosamente a coleccionar Barbies e a jogar Streetfighter a par com os livros e a maquilhagem, mas houve o T., que me ofereceu o primeiro peluche com coraçõezinhos (primeiro e último, que nunca fui dada a lamechices) e o A., long story. Cabelos louros compridos, olhos azuis e camisas de flanela.

 Já o nosso amigo M., o que chorou como uma Madalena e tocava guitarra, usava as tais camisas sobre umas antepassadas das skinny jeans actuais  que eram uma seca para raparigas e rapazes, porque aquela ganga elástica extra espessa tinha artes de achatar o derrièrre mais imponente.  Tinham de ser City Jeans, senão não prestavam...mas em boa verdade, nem essas prestavam. Fiz birrinha para ter umas e usei-as um par de vezes antes de as despachar, um dos poucos caprichos de moda inúteis da minha existência. Mas no M. pior um pouco ficavam, pois ele, embora bonitinho com o seu cabelo escuro lustroso,  já era o Palito...eu e a minha melhor amiga até desenhámos um cartoon em que era levado pelo vento, possivelmente ao som dos Nirvana, com as Doc Martens no ar a fazer-lhe umas pernas ainda mais longas e magrinhas, se possível. 



Depois eram bâtons acastanhados ou bourdeaux e gargantilhas vitorianas, como se usam agora outra vez. E uma estética que andava entre o gótico, o punk, o grunge e o preppy (Burberry e tartan por todo o lado, uma festa). Não havia telemóveis (só apareceram um par de anos depois e nem era de bom tom ter um) nem selfies (mas divertíamo-nos com as polaroids e gastar rolos a preto e branco era moda) a internet estava nos primórdios e a inexistência de redes sociais complicava um pouco a interacção de adolescentes uns com os outros porque para falar com alguém era preciso passar pelos pais da pessoa primeiro, que podiam ou não estar de maré e ficavam inevitavelmente com um registo dos amigos ou admiradore (a)s que ligavam lá para casa. Foi uma época divertida.



 Voltando aos Nirvana, havia as matinés na Via Latina (quem é de Coimbra sabe), às Quartas-feiras à tarde. Saía-se das aulas para passar a tarde a dançar-  tocavam as cantiguinhas tipo Saturday Night e a seguir as músicas do Unplugged. I think I´m just happy...think I´m just happy...e éramos felizes, sem dúvida. Com todo um futuro à frente que se cumpriu para a maioria de nós, felizmente, mas a que quem dera tirar algumas complicações que apareceram pelo caminho.



 Este Natal a viúva de Kurt Cobain dedicou-lhe uma linda carta de amor. Na altura toda a gente se zangou muito com Courtney Love, que alegadamente tinha oferecido ao marido  a arma que o matou (a ser verdade, nunca percebi o que lhe terá passado pela cabeça tendo em conta os antecedentes dele) mas embora formassem uma equipa menos que sofrível e puxassem pelo piorzinho um do outro, lá que deviam amar-se, deviam.

A filha do casal até já casou com um mocinho de sobrenome luso que é a fotocópia do pai dela, nós todos crescemos para ser adultos responsáveis, o mundo deu reviravoltas e piparotes, mas a música dos Nirvana continua tão boa como ontem, muito do que veio dessa época permanece hoje e Courtney continua a amar Kurt. É uma sensação estranhamente melancólica e agridoce para fechar o ano, que não sei se me parte o coração, ou se I think I´m just happy.



Quando o amor vai à falência



"Eu tinha no coração mil dólares de amor. Em ouro, não em notas. E gastei-os em ti, até ao último cêntimo. Em termos de amor, estou falido. Levaste-me à falência".

                                             Alexandra Ripley, ´Scarlett`


Muitos fãs de E Tudo o Vento levou detestam esta sequela bem intencionada,escrita por uma especialista em assuntos do "Velho Sul", mas eu acho que tem as suas virtudes - nomeadamente, raciocínios interessantes no que concerne às relações complicadas estilo Rhett e Scarlett. E a frase acima sempre me ficou.

É que há uma coisa esquisita por aí que eu chamaria, à falta de melhor comparação, um amor de latifundiário (nada contra os latifundiários, mind you). Que é um sentido mais específico de tomar o amor por garantido.

 Deixem ver se me consigo explicar...um latifundiário ama a sua terra, a terra que herdou dos antepassados, tal como Scarlett amava a sua plantação, Tara. Ama sem notar que ama, sem muitas vezes exercer esse amor (o amor não basta existir, tem de ser posto em prática todos os dias, tem de ser posto a trabalhar como um motor, senão emperra). Ama intrinsecamente, insensivelmente, porque esse amor faz parte de si: afinal, a terra que o viu nascer está sempre lá, diante dos olhos, até que deixa de a ver com olhos de ver. É sua- propriedade sua. Ficaria doido se um vizinho quisesse comprar-lha, se os camponeses ou o governo tentassem apropriar-se dela, se um incêndio a devastasse ou se sucedesse outra tragédia qualquer...mas isso é hipótese que não lhe ocorre sequer, porque está tão certo do seu poder, da sua posse. Pessoas assim são cheias de falsas certezas.

E como a terra é tão sua, não lhe passa pela cabeça cuidar dela, apesar de todos os avisos. Ora, terra em pousio torna-se estéril, árida, difícil, por muito boa e fértil que seja. Mas o "dono" não vê nada disso nem ouve quem sabe. 



Passa o tempo a divertir-se na cidade sem se ralar de aparecer; não rega a terra, não a manda trabalhar, não colhe frutos dela, não perde tempo com ela e se for preciso anda de moto -4 por cima dos campos, escangalha as couves, arranca as vinhas, compra sementes que não prestam porque acha que basta muito bem, faz queimadas sem cautela, planta eucaliptos que secam o solo, deixa que as fábricas das redondezas poluam os poços e os ribeiros. A terra bem tenta, mas acaba por enfraquecer. O amor é exactamente como a terra: se não é alvo de cuidados, torna-se fraco e vazio.

Isto acontece quase sempre a quem cai no erro de amar um "latifundiário emocional": o amor é deixado em pousio, quando não é alvo de todos os ataques, da falta de comunicação e respeito ao ciúme, passando por outras pragas que agora não me lembram mas que são piores que gafanhotos, granizo e moléstias da batata. Tudo é exigido, nada é dado. E cai-se no erro de tentar injectar capital no latifúndio. Investe-se todo o amor que se tem no coração, no corpo e na alma, até se esgotar. Até ao último cêntimo. Ora, quando se chega a tal ponto, já não há ouro para pagar uma conta de cinco euros que seja, por muito boa vontade que se tenha. A quem está completamente falido é escusado suplicar ou exigir, berrar ou culpar: só resta aceitar a declaração de bancarrota. Mas quem esgotou tudo o que havia, nunca compreende porquê, nem se responsabiliza: culpa a "terra" que era má, o destino ou as circunstâncias...



Monday, December 28, 2015

Coco Chanel dixit: lidar com os homens


A genial Coco Chanel nunca se casou. Não por falta de propostas, decerto, pois teve os homens mais influentes, geniais e célebres do seu tempo aos pés - o sportsman Boy Chapel, que a ajudou a lançar a sua carreira (e ficou de cara à banda quando ela lhe devolveu o dinheiro que lhe tinha emprestado para se estabelecer, já que naquele tempo um empréstimo feito a uma mulher era considerado mais um presente do que outra coisa); o Grão-Duque Dmitri Pavlovich da Rússia e o Duque de Westminster, só para nomear três. Mas ela preferia tê-los na mão. Todos a influenciaram de algum modo, pois Coco fazia por aprender com a vida e com as pessoas. A alguns ela partiu o coração, muito pela aversão que tinha ao matrimónio; outros partiram o coração de Chanel, deixando-a por outras ou deixando este mundo. Mulher mundana, de sentido prático, de tudo ela tirava lições, nunca se deixando surpreender pelo destino sem espremer dele algum tipo de vantagem.

Coco deixou-nos muitas frases a decorar (a minha preferida fala especificamente em nunca ser apanhada mal vestida ou descabelada, porque esse pode ser o dia em que se tem um encontro com o destino). Pérolas de sabedoria que vão muito além das suas principais lições de estilo: estar sempre composta e polida, elegância é recusa, menos é mais, luxo é o contrário de vulgaridade, usar roupas que realmente assentem e abusar do preto e do branco, uma mulher com bons sapatos nunca está mal, etc.

Chanel com o Grão-Duque Dmitri Pavlovich

 Mas embora fosse uma mulher independente, além do seu tempo e revolucionária em tantos aspectos, no que tocava ao sexo oposto a sua abordagem (se deixarmos de fora a sua suposta alergia ao casamento)  era do mais tradicional que se pode

Para compreender os homens, para comunicar com a outra metade do planeta, é preciso não os detestar (leia-se, não rivalizar com eles) para começo de conversa; depois há que conhecer como pensam, saber ser feminina e dar-lhes o desconto, como diziam as nossas avós. Sem isso ninguém se entende e Chanel sabia-o bem. Ela sabia que "eles" «recordam sempre a mulher que lhes trouxe preocupação e desconforto»- ou seja, as raparigas demasiado ansiosas por agradar ficam a perder. E não compreendia as mulheres que querem ser exactamente como eles: «não sei porque é que as mulheres querem o que os homens têm, quando uma das coisas que as mulheres têm são os homens» mas mais importante, estava ciente de que não se pode levar o bicho-homem demasiado a sério:

"Desde que você saiba que os homens são como as crianças, sabe tudo o que interessa saber".

O que aplicar esta máxima poupa de desgostos, arrelias, discussões e dores de cabeça, não está escrito em lado nenhum.



Ora vamos lá calçar os ténis do momento!



Facto: tenho uns Stan Smith em casa, que cá vieram parar por mera carolice. Facto nº2, não os acho a coisa mais confortável deste mundo, não. Ainda só os testei dentro de portas mas quer-me parecer que magoam o artelho - essa coisa de os ténis serem universalmente cómodos é uma patranha monumental, por isso costumo ficar-me por Nike, Puma e as botas Timberland que até ver nunca me pregaram nenhuma partida. A ver vamos se consigo dar a volta para os tornar mais simpáticos, que costumo ser um ás em domar calçado rebelde. Depois, quando se trata de ténis é preciso ter algum cuidado para funcionarem com as formas femininas- por norma, no quesito rasos acho as botas, sandálias ou bailarinas mais favorecedoras e democráticas do que o calçado desportivo. 



Mas eis que- facto nº3 e que me surpreendeu - devo ter usado o dedo que adivinha do costume porque achei graça aos ténis (são um clássico, afinal) sem reparar que eram, ou iam ser, tendência. Mas a verdade é que estão por todo o lado. Nos street styles da vida e na boca das celebridades: David Beckham, por exemplo afirma que os Stan Smith com uns jeans são o que mais gosta de ver na sua mulher - a habitualmente super avessa a ténis Victoria.



Não compraria os Adidas de propósito tendo em conta o uso ocasional que dou a esse tipo de calçado, mas já que cá estão, é estúpido não fazer alguma coisa com eles. De modo que tenho estado de olho nas toilettes que por aí vejo construídas em torno dos Stan Smith. Muitas eu não recomendaria (camisolão XXL super comprido+ skinnies; fato compostinho + Stan  Smith; ou com certas saias curtas mal escolhidas), pelo menos não a toda a gente.


No entanto, quem souber jogar com as proporções e as cores poderá ter aí um bom investimento para calçado todo o terreno, e mais versátil do que parece:

- O modelo presta-se bem a calças justas, e.g. skinny, breeches e jeggings -principalmente curtas no tornozelo, como é tendência agora. O contraste entre a largura dos ténis e as calças estreitas alonga as pernas.E quem quiser ir mais longe, pode experimentar com umas calças clássicas estilo cigarrete. Em cinza ficam muito interessantes; recomendo tentar o look abaixo com umas calças parecidas, de preferência um pouco mais afuniladas:


- Também funcionam relativamente bem com boyfriend jeans não muito largos (ou girlfriend jeans) dobrados no tornozelo. Esta última fórmula é um pouco mais arriscada, mas pode resultar com uma simples t-shirt de mangas 3/4 e um bonito sobretudo descontraído, canadiana curta ou pea jacket




- Esses modelos de casaco são os que melhor se adequam  aos Stan Smith (um sobretudo curto em tweed fica o máximo) mas um blazer ou sports jacket, um biker ou mesmo uma gabardina longa também funcionam às mil maravilhas.

- Optando por calças justas, pode brincar-se com os extremos: ou com uma camisola larga, comprida ( sem exagero e que termine exactamente sobre as coxas) ou, se a cintura for alta, com um top curto ou camisa por dentro.



- Como quaisquer ténis, emprestam um ar mais inocente a saias e calções curtos, com um toque (vá-se lá saber porquê) mais requintado e clean do que outros modelos. Nestes casos impõe-se o bom senso e sentido das proporções para tornarem a figura esguia, bem como o uso de peças mais soltas e modestas para cima.


- O aspecto mais curioso é que, sendo brancos, estes ténis estão em voga para o Inverno a par com preto e materiais pouco desportivos como o couro (a minha combinação preferida é mesmo skinnies em pele ou napa + Stan Smith) a fazenda, a lã...  com peças femininas ou sofisticadas, como blusas e acessorizados com carteiras "bem comportadas", das totes às chain bags.


 A única regra para os fazer funcionar sem cair num look desleixado parece mesmo ser coordená-los com tons neutros (preto, branco, cinza, camel, navy, nude...).


                                         




Fica a dica para quem já tem uns em casa que lhe apeteça luzir por aí, ou para quem está a ponderar a compra. Vou dar umas voltas nos meus e depois conto como foi.

Sunday, December 27, 2015

Papa Bento XVI dixit: Beleza que liberta


O Papa Emérito encantado com um simples fogo de artifício em 2007
"A beleza é também reveladora de Deus porque, como Ele, convida à liberdade e arranca do egoísmo"

Embora a Beleza se possa encontrar nas linhas simples e austeras e nos ambientes mais espartanos, será mais fácil cada um sair de si mesmo, esquecer a incessante conversa interior, quando está na presença de algo magnífico - seja música gloriosa, a majestade e detalhe de um edifício, de uma obra de arte ou de algo mais mundano como roupas bonitas, flores, ou a pura beleza física. Repousar os olhos, distrai-los com algo de belo e harmonioso liberta a imaginação, acorda a sensibilidade, faz esquecer o acessório. Embora conheça muitos Protestantes devotos e bem intencionados, a ideia de prestar culto num espaço que lembrava uma sala de aula maçadora - com direito a alcatifa, cadeiras forradas a tecido sintético e painéis de contraplacado com dizeres bíblicos parecia-me sempre um pouco triste. Os Cristãos primitivos reuniam-se nas catacumbas...mas mal ou bem, numa catacumba há ambiente e mistério. O Presépio era simplicíssimo - mas tinha o pitoresco da pedra, dos animaizinhos e a abóbada celeste em todo o seu esplendor, dourando a manjedoura. 

Religião à parte, a Beleza pode criar-se em todo o lado, basta reparar nela e puxar por ela: triste é quando as pessoas se ufanam em desprezá-la, ou a consideram, erradamente, um luxo. Como as mulheres que se desleixam por serem mães, ou as pessoas que não fazem por tornar a casa apresentável porque não podem, de momento, redecorar como gostariam.  Em tempos tive de comprar, porque tive, um livro que falava sobre os detalhes da decoração nas habitações indianas de bairros humildes. Fascinou-me como no meio de uma pobreza que por vezes é abjecta, como sabemos, aquelas pessoas procuravam colocar um bocadinho de beleza que fosse no local onde viviam e nas roupas ou adornos que usavam diariamente. Quem não tinha recursos para usar pedras preciosas, aplicava vidrinhos coloridos- nas pulseiras e a fazer de mosaico nas paredes. E assim por diante. E de resto, quem se ocupa a tornar-se mais belo a si próprio, ao ambiente à sua volta, ou simplesmente a embelezar um pouco o dia, seu e dos outros, tem menos tempo para pensar nos seus problemas. 

Um pouco de beleza por dia - seja criando-a, reparando nela, conservando-a, levando-a aos demais - é um santo remédio. O mundo tem demasiadas coisas feias, mas por cada aspecto inestético e deprimente há 10 coisas bonitas com que podemos entreter-nos. Basta ter olhos para ver...e brincar à alma de artista uma vez por outra.

Isto é viciante! (O novo hino do vintage)




Se ainda não ouviram esta canção pela manhã enquanto se preparam para enfrentar o dia, não sabem o que estão a perder: Thrift Shop, do duo Macklemore & Ryan Lewis, tem o poder de fazer uma pessoa abanar-se pela casa com uma chávena de café na mão, em modo Kate eu-danço-em-toda-a parte Upton:


Melhor ainda, em modo Christopher sou-uma-pessoa-muito-séria-mas-não-resisto-a-dançar Walken:


O que é sempre uma maneira positiva de acordar.

A cantiguinha apareceu-me numa playlist surpresa do Youtube enquanto fazia exercício e achei-a irresistível, mas ainda me pareceu mais engraçada depois de perceber a letra e ver o videoclip, que é divertidíssimo: os rappers cantam sobre um tema bastante inocente (o que é raro) e que fala a qualquer coleccionador empedernido de qualquer coisa, caça tesouros ou apreciador (a) de vintage: as alegrias de descobrir preciosidades, peças com história e raridades numa loja de velharias.


No fundo é uma crítica à cultura arrivista e ostensiva do bling bling, da logomania e por aí. Não se levar demasiado a sério é um verdadeiro cosmético interior que se reflecte no resto. E de mais a mais, nada é mais chic ou mais snob-no-bom-sentido do que o espírito nonchalant, vulgo "tenho demasiado estilo, logo não me poderia ralar menos com a opinião alheia".



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