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Thursday, January 28, 2016

A lamechice do "és responsável por aquilo que cativas"


Ainda há dias eu recebia comentários no post onde vos confessei a minha embirração com O Principezinho. Ou antes, o meu "não entendo o sururu espiritual à volta do Principezinho". Que se é para virar do avesso verdades transcendentes, mais valia agarrarem-se ao Catecismo...

Às voltas com os leitores que comentaram a obra super existencialista, cheguei a uma conclusão para ficar em paz com o maçador do Principezinho: o seu mérito (ou o seu mistério) reside em tanto crianças como adultos lhe acharem graça e algum significado. Lá que o livro é esquisito é, tenho de admitir. O que não me converte à seita do Principezinho (havia de ser lindo; "igrejas" em forma de planetas com embondeiros, sacerdotisas a gritarem histericamente "cativa-me!" e casórios a serem celebrados com "amar não é olharmos um para o outro- é olharmos juntos na mesma direcção" em cântico gospel) mas pronto, reconheço que faz pensar, nem que seja para embirrar com a coisa.

Ocorreu-me isto porque entretanto, um artigo que me passou pelos feeds apontou que a famosérrima frase, que muita gente (e em particular, mulherio que levou uma tampa monumental e quer fazer o ex sentir-se culpado) adora partilhar a esmo nas redes sociais-   não foi bem traduzida para português. 


*Enjoo*

Ou antes, que a tradução escolhida e que se celebrizou não foi a mais ilustrativa. Aparentemente, comentou alguém, Exupéry escreveu o livro em francês e inglês nos E.U.A. (não confirmei, tive preguiça aliada a uns problemas informáticos) e na língua de Shakesperare, terá usado o verbo "to tame" - domar

Ou seja (peritos na língua de Baudelaire e na obra, corrijam se há aqui algum mal entendido porque em inglês, se é verdade que se escreveu "tame", não restam dúvidas) a raposa esquisitóide diz ao Principezinho "tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que domas". E não "tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas". 


"Brasileirices" à parte, bate certo.


A ser assim, a frase perde 50% daquilo que sempre me arreliou e faz muito mais sentido. É que reparem, cativar é uma coisa muito vaga e pode ser perfeitamente unilateral. Qualquer pessoa se sujeita a ir na rua e um obcecado ou uma necessitada qualquer apanharem uma paixoneta por si. E dizerem que sofrem muito por causa disso, acharem-se com direitos mesmo que o caso não seja correspondido. Ou pior, dar-se dois dedos de atenção por cortesia e zás, ficar-se responsável pelas ideias malucas que os outros acham por bem meter na cabeça. Aquilo que cativa os outros não me diz respeito, ora essa. Cada um que seja responsável pelos seus actos e pelas ilusões que cultiva lá consigo. Foi uma citação que sempre me pareceu bastante irresponsável, egoísta, cheia de inversão de culpa e de feeling of entitlement. Lá está, muito usada por gente que acha que tudo lhe é devido, sobretudo por (este exemplo é mesmo o mais comum e expressivo)  mulheres carentes que decidem ir atrás de um homem que não lhes liga, que se dispõem a tudo e quando ele, que nunca as enganou, as manda à sua vida ou vai à sua vida, nothing promised no regrets, lá choramingam "mas tu CATIVASTE-ME!". Ou pela sua versão masculina, vá. Em ambos os casos, ora tretas, desculpem lá a frieza que sinto para com raposas que não chegaram às uvas.

Mas domar, domar é outra coisa. Domar implica envolvimento de ambas as partes. Domar pressupõe muito tempo juntos, sugere que os implicados mudaram alguma coisa um no outro, que estiveram profundamente ligados. Aí entra o sentido do dever e da honra, aí a raposita já teria alguma razão. Quem se envolve, quem se une, quem jura e promete, quem deixa cair as suas defesas e faz cair as da outra parte, se há uma rendição mútua, quem molda o outro e se deixa moldar a uma imagem ou projecto que é de ambos (seja no amor, noutros afectos ou em qualquer outro tipo de associação) tem uma responsabilidade. As ligações não desaparecem simplesmente. Mas em todo o caso são sempre obra de dois envolvidos, não se enganem. Mesmo de quem se deixa domar. Isso do "tu cativaste-me" ou do "ser domado" nunca morre solteiro, por mais que o queiram justificar com frases tristes e fofinhas...









4 comments:

Susana said...

Uma palavra: Aplausos!

Adriana Moutinho said...

Talvez a tradução para cativar seja no sentido de subjugar e não seduzir. :-)

Imperatriz Sissi said...

@Susana *VÉNIA com voz à Amália* :) Obrigada! Obrigada!

@Adriana, acho que o subjugar também faz parte, sem dúvida...

carla said...

Neste livro, eu sempre interpretei o cativar nesse sentido, o do mútuo envolvimento.. Sempre achei q era isso q o autor pretendia dizer (só assim é q tinha sentido..)

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