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Sunday, January 24, 2016

A nobre arte de ser indomável (Black Snake Moan)


O título e a premissa deste estranho filme - em que Samuel L. Jackson redime uma Christina Ricci totalmente perdida com um método no mínimo fora do vulgar - sempre me ficaram, embora fosse fita que eu vi só uma vez.

A ideia de um ser humano ter dentro de si uma fera escondida, um lado negro, um desassossego que quando está activo, leva tudo à frente e causa mais destruição ao "hospedeiro" do que aos outros pareceu-me fascinante.

 Em algumas pessoas esta faceta, este "lobisomem interior" existe mas raramente se manifesta, ou só ataca com subtileza - não sendo por isso menos perigoso, apenas mais discreto. Leva a bloqueios e a escolhas erradas e só quando é amansado de vez se percebe que era a raiz de todos os problemas.

 Noutras almas semelhantes, mas de cunho mais visceral e impulsivo, esse rugido da cobra negra é bastante evidente: são pessoas muitas vezes belas, brilhantes, com todas as qualidades, mas de quem se diz com pena "ninguém tem mão nele (a)!". A Cobra Negra, salvo seja, leva-as a extremos e excessos, a nunca se entregarem de facto a nada nem a ninguém, a uma combinação estranha entre grande confiança e profunda tristeza, a não levarem os projectos até ao fim, a ficarem aquém do potencial que toda a gente vê, mas que ninguém parece ser capaz de moldar nem de polir.



Gente que sofre de uma Cobra Negra existe em todas as classes sociais e géneros, sendo que os estragos, ou o grau dos estragos, condizem com o seu estilo de vida, com o ambiente em que se move, apresentando diferentes níveis de gravidade de acordo com tudo isso. É um mal comum aos grandes génios, poetas, artistas, beldades - que se consomem tantas vezes demasiado cedo e têm destinos românticos, mas trágicos. Rafael? Morreu de amor nos braços da FornarinaFlorbela Espanca? Sabemos como acabou. Jim Morrisson? Destruído de dentro para fora pela sua alma de bacante. Marilyn Monroe? Morreu em busca de um amor que lhe bastasse e a protegesse do mundo. E podia citar exemplos o dia todo...

 Pode haver mil causas para a Cobra Negra existir e rugir lá dentro: um trauma ou um amor perdido que causou essa cicatriz, carência e sensação de que "falta uma peça no puzzle" espoletando um fogo interior impossível de conter (em Literatura a história de Humbert, em Lolita, de Duras em O Amante ou de Heathcliff, em Wuthering Heights, são exemplos típicos) . Ou pode simplesmente ter-se nascido com ela, com algo de aparentemente indomável. Muitas vezes, é uma combinação das duas possibilidades. 



E a cura, o alívio, a redenção, quase sempre residem em encontrar a peça, ou as peças, que faltavam. Para algumas pessoas está em achar a causa, a raiz da questão, o motivo de fundo - muitas vezes num divã, em modo Freud explica. Olhando de frente para a besta, ela é dominada para sempre. 

Outras alcançam a paz na religião ou exorcizando os seus fantasmas através da arte. Outras ainda, encontrando ou reencontrando o amor que lhes faltava, a pessoa que- quase sempre, sendo feita da mesma massa e tendo ela própria uma Cobra Negra consigo - é capaz de as compreender e de esgotar, refrear ou pacificar esse excesso de energia sem ganhar queimaduras no processo. O amor incondicional tudo cura, ainda para mais se der frutos que obriguem a tirar as atenções de si mesmo.

Tudo o que é belo e poderoso na natureza possui o potencial para a perfeição, mas o risco do descontrolo. Tudo o que brilha pode arder com demasiada intensidade. Tudo o que é forte pode ferir. Os verdadeiros afortunados são aqueles que, dotados de tanto fogo, de tanta luz, encontram em si ou em outrem as ferramentas para brilhar e aquecer sem incêndios nem cinzas...

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