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Sunday, January 3, 2016

A nobre arte (ou alegoria) de uma mulher vestir camisas masculinas


Vestir uma camisa masculina (tal como é ou mesmo fazendo dela túnica ou vestido) é um hábito natural (ou consumada arte?) de qualquer fashionista que se preze.

 A dualidade, a contradição de um tecido mais espesso e mais firme, dos colarinhos rígidos,  de um corte severo feito para as linhas deles contra as formas mais frágeis e curvilíneas do corpo feminino faz um contraste que, bem usado, é admirável e intriga. Recordemos a fórmula de Brigitte Bardot e Audrey Hepburn, dando-se-lhe um nó à cintura (um favorito pessoal meu); Marilyn Monroe em Os Inadaptados; Greta Garbo, que se dizia possuir seiscentas camisas e suspeito que nem todas seriam de senhora; Louise Brooks, Marlene Dietrich, Katharine Hepburn ou Uma Thurman em Pulp Fiction.



 A oxford shirt, a camisa de flanela ou a camisa branca de qualquer tipo
 ganha assim o romântico ou picante nome de "boyfriend shirt" (li há dias que para um homem, a sua camisa a ser usada pela mulher que ama é uma bandeira de vitória estendida sobre território conquistado) , mesmo que nada ande mais longe da verdade. Muitas vezes, a boyfriend shirt que fica tão elegante nos streetstyles da vida, com o mistério da androginia somado à hipotética história de romance, nada teve de romanesco.


 Frequentemente é a "brother shirt", a "daddy´s shirt": tesourinho doméstico, estava pendurada em casa porque porque sim: ou porque se ofereceu ao pai ou ao irmão e lá ficou esquecida, ou porque andava perdida nos armários e era um desperdício não fazer nada dela, Christian Dior homme, Yves Saint Laurent ou vintage do tempo da Maria Cachucha cujo padrão vem mesmo a calhar para as tendências do momento. 



Algumas exigem uma visita à costureira para tirar a largura em excesso se forem mesmo grandes e reajustar os punhos (ou em certos modelos, para descortinar o que fazer quanto aos botões de punho); outras há que um simples cinto/colete/pullover por cima resolve; noutras ainda não se faz nada além de duas voltas de styling e já está. Não se esqueçam também as sem-história: comprou-se porque era bonita, a marca boa e o preço convidativo, para usar no melhor modo "não te rales", maria-rapaz de saltos altos.  

É certo que por vezes se faz o mesmo com sobretudos ou blazers mandados ajustar; mas isso dá mais trabalho e a metáfora, fora o bolso interior, vai dar ao mesmo a não ser que queiramos argumentar que uma carteira posta dentro do bolso é simbolicamente um colete anti balas que tenta proteger os seu grandes corações cheios de basófia contra as flechas do Cupido. Por isso fiquemo-nos pela alegoria da camisa, que é uma armadura por si só.



 Ora pensemos: por muitas camisas "de homem" que haja no armário de uma mulher, por mais vezes que se roube a camisa ao "inimigo", elas ficam sempre a perder em número para as camisas femininas que se têm. São sempre a excepção, a variante.  De modo que há invariavelmente uma estranheza na hora de apertar os botões. Os "deles" são cosidos à direita com as casas à esquerda, ao contrário dos nossos (que dão muito mais jeito, ou talvez seja uma questão de hábito). 

imensas teorias para o motivo de tal distinção que se tornou praticamente universal a partir do sec. XIX, sendo que a mais razoável é a que sustenta que os homens precisavam menos da ajuda de um criado de quarto para se vestir, logo os botões eram orientados para o do-it-yourself, enquanto os botões femininos eram colocados para facilitar a vida às aias, dextras na sua maioria. 

 Mas questões práticas à parte...isso, minhas amigas e amigos, encerra todo um enigma da dinâmica entre os sexos: como não havemos de ser diferentes, de agir, pensar e sentir cada qual a seu modo, se até numa coisa tão simples como o sentido em que se apertam os botões, homens e mulheres o fazem precisamente ao contrário? Eles dizem que as mulheres complicam, nós dizemos que eles haviam de vir com manual de utilizador (quando muito poucas de nós se entretêm a ler um manual de instruções, logo pouco adiantaria) mas em boa verdade ninguém complica, só se falam diferentes linguagens.

Porque reparem, "eles" sentem precisamente o mesmo que nós, tal como o propósito de ter os botões fechados é exactamente igual. O que muda é o modo de lá chegar. O ciúme, a paixão, a timidez, a ânsia e o carinho provocam as mesmas sensações boas e más, a forma de as processar, de lidar com elas e de as expressar é que pode ser distinta entre eles e elas.

Homens e mulheres serão sempre um mistério insondável uns para os outros, mas quando uma mulher se aventura nessa estratégia de styling do "borrowed from the boys" transpõe ligeiramente o umbral, resolve um bocadinho da charada. De uma forma janota, ainda por cima...

1 comment:

Sérgio S said...

Eu se tentasse vestir uma camisa de senhora provavelmente rebentava... Com a camisa... E por baixo não teria nenhum super-homem.

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