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Friday, January 1, 2016

Ai que me deram cabo dos diálogos interiores d´Os Maias



Que raio de ideia a minha começar a primeira manhã do ano a espreitar na RTP a versão de João Botelho de Os Maias. Quem aqui vem muito sabe que Eça, mas em especial o Carlinhos e o João da Ega, estão sempre a surgir a talho de foice, por isso sou suspeitíssima. E já se sabe que nenhuma produção de TV ou cinema consegue jamais estar à altura do modo como imaginamos os livros, por muito que não tome liberdades criativas com o enredo ou os diálogos (a versão brasileira até fez uma Maria Monforte morena e vivinha da silva, a aparecer aos filhos no melhor modo novela mexicana!). Mas pronto, apesar de eu já ter comentado em tempos, em função do que vi no trailer, que a Maria Monforte estava vestida como a Eliza Doolittle quando vendia flores, usava uns vestidos que mais lembravam a descrição das "confecções baratas dos armazéns da América" totalmente contrárias à descrição de "mulher de gosto e de luxo" e caminhava com a passada de um soldado, algo impensável numa Senhora daquele tempo, eu não sou muito exigente. Não espero de tudo o que se faz por aí o rigor de figurino de um E Tudo o Vento Levou, e olhem que quanto a actores sou muito benevolente, até porque não é a minha área: desde que me soe natural, por mim está bem. Logo, qualquer coisa que se faça com Os Maias tem da minha parte infinita condescendência, gosto sempre de ver. Mas...que ferro!!!

Eça de Queiroz será dos nossos grandes autores o mais acessível de representar, talvez mais até que Júlio Dinis. Não há linguagem menos empertigada e arcaica;  mais intemporal, mais corriqueira (apesar de rica) mais ritmada nem mais simples. Não é difícil imaginar os diálogos boémios do João, do Carlos e dos amigos a serem tidos por quaisquer dois rapazes à porta de um bar hoje em dia, com a maior naturalidade. Ou as queixas furiosas da Condessa de Gouvarinho a serem atiradas por qualquer mulher ciumenta: "vai para a outra, para a brasileira!". Pois sim. Eis que os actores declamam solenemente o livro como se, lá por se passar no século XIX, tenha forçosamente de soar a uma época em que as coisas e as pessoas eram a preto e branco e não se mexiam. O Ega bem havia de troçar desses modos postiços...

Depois, sem querer elaborar muito que não estou para isso, haverá autor mais descritivo que Eça de Queiroz? Impossível. Quem não aprecia, de que é que se queixa logo? Das descrições intermináveis, minuciosas, obsessivas mesmo, de ambientes, fatiotas, decorações, cozinhados, sentimentos, objectos. É um pratinho (ou um inferno) para qualquer produtor ou realizador, pois para recriar a ideia não é preciso imaginar grande coisa. Mas nem assim: Afonso da Maia tinha cabelo cortado à escovinha, é o signature look dele...pois aqui aparece de farta cabeleira; depois ele, de uma contenção que roçaria a fleuma se não agisse sempre com o espírito recto e são que Eça tão carinhosamente explica, reage à notícia da desgraça do neto com um drama, uns modos trágicos de Imperador de Carnaval...Afonso que no livro diz duas coisas ao Ega, quase sem poder falar, esmagado com a má nova.

E a Maria Eduarda, "essa senhora que nem brasileira é, é tão portuguesa como tu e eu" que até o Dâmaso, estúpido como um melão (esta expressão não vem nos Maias, é d´O  Crime Padre Amaro, mas seja) diz que "ela fala como a gente, não tem "sutaque" nenhum" zás, tem um "sutaque" brasileiro que baste.


 Depois, a falar em Dâmaso, como é que se lembraram de fazer um mais charmoso que o Carlos da Maia, e quase nada ridículo? Então Carlos, que tinha uma figura de belo cavaleiro da Renascença, um verdadeiro Príncipe, é aqui um homem perfeitamente normal, sem nada que dê nas vistas nem na estatura, nem nos trajes, nem na figura - só lhe faltava o chapéu de coco para ser tão banal que Maria Eduarda não desse por ele nas ruas de Lisboa. Já Dâmaso também é do mais normalinho - razoável nos modos, nem tão gorducho como isso, simpático até. What the hell!

 A única coisa que me pareceu a condizer com o que é descrito no romance foi mesmo o ambiente sinistro das cenas finais do adulteriozinho e do incestozinho, quando Maria Eduarda, à luz da revelação, se afigura a Carlos como algo de predador e de ferino, mas nem por isso menos irresistível. O que é difícil de fazer saiu bem e sem exageros, o que era de caras foi feito à bordoada, ou quê?

Vou precisar de reler yet again, passe o pleonasmo, para desfazer esta impressão desconsolada...que má ideia a minha!




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