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Tuesday, January 19, 2016

"Amiga é nossa barriga e não há-de ela doer"?


"Amiga é nossa barriga e não há-de ela doer" - a minha sábia avozinha repetia com frequência este adágio local, bem duro de escutar naquelas idades em que mesmo o adolescente mais bicho-do-mato quer fazer muita fé no seu grupinho de amigos. Era outra maneira de nos entranhar um dos lemas de uma família reservada e orgulhosa, que acreditava firmemente que o sangue é mais espesso do que a água

Ouvi vezes sem conta o raio da frase, geralmente seguida de um sermão que enaltecia os pais, os irmãos, a cara metade e meia dúzia de parentes escolhidos como as pessoas que realmente se importam connosco. Os amigos - os verdadeiros - segundo a avó eram raros, e mesmo esses estão sujeitos a falhas, egoísmos e imperfeições. Mesmo os que parecem tão próximos como a nossa barriga (que raio de imagem, mas seja) podem surpreender-nos com umas voltas e umas dores em caso de crise.


 Raciocínio que me ensinou a dar um grande desconto aos amigos, ou a não esperar demasiado deles - uma grande ajuda para manter amizades de longa data. É que por muita devoção que alguém nos tenha, no fundo cada um cuida dos seus assuntos. E quanto mais não seja, num momento de aflição, por muito que goste de nós, o desejo de salvar a pele ou de levar a melhor pode falar mais alto. Os heróis são poucos, os mártires e os santos menos ainda, e flores de honra andam em vias de extinção.

 Quem não põe expectativas muito altas, não se desilude. E já não falo dos "conhecidos", dos "amigos de estroinice", das simpatias superficiais. Mesmo entre os "bons e velhos amigos", há que lembrar sempre que ninguém é perfeito. E que uns são mais imperfeitos do que outros. 


Longas amizades existem, mas boa parte delas vive do "gosto muito da tua companhia" ou do "uma mão lava a outra". As puras, as abnegadas, as que confirmam a frase "amigos são a família que escolhemos" são raríssimas.

A outra avó, que pensava de modo semelhante, essa jurava pelo ditado "é no hospital e na prisão que se reconhecem os amigos". Pois a experiência mostrou-me que ela tinha razão mas que para cobrir todas as eventualidades, é preciso juntar-lhe a conclusão de Oscar Wilde: é mais fácil ser solidário com um amigo em desgraça do que ficar genuinamente feliz pelo seu triunfo.


Quem já foi bafejado pela boa sorte sabe que nos bons momentos tem de ser extra lúcido com as amizades, pois em alturas dessas há três tipos de amigos: os verdadeiros (que comemoram a boa nova, que se alegram pelo amigo sem despeito e sem se sentirem diminuídos) os aproveitadores (que surgem ou ressuscitam do nada para se colarem à boa estrela e tirarem alguma vantagem disso) e finalmente, os invejosos (que de repente se mostram intimidados, inferiorizados, pouco à vontade, ou têm mesmo a lata de darem "elogios" que não soam como deveriam, ou de "alfinetar" a alegria alheia). 


Para estes últimos, seria melhor que a pessoa ficasse como estava, que não saísse da cepa torta. Um amigo verdadeiro partilha o bom e o mau, quer o bem do outro e confia nele; logo sabe que uma volta para melhor na sua vida não o fará mudar nem estragará a amizade.  Se acreditasse nessa falta de carácter, não seria amigo da pessoa para começo de conversa. Por isso, se o (a) amigo (a) está a ter um merecido sucesso/enriqueceu/ herdou uma fortuna/emagreceu ou mudou de visual/recebeu uma grande promoção ou prémio/está numa relação fantástica/ficou famoso/casou bem/etc, para um amigo a sério a alegria dele (a) é como se fosse sua. 


 Mas para um amigo inseguro ou invejosito, já não é bem assim. Nem se trata tanto, ou só, do "porquê ele (a)e não eu?" (até porque as suas ambições podem não ter nada a ver com as do amigo). É mais um sentimento de não querer evoluir mas não gostar que os outros evoluam.  Recentemente li uma frase, esta para quem gosta de moda, que explica a ideia: "uma amiga verdadeira não te deixa sair de casa mal vestida". Já uma amiga falsa, alegra-se à socapa pela triste figura da outra.

Gente assim prefere a versão mais infeliz - e portanto, mais confortável - do suposto amigo. 


Sem mesmo dar chance à pessoa de provar a sua fidelidade, assume coisas do tipo: " fulano está todo importante: aposto que nos vai desprezar" ou "já não me sinto à vontade com sicrana agora que ela é a mais gira do grupo".A sua frase preferida é "beltrano mudou muito e já não conhece os amigos, fez-se um peneirento de nariz empinado" mas no fundo quer dizer "ele (a) já não é um de nós". Seja o "um de nós" um dos encalhados, um dos falidos, um dos fora de forma, um dos desleixados, um dos que estão em relações que não prestam, um dos azarados ou simplesmente, um "um de nós" imaginário.

Se tivesse cinco euros por cada vez que ouvi dizer isto de alguém, sabendo que se passava precisamente o oposto...vivia que nem um pachá.

Por isso, desculpe avó, mas permita-me aperfeiçoar a máxima: é na queda em desgraça e nos grandes triunfos que se distinguem os amigos.


 Mas um amigo verdadeiro tem outros traços distintivos. Um dos mais importantes, que normalmente não engana, é a paciência para aturar a pessoa no seu pior. O que é mais do que levar flores ao hospital ou chamar um táxi para quem bebeu demais. É sofrer o lado menos divertido, mais crítico, mais patético e definitivamente, menos glamouroso do amigo, por meses a fio se necessário for. É fazer pelo amigo ou amiga o que se faria pela família - maldizendo a sua sorte às vezes em modo "estou bem arranjada contigo" (elas) ou "olha-me este #$%&" (eles), gritando à pessoa que se recomponha porque já ninguém aguenta, mas nunca pondo em causa o seu apoio.


Outro que traça a linha entre os amigos bons e os outros é proteger o amigo a todo o custo - seja defendendo-o se outros dizem mal dele, interrompendo categoricamente alguma piada de mau gosto que visa vexar a pessoa, ficando ao seu lado na iminência de um desacato de bar que ameaça
 tornar-se físico ou sabendo escolher lados. Eu diria mesmo que a coragem é a característica mais marcante de um amigo verdadeiro porque a amizade, como o amor, exige bravura.


Muitas vezes um amigo vê-se posto à prova: seja interrompendo quem fala mal de um amigo ou troça dele (o que obriga a vencer a timidez, passar por desmancha-prazeres ou incompatibilizar-se com alguém) seja recusando-se a ser amigo dos desafectos do amigo, ou mesmo a tolerá-los com cordialidade: o inimigo do meu inimigo meu amigo é


 Ser amigo de alguém exige outra característica sine qua non, que é a lealdade: tomar as suas dores, custe o que custar. Nem sempre há formas diplomáticas de o fazer, mas lá dizia Dante: os piores lugares no inferno estão reservados a quem fica neutro em tempos de crise.


 Digam o que disserem, quem é amigo de todos, não é amigo de ninguém. É impossível gostar muito de uma pessoa, ser seu confidente, comer o seu sal como dizem os árabes... e ao mesmo tempo compactuar, em alegre camaradagem, com quem lhe fez alguma maldade ou lhe quer mal. Isso não é exequível nem no amor, nem na guerra, nem na diplomacia, e na amizade também não. Claro que se pode dizer que acontece às vezes na política, onde os inimigos de hoje são os aliados de amanhã.


 Mas não esqueçamos que os políticos têm de ser vira casacas uma vez por outra e procuram o poder acima de tudo; logo a arte do possível , a realpolitiks, não pode espelhar-se na amizade
 nem servir-lhe de modelo. Se alguém "não está para se maçar" se diz muito "eu não me meto nisso" ou "isso é lá com vocês, resolve tu"; se prefere ofender um íntimo a melindrar um suposto conhecido, não é que seja uma pessoa dada à paz: é antes dada ao egoísmo, ao seu conforto, à sua cobardia.


 Até pode ser uma alma muito divertida, muito prestável, um cortesão razoável ou um político de mão cheia, mas não serve para amigo do peito. Amigos são aliados. Nas alegrias e nas guerras de cada um. 

A frase "sou amigo do meu amigo" é estafada até à exaustão, mas muita gente confunde amizade com simpatia ou afinidade. Não percebe que "ser uma barriga que nunca há-de doer", ser um amigo verdadeiro, não é tão diferente de fazer um casamento durar. É uma canseira. É um compromisso. É um juramento de bandeira. Por muito que viva de farras e galhofas, é uma coisa muito séria para gente séria...



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