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Monday, January 18, 2016

"Antes de embarcares numa jornada de vingança, cava duas sepulturas"




A frase (provérbio chinês? Já não estou certa) é velha como os montes, usada a torto e a direito em filmes e em livros, mas verdadeira que se farta. 

Não digo que, por muito bom Cristão que se seja (e não me aborreçam por usar a vetusta expressão "bom cristão", porque culturalmente, senão na prática, a maioria ainda o vai sendo...) não possa ser legítimo, ou até benéfico, obter a justa retaliação em determinadas situações. Já se defendeu esse saudável meio termo em vários posts por aqui. Não raro, dando o troco acaba-se o ressentimento. É um "estamos quites" e passa-se à reconciliação ou a um afastamento cordial, dali a uns tempos uma pessoa até se ri do assunto e caso arrumado...



Depois, em dadas circunstâncias e com certas almas não se pode dar sempre a outra face. E pregar uma partida - ou uma bofetada, salvo seja- a quem foi maroto para começar não exclui automaticamente o perdão, que é uma obrigação de qualquer pessoa bem formada. Bem dizia a avó, que não o digo por ser minha avó mas para Santa só lhe faltava a auréola, "para maroto, maroto e meio". Não esqueçamos ainda outro aspecto: é que há uma diferença entre desforra (ou justiça) e vingança, que normalmente tem uma conotação de exceder em vigor ou crueldade a ofensa recebida....tudo muito certo.

Mas voltemos à frase que nos trouxe cá: muita gente vinga-se por hábito, por reflexo, por um estranho complexo do  tipo "não hão-de fazer de mim parvo (a)!".

 São pessoas que não aceitam que lhes levem a melhor nem a feijões, ainda que seja merecido. Algumas não são necessariamente maus diabos, mas a sua insegurança leva-as a nunca relaxar, a nunca confiar, a esperar sempre o piorzinho do piorio, mesmo das pessoas que conhecem melhor. Escusado será dizer que ter qualquer tipo de relacionamento afectivo com alguém assim é uma tarefa quase sempre condenada ao fracasso.

Ao menor mal entendido, eis que tratam quem os melindrou com alcatrão e penas, sem mesmo esperar para averiguar se estão a agir com justiça. Lançam mão de todos os requintes - discussões, ostracismo, desprezo, desfeitas - para vingar o grande crime de lesa majestade. E como nunca mais confiam a 100%, mesmo que tudo se esclareça, mas por outro lado não sabem passar sem a outra parte, vão acrescentando uma alfinetada aqui, outra ali, sem saírem realmente de cena.

Até que a pessoa visada se cansa e dá o troco. E que fazem as pessoas vingativas? Nunca têm a modéstia de aceitar um "touché, cheque-mate, estamos quites, estava a pedi-las". Pessoas vingativas não sabem brincar às vinganças. Fazem batota. Agem sempre como se tivessem sido elas as ofendidas em primeiro lugar, voltam sempre ao mesmo, fazem de disco riscado, continuam a atirar farpas e a inventar partidas cada vez piores para pagar a injúria.




É claro que a dada altura a "batalha" desorganiza-se toda, já não se sabe porque é que a picardia começou, são desencadeados acontecimentos imprevisíveis e, tal como nas vendettas das antigas famílias italianas, o relacionamento (seja amoroso, de amizade ou outro) deixa de ter salvação. 

E se o "adversário" tiver inteligência e um mínimo de espírito estratégico, mais tarde ou mais cedo apercebe-se de que há batalhas que não valem a pena e bate em retirada em modo "com os malucos não se discute", deixando o rancoroso a remoer-se sozinho.

Quem põe a satisfação da vingança acima de tudo, até da paz, da alegria da reconciliação, de estar com as pessoas que lhe importam - age como a cobra que mordeu a lima. Fere o próximo, destrói tudo à sua volta, mas o maior prejudicado é o próprio. Que regra geral, não percebe que cavou o próprio buraco e continua a deitar culpas aos outros...

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