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Sunday, January 24, 2016

Carlos VI e a pior festa de sempre





Quase toda a gente - quanto mais não fosse nos tempos de faculdade ou coisa que o valha - já assistiu a uma festa (ou mais) que se descontrolou, acabou mucho loca e deu origem a histórias deste género. Ou no mínimo, com a polícia a ser chamada pelos vizinhos à conta do barulho. Há sempre um amigo doido com ideias brilhantes que nunca dão bom resultado. 

Pois bem, no caso do Rei Carlos VI (pai do famoso Carlos VII) que coitadito, começou por ser apelidado O Bem Amado mas passaria à História com o cognome O Louco, esse amigo doido das ideias literalmente luminosas (já lá vamos) foi Huguet de Guisay, fidalgo conhecido pela sua crueldade e esquemas, mas estimado na corte por ser um grande bon vivant.

Estava-se a 29 de Janeiro de 1393 (ou seja, daqui a dias fará precisamente 623 anos) e a Rainha Isabel da Baviera desejava comemorar em grande o terceiro casamento de uma das suas damas mais chegadas. A pompa e circunstância da celebração, porém, tinham outro motivo: animar o Rei seu marido, que sofrera no ano anterior um ataque de nervos que assinalaria o início da sua triste doença.

Ora, o novo casamento de uma viúva era sempre alvo de piadinhas algo obscenas, por isso um grupo de cavaleiros nobres, com de Guisay à cabeça, convenceu o soberano a alinhar numa brincadeira: vestirem-se de "homens selvagens" (figura mitológica semelhante aos faunos e aos sátiros, muito em voga naquela época) para dançarem e dizerem más criações aos convidados, desafiando-os a adivinhar a sua identidade.


Homens selvagens, por Albrecht Dürer 

 Até aí tudo bem. O problema é que, para darem a si próprios o ar de selvagens "peludos e cobertos de folhas" os foliões arranjaram umas fatiotas e umas máscara que os cobriam da cabeça aos pés, feitas de, adivinhem, linho colado com resina. Não contentes com isso, diz-se que se uniram uns aos outros com correntes. Por precaução, foi ordenado que não houvesse lume algum na sala - nem velas, nem tochas, nem nada. 

E os mascarados lá começaram a sua dança, fingindo-se possuídos de um frenesi diabólico, saltando e guinchando em grande animação. O pior é que o irmão do Rei,  o Duque de Orleães, não fora informado das regras do baile e ainda por cima tinha-se atrasado por vir já bem bebido de outra festa qualquer. Outros dizem que foi de propósito, por irresponsabilidade ou vingança porque Orleães  era useiro e vezeiro em meter-se em sarilhos e até se suspeitava que tinha pacto com o diabo, mas nunca se saberá ao certo. 

A verdade é que no meio daquele pandemónio, só se reparou que o Duque, trôpego de bêbedo, trazia um archote na mão quando a perna de um dos bailarinos pegou fogo. Tarde demais!



Em segundos cada dançarino incendiou o próximo e gerou-se a cena mais horrorosa que se possa imaginar. Transformados em tochas humanas, os "selvagens" uivavam de dor enquanto tentavam livrar-se dos fatos, incendiando tudo o que tocavam. A Rainha, a única a saber que o marido era um dos bailarinos, caiu logo desmaiada. O Rei só escapou à tragédia porque a jovem Duquesa de Berry, de apenas 14 anos, era tão corajosa como esperta: tinha reconhecido Carlos VI e tratou de o afastar dali e de o esconder sob a sua volumosa saia, protegendo-o das faíscas.


Detalhe da Duquesa acudindo ao Rei
 O pânico gerou-se e quatro homens foram queimados vivos antes que alguém lhes pudesse valer, apesar de vários convidados se ferirem a sério tentando ajudá-los. Além do Rei, só um dos foliões sobreviveu: o Senhor de Nantouillet, que se atirou a um grande tonel de vinho e ficou lá até as chamas serem extintas. O mórbido caso, que ficou conhecido como "O Baile dos Ardentes",  gerou uma revolta tal que a corte (e em particular o Duque de Orleães, considerado culpado por toda aquela desgraça) foi obrigada a fazer penitência e a pedir desculpas públicas aos cidadãos de Paris, não fosse o povo cumprir a ameaça de "depor o rei e matar os nobre dissolutos". 

Qual Jackass, qual carapuça - gente imprudente e brincadeiras estúpidas sempre houve, principalmente quando há copos a mais e juízo a menos. O que não existia na Idade Média era MTV nem Youtube, para registar as façanhas que às vezes acabam mal...

  

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