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Saturday, January 23, 2016

Detesto quando tiram a piada às coisas.


O senhor pai, que é dotado de um certo espírito aventureiro e muito bom a criar máximas, sempre defendeu que "as viagens que fazemos são das poucas coisas que ninguém nos pode tirar".

 O que é indiscutivelmente verdade. Nunca me tornei numa daquelas pessoas que vendem a alma para viajar  (em parte porque a ficou na moda e essas febres aburguesadas me irritam, em parte porque prefiro viagens curtas q.b. e se não forem bem organizadas e com o mínimo de conforto, antes quero passar sem esse prazer) mas não posso discordar desse lema. Embora a investir em alguma coisa goste mais de objectos que possa guardar do que de experiências,  é indiscutível que a viagem feita, o passeio dado, a festa a que se foi ninguém nos tira, por mais que os ventos da fortuna mudem.

Ora, um passeio incrível que demos em família foi às Grutas de Postoijna, na Eslovénia. Para ser franca não achei o país nada de tirar a respiração, mas sempre me ficou que vale a pena lá ir só para conhecer esse lugar mágico. 


São grutas com estalactites e salas atrás salas como outras tantas, mas achei-as enormes - até lá criaram uma área lindíssima para concertos com espaço para 10 mil pessoas. E depois...tinha um comboio. Um comboio com carrinhos de mineiro verdadeiros e de ar ferrugento como os do filme do Indiana Jones


Um trenzinho eléctrico mas que apanhava uma velocidade espectacular, tipo montanha russa, a rolar como um foguete por aquele ambiente espantoso que parecia o reino dos anões de Tolkien. Às vezes dava mesmo a impressão de que íamos esbarrar contra um "tecto" mais baixo, mas não. E ficava-se com aquele friozinho na barriga. Qual Disneyland, qual carapuça. What a ride. Não estou a exagerar. Era mesmo rápido e emocionante, e o facto de estarmos num cenário natural daqueles, em plenas profundezas da Terra, tornava a experiência única. 
Em suma, fiquei de tal modo impressionada, eu que nunca fui fácil de impressionar, que passei a dizer que lá voltaríamos um dia que Deus me desse filhos e/ou o diabo sobrinhos

Mas mais recentemente, ao recomendar o passeio a uma pessoa amiga que ia para essas bandas, tive a infeliz ideia de visitar o site das Grutas e...oh, amarga desilusão! O comboiozinho já lá não estava. Ou antes, estar até estava...mas tinha sido substituído por uma versão colorida, bem comportada, artificial, segura, para turista ver. Alguns iluminados politicamente correctos tinham trocado os meus carrinhos de mineiro, os meus lindos carrinhos de mineiro à Indiana Jones...por uma bimbolândia!


Bimbolândia foi o nome depreciativo que um primo meu deu àqueles comboios turísticos chatos. E foi uma bimbolândia com cores de circo que tirou o lugar a uma das minhas melhores recordações!

 Ora, não sei porque o fizeram e nunca perguntarei, não vá alguém jurar que a versão à Indiana Jones nunca lá esteve, que foi imaginação minha (não foi; gravámos a viagem e hei-de ter para aí o VHS disso). Ignoro se trocaram os carrinhos por mania das modernices, se para ganharem dinheiro com alguma concessão feita a um monopólio ganancioso de bimbolândias, se foi por causa de alguns turistas estúpidos que decidiam pendurar-se fora dos carros armados em Indiana a comprometer a segurança, se houve alguma avaria perigosa ou acidente com um dos ditos turistas. O certo é que ficou como podem ver e embora a viagem continue a ter a alguma graça, já não é de perto nem de longe a mesma coisa, vide:


Bem diz a cantiga de que gosto tanto e cito tantas vezes, nunca voltes ao lugar onde já foste feliz. É que raramente se muda para melhor...nada do que tu lá vires será como no passado. Rui Veloso, esse grande filósofo.

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