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Monday, January 4, 2016

Haja saúde...e juizinho

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Quando era pequena, uma das minhas alegrias era sentar-me no largo escritório do senhor pai a ler os livros a que deitava a mão- incluindo a Segunda Guerra Mundial em BD, uma colecção sobre as tropas de elite deste mundo (gostava particularmente de um volume sobre os samurais)  alguns exemplares da avó, como Jane Eyre e...os livros escolares Deus, Pátria e Família quer do pai, quer do avô, em que "mãe" ainda se escrevia "mai". Achava aquilo o máximo e alguns pequenos contos ficaram-me na memória. Não admira que agora estes livrinhos nostálgicos estejam à venda de novo, mas ando com vontade de descobrir onde os nossos estão guardados.

Ora, num deles havia uma história que nunca esqueci e que agora tenho pena de não encontrar para vos mostrar, mas era qualquer coisa sobre um honrado lavrador, pai de numerosa família, nem rico nem pobre, que a cada desafio, negócio ou possibilidade respondia sempre "haja saúde".Se pensava investir nisto ou naquilo, um terreno, um carro de bois, os estudos da prole, o que fosse, ainda que vozes agoirentas dissessem que se calhar era arriscado, ele lá atalhava com um "haja saúde", e ia trabalhando sempre, aumentando pouco a pouco o seu património. No final o bom homem prosperava e fábula era rematada com "haja saúde...e juizinho" qualquer-coisa-qualquer-coisa. Haja saúde...e juizinho, que tudo há-de correr pelo melhor.



Pois cada vez mais creio nisto do "haja saúde". Ou no "let go and let God", ou no "amanhã Deus dará" que a avó T., Senhora sábia e serena, me repetia vezes sem conta. 

Há quem se preocupe por preocupar e como tal, não descansa enquanto não preocupa os outros também, em modo corvo de tormenta. Ou quando há razão para preocupação, trate de ver isso à lupa para se preocupar melhor. E ainda, se não houver de todo, inventa preocupações para não ser apanhado desprevenido (a) numa serena despreocupação. É gente que acha que se não estiver preocupada, não está a levar as coisas a sério. Acho que no fundo tem medo de ser tomada por não-te-rales, por irresponsável, ou de ser surpreendida por alguma volta do destino. 

Mas a preocupação e a prudência, como tudo na vida, querem-se na medida certa. De menos, e é um convite ao desastre, pois não planear os eventos é planear o fracasso. Em demasia, esmifra as energias a uma pessoa, tira-lhe a motivação, rouba a parte divertida e prazerosa a qualquer iniciativa e já se sabe que sem entusiasmo nada sai bem. Afinal, preocupar-se por antecipação é preocupar-se duas vezes - ou afligir-se com coisas que podem nunca vir a acontecer...e o pior, arrastando os outros no seu pessimismo!

Nem Hakuna Matata, don´t worry be happy...nem ralar-se pelo prazer masoquista de se ralar que é, lá no fundo, uma desculpa para continuar confortavelmente na mesma enquanto se faz o papel de pessoa responsável, pressurosa, madura, de pés assentes na terra, com permanente cara de quem chupou um limão.

 Por isso, haja saúde e depois, Avé Maria e avante. É que cansa andar sempre a reassegurar quem vê papões em cada esquina...

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