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Sunday, January 3, 2016

Mais que "quebrar o enguiço"


Em tempos disse aqui e aqui que não há que temer repetir uma toilette usada num dia que correu menos bem, reutilizando-a numa outra ocasião que se afigure extremamente feliz. 

Se formos supersticiosos, é um pouco como a velha crendice de tirar e voltar a pôr o que se vestiu do avesso sem querer, o mais depressa possível. Ou como os jogadores que tiram e voltam a vestir o casaco quando estão a perder há muito tempo na mesa de cartas.

Não há melhor forma de, como dizem os brasileiros, quebrar a urucubaca ou, à portuguesa, o enguiço. Mágico? Talvez, se acreditarmos que tudo na vida pode ter um pouco de magia. 

Mas -dependendo do tipo de pouca sorte que ficou associada a esse vestido/fato/adereço - há mais na equação. Aquele tailleur que foi testemunha de um fracasso profissional pode ser determinante quando se consegue, noutra ocasião, o resultado inverso. É que falhar, como triunfar,é também um hábito...e convém que não se associe o sucesso ou a frustração a talismãs. Aparecer com a mesma roupa de um dia amargo é desafiar a sorte, é um que-se-danem, é um gigantesco gesto feio aos intervenientes de empreitadas anteriores.



 O mesmo vale para um vestido fabuloso, às tantas comprado de propósito para uma situação que se esperava romântica e marcante mas que ficou em águas do melhor amigo dos portugueses ou pior, acabou num vale de lágrimas (já vos contei o que a minha amiga fez com o seu vestido de noiva, por isso nunca duvidem do poder de "vestir duas vezes  para desenguiçar"). Não há melhor modo de exorcizar, de dar a volta por cima, de fazer delete às más memórias do que substituí-las por boas, do que levar o vestido que se pôs para estar com um valente palerma, o vestido mal empregadinho, para junto de melhores companhias, if you know what I mean.

Mas nem só a roupas se aplica a receita: se um local, um bar, um restaurante ou o que seja, está ligado a más memórias, há que lá voltar noutras circunstâncias, com outro ar e outro plus-one ou grupo de pessoas quanto antes, não só para tirar o mau feng shui ao sítio, mas porque a vida é demasiado curta. Há dias fiquei danada: andei tempos infinitos a evitar um café que fazia o melhor chocolate quente da cidade porque me lembrava coisas ruins. Quando finalmente ganhei coragem para lá voltar, tinha mudado de gerência e já não havia chocolate para ninguém...eis disparate em que não torno a cair! Tanto chocolatinho com natas perdido, grrr.



1 comment:

Érica Lopes said...

Completamente de acordo! Já quebrei o enguiço várias vezes e a sensação é maravilhosa! Adorei o texto. Bjo

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