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Saturday, January 23, 2016

Modismos parvos... já os havia no tempo do Rei Sol


Por aqui já se bateu muitíssimo nos modismos papalvos- sabem, aquelas novidades a que meio mundo adere sem saber muito bem porquê. De bolos a panelas, passando por expressões idiomáticas, modalidades desportivas, bebidas, até doenças (a hiperactividade, o pânico do glúten e da lactose são os exemplos mais recentes que me ocorrem) tudo quanto é moda, ponha-se na minha senhora, seja bom, mau ou uma pinderiquice de marca maior. Certas pessoas parolas devem ter medo de assumir "pode estar na berra, mas não é a minha chávena de chá" como o povo do conto tinha receio de gritar que o Rei ia nu...

E quando os modismos se referem a maleitas e macacoas, confirma-se a frase de Eça de Queiroz: certos médicos literários tratam de inventar doenças de que a humanidade papalva se presta logo a morrer.

Mas não se pense que tal comportamento é fruto da nossa sociedade altamente consumista, de gostos adquiridos muito recentemente e com aspirações aburguesadas: a tacanhez, a mania de ser macaquinho de imitação, é mal antigo. E não há melhor exemplo do que este episódio assaz embaraçoso passado na corte de Luís XIV.



Ora, sem querer entrar em detalhes aborrecidos que eu detesto falar destas coisas, por volta de 1685 o Rei-Sol foi diagnosticado com um piqueno problema que o impedia de se sentar confortavelmente no Trono de França, de montar a cavalo, enfim, um incómodo doloroso e pouco condizente com a sua glória e dignidade.

Depois de tentar tudo, concluiu-se que a cirurgia seria a única solução. Foi então chamado o barbeiro-cirurgião Charles- François Felix. Podemos imaginar o pânico do homenzinho, numa época em que anestesias e esterilizações como as conhecemos ainda eram uma fantasia distante...honrado, mas apavorado, o "médico" tratou de treinar em quantas cobaias arranjou: primeiro prisioneiros, depois cortesãos que se voluntariaram entusiasticamente, ansiosos por agradar a Sua Majestade.



  Porém, a intervenção foi um sucesso: no prazo de um mês o *com todo o respeito* real traseiro estava como novo. El-Rei teve de usar umas ligaduras durante um tempinho mas a corte não tardou a imitá-lo, atando uns pensos da moda à volta das ancas: baptizaram este "look" de le royale, imagine-se...

Em três meses o Rei já montava a cavalo e o cirurgião foi amplamente compensado com dinheiro, terras e um título, além de reunir uma clientela mais vasta do que conseguia gerir. O episódio contribuiu mesmo para que a cirurgia, até então mais apanágio de barbeiros e curiosos que de médicos "verdadeiros", se tornasse uma especialidade respeitada.



O pior foi que a doença do Rei se tornou a doença da moda - contagiando França de Versailles por ali abaixo. Dali a nada, da corte ao bar da esquina, toda a gente queria fazer a mesma dolorosa (e ainda arriscada) operação, mesmo não sofrendo de incómodo algum. E os que não tinham coragem para seguir a moda à risca adoptavam-na como podiam, dizendo que sim senhora, que tinham dores no derrièrre, usando as tais ligaduras e fingindo que não se podiam sentar...

Imaginem o que seria se tal peripécia se passasse hoje, na era do Instagram e em que qualquer trapinho usado pela Duquesa de Cambridge, por mais banal que seja, esgota na hora, sem que as mulheres temam encontrar meio mundo na rua com roupa igual. Ninguém se levantava tão cedo à escala global! Não ter estilo próprio, nem espírito crítico, nem pensar pela própria cabeça, essa é uma doença que parece intemporal...


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