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Thursday, January 7, 2016

O complexo "Rebecca"


Quando se trata de ex, há forçosamente que usar de um cinismo saudável: afinal, é quase impossível hoje em dia não ser o (a) ex de alguém ou (a não ser que se rapte a cara-metade de um mosteiro) não ficar com o (a) ex de alguém. Mal comparado, o universo dos relacionamentos parece uma gigantesca feira da ladra

É uma pena que a Ilha dos ex-amores não exista para refundir para lá todas as alminhas do passado, mas como sumi-las não é exactamente uma possibilidade há que lidar com isso com a classe que se pode.

Nunca se perceberá porque é o que  o que lá vai incomoda, mas é certo que arrelia bastante- especialmente quando a pessoa de quem se gosta parece ser "a tal", se se trata realmente de um grande amor e/ou se a história de um casal foi feita de  encontros e desencontros, vulgo fugiste de mim no liceu quando éramos os dois jovens e inocentes e era escusado tudo isto

Não importa o quão pouco relevante ou impressionante tenha sido o (a)s ex, ou o (a) antecessor(a); isso causa quase sempre alguma amargura, principalmente no início. É normal embirrar com ele ou ela. É normal aborrecer-se com isso. Até é normal ter uma ou outra discussão por causa disso. O que convém de todo evitar é entrar num complexo Rebecca (como no romance celebremente adaptado por Hitchcock) ou seja, obcecar-se com a falsa presença de um fantasma. Ou pior ainda, num complexo Rebecca invertido, que então isso é mesmo o fim do mundo, já lá vamos.



Para começo de conversa, mexericar no passado é como agitar uma garrafa de vinho ou abrir a Caixa de Pandora: estraga sempre tudo. Por muito que se promova a sinceridade numa relação, por muito mente aberta que se seja e por mais que a curiosidade faça das suas, some things are better left unsaid. 

Já se sabe  que cada um tem as suas historietas, o seu hall of shame (não importa se é pequenininho ou mais povoado do que seria desejável) e é melhor ser discreto, fingir que nunca houve nada disso, enfim, usar o melhor mecanismo de defesa parvo que se puder arranjar para não tocar em nada que possa explodir ou seja, em pormenores que não interessam ao Menino Jesus. Porque não interessam mesmo. Basta que cada um tente recordar-se em detalhe das suas próprias peripécias para perceber que metade se varreu da memória. Mas se o casal entra numa de "daqui me perguntaram, daqui me responderam..." ai ai. Dali a nada estão a indagar coisas que no fundo não desejam saber e a retaliar com dardos equivalentes só para ninguém ficar para trás e é um sofrimento escusado. Os defuntos não se levantam e finaram-se por algum motivo, end of story, requiescat in pace.



 Voltando à Rebecca, para quem não leu/viu/recorda, é a história de uma rapariga simplória que casa com um aristocrata viúvo de uma mulher lindíssima e sofisticada. Neste caso a defunta, Rebecca, é literalmente defunta mas mesmo assim aborrece porque o casarão de campo onde a pobre recém casada vai habitar está pejado de recordações dela. Ainda por cima a governanta idolatrava a primeira patroa e faz a infeliz  sentir constantemente  que aquela casa nunca será sua, o que quase a deixa maluquinha.

 Ora, a protagonista é uma insegura de marca maior, embora com alguma razão para o ser porque de facto estava, em beleza e estatuto, a anos luz da *cof, cof* falecida. Quando se sucede a uma pessoa bela, requintada, aparentemente perfeita, todas as inseguranças disparam, mas é preciso ver que não é com sentimentos mesquinhos que o espaço se conquista. Do mal, o menos! Quem está numa situação semelhante tem de compreender que se a cara-metade a ama, por algum motivo é. E se por acaso a (a) ex viveu ou passou muito tempo na mesma casa, que se há-de fazer...a César o que é de César. Se a pessoa era uma peste (ou nem era, mas fica automaticamente promovida a peste só por ser ex) mas tinha realmente um gosto irrepreensível, antes assim. É sinal que se está ao lado de um homem ou mulher selectivo (a). Pouco a pouco há-de introduzir-se o necessário cunho pessoal, mas mal por mal se o (a) defunto (a) sabia escolher os tapetes e as faianças, faz de conta que por lá passou um estupendaço decorador sem custo extra. Lá está, há que usar cinismo e desprendimento nestas coisas, ser blasé, entrar em modo "que maçada" e não dar troco, em suma. 



 Mas quando a (o) ex é de algum modo digno (a) de admiração ou vá, a cara metade tem um padrão, escolhendo pessoas dentro do mesmo género, ainda a coisa passa. Entre iguais, vá que não vá. Isso entra na esfera natural do ciúme.

Porém, por estranho que pareça... piorzinho, piorzinho é o complexo Rebecca invertido -  porque aí não é tanto uma questão de ciúmes, nem de insegurança, mas de alergia. E no limite, acaba-se a passar por "ter ciúmes" de alguém que se despreza, o que junta o desconforto à vergonhaça. Por complexo Rebecca invertido entenda-se quando aquela pessoa fantástica que se escolheu para planear um futuro deu um mau passo antes, ligando-se de forma mais ou menos séria a uma pessoa que socialmente falando, pelo ar, pelos princípios,  pelas ligações, pelos hábitos, Deus nos acuda.

 Acontece aos melhores, que já se sabe que hoje em dia as coisas não são o que eram; por muito que se escolha não faltam rapazes e meninas bastante decentes cuja (o) ex é uma mancha. Seja por insegurança, azar ou por falta de juízo temporária, há muito quem apresente em casa, ainda que numa de passar o tempo,  quem não devia ter passado da porta da discoteca sem que isso *quase* escandalize ninguém. E porque o que o berço dá a tumba leva, a pessoa lá acorda para a vida, ganha tino, percebe que estava sob péssima influência e até já a desaprender o que sabia, a ganhar maus costumes... e finalmente foge como devia ter feito desde o início. 



Too late - por ténue, insignificante ou breve que a presença nefasta fosse, por maiores limpezas que se tenham feito com água benta, lixívia, aguardente e águarrás, ainda que se defume com sal e arruda o carro, a roupa e qualquer sítio onde a alma-penada tenha passado, alguma coisita fica. São conhecidos em comum que se mantêm - e que além de não serem a companhia mais edificante, se suspeita que levam e trazem mexericos. É um retrato que não se apagou por esquecimento e que mostra a pessoa em toda a sua glória coberta de viscose e poliéster com acessórios de acrílico.



 É esta ou aquela expressão coloquial que provoca logo um "onde foi ele (a) aprender tal porcaria? Ah, já sei!". Ou coisas que só por acaso, foram oferecidas pela personagem, e ao gosto da personagem, de tal forma medonhas que a vontade é pegar com pinças, queimar e pisar no chão a gritar "mata, mata!". É compreensível ficar-se horrorizado (a) com o que se considera, bom...reles. Sobretudo quando se ama e admira a cara metade, de quem só se quer pensar bem, e é confuso imaginar como pode ter descido a tal disparate. Ao inevitável sentimento de posse junta-se uma estranha indignação e repulsa pelo episódio. 



No entanto, também aqui é preciso usar de cinismo para relativizar e conter, dentro do possível, as manifestações mesquinhas. Pensar no assunto como um disparate ou aventura inconsequente própria de um coração ingénuo (no caso delas) ou uma rapaziada que correu mal, mas podia ter corrido pior (no caso deles). 

Mesmo aceitando com maturidade o inevitável - ou seja, que se está, embora em circunstâncias mais positivas e honradas, a suceder a um pato bravo,  a uma serigaita ou a um parolo (a) do piorio- é natural haver algumas exclamações de repugnância. Porém, é necessário usar de delicadeza com a pessoa amada e ser um bocadinho magnânimo (a) com o defunto ou a defunta, quer para não baixar ao mesmo nível, quer para não ferir a auto-estima da cara metade. Afinal cada um tem os seus erros e ninguém gosta de sentir a humilhação de os ver lançados em rosto a toda a hora. Nem mesmo sob a forma de elogio, do estilo "não sei como uma pessoa tão bonita/inteligente/elegante se associou a tal estafermo".

E em todo o caso, há melhores conversas e actividades para passar tempo de qualidade juntos do que a remexer na "arca das velharias". Ou na arca das trapalhadas. 










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