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Saturday, January 2, 2016

O estilo que Deus manda


Soará estranho colocar "estilo" e o acto de chamar o nome do Senhor em vão, salvo seja, na mesma frase. Mas pus-me cá a pensar que reflectir naquilo que é correcto, elevado, esteticamente harmonioso na hora de estar e de se ataviar é meio caminho andado para a elegância, mesmo que as motivações para isso nada tenham de religioso ou espiritual (embora essa seja uma inspiração tão boa como qualquer outra). 

Poder-se-á argumentar que evil is cool, que o Príncipe das Trevas é que é, por excelência, a man of wealth and taste, como dizia o Mick Jagger. Mas não esqueçamos que primeiro, o Príncipe deste mundo era antes de tudo um anjo, o mais bonito de todos por sinal, e que aprendeu o que sabia no seu berço celestial junto dos outros anjinhos e Arcanjos. Segundo, que  (como tantas pessoas com grande sentido de estilo mas pouco miolo que eu conheço, que se dedicam cinicamente a conviver com gente grosseira por diversão) Lúcifer, figurado ou crendo-se literalmente na sua existência, adora fazer pouco dos humanos inspirando-os a vestir tudo o que é mau e a agir ainda pior. Faz, por assim ser, a troça baudeleriana - "a única vantagem do mau gosto é o prazer aristocrático de uma pessoa se rir dele". 





Daí engendrar ceroulas do demo, nail art e outros horrores para perder almas, como temos visto. A eternidade dá-lhe tempo para se entreter com disparates, e o Diabo, bem ataviado nos seus fatos Savile Row e nos seus acessórios Hermès, devorando pela enésima vez Dante e Milton (porque é vaidoso e gosta de ler sobre si mesmo) ri-se a bom rir dos homens e mulheres mortais que por aí andam semi-vestidos de lycra e poliéster, pasmando para o Jersey Shore.

 Mas ora vejamos: se a condição para a elegância é sobretudo a elegância interior, que passa mais que qualquer outra coisa por se fazer leve, por se adequar às circunstâncias, por agir sem atrevimento nem timidez,  por colocar o próximo em primeiro lugar, por usar sempre de delicadeza, agir como se nunca se estivesse realmente a sós e por não fazer de si motivo de falatório (logo, não depende tanto de conhecimentos acessíveis a quem quer aprender nem de recursos económicos) então agir e trajar com elegância é, creia-se ou não, andar como  manda não só o figurino, mas o Criador.



A Bíblia está pejada de referências quanto às vestimentas, quase todas focadas em evitar a ostentação (logo, o mau gosto) e a sensualidade grosseira (e já se sabe, é quase impossível estar elegante usando peças reveladoras em demasia). Mas vamos mais longe (os meus leitores ateus ou agnósticos que me dêem aqui um momentinho, já falo convosco). Se o Criador é Todo- Poderoso, podia muito bem ter inventado, por exemplo, o poliéster, certo? Bastava-lhe estalar os dedos. Mas não. De forma amorosa, rigorosa, pensando em tudo, criou a  matéria-prima para as fibras naturais, bonitas de ver, confortáveis, que se adequam à pele. Criou as amoreiras, os bichinhos da seda, o algodão e a lã. Depois inspirou a Humanidade a tecer. Claro que se pode argumentar aqui que foi a Natureza, inexplicavelmente perfeita, o que vai dar ao mesmo. Mas para criar fibras sintéticas já foi preciso complicar os processos, além de ter em mente propósitos menos elevados, como os custos e a facilidade.

 E voltemos ao uso que se faz das fatiotas de gosto duvidoso: a exemplo, os vestidinhos de viscose ridículos que têm o único propósito de revelar as formas, formas essas que ainda por cima nem sempre estão na sua melhor forma, passe o trocadilho. A crer em Deus, já se sabe que não atraem nada de bom. Mas não crendo, também se sabe a atenção negativa que acarretam, além de serem um convite a tudo quanto é desordenado, bagunçando assim a sociedade mais um bocadinho. Seja por obra de uma entidade inimiga, ou por acção da Humanidade sempre pronta a escorregadelas....


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