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Sunday, January 31, 2016

S.João Bosco: a ignorância é a mestra da admiração




Conta-se que S.João Bosco, que se homenageia hoje - canonizado em 1934 e aclamado por S.João Paulo II como "pai e mestre da juventude" - tinha um lado muito brincalhão. Como ficou órfão muito novo e não dispunha de grandes recursos, quando tinha por volta de dezassete anos trabalhou como criado de mesa num café em Chieri, no norte de Itália. E para se entreter, dedicava-se a fazer truques de magia que espantavam o patrão e a clientela.

 Na verdade, o seu repertório era de tal modo impressionante - de fazer aparecer um frango vivo no prato onde havia um frango assado a transformar dinheiro em lata ou água em vinho - que a dada altura o signor Cumino, dono do café, deixou de achar graça e foi a correr chamar um Padre , queixando-se de que tinha um mago em casa. Quem fazia tais coisas, só poda ser por artes demoníacas. 



O Padre tomou o caso a sério e chamou por sua vez o Cónego e Arcipreste, que não foi de modas e mandou vir o rapaz para o interrogar sobre a Fé. João respondeu a todas as questões com muito acerto, contendo o riso, e finalmente contou ao Cónego que tudo não passava de ilusionismo, demonstrando mesmo como fazia alguns truques. O bom do Inquisidor, que estivera quase para o denunciar ou - palavras suas- "com vontade de lhe dar uma sova" desatou então a rir-se da esperteza do rapaz e mandou-o embora com um presente, recomendando-lhe "vai, João, vai em paz e diz lá a todos que a ignorância é a mestra da admiração".

E não será mesmo? Se é verdade que para bem viver, para manter o entusiasmo na existência, é preciso nunca perder um certo espírito infantil de nos maravilharmos com o que é belo (e de encontrar beleza nas coisas mais simples) também não deixa de ser verdade que só os papalvos se admiram com tudo e pasmam para qualquer coisa. Sem espírito crítico, é-se refém de tudo e todos; quem não é um bocadinho mundano, um bocadinho céptico, passa por pateta, social e espiritualmente falando...



E isto verifica-se nos mais variados sectores: as pessoas que aderem a todas as modinhas e modismos, como se nunca tivessem visto nada, ou que ficam de joelhos perante qualquer figurão, fazem de labregas ou de pouco sofisticadas, no mínimo. Conhecem por acaso uma semi-celebridade da televisão? Ei-las a postar  bela da selfie, como quem encontrou um bicho raro. Há novidade?
Adoptam-na como se fosse a Pedra Filosofal e advogam em público a causa, com a devida mudança no retrato do perfil só para não ficarem atrás da carneirada toda.



 Uma personalidade visita a parvónia? Vai de convidá-la lá para casa no maior servilismo, não sem avisar  antes "a nossa casinha é muito simples". É o espírito das fangirls, groupies e fanboys, que seguem para toda  parte qualquer ídolo do momento. E em certas pessoas, esse espírito de teenager dura toda  vida. Falta-lhes sobriedade e noção do apropriado: afinal, quem teve acesso a muita coisa, quem já viu muita coisa e conheceu muita gente, não se deixa impressionar sem mais aquelas.



E o mesmo acontece quando se trata de questões de fé ou de remédios. Uma mixórdia fica na moda, toca a tomá-la. Uma terapia espiritual mais recente que muito whisky de supermercado anda na berra, toca a acreditar piamente no guru, só porque ele lhe disse com ar entendido "você teve problemas em pequenino" ou "uma tia que lhe morreu tem uns recados do Além para si" como se toda a gente não tivesse todo problemas em pequeno (de pais que não se entendiam a varicela e papeira) ou tias que bateram as botas.

Isto sem falar nas almas que - já com boa idade para ter juízo- mal entram numa relação, vai de jurar amor eterno em público e de partilhar intimidades que só aos envolvidos deviam dizer respeito, sem ao menos avaliarem se o caso tem pernas para andar.



 O espírito infantil de quem nunca viu nada é o mal de muita gente.  É mesmo um mandamento da elegância ser um pouco blasé e conter a admiração, por mais legítima que seja. Bem diziam Baudelaire e La Fontaine:  "há que  surpreender os outros sem que nós mesmos jamais o sejamos" e "aqueles que do mundo não têm nenhuma experiência deixam-se surpreender por coisas sem qualquer importância" .

O cinismo é como tudo na vida: tal como o ciúme e as especiarias, em excesso é mau, mas em pequenas doses traça a linha entre o saber estar e o pasmar para as coisas. Por muito ingénuo ou ávido de emoções que se seja, é possível ao menos fingir alguma indiferença para não passar por tolo. No mínimo, até se ter a certeza de que a "grande novidade" não é passageira, nem um verbo de encher ou um engodo de marca maior...






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