Recomenda-se:

Netscope

Sunday, January 17, 2016

Um português é condecorado onde quer, ora pois então.




Tony Carreira foi condecorado com a Comenda de Cavaleiro da Ordem de Artes e Letras Francesas, distinção já atribuída a David Bowie, Bob Dylan, Amália Rodrigues e outras augustas personagens (o que me faz pensar o que se passa com os franceses, mas dado que têm tido coisas mais sérias em que pensar, assumo que não estarão em si).

 E Tony Carreira, que é um artista português com a "humildade" que a generalidade dos portugueses valoriza acima de tudo (mas que geralmente corresponde a ser simplório, não a ser modesto) entendeu que havia, porque havia, de receber a sua *com todo o respeito* bugiganga na Embaixada de Portugal em França. Mas vendo o pedido recusado, eis que ficou sentidíssimo, a dizer que no seu país só o vão valorizar quando tiver os pés para a cova. (Sim, Tony. O Tony é daqueles artistas incompreendidos que ninguém aprecia. Tem mesmo carinha de fome, deixe-me que lhe diga).

E segundo o Correio da Manhã, sempre atento a estas folestrias nas redes sociais, o grande artista comunicou o incidente via facebook num post que bem precisava da pontuação revista, reparem:

Que eu não digo que toda a gente tenha de escrever como um Eça, mas quem é tão rigoroso com os músicos (dizem) para tocarem cantiguinhas que não têm nada de complicado, bem podia arranjar um assessor para estas coisas. 
Que há-os baratos, juro, e embora alguns saiam da faculdade num estado que Deus nos acuda, duvido que não lhe soubessem dizer que escrevinhar "ao me homenagearem" fica macarrónico.

Mas voltemos à "polémica" da Embaixada Portuguesa em França (ou da Embaixada Portuguesa em Paris, que pelos vistos o Tony é que sabe tudo!).

Pausa para reflexão aqui, que eu não quero ser injusta...ou Tony Carreira é de uma simplicidade que beira o pitoresco por achar que se agenda qualquer evento numa embaixada como quem faz uma patuscada lá em casa ou na Associação Desportiva e Recreativa do burgo (hipótese muito provável) ou desconhece completamente que haja um protocolo ou que talvez, só talvez, a iniciativa deveria partir do Embaixador (igualmente plausível) ou simplesmente, sente que tudo lhe é devido. Eu percebo a sua magoazinha. Não lhe basta vender milhões de discos, encher salas e arrastar multidões com a música que, goste-se ou não, sabe fazer. Não se dá por feliz por ter arranjado uma fórmula que resultou lindamente para si. Tony Carreira já tem o sucesso, mas falta-lhe o prestígio. Quer ser levado a sério, não entendido como um cantor pimba promovido, overrated (ou tolerado por alguns) ou um Julio Iglesias de trazer por casa. Mas lá dizia o outro, esse sim um grande artista- you can´t always get what you want. Levante as mãos para o céu, homem, que quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré mas pode-se ser uma lagartixa feliz e estupendamente colocada, o que me parece ser o caso...

De todo o modo a coisa educada a fazer era ignorar o assunto, fazer a festa num local mais adequado, receber a distinção contente e feliz, comemorar com a sua legião de fãs, eu sei lá, o que quer que aconteça lá no seu mundo. Mas não...nem era festa (desculpem, detesto o nome, mas aqui vai) de um tuga humilde se não houvesse um bocadinho de desacato.

O nosso embaixador em terras gaulesas, José Filipe Moraes Cabral, pouco adiantou, mas a embaixada fez saber o óbvio ou seja, que a recusa é lógica: não se atribuem condecorações de um país na embaixada de outro país.

A resposta não convenceu o Comendador Tony que, muito cioso da sua importância para todos os portugueses (eu dispensava a honra), refilou com a habitual mania lusa de "dar um jeitinho", criando uma polémica onde não se passava rigorosamente nada: "E porque não? França é um aliado que quis homenagear um português, Portugal não pode abrir as portas de casa a essa homenagem?".

Não, se calhar não pode. Mas se calhar até há aí alguma discreta má vontade, não sei, que isto de "dar jeitinhos" e "abrir excepções" não é o meu departamento, logo não afirmo. Mas a ter havido qualquer desconforto na Embaixada por acolher uma homenagem a um cantor que - tenha o incontestável sucesso que tiver - não representa com justiça a cultura portuguesa ou o perfil de todos os portugueses, tiro-lhe o meu chapéu. Ainda há quem se recuse a ir com o rebanho e a aceitar que sim, que o Tony Carreira é um grande vulto cultural só porque de repente se tornou aceitável fazer-lhe a vontade ou afirmar-se muitíssimo democrático...

No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...