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Monday, February 22, 2016

A nobre arte de "presentificar" a vida


A lembrança do passado rouba-nos metade do presente; a preocupação com o futuro rouba-nos a outra metade.


                                                       Charles Augustin Sainte-Beuve


Há dias reparei num pequeno texto que dava o seguinte conselho para bem viver: "se for necessário deixe ir embora, desapegue-se. Cada um de nós tem aquela intuição através de mensagens subliminares de que algo chegou ao fim, embora muitas vezes não queiramos aceitar. Outras vezes, a mensagem é totalmente explicita. Não tente reter coisas, pessoas ou circunstâncias que não querem permanecer ou que já se foram, pois é perda de tempo, esforço e energia. Presentifique a sua vida. Deixe o passado deteriorado para trás e abra espaço para novas possibilidades".

Por aqui já se falou várias vezes em praticar o desapego, essa táctica pregada em várias religiões (nomeadamente, no que se refere ao perdão e ao desprezo pelas vaidades mundanas) e que é uma condição essencial para a verdadeira elegância. Sem desapego, não pode haver elegância interior. E sem elegância interior, já se sabe, não há arrebiques, luxo nem status que valham.

 Parte dessa serenidade (essencial não só a um bonito porte, a saber estar, mas também à paz interior e à felicidade de quem não se deixa perturbar por nada) vem de viver no presente. 

Tendo consciência de onde se partiu, claro (quem não sabe de onde veio dificilmente sabe para onde quer ir). Com os olhos no futuro, sem dúvida ( convém saber minimamente o que se deseja e ter entusiasmo para abraçar o que vier). Mas sem remorsos pelo que foi nem medo do que virá.

 Com a consciência daquela máxima estafada "o momento presente é a única coisa verdadeira".

 O passado é uma sombra, o futuro ainda não existe. 





Mal comparado, o passado seria uma ruína e o futuro uma casa em construção. O presente - ainda que esteja longe de ser perfeito - é a única casa habitável de que dispomos para nos abrigar

E dito parece fácil...só que não é. Os males passados - ou o podia, devia, o "e se?" , o "se ao menos tivesse feito assim ou assado"- são das coisas mais angustiantes e dos piores atrasos de vida. Assaltam as almas sob a forma de remorsos, de conjecturas sobre possibilidades que nunca foram seguidas, de ciúmes retroactivos (ter ciúmes do passado da cara metade ou sentir-se mal por alguma partida que pregaram um ao outro há anos e anos, por exemplo) de festas de culpa mesmo que uma ofensa já esteja perdoada, de acusações, de arrependimentos inúteis e de tantas outras maleitas. 

Se o futuro pode meter medo mas ainda não tomou verdadeira forma, o passado é mais visível, mais entrelaçado na vida e nas circunstâncias de cada um. Basta algo correr mal para entrar em modo rua do volta atrás. 

Ou começar o rosário se a minha avó não morresse ainda hoje era viva: " se tivesse terminado o mestrado não sei em quê em vez de aceitar aquele emprego..", "se tivesse comprado aquela casa em vez desta...", "se nunca tivesse casado com aquele (a) palerma"..."se tivesse feito aquilo ou aqueloutro mais cedo!", "se não tivesse desistido do Manel (ou da Maria) que fazia trinta por uma linha mas gostava tanto de mim!".




E no fundo, falando mal e depressa, o que é que esse "exercício" doloroso conta para a nossa vida? Se houver contas para pagar (reais ou metaforicamente falando) ou problemas a resolver, não é chafurdando no lodo das águas passadas que a solução aparece. Se algum dado do passado tiver de surgir para ajudar (uma herança inesperada ou o regresso de um amor perdido) tanto faz correr como saltar, que acabará por aparecer. Se houver fantasmas do passado a enfrentar, logo se verá quando surgirem. Dizem que o passado condena, que o passado apanha sempre o devedor. Se assim for, na altura certa dará um ar da sua graça, para que se lide com o assunto de uma vez para sempre. 

E em todos os outros casos, é preciso  pensar que se o passado foi bom, pertence aos álbuns de recordações e às molduras. Se foi mau, só interessa para acabar com ele. Os museus são lindos, mas as pessoas não vivem lá dentro. Nem pensam em ir ao museu o tempo todo. Podemos ter os retratos dos antepassados nas paredes, mas eles não se sentam à mesa para jantar connosco nem nos acodem em caso de aflição (a não ser que acreditemos em ajudas do outro mundo).



Se dados de tempos idos continuam a surgir, atrapalhando o presente, é necessário fazer cortes, por mais estranho que pareça arrancar as heras que já faziam parte da parede. Cortar com as recordações ou ligações expiradas. Cortar com as conversas, locais, pessoas ou pensamentos que recordam pecados esquecidos. Parar de alimentar a máquina do tempo e dedicar essa energia ao que está em cima da mesa, a precisar de atenção. Aplicar, no fundo, a fórmula Bíblica de Filipenses 3,13: “ uma coisa faço; esqueço as coisas que atrás ficam, e avanço para as que estão adiante.”

Não é um exercício simples, de todo. Mas como tantos outros, é uma questão de fake it ´till you make it. Se o presente for muito bom, muito preenchido - e será, se lho permitirem-  deixa automaticamente de haver espaço para velharias. Voltemos à ideia de uma casa, ou de um armário: quem tem montes de coisas novas, é obrigada a desfazer-se das velhas. Seleccionará eventualmente algumas antiguidades com significado ou valor, mas o mais certo é até o "quarto das tralhas", a cave e o sótão serem vagados para arrumar o que é recente e útil. Nenhum closet é funcional se estiver cheio de trapos e sapatos que a dona não usa. E com a vida é o mesmo.




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