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Thursday, February 4, 2016

A paz é o verdadeiro luxo



Nas maiores religiões, a Paz é invocada a toda a hora. Cristãos, Judeus e Muçulmanos desejam constantemente a paz entre si - e mesmo uns aos outros (ainda que alguns às vezes não façam muito por isso).

Se vamos à Missa, é-nos dito "a paz do Senhor esteja sempre convosco", "deixo-vos a paz..." e mais recentemente (goste-se ou não) exagerou-se o costume de os fiéis se saudarem "na paz de Cristo". Jesus é também chamado "Príncipe da Paz" e muitos Santos, como a nossa Rainha Santa Isabel ou S. João Paulo II, são admirados como mensageiros da Paz.


Os judeus dizem "Shalom" (paz, bem estar, boa sorte) para se cumprimentarem e despedirem, e os muçulmanos saúdam-se com "a paz esteja contigo" (Salaam Aleikum) ao que, é sabido, se responde "e contigo a paz" (alaikum as salaam). E sempre achei encantador como não pronunciam o nome de Jesus, Salomão ou qualquer outro que considerem o de um profeta, sem acrescentar logo "a paz seja com ele!" (ou "que Deus o exalte"). Já os Budistas dedicam o seu caminho espiritual a alcançar a paz interior, sem a qual acreditam ser impossível encontrar qualquer felicidade. Podíamos estar aqui o dia todo a detalhar exemplos de diferentes credos, correntes de pensamento e filosofias New Age, estas também sempre voltadas para a atingir esse fim.


E não falemos nas boas intenções políticas sempre em prol da paz e da cooperação, ou dos movimentos "Paz e Amor", alguns bastante ingénuos, utópicos e com consequências não tão positivas como isso: peace, man!



 Claro que podemos ainda contar a paz como instrumento ou consequência da elegância interior: uma pessoa verdadeiramente elegante, por muito mundana que seja e por mais superficiais que sejam os ambientes, é tranquila, blasé, imperturbável. Já se disse por aqui que uma pessoa bem educada e auto confiante está serena em toda a parte, como Santa Teresa D´Ávila, que recomendava: nada te perturbe, nada te amedronte; ou como o bom Imperador Aurélio que jurava não se amofinar por coisa nenhuma, muito menos por causa de gente transviada.  Isso não é possível fingir, não a 100%. Ou se está em paz, ou não se está.


Socialmente falando, quando duas pessoas se reconciliam, diz-se que "fizeram as pazes" e se está tudo bem, é costume dizer-se "cá anda tudo na Paz do Senhor". Se a tranquilidade é inusitada, dizemos "até estou a estranhar que ande tudo em santa paz"; e quando alguém nos aborrece, qual é o nosso impulso? Resmungar que nos deixem em paz!



E os fantasmas, ainda que seja só na ficção? São almas penadas que nunca encontram a paz. Por isso se deseja a quem foi desta para melhor que "descanse em paz", de preferência sem assustar os vivos.

Conclui-se então que a Paz é um um grande bem- mais do que isso, um bem universal. Não é por acaso que se criou um prémio Nobel da Paz, que recompensa quem leva a cabo actos heróicos para promover a harmonia entre os povos, a solidariedade e a boa vontade.



No entanto, quando pensamos no conceito de "paz", ela parece uma coisa um pouco...nhé. Um bocadinho insípida.

 Para que serve a Paz, afinal? Se está tudo em paz e sossego, não há novidade (por outro lado, lá dizem os ingleses: "no news is good news") não há nada de excitante a acontecer. Vista superficialmente, a paz até soa assim uma coisa para o monótono. Grande engano! A paz é como a saúde, o oxigénio e muitas outras coisas essenciais: só se sabe como é importante quando nos falta.



A paz é o que devemos desejar e quem reza deve inclui-la nas suas meditações: mas não só porque não convém que haja motins à porta nem zaragata em casa, ou porque fica bonitinho expressar tão nobre intenção. Pedir "paz" vem um pouco na linha daquela oração que quanto a mim é perfeita: "dai-me o estado que mais me convenha" porque, tal como a felicidade, a noção de paz difere de pessoa para pessoa...e nem sempre a "paz" que nos parece bem no momento é a que realmente nos convém. O que está em paz está sereno, saudável, a funcionar bem, em estado de graça, sem carência de nada.

Quem tem saúde, é abençoado com a paz a nível físico: nada dói, nada limita, nada incomoda.


Se alguém é feliz no sector amoroso, das duas uma: ou está bem sozinho (a) ou encontrou a pessoa certa, o (a) companheiro (a) da sua vida, que tudo faz para a sua felicidade e não lhe provoca ânsia, dor ou desconfiança. Tem o carinho e tudo o resto que é necessário numa relação. Está em paz, portanto.


Quem goza de grande prosperidade  - desde que não se deixe afligir pela ganância e saiba apreciar o que possui - conhece o significado do dito "o dinheiro não dá felicidade, mas ajuda muito". A alegria que a riqueza pode trazer não está tanto em ostentar coisas ou em comprar isto e aquilo (até porque a longo prazo, a novidade disso esgota-se) mas na liberdade de dispor do seu tempo, no poder de fazer as coisas à sua maneira, de limitar o mais possível o número de incómodos. Quem dispõe de meios não anda "atado com guitas"; não se aflige se aparece uma conta inesperada; pode reagir de forma mais rápida a um problema ou um desgosto (viajando para arejar as ideias, consultando o melhor médico ou contratando o maior advogado, por exemplo) ou socorrer sem pensar duas vezes qualquer miséria alheia que lhe faça doer o coração. Isso não é toda a paz possível, mas é parte dela.


Mesmo ao desejar a "Paz no mundo" isso já implica forçosamente a prosperidade necessária para todos, pois sem recursos há inevitavelmente disputas: casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.


Quando tudo está transtornado na vida de alguém - ainda que se diga "quem me dera ter isto" ou "se eu tivesse aquilo, resolvia o meu problema" é o desejo de paz que está a ser angustiadamente expresso.

Logo, ao almejar à paz, à nossa paz, ou desejando a paz aos outros, já incluímos tudo aquilo que é necessário. A Paz é assim uma coisa muito abrangente, um pouco vaga, mas que supre todas as necessidades, até porque sem paz interior, sem essa qualidade de encarar com valentia todos os desafios, sucumbe-se facilmente a qualquer adversidade. Bem diz o povo que a paz não tem medida: "do tamanho de uma bolota, enche a casa até à porta".





1 comment:

C.N. Gil said...

...e que a Paz esteja contigo.

:)

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