Sabem aquele conto do Aprendiz de Feiticeiro (há inúmeras versões, só portuguesas são umas quantas) em que o bruxo avisa o seu pupilo para jamais abrir uma certa porta? Claro que ele acaba por fazer precisamente o contrário e depois sai de lá de dentro algo que ele não consegue controlar. Tão pouco é capaz de fechar a porta de novo, para que tudo voltasse ao que era e o feiticeiro não dê pela sua desobediência. Uma vez aberta essa passagem, nada fica igual.
É a velha história da Caixa de Pandora.
Obviamente, os segredos, esqueletos no armário ou simples particularidades das pessoas comuns raramente são tão maus - por negros que sejam- como os do Barba Azul. Nem as reacções tão horríveis como a dele. E dificilmente o conteúdo dos quartos fechados será tão destrutivo como a magia do Feiticeiro. O que não significa que não saiam da mão. Que não magoem, o que leva a devolver a afronta atirando com uma revelação igualmente desagradável. Ou que quem tinha a porta fechada não revele, face à confusão que de lá saiu, a sua faceta menos bela.
De vez em quando, numa discussão, numa de catarse, abrem-se estas portas. E ninguém fica igual: nem o aprendiz, nem o feiticeiro. Nem o Barba Azul, nem a mulher. Porque o abismo atrai o abismo. Quem olha para o monstro é fitado de volta.
Tudo se transforma e dificilmente volta à pureza inicial. A não ser que a destruição seja tão grande - e o elo entre os intervenientes tão forte - que a explosão revolva a terra e acabe por dar maior vigor às raízes.
Não tendo a certeza disso, é melhor deitar fora a chave e passar longe desses corredores. Há portas que são trancadas a sete chaves por uma boa razão.

