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Thursday, February 18, 2016

Abyssus abyssum invocat


Sabem aquele conto do Aprendiz de Feiticeiro (há inúmeras versões, só portuguesas são umas quantas) em que o bruxo avisa o seu pupilo para jamais abrir uma certa porta? Claro que ele acaba por fazer precisamente o contrário e depois sai de lá de dentro algo que ele não consegue controlar. Tão pouco é capaz de fechar a porta de novo, para que tudo voltasse ao que era e o feiticeiro não dê pela sua desobediência. Uma vez aberta essa passagem, nada fica igual.



Na história do Barba Azul, há um enredo semelhante: a última esposa tem autorização para abrir todos os quartos-  menos um, onde ele guarda os seus segredos mais terríveis. E ao transpor essa porta, não só ela percebe a monstruosidade do passado dele (neste caso era mesmo mau; Barba Azul era um assassino de mulheres em série, bem sabemos) como, ao trazer essas revelações para a luz, ele se enfurece e revela o seu lado pior.

É a velha história da Caixa de Pandora.


Obviamente, os segredos, esqueletos no armário ou simples particularidades das pessoas comuns raramente são tão maus - por negros que sejam- como os do Barba Azul. Nem as reacções tão horríveis como a dele. E dificilmente o conteúdo dos quartos fechados será tão destrutivo como a magia do Feiticeiro. O que não significa que não saiam da mão. Que não magoem, o que leva a devolver a afronta atirando com uma revelação igualmente desagradável. Ou que quem tinha a porta fechada não revele, face à confusão que de lá saiu, a sua faceta menos bela.



De vez em quando, numa discussão, numa de catarse, abrem-se estas portas. E ninguém fica igual: nem o aprendiz, nem o feiticeiro. Nem o Barba Azul, nem a mulher. Porque o abismo atrai o abismo. Quem olha para o monstro é fitado de volta.

Tudo se transforma e dificilmente volta à pureza inicial. A não ser que a destruição seja tão grande - e o elo entre os intervenientes tão forte - que a explosão revolva a terra e acabe por dar maior vigor às raízes. 

Não tendo a certeza disso, é melhor deitar fora a chave e passar longe desses corredores. Há portas que são trancadas a sete chaves por uma boa razão.



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