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| Eça de Queiroz, "Os Maias" |
Ontem não resisti a partilhar no Facebook do Imperatrix uma imagem carnavalesca divulgada por outro blog, o que levantou alguns argumentos interessantes. Coisa esquisita, entretanto o meu post sobre o assunto desapareceu do mural - do meu e de quem partilhou inicialmente o retrato a partir da página original. Censura ou avaria, não faço ideia...tenho para mim que o dono das imagens ficou arreliado com a troça, levou a mal apesar de ser Carnaval e tratou de retirar o conteúdo. Alguns instantâneos do dito desfile ainda estão disponíveis (fiquei curiosa, fui procurar) mas como não pretendo ser cruel e sim explicar um ponto de vista, vou deixar as pessoas em paz.
Tratava-se de uma menina - até esbelta da cintura para cima, mas no todo com uma acentuadíssima figura de pêra e pernas mais cheias do que seria saudável ou razoável- que decidiu ataviar-se de borboleta descascada, vestindo (ou despindo) uma espécie de maillot com ceroulas recortado aqui e ali de forma a fazê-la parecer mais gordinha do que já era. E não é caso único, como sabemos: bastou olhar para a televisão este fim de semana, que na maioria dos corsos (especialmente nas localidades que ignoram o clima e escolhem inspirar-se no Carnaval brasileiro e não no Entrudo português) havia mulheres e raparigas "fora de forma" em fantasias muito reveladoras, sem fazer caso do frio, da decência ou da estética.
Sem querer bater mais no ceguinho, vejamos uma coisa: brincar ao Carnaval é sobretudo humor. Por isso, se quem não tem uma figura de celebridade brasileira com meses de preparação física para desfilar na Avenida lá no Rio de Janeiro quiser troçar de si própria aparecendo quase despida, está no seu direito.
O problema é que não me parece que seja essa a intenção. Quem se despe para o Carnaval não quer parecer cómica, nem satirizar o facto de estar "gorda". Quem se despe para estes desfiles fá-lo no detestável modo (blhec, cá vai) "o que é bom é para se ver". Em suma, quem desfila em não-trajes exibindo as abundâncias quer ficar sexy. O problema é que não fica e entristece-se caso alguém aponte o facto. É o problema do exibicionismo feminino que anda imenso na moda.
Voltando à rapariga em causa, comentei convosco que com a sua silhueta, o que lhe iria bem era um traje estilo Maria Antonieta (ou Maria Antonieta versão borboleta) pois- digo-o sem qualquer maldade - não precisaria de grandes anquinhas de arame para tufar a saia. Ficava bonita, divertia-se na mesma e a máscara tinha outro requinte. Mas não: a menina quis parecer (ai, cá vai) "boazona" a todo o custo, que agora até está na moda ter (já que estamos a fala de brasileirices) pernão e bundão . Mas até mesmo dentro do exagero e do mau gosto há limites, por isso deu nas vistas...
Como eu não desligo os ossos do ofício mesmo no Carnaval, tenho de dizer isto: até em mascaradas convém ter o nosso tipo físico em atenção. Não só pela beleza, mas para o disfarce bater certo e ficar credível.
Ou seja, há que usar o que combina connosco. Uma senhora gordinha fica espectacular de Rainha de Copas, por exemplo. Uma mulher de meia idade, com curvas e cintura mas um pouco "cheinha" fará um figurão vestida de taberneira medieval. Uma rapariga atlética pode mascarar-se de super-heroína sem problemas (desde que evitando vulgaridades e considerando o frio) e assim por diante. Quem tem cabelo escuro e pele clara, pode aproveitar isso para ir de gueixa; quem é loura, fica muito engraçada de alemã da festa da cerveja; uma morenaça não terá dificuldade em vestir-se de indiana ou de Pocahontas. Claro que é possível recorrer a uma boa caracterização para se disfarçar mais ainda, usando uma peruca e por aí fora, mas quanto mais próximo do nosso tipo for a personagem, mais conseguida e menos trabalhosa será a fatiota.
Eça de Queiroz, sempre muito atento às questões de elegância, defendia esta mesma ideia em Os Maias, na preparação para o famoso baile dos Cohens: cada um deve aproveitar a sua figura.
Se não aproveita, é livre de brincar ao Carnaval na mesma mas não se pode queixar se não tiver tanta piada...ou se o resultado DEMASIADO engraçado.

