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Monday, February 15, 2016

Era mau em séculos idos, é péssimo agora


Hoje entretive-me com os Arrenegos de Gregório Afonso, Criado do Bispo de Évora (que depois foram "novamente trovados" por Gil Vicente, na boca do barqueiro do Inferno) e fiquei cá a pensar que o que fazia alergia às pessoas noutros tempos (a minha é uma reprodução da edição de 1766) não anda tão longe do que arrelia - ou deveria arreliar- as pessoas de bem no século XXI. 

Arrenego de ti Mafoma
E de quantos crêem em ti

(Com tanto extremismo islâmico, é mesmo de arrenegar...)

Arrenego de quem toma o alheio para si.

(Iam adorar os problemas de corrupção do Portugal de hoje, iam).

Arrenego dos perdidos por causas não muito honestas
Arrenego também das festas
Que trazem pouco proveito.

Arrenego do casado mandado pela mulher.

(Também eu, que já se sabe que uma casa assim é desequilibrada e mal governada)

Arrenego dos letrados que não usam do que lêem.

(Ouviram, fãs de literatura light com estudos superiores?)


Arrenego dos que crêem nas riquezas deste mundo.
Arrenego da riqueza avara e mal usada.

Arrenego da paixão sem nenhuma esperança

Arrenego de quem dança sem ouvir tanger nem som

(Temos pior que isso: kizombadas, pimbalhadas, etc...antes dançar sem música!).

Arrenego também do bom que usa de ruins manhas
Arrenego das façanhas feitas por quem pouco vale
Arrenego do casal que nunca está em paz
Arrenego do rapaz que sempre serve chorando

(Haviam de ver os rapazinhos choramingas e efeminados de agora).



Vou também arrenegando de mil coisas que não falo.
Arrenego de quem presume e mostra mais do que é

Arrenego dos favores com que se pagam serviços
Arrenego dos chouriços e "comer" feito sem sal

(Se provassem a comida insossa que é lei agora, morriam).

Arrenego de quem peleja e vai contra o Padre Santo

(Não há paciência para quem faz da Igreja e da Polícia bode expiatório, por qualquer trauma contra a autoridade).

Arrenego de traje tanto quanto vejo desonesto

(Vestidos de lycra, leggings, e outros horrores: os "antigos" falavam de barriga cheia!).

"Arrenego da gentil dama que quer bem a  homem vil".

Arrenego do barato que depois se torna caro
Arrenego de quem mede maus e bons de uma [da mesma]maneira
Arrenego da alcoviteira e de quem sem causa mente.
Arrenego da gentil dama que quer bem a  homem vil.
Arrenego dos namorados que tendo tempo não pegam.

Hoje temos muita coisa barata e de má qualidade, o bem e o mal são relativos, alcoviteiras continua a haver, só que poucas são profissionais, é mesmo por gosto; mulheres patetas que se deixam enganar por canalhas também é o que mais há, e de namorados indecisos, nem falemos.

Arrenego da casada que deseja ser solteira
Arrenego da bandeira a que segue pouca gente
Arrenego de quem consente "posturas" em sua casa.

Se vissem as eternas Wendies de hoje, que querem agir como adolescentes sendo casadas, benziam-se. A nossa bandeira também já viu melhores dias, mas as de futebol estão para as curvas. E quanto aos pais que consentem manias em casa e não fazem avançar o chinelo, nós bem arrenegamos mas o comportamento da miudagem nas redes sociais mostra que o que há mais é quem consinta.

Arrenego de quem erra e jamais nunca se emenda
Arrenego de quantas coisas quantas arma o diabo
Arrenego do grande rabo sem alguns outros horrores



(Não sei quais são os outros horrores, mas no quesito "grande rabo" temos as Kardashians e a moda das mulheres melancia; nesse tempo não havia nada disso, ou andava coberto por grandes saiotes- até dava jeito para tufar as saias mas ninguém via o "conteúdo". Estamos bem pior agora!)

Arrenego de quem casa com mulher muito garrida
Arrenego também daquelas que tomam muitos amores
Arrenego de quem gastar a sua vida após elas
Arrenego dos mundanos depois que já são dos trinta

Da garridice já falei aqui; não há homem que mereça. E sobre pessoas armadas em teenagers com idade para ter juízo? De arrenegar, mesmo.

Arrenego do mau papo dos ruins mixiriqueiros
Arrenego dos lisonjeiros e também dos mentirosos.

Arrenego dos mui lindos e dos homens mulherengos.

(Eu não digo, eu não digo? Nem metrosexuais nem homens com muitas amigas, jamais).

Arrenego dos inimigos que jamais nos ameaçam
Arrenego dos que abraçam e conversam com ruins.
Arrenego da muito mansa e também da muito brava.
Arrenego do mui inchado e do cheio de vanglória
Arrenego da memória não de bom, mas ruim feito.

E como é tanta coisa abominável para arrenegar, quase podemos dizer como o Barqueiro:

Pois o rio vai tão mal e a barca tão vazia
Começo de arrenegar 
Primeiro da minha tia! (desculpe tia, não é consigo, é como quem diz).



3 comments:

Géraldine said...

Não consigo abrir o link para "eternas wendy" :-(
Creio que Gregório Afonso teria uma paragem cardíaca se visse o que por cá encontramos... não haveria arrenegos que lhe valessem :-D

Imperatriz Sissi said...

Ahahahha...coitado! Era mesmo!

Fica aqui o link. Beijinho.

http://jessi-aleal.blogspot.pt/.../e-crescer-nao-4-tipologias-do-complexo.html

Susana said...

Ora uma grande ideia seria tornar este texto obrigatório debitar no início das aulas para que se tornasse parte dos neurônios de todas as criancinhas deste país.

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