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Sunday, February 7, 2016

Isto é alarmante. Meus ricos livros. Minha rica independência mental.



E meus ricos filhos, caso algum dia venha a ser mãe, este estado de coisas se mantenha, se espalhe para estes lados e eu me veja obrigada a mandá-los para uma universidade que os sujeite a tais desvarios.

Lembram-se de termos falado de como certos comediantes americanos se estão a recusar a actuar em campus universitários porque os estudantes politicamente correctos, cheios de ideias "ultra liberais" se ofendem com tudo e vêem racismo/sexismo até num mosquito? Ou de como as feministas pediram numa conferência que não se aplaudisse os oradores, para não causar aflição a almas traumatizadas? 

Pois uma amiga aqui do blog, a propósito do post de ontem, enviou-me este artigo do Público que dá conta de como um movimento de estudantes norte-americanos pede para que os universitários sejam "protegidos de livros perturbadores". O que para começo de conversa, em Democracia e no sec. XXI é no mínimo estranho. 

Mas mais esquisito ainda é que não estamos a falar de proibições como houve em tempos idos, que mal ou bem, concorde-se ou não, acabavam por ter alguma lógica pelo menos à luz do tempo. Não estamos a falar de livros que ponham ideias malucas na cabeça das pessoas, que incitem contra qualquer religião ou regime político ou vá, passíveis de chocar, de apelar à violência ou de provocar convulsões na sociedade. Nada parecido com passagens do Alcorão censuradas, como se fez na Turquia, para evitar que fanáticos as tomassem ao pé da letra; nem com o Mein Kampf; nem sequer, vá, com as obras do Marquês de Sade.


Nada disso. Estes meninos e meninas sensíveis, criados com o espírito em algodão em rama e nutridos a finais felizes querem, "em nome do bem estar emocional" ser resguardados de obras que tenham passagens que lhes façam confusão.

Sabem como em pequenos vocês pediam aos pais "não contem mais, não quero ouvir o resto" quando o lobo estava prestes a comer a avó do Capuchinho ou coisa assim? Isso, mas em adultos. 

Ou seja, estas flores de estufa exigem preservar as suas frágeis e liberais mentes pró aborto e eutanásia, pró liberalização das drogas, anti armas e anti-slut shaming contra "papões" tão horríveis  como os contos de Andersen, as Metamorfoses de Ovídio (e outros clássicos romanos e gregos), O Grande Gatsby, Anna Karenina, as obras de Kafka, Virginia Woolf, James Joyce ou mesmo de Fernando Pessoa. Ou seja, tudo livros perfeitamente subjectivos e até brandos mas que -ai Jesus - possam conter "elementos perturbantes" como alusão à violência doméstica, à depressão ou ao suicídio.

Ou seja, a sua preocupação não é tanto com o impacto negativo geral que qualquer destas obras possa hipoteticamente ter, mas com o facto de acordar chiliques na mente fraquinha de quem os lê. Tudo típico de uma geração que adora responsabilizar "os outros" pelas consequências dos seus desmandos.


De resto, o delírio- pois não há outro nome - tem ido tão longe que não se estende só à literatura. Alguns futuros advogados de Harvard, lembra o artigo, pediram que a lei sobre violação não fosse leccionada, porque a mera menção da palavra podia "acordar traumas" em estudantes que tivessem sido vítimas desse crime. Como é que esperam estudar Direito de modo a ajudar alguém no futuro, escapa-me. Talvez contem que quando acabarem o curso os protestos e campanhas feministas tenham erradicado o flagelo da face da terra (antes fosse). Mas também é uma excelente desculpa para ter menos matéria para estudar. Já agora não estudem também o enquadramento legal para o homicídio, porque não é suposto acontecerem tais coisas. E os estudantes de Psiquiatria também podem boicotar as aulas, porque num mundo ideal não existem psicoses, gente depressiva nem psicopatas.

Isto ultrapassa o "crime pensar" que eu temia que se instalasse ou a infantilização da sociedade. Isto é a loucura completa, capaz de deixar a um canto todas as personagens doidas de Alice no País das Maravilhas.






1 comment:

Portuguesinha said...

América.
Está tudo dito.
Há sempre um grupito ou uma localidade diferente.
Os media dão destaque ao anormal. Só isso.

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