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Thursday, February 25, 2016

Menina mimada

Uma senhora da minha família (houve outras, mas gosto deste exemplo) toda a vida foi uma menina mimosa e mimada. Nomeadamente pelo marido, que lhe fez todas as vontades até que a morte os separasse (por um brevíssimo período- os grandes amores são assim, eternos e inseparáveis). 



Lembrei-me disto porque se aproxima o seu aniversário. Teve o percurso que é o das meninas mimadas desde que o mundo é mundo: criadinha em casa, como se dizia ao tempo, pais protectores, roupas bonitas (mesmo quando a guerra obrigou a racionar os tecidos) dotes naturais, convites para bailes, muitos pretendentes e finalmente, um casamento feliz. Só a sogra - mulher de armas - se ressentiu, a início, de tanto mimo e delicadeza. O que não demoveu a jovem de continuar a ser como sempre fora, e apesar disso lutadora à sua maneira, caridosa ao extremo, excelente esposa e mãe. Já avó, continuava com os seus hábitos e os seus pequenos caprichos que lhe davam muita graça...

Ora, em muitas mulheres há uma menina mimada, uma menina do papá que não gosta de ser contrariada. Basta ter nascido numa família estruturada, ter alguns talentos e alguma beleza, para - superficialmente, pelo menos - a vida sorrir. A formosura tem os seus senãos - e já teve mais vantagens do que hoje - mas ser a menina bonita atrai algumas facilidades.



E se além disso a "bonequinha" for bem comportada e culta, ou excelente aluna, ou se se distinguir muito cedo nas artes/letras/desporto, é um acumular de troféus, de louvores, de elogios e de expectativas muito altas. Apesar das dificuldades e desgostos que toda a gente encontra, há sempre pequenas consolações, pequenas coisas extraordinárias na vida de uma rapariga assim: é o bom gosto e os conhecimentos que lhe dão acesso a luxos e convites não possíveis a toda a gente, mesmo que não nade em dinheiro; é toda uma forma de ser e de estar que doura a pílula nas maiores crises...



 Depois, com sorte, no meio dos candidatos que massajam o ego,haverá um que seja mais impressionante e que a conquiste, sendo doido por ela a vida toda, cobrindo-a de atenções. Mas será esse homem (se além de atencioso, for sensato) que lhe vai dizer na cara muitas vezes, entre divertido e zangado: menina mimada e caprichosa!



Ora, ser uma menina mimada não é necessariamente mau: fossem todas as pequenitas amadas e amimadas desde o berço, e não se veria tanta falta de auto estima e tanto comportamento pouco aconselhável por aí. Mas é preciso - mesmo que a família tenha tido o bom senso de temperar o carinho com disciplina e a noção da modéstia - fazer um exercício diário para não cair em modo "but I´m a cheerleader!".

Chega uma altura em que até a menina mais mimada, que levou uma existência mais protegida, precisa de olhar para o mundo real: toda a Scarlett O´Hara acaba por deixar os piqueniques e as festas para deitar mãos às guerras da existência. Ou porque fazer carreira não é fácil, ou porque é necessário arregaçar as mangas para acudir aos negócios de família ou a questões mais sérias ainda, ou porque mesmo o casamento mais perfeito tem sacrifícios e desafios. É então que se vê se a rapariga mimada é apenas uma menina, um bonito trambolhozinho que não serve para nada, ou uma mulher no verdadeiro sentido do termo. Sme deixar de lado a feminilidade e a delicadeza, claro, mas com os pés bem assentes, porque a vida é bem maior que uma casa de bonecas...



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