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Saturday, February 6, 2016

Michael Jackson dixit: do you remember the time?


Há dias apeteceu-me rever este vídeo, porque sempre gostei de danças do mundo empregadas num contexto diferente. Adoro quando um artista pega em folclore para o incorporar noutra coisa. Dedicasse eu a minha vida à música, ia decerto incluir pauliteiros de Miranda e o nosso fandango num videoclip, ´tão a imaginar?



Eu tive muita pena de Michael Jackson, cantor que marcou a minha infância. Nunca acreditei nas maldades de que o acusavam, sinceramente: acho que teve a pouca sorte de nascer diferente dos demais, dotado de um génio que não ligava bem com o mundo real e isso, adicionado aos problemas familiares e de saúde, fez com que não conseguisse lidar com o seu estatuto de superstar. Mas ainda que o chamassem cruelmente wacko jacko devido à sua excentricidade, o seu legado é inegável.



Deixou-nos música e momentos pop verdadeiramente extraordinários, bem como um certo número de mensagens que dão que pensar. E ao ouvir/ver Black or White com atenção, reparei que em tempos, não há tanto tempo assim (1991) se apelava à diversidade, igualdade e tolerância, mas não como se fala hoje. Naquele tempo puxava-se por isso de modo positivo, mostrando como há beleza em cada cor, em cada cultura, tentando lembrar que as pessoas podem entender-se apesar das suas diferenças étnicas, culturais, sociais, políticas ou de credo. Michael Jackson achava, e bem, que há coisas mais importantes na vida das pessoas do que fazer bandeira de ser branco, preto, amarelo, encarnado ou às bolinhas: "I'm not going to spend my life being a colour". 



Coisas mais relevantes para a felicidade do que obcecarem-se com complexos de minorias (quaisquer que elas sejam), de género e assim por diante. No mundo de Michael Jackson cossacos dançavam com índios e tribos africanas, bollywood movia-se ao som da música pop, era tudo uma grande festa onde cada um trazia um bocadinho do que tinha de melhor e ninguém se ofendia: "heal the world...make it a better place for the entire human race!". Para todos, minha gente! Sem especificar quem.



Agora, notem bem: fosse Black or White lançado hoje-  na era do ofendedismo, dos vidrinhos, dos melindres, do crime-pensar, das quotas para tudo (para mulheres na política, para actores "afro-americanos" em Hollywood, and so on) Michael Jackson ou quem se lembrasse de cantar e dançar tal coisa, seria, para começo de conversa, acusado de apropriação cultural. Iam aborrecê-lo por utilizar elementos da cultura alheia, por caricaturar ou estereotipar, por dizer "black" e porque às tantas, não tinha representado rigorosamente um número equalitário de gordos, mulheres, anões  ou gays no videoclip. 



Sacrilégio, que eu reparasse não vi nenhum transexual a abanar os ombros ao som de "it´s black? it´s white!yeah yeah yeah!" - fosse hoje, caía o Carmo e a Trindade por ter deixado alguém de fora. Depois, como o cantor sofria de vitiligo, iam decerto acusá-lo de discriminação por não convidar alguém assim. E por não haver nenhum figurante em cadeira de rodas. E estas são as reclamações que me ocorrem, se calhar haveria outras. A canção mais inclusiva, mais pró diversidade de todos os tempos, não seria "inclusiva" ,"pró diversidade" e "tolerante" o suficiente na época da falsa tolerância.

Do you remember the time quando até as boas intenções eram simples, ingénuas transparentes, destituídas de mensagem política, feitas do coração? Em que se podia brincar e fazer troça uns dos outros sem paranóias; em que se falava de boa vontade e de amor ao próximo sem empenho em "parecer fofinho", em que se faziam as coisas por amor, por inspiração artística, sem agendas? I remember. Dou graças a Deus por isso.


1 comment:

Portuguesinha said...

É verdade.
Outro caminho para o qual a sociedade desenvolvida está erradamente a rumar...

Eu sou pelo politicamente incorrecto, desde que este seja a honestidade e a igualdade. "afro-americanos".... "latino-americanos"..... Os índios é que estão lixados. Já pertenciam àquela terra que lhes foi expropriada. Serão o quê? Os "puro-americanos?". Não, porque isso não deixam, rsss.

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