O senhor mano teve uma fase em que era fã empedernido de Jorge Palma (ainda é, vá) e não descansou enquanto não me pôs a apreciar-lhe o génio, a poesia e a música. Que acabou por se entranhar, por mais que Sérgio Godinho (quanto a mim, o nosso maior compositor vivo sem desprimor para ninguém) Rui Veloso ou mesmo Fausto fizessem mais o meu cup of tea. Melodicamente falando sempre pendi para harmonias, profundidade e riqueza instrumental mais do que para o jazz e um certo ambiente boémio que me parecia vir das canções de Jorge Palma. Mas que tem coisas lindíssimas, tem.
Não posso ouvir Passos em Volta sem desatar a chorar, eu que não sou nada dada a choradeiras, e Eternamente Tu é capaz de ser das letras mais bem apanhadas e cheias de verdade que já se cantaram sobre o amor. A versão de que gosto
Mas voltemos à letra. A verdade é que quando duas pessoas querem encontrar-se, não importa o tempo, as partidas da vida, os ressentimentos, a distância, os obstáculos ou as desculpas. Por mais que o destino tenha mão no assunto, há muita coisa que ele não faz sozinho e a que não obriga, só fica na fama.
Chama-se muito "destino" àquilo que se permite que o destino faça, para o bem e para o mal. O facto que custa a aceitar, às vezes, é que só "diverge" quem quer.
Quem não quer que assim seja, dá os passos necessários pelas dimensões e universos que forem precisos.
O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão
O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção
Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós
Meu amor, o tempo somos nós
O espaço tem o volume da imaginação
Além do nosso horizonte existe outra dimensão
O espaço foi construído sem princípio nem fim
Meu amor, tu cabes dentro de mim
A nossa história começa na total escuridão
Onde o mistério ultrapassa a nossa compreensão
A nossa história é o esforço para alcançar a luz
Meu amor, o impossível seduz
O meu tesouro és tu
Eternamente tu
Não há passos divergentes para quem se quer encontrar
Dizia Júlio Dinis "quando o amor é de raiz, é tolice querer arrancá-lo". Conclua-se então que os amores de raiz que não matam, mas dão vida, são aqueles que sujeitam o espaço à sua imaginação, os que dobram o tempo, os que se debruçam para alcançar o impossível. Porque quando alguém cabe dentro de alguém, pode fugir-se para o fim do mundo que esse espectro segue sempre atrás, ou consigo. Nunca se esquece, mesmo que pareça que se esqueceu, e nunca nada está completo. Pode fazer-se algo com isso- com esse mistério que ultrapassa a compreensão- e alcançar a luz, ou viver com metade de um coração para o resto da vida, na total escuridão onde tudo começa. Mas sempre sem meios termos.

