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Sunday, February 28, 2016

O homem ideal: nem fariseu, nem pecador impenitente


"E a bondade (...)! - atalhou docemente Padre Soeiro- a bondade (...), sobretudo, também salva...olhe, às vezes há um homem muito sério, muito puro, muito austero, um Catão que nunca cumpriu senão o dever e a lei...E todavia ninguém gosta dele, nem o procura. Porquê? Porque nunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro, leviano, descuidado, que tem defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever...mas quê? É amorável, generoso, dedicado, sempre com uma palavra doce, sempre com um rasgo carinhoso...e por isso todos o amam, e não sei se mesmo Deus (Deus me perdoe!) não o prefere..."


Eça de Queiroz, in A ilustre Casa de Ramires


Uma mulher sensata procurará fugir dos maus rapazes - aqueles que parecem muito decididos e viris, mas são apenas infantis e perigosos. 

E se calhar, nesse processo, tentando fazer a coisa certa, vai tropeçar em "bons rapazinhos" sem graça nenhuma, mas também  numa espécie mais apelativa de suposto "bom rapaz":  o  auto-proclamado "homem de bem"- o que tem uma atitude "holier than thou". Ou seja, o fariseu bem apessoado. Um elegante Caifás.

Um desses pode ser, ou não, um hipócrita. Mas está sempre pronto a pregar moral. Cumpre os seus deveres - sociais, religiosos, profissionais, familiares - com zelo. Mais do que zelo, orgulho. É muitíssimo exigente com os outros, julga tudo e todos...o que seria uma virtude, se aplicasse igual julgamento a si mesmo. Quando ama, é porque encontrou a "mulher séria" que idealizava...e ela toda contente, porque finalmente achou um cavalheiro que não comete estroinices (ou  oculta-as muito bem). Mas bem diz o povo "quem não fuma, não joga nem bebe vinho, leva-o o diabo por outro caminho".

Em breve o idílio azeda: primeiro, porque o fariseu não tolera a mais leve desilusão: espera a perfeição, oferecendo muito pouco em troca. À menor falha humana que embacie essa imagem, ressente-se e trata de retaliar. Perdoar não é com ele, mas adora impor penitência. E se é ele a errar, nem conta, logo não precisa de perdão. Depois, porque sob uma capa de suposta virtude, falta-lhe calor e bondade....é piedoso, mas não há misericórdia nele. Nem para dar esmola a um pobre, nem para pedir desculpa se faz a mulher chorar.


 Dizem os sicilianos "riqueza e santidade, acredita em metade"...e um fariseu elegante é muito assim. Afinal, acha-se estratosfericamente acima dos pecados humanos. Faz o que os maus rapazes fazem, mas em modo "ladrão que fica à porta". E depois, sendo muito virtuoso, não aprendeu que fé sem obras é morta. Nem que, mesmo com boas acções para inglês ver ou fazendo tudo o que manda o figurino, sem uma base de amor e caridade, isso vale batatas...

Mal por mal, antes outro tipo de rapaz: o rebelde somewhere in between. 
O "mau" rapaz que no fundo é um bom homem e que nunca na vida se achou perfeito.  

Caifás era fariseu e uma peste, sob a sua capa de "justo" e imbeliscável- e passou à História como vilão. Santo Agostinho foi uma peste, um marialva, um doidivanas, mas com muito arrependimento, fez-se Doutor da Igreja.


  À falta de um S. José, venha um Santo Agostinho! Ou seja, o "valdevinos" honrado e reformado. Frio ou complexo na aparência, que se derrete apenas para a sua outra metade, a única capaz de o acalmar e que chama à superfície o melhor dele. O rapaz que parece indomável. 

beautiful mess que tem conserto, que vai atrás para corrigir quando erra, que se arrepende das suas culpas  passadas, que se comove com a tristeza alheia, que pára no seu caminho para socorrer quem precisa. O homem que não age bem porque é suposto, mas por impulsos generosos. O que sabe muito bem que não é, ou não foi, nenhum santo, mas também é capaz de acarinhar, desculpar, penitenciar-se e corrigir-se. O que fecha os braços se está zangado, mas os abre logo a seguir; o que se excede uma vez ou outra, mas procura constantemente a redenção. O que deu cabeçadas, mas é fiel e leal e está sempre pronto a ajudar ou consolar. Acima de tudo, o que sabe por instinto - mesmo que tenha desleixado a cartilha - que a santidade não é um dado adquirido para os eleitos, mas um trabalhão diário, assente na humildade de se reconhecer falível.

Se calhar o Padre da Ilustre Casa de Ramires tinha razão: talvez Deus prefira esse homem, quanto mais não seja em modo "há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por 99 justos...". Mas uma mulher ajuizada prefere-o de certeza.






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