Recomenda-se:

Netscope

Monday, February 22, 2016

"O meu homem isto, o meu homem aquilo"




Quando era pequena (sempre fui muito de reparar na forma como as pessoas falavam, até porque não me deixavam dizer as coisas de qualquer maneira e feitio logo que balbuciei as primeiras palavras) ficava muito admirada quando certas senhoras da aldeia ou dos subúrbios se referiam aos maridos (naquele tempo a união de facto ainda não era tão comum) como "o meu homem". 



Era  o meu homem isto, o meu homem aquilo. Com um despudor desgraçado, ou assim me soava. Quando não era o meu home (ou se fossem pessoas mais para Sul, "o mê home") para cá e para lá. Não que eu soubesse exactamente que achava despudorada ou demasiado íntima aquela forma de se referir à cara metade junto de pessoas de fora - tinha lá noção disso! Mas pronto, não me parecia bem...apesar de achar curioso. Era um pouco como a minha embirração com "o comer", de que já temos falado aqui. Não era nenhum palavrão. Só não era termo que se empregasse sem um certo desprestígio. E embora em casa reprovassem o uso de tal título, também não me explicavam porquê. Era feio, pronto.



Ainda hoje acredito, como Bernard Shaw em Pigmalião, que se pode perceber quase tudo de uma pessoa pela sua pronúncia e vocabulário. Não só a proveniência geográfica e social, mas as suas aspirações e manias. Os atavios e hábitos também ajudam a delinear o perfil, claro, mas dêem-me um bom sotaque, umas certas inflexões na voz, determinadas forças de expressão e é meio caminho andado.

Bem entendido, não há mal nenhum em dizer "o meu homem", que é afinal a versão masculina do normalíssimo "a minha mulher" (como é sabido, "esposa" só se deve usar para se referir à esposa de outrem; não é suposto o próprio dizer "a minha esposa"). Mas por alguma razão, "o meu homem" não soava muito digno ou muito honesto. Talvez desse a entender que a senhora em causa vivia amancebada ou coisa parecida. Que não era casada, logo não se podia referir ao tal homem que era o seu como marido legítimo.



Mas eis que o termo, antigamente mais circunscrito aos meios rurais ou suburbanos, de repente anda na moda outra vez. Há até quem tenha vaidade em dizer "o meu homem" e se repenique toda nisso quando fala, indistintamente, do namorado, "companheiro" (detesto a palavra, mas não há outra) ou até marido como manda o civil e o sacramento em público, diante de conhecidos ou nas redes sociais. É como se gritasse ao mundo: não sou uma solteirona, tenho um homem!  

Ou um pouco como quem diz  o meu hamster ou o meu gato.

De novo,  continua a não ter mal, até porque - gostemos e concordemos ou não - viver amigado já não é, aos olhos da lei ou do grosso da sociedade, ser uma marafona. Mas continuo a não conseguir ouvir dizê-lo à frente de estranhos, muito menos de pessoas de alguma cerimónia, sem me encolher logo. 



Que um namorado, noivo ou marido diga à cara metade "olha lá como tratas o teu homem!" é masculino, é firme, tem graça .Que a mulher se dirija ao mais que tudo a dizer "que bonito está o meu homem!" é uma conversa de namorados ou de alcova. Que o diga às amigas íntimas, em modo "vejam que homem que eu arranjei", tudo bem. "O teu homem, o meu homem" eleva aquele homem acima de toda a multidão de homens que existem à face da Terra. É uma expressão de posse, de rendição, de conquista ou de domínio. Parece algo quase pecaminoso, animalesco ou no mínimo privado. Com o seu encanto, mas não para dizer a todo o planeta como se nada fosse. Pode ser só impressão minha, mas como certos "petit noms" carinhosos, é melhor dizê-lo baixo ou entre os dois. 

Que só as paredes escutem tal juramento que viriliza o marido ou desmascara o amasiado. Não vá uma mulher anunciar aos quatro ventos "sou uma marafona!" sem o ser, ou orgulhar-se de sê-lo, ou nem ter noção de que o é...






1 comment:

Carla Santos Alves said...

:) quando comecei a ler o texto , percebi logo o que por aí vinha...
Ouvi a minha mãe muitas vezes falar do meu pai, sobretudo com as minhas tias, assim " o meu homem" - habito a que ainda hoje tem. Sim eu nasci nos subúrbios, bem educados, mas não é cidade, ainda assim em publico a senhora minha mãe refere-se ao meu pai como " o meu marido".

Confesso que também concordo que a expressão "meu homem" deve ser usada mais em privado...
:)

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...