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Tuesday, February 23, 2016

O perdão tem nuances estranhas.




Este interessantíssimo texto publicado pelo Observador, que analisa o fenómeno do suicídio no Alentejo (um tema que sempre me intrigou) refere algo que me deu que pensar:

"(...) a cultura católica sempre viu no suicídio o pecado da soberba, o pecado de Judas que se matou porque pensava que era especial, porque era orgulhoso ao ponto de considerar que não tinha perdão. Pedro também traiu Cristo, mas foi o primeiro Papa".

E é verdade. Até para receber o perdão dos outros (ou para se perdoar a si mesmo) é preciso deixar a vaidade de lado, esquecer a soberba. Ser perdoado ou perdoar-se a si próprio (a) exige não só a humildade de reconhecer o erro, de pedir desculpa (ao lesado, a Deus, ou quanto mais não seja aos próprios botões) mas sobretudo, fazer-se pequeno a ponto de não achar o seu disparate ou o seu pecado tão grande, tão importante, que esteja para além de toda a redenção.

Pode parecer estranho ou pouco razoável, mas muitas vezes, para muita gente, os erros que cometeu foram a única coisa especial (ou a única proeza) na sua vida. Tudo o resto é demasiado "normal". A rapariga que toda a vida deu dores de cabeça à família, e assim obtinha atenção; o homem que não sendo bem sucedido em mais nada, era admirado pelos amigos por ser o maior bêbedo e bon vivant, coleccionando conquistas duvidosas; e tantos outros pecadilhos de menos importância na vida das pessoas mais ou menos bem comportadas....Judas não seria o mais brilhante dos Doze, e nunca tão famoso, não fosse pela traição.


E desse raciocínio contraditório, toda a gente tem um pouco de vez em quando. Se os males estão perdoados, se tudo fica esquecido e se passa adiante, é como se a história ou o herói (neste caso, anti herói ou vilão) deixasse de ser especial. Mas Pedro precisou de pedir perdão e de se perdoar a si próprio - quanto mais não fosse, voltando a Roma para se deixar crucificar de cabeça para baixo - de modo a construir o que era de facto grande, eterno e especial. O seu pecadilho, o negar três vezes o amigo e Mestre, não representaria nada de relevante se não viesse a ser comparado com o que veio mais tarde.

Não é possível crescer e evoluir agarrado ao erro. Por muito que esse erro pareça fatal, importante, decadente ou até  romanesco...

3 comments:

Carla Santos Alves said...

Um dia em conversa com o padre da minha paroquia, falávamos do perdão, e ele disse algo em que eu nunca tinha pensado: - só devemos pedir perdão a Deus uma vez, porque ele ouve-nos - se repetirmos o pedido estamos a duvidar - ora nunca tinha pensado nesta perspectiva...
Mas antes de perdoar seja a quem for temos que nos perdoar a nós...é o maior exercício de humildade :)
Adorei este post!

C.N. Gil said...

...e o erro é a melhor arma de aperfeiçoamento que existe!
Sem erro não há evolução!
Mesmo a própria evolução Darwiniana está assente no erro! São as variações, ou seja erros, no código genético que permitem a evolução.

Quem já é de si perfeito e não erra também não evoluirá para lado nenhum...
...e se não evolui, com o tempo, torna-se um calhau e só se mexe se o empurrarem!

:)

Imperatriz Sissi said...

@Carla, acho que o Padre estava certo. Se precisamos de pedir mas, Deus perdoou mas nós não...

@CN, adoro essa ideia do calhau!

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