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Sunday, February 28, 2016

Quando grandes mulheres falam umas sobre as outras


Muita gente adora dizer que as mulheres se alfinetam mutuamente porque sim. E isso talvez seja verdade para certo tipo de pessoas. Porém, o espírito elevado não conhece sexos, logo uma mulher inteligente e espirituosa não tem problemas em reconhecer o mérito ou superioridade de outra - mesmo que não morra de amores pela visada ou discorde das suas ideias.Vejamos alguns exemplos:

A trivialidade dos enredos descritos por Jane Austen nos seus romances - histórias de meninas de boas famílias que procuravam "caçar" um marido - irritava escritoras exaltadas e dramáticas como Charlotte Brontë  e, mais tarde, feministas como Virginia Woolf, que não podiam compreender as ambições "estreitas" de heroínas calmas e caseiras como Elizabeth Bennet. No entanto, ambas souberam enaltecer as qualidades daquela que é hoje considerada como a verdadeira iniciadora do romance feminino em Inglaterra.

Jane Austen

Charlotte Brontë acusava Jane Austen de "falta de profundidade". "As paixões são-lhe desconhecidas" dizia. E no entanto, não deixava de lhe apontar "uma fidelidade chinesa, uma delicadeza de miniatura nos retratos...". 

Já Virginia Woolf, ao estudar a obra de Austen, destacava-lhe "o humor, a paciência na descrição das trivialidades da existência" e considerava-a "a mais perfeita, a escritora cujos livros são imortais".

Por vezes, só uma mulher - que seja imparcial e isenta de vaidade fátua, bem entendido- para avaliar verdadeiramente as qualidades de outra, para entender os seus mecanismos, os seus sacrifícios e desafios... ou até, quando se trata de dotes físicos, para fazer uma apreciação estética não toldada pelas nuances do sex appeal. O que os homens podem desaprovar ou admirar, merece da mente feminina uma análise mais racional e desapaixonada.

D.Maria de Portugal

Carolina Michaëlis de Vasconcelos, primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa (Coimbra, nem mais) na sua obra sobre a Infanta D. Maria de Portugal, Duquesa de Viseu (fruto do matrimónio escandaloso entre D. Manuel I e a linda Leonor da Áustria) escreveu, acerca desta mulher rica e culta, que nunca casou e dedicou o seu tempo a instruir-se e a obras pias:

"Várias disposições do seu testamento revelam a superioridade do seu espírito (...) os seus carinhosos desvelos pela saúde, o bem estar (...) mostram como o muito saber, longe de paralisar as virtudes femininas, lhes serviu de directriz prática."

Aplicassem todas esta clareza de raciocínio, julgando com serenidade e isenção- sem rivalidades gratuitas e sabendo admirar o que merece ser admirado, pondo os olhos no que merece análise, em vez de falarem em se esgatanhar umas às outras...e o mundo andaria de outro modo, já que as mulheres são a espinha moral da sociedade. Mas quê!


1 comment:

Carla Santos Alves said...

"Mas quê" - expressão muito usada pela minha avó. :) Adorei.

Tivessem as mulheres, mais decoro, calma, e sapiência emocional e o mundo estaria diferente - para melhor - digo eu! Mas quê!?

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