Dentro do bom senso, há ocasiões em que se aplica um "que se dane", um "temos pena", um "perdido por um, perdido por mil", um "é para a desgraça, é para a desgraça" um "remember the Alamo" ou simplesmente, em que se entra em modo "Avé Maria e avante".
1- Quando se encontra "aquele" livro/vestido/peça de colecção/etc
Fazer aquisições "quando se pode e os bons negócios aparecem" não é o mesmo que cair em compras por impulso: é uma regra de smart shopping. Se por acaso se deparou com algo que costuma procurar e sabe que lhe dá sempre jeito, mais vale fazer o investimento agora do que andar à procura como uma barata tonta mais tarde - aí sim, fazendo compras apressadas e se calhar menos vantajosas.
2- Quando se apresenta uma ocasião única de "desatar o saco"
3- Na TPM
Esta é exclusiva das mulheres, mas convém que face a ela os homens presentes também apliquem o bom e velho encolher de ombros. Por mais que se diga que é mito, ela existe. O papel das hormonas no organismo ainda fará correr muita tinta, mas ficar mais gulosa, emocional ou sensível ou nesses dias é perfeitamente natural. É claro que o auto-domínio cabe em toda a parte, mas mais vale regalar-se com um sundae se o corpo pede ou desabafar se está mais capaz disso do que noutras alturas do que ficar com um humor pior ainda. Aplique-se a isso a regra "what happens in Vegas...".
4 - Quando não há outro remédio senão partir a louça toda
Esta é muito semelhante ao momento nº 2, mas aplica-se mais a circunstâncias em que os outros abusam da boa vontade/boa educação/timidez de cada um, fazendo dos bonzinhos capacho. Só que até os tapetes precisam de uma sacudidela de vez em quando e quem não se sente, não é filho de boa gente. Se o risco foi mesmo pisado, há que aproveitar aquele momento de indignação, de "não, chega, assim também é demais" e accionar o modo defesa ou contra-ataque de imediato. Com sorte, o oponente fica assarapantado e sem acção por ver que o "tapetinho" reagiu. Lá dizia Sun Tzu, há que surpreender o inimigo e atacá-lo quando ele menos espera, de uma forma contra a qual não lhe passaria pela cabeça prevenir-se.
5- Quando se apaixona *mesmo*
O amor não é desculpa para tudo - muito menos para prejudicar terceiros. Mas é verdade que muda as pessoas e as faz reconsiderar muitos "nunca farei isto ou aquilo" que atiram para o ar no seu estado normal. Uma amiga bastante sensata disse-me uma vez, quando me ouviu comentar "gabo-lhe a pachorra" perante outra amiga que ia a correr para casa fazer um grande jantar para o marido que até cozinhava razoavelmente: "dizes isso porque ainda não te mordeu o bicho!". O bicho, claro, era o Cupido. Lá diz o povo, "quem pensa não casa". O amor verdadeiro não bate à porta todos os dias e embora a necessidade de ponderação não desapareça de todo (já se sabe, quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer) sem capacidade de arriscar, nada se faz.
6- Quando lhe aparece uma boa oportunidade (e assim como assim, não há uma alternativa melhor)
Muitas coisas boas (e outras tantas que dão para o torto) surgem quando até se está sem rumo certo, sob a forma de algo que quebra o tédio. Por exemplo, estar sem grandes perspectivas de carreira e cair do céu uma proposta apetecível mas temporária, ou mais desafiante do que seria desejável, ou que fica longe. É verdade que pode correr menos bem. Mas se não tem nada melhor para fazer, why not? Dizem os entendidos que a sorte também se fabrica e que uma das maneiras de a atrair pode ser, simplesmente, virar as rotinas do avesso. Nada de bom sai de águas paradas.
7- Quando algo não tem nada de errado...e a (o) faz MUITO feliz
Deus nos livre de seguir aquela filosofia indecente do "nada é errado se te faz feliz" (Bob Marley não era má pessoa, mas devia estar a fumá-las - como era seu hábito - quando disse tal). No entanto, há coisas que se adoraria fazer e que não são condenáveis (eticamente, moralmente...) nem indignas, nem reles, que não prejudicam ninguém (nem o próprio sequer) mas pronto, ou porque há medo que os outros pensem "nem parecem coisas tuas!", ou por falta de coragem/tempo/energia, ou para não perder a compostura, ou por *enunciar razão* vai-se adiando ou recusando essa alegria. Nada é eterno e embora seja de evitar a filosofia living la vida loca ou andar sempre a dar uma voltinha no wild side, convém viver um pouco.
8- Quando há motivos para festejar
Muitas vezes cai-se no péssimo hábito de não assinalar as coisas boas. Não celebrar datas especiais ou boas notícias, por exemplo. Há uma razão para se chamarem "datas especiais" e "boas notícias": é que não acontecem todos os dias. Deixar de assinalá-las porque "não dá jeito" é o mesmo que dizer - conforme as crenças de cada um - ao Céu, ao Universo ou à Sorte "não me tragas mais nada disto porque eu não aprecio". Dentro das possibilidades de cada um, agradecer e festejar devia ser obrigatório. Até porque ninguém gosta do chato ou da chata a quem Deus dá nozes, mas não tem dentes. Um dia não são dias, que diabo.







