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Saturday, March 12, 2016

A lamuria de Kim Kardashian: lidar com um passado "colorido".


Kim Kardashian ficou toda triste e magoada pelas críticas à sua última selfie sem roupa. Muita gente (nomeadamente algumas caras conhecidas) acusou-a de mostrar *mais uma vez* o que toda a gente já viu e de ser um mau exemplo para as jovens. Para não falar dos que se sentiram ofendidos por ela ter brincado que estava nua por não ter "nada para vestir" (bom, deixemos lá isso...). 

Arreliada, a menina sacou dos trunfos feministas da moda -o empowerment e o slut shaming : publicou um texto em que se diz atacada por ser "uma mulher confiante" e se queixa de as pessoas não esquecerem nem por nada que ela só saltou para  a ribalta graças a um vídeo indecente, lançando-lhe em rosto "teu passado te condena". 


Rebebebeu pardais ao cesto, lá desatou a Kim em modo Madalena arrependida, mas *muito* pouco:

"Sinto-me poderosa pelo meu corpo. Sinto-me poderosa pela minha sexualidade e por me sentir confortável na minha pele; por não ter medo de mostrar os meus pontos fracos nem daquilo que possam dizer de mim. E espero que através desta plataforma possa encorajar o mesmo «empoderamento» junto de raparigas e mulheres de todo o mundo" (irra! estará a tentar criar uma praga, em modo "se todas fizerem o mesmo já não parece tão mal"?).



E continuou com o choradinho:

"Sou «empoderada» pelo meu marido, que é tão tolerante, que me dá tanto apoio e que me fez descobrir uma nova confiança em mim própria. Ele permite-me ser eu mesma e ama-me incondicionalmente" (muita gente diria que aconselhar a mulher a despir-se para dar nas vistas com o propósito de lucrar mais ainda quando já não se precisa de fama ou dinheiro é uma forma esquisita de amor, mas não elaboremos).

Depois, lá se queixou de lhe atirarem à cara o passado em chapadas de lama, realçando que transformou um momento de humilhação na possibilidade de ser um "modelo de comportamento" (say what?).



"Tudo volta sempre ao meu vídeo para adultos. Sim, um vídeo que foi feito há 13 anos atrás. Sim, 13 ANOS ATRÁS. Literalmente há esse tempo todo. E as pessoas ainda querem falar sobre isso? Sobrevivi à vergonha e ao medo, decidi dizer «que importa, faz melhor a partir de agora, segue em frente». Não devia estar sempre à defesa, a enumerar os meus êxitos para provar que sou mais do que algo que aconteceu há treze anos. Sou mãe, esposa, irmã, filha, empreendedora e tenho direito a ser sexy".

Ora analisemos isto como gente sensata.

 Que tão cedo não nos livramos de Kim Kardashian e companhia, é um facto. E fazer o quê- sinais dos tempos. Lá terá alguma virtude como qualquer filha de Deus, quanto mais não seja a de ensinar como se segura um decote pouco ergonómico com fita super cola, o que sempre há-de prevenir algumas figuras tristes por aí.

 Que Kim Kardashian está em boa forma (aprecie-se ou não as suas formas e escolhas de moda) é outro facto. 

Também é verdade que - moral e exemplo à parte - nus artísticos de bom e mau gosto sempre os houve, que ela está a expor o que lhe pertence com o beneplácito do marido que lhe calhou e que em última análise, o problema é dela. 

Se é certo ou errado despir-se, não vamos agora por aí: o que conta é que Kim Kardashian se sente incomodada por associarem a sua constante nudez ao seu passado de...nudez. Topam a contradição?

Mas vejamos duas outras coisas igualmente verdadeiras: Kim Kardashian não é totalmente destituída do sentido do apropriado. Quando baptizou a filha soube ir à Terra Santa, coisa mais linda, cobrir-se com um véu (tradição que muita menina beata não cumpre por considerar "careta"), mau grado o vestido ser demasiado coleante para a Igreja e não lhe ficar lá muito bem. 


Segundo, Kim Kardashian  afirma-se Cristã. Logo, não pode deitar as culpas à falta de valores e deve lembrar-se (como suponho que lhe dá jeito lembrar) de que Jesus não condenou a mulher adúltera pelo seu passado. Jesus era um amor, dizia "quem nunca pecou que atire a primeira pedra" e aceitava toda a gente. 

Mas alto - Jesus não disse "desta livras-te; não te condeno, continua lá com a tua vidinha airada que ninguém te pode criticar por isso". 

Ná. O Divino Redentor salvou a vida da mulher desmiolada, perdoou-lhe os pecados mas avisou-a para não cair no mesmo dali em diante. O resto era com ela. Os Evangelhos não nos contam o que foi feito da mulher, mas das duas uma: ou aproveitou a sua boa sorte, passou a detestar os seus erros com verdadeira contrição e levou vida nova a partir dali, sendo discreta, boa esposa e dedicando-se a boas obras de tal ordem que, mesmo que tenha ficado a viver na mesma localidade, as suas indiscrições se tornaram uma memória distante nos anais do vilarejo (ou um exemplo de que toda a gente merece uma segunda oportunidade) ou ...continuou a fazer das suas e da fama nunca mais se livrou.


O passado é uma seca: é que por muito que já não exista, não pode ser apagado. Tudo o que resta é substitui-lo dia a dia por um presente melhor, de tal forma que o que lá vai deixe de ser relevante. E sim, por mais aborrecido que isso seja, até estar provado que quem errou passou uma fase horrível mas já não é essa pessoa, há que dar provas e mais provas dessa mudança. Seja, no caso de uma figura pública, aos seus fãs, ou em questões mais privadas (um ex-toxicodependente que precisa de provar que está limpo, um ex mulherengo que quer provar à mulher que mudou, um ex-presidiário que necessita de mostrar à sociedade que está reabilitado, etc). 

A História está cheia de pessoas que bateram no fundo mas viraram uma página. Algumas até chegaram aos altares: Santo Agostinho, que foi o pior devasso do mundo, ou Santa Pelágia, que foi uma famosa meretriz.

Para um Católico, sofrer julgamentos de valor ou tolerar desconfianças pode ser uma forma de penitência. Para qualquer outra pessoa dotada de bom senso e sentido da responsabilidade, é apenas um processo lógico e racional de quem assume o que foi e não quer palmadinhas nas costas. O "o que lá vai, lá vai" leva tempo e dá trabalho.


Kim Kardashian tem o direito a ser sexy, como qualquer mulher- mas há muitas formas de o ser sem  cair na vulgaridade ou lembrar o público que ficou famosa por tirar a roupa. Se a acusam disso e acha que tem mais a oferecer, há bom remédio: mudar de abordagem.

 Estão ao seu alcance os meios para realizar grandes projectos, para acudir a imensas obras de caridade, ou simplesmente dar a cara por uma causa nobre. De preferência, com alguma coisa vestida, e roupa não lhe falta. Fizesse ela isso e claro que haveria sempre quem murmurasse, mas não seria tão...confuso. Se lhe dá jeito continuar a ser relevante só pelo seu corpo, com que direito se vitimiza por fazer o que lhe dá na gana? Ou entra em modo own it , que se dane, é para o lado que eu durmo melhor, fecha a matraca e deixa rosnar quem rosna, ou MUDA DE VIDA.

Aquela frase de Oscar Wilde "todo o santo tem um passado e todo o pecador tem um futuro" é citada a torto e a direito. Mas o passado só serve para aprender. A reputação do futuro é escrita todos os dias: ou no caso da Kim, a cada postagem nas redes sociais.



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