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Saturday, March 12, 2016

A nobre arte de "o que arde cura, e o que aperta segura".


Já vos contei aqui como aprendi essa bela máxima do "o que arde cura, e o que aperta segura". Mas cada vez a acho mais exacta, o que prova que nem sempre as lições de vida mais valiosas se adquirem quando temos maturidade para isso. Se depois as guardamos para quando são realmente precisas, isso depende de cada um.

Por vezes os remédios mais eficazes ardem ou são amargos: seja o desinfectar de uma ferida com álcool, mertiolato ou vinagre, seja enfrentar as consequências de um mal feito e consertar o que sobrou, o que frequentemente envolve uma catarse bem desagradável e exige carradas de paciência.

E o que segura (ou antes, o que dá segurança e estabilidade) pode apertar um bocadinho.

Ter um excelente emprego, fama, prestígio ou um negócio de grande sucesso faz pagar as benesses com uma data de prisões: grande nau, grande tormenta. Coco Chanel dizia e muito bem "o dinheiro só tem um som: o da liberdade!". Porém, antes de alcançar essa independência, essa deliciosa liberdade de ir e vir como bem entendesse, de ser dona do seu tempo, Mlle. Chanel passou longas horas no seu atelier a esforçar-se como uma galega, a cumprir prazos, a aturar sabe-se lá que exigências. Depois, qualquer pessoa com um papel relevante na sociedade sabe que tem a responsabilidade de estar à altura do seu bom nome: não goza, como o homem comum, de carta branca para fazer figuras tristes.


 Outro exemplo é a família: poucas coisas são tão maravilhosas como ter um clã que nos ama e protege - e poucas pressupõem tantas dores de cabeça, grilhões e responsabilidades. Quem não está para isso, condena-se a contar só consigo. 

 E no amor? Lá se queixava Caetano Veloso "porque você me deixa tão solto/porque você não cola em mim"? Quem ama segura, agarra, aperta, o que pressupõe deixar-se apertar de volta. Quem ama quer exclusividade e dedicação absoluta, a paz doméstica de todas as certezas...o que nunca pode funcionar de forma unilateral. 

 É utópico, ridículo mesmo, pensar em exigir tal coisa. Qualquer compromisso sentimental é um investimento de alto risco, que nem vale a pena assumir a não ser que se acredite piamente "nunca encontrarei ninguém que me complete mais". É abrir mão de todas as outras liberdades e possibilidades por alguém que vale a pena, ser fiel confiando que o outro fará outro tanto, prescindir de conhecer outras pessoas porque - aqui o raciocínio não é nada altruísta - essa é a única forma de garantir a posse do ser amado. Quem hesita, arrisca-se a perder: não apertou, não segura.

Aceitar que o que cura pode doer e que o que segura pode restringir não é mais que ter maturidade e noção da responsabilidade. Compreender que nada é de graça. Que o que vale a pena, exige trabalho, abnegação, doação de si mesmo (a)...e resistência ao ardor que cura. Quem não possui esse bom senso, sujeita-se a andar sempre com achaques mal curados e a nunca encontrar segurança em parte nenhuma...









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