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Tuesday, March 15, 2016

As coisas que eu ouço: quando morre uma figura pública


Fiquei com muita pena de ver partir inesperadamente Nicolau Breyner. Como a maioria dos portugueses cresci com o seu rosto familiar; gostava de o ver e sobretudo, de o ouvir cantar. Uma voz riquíssima...inesquecível, o la-ra-la-la-la pim pim do Sr. Contente e do Sr. Feliz. 

Mas claro que - uns mais pesarosos, outros menos - na era em que qualquer anónimo tem tempo de antena, o comum dos mortais chama o luto a si, por muito pouco que tivesse a ver com a figura que deixa este mundo. É um fartar de condolências que a família nunca receberá, de agir como amigo chegado mesmo que só se tenha visto a pessoa de perto uma vez, de gabarolice nas redes sociais a contar o dia em que se vislumbrou o defunto no metro, de longe, ou que se lhe apertou a mão quando recebeu um qualquer prémio e calhava quem se finou fazer parte do júri. 

Há uma diferença entre lamentar a perda de uma personalidade estimada pelo público e fazer disso algo pessoal.  Faz-me confusão esse usurpar da dor alheia, como quem procura roçar-se na celebridade, fazer-se íntimo e ficar assim com a sensação de ser também um bocadinho famoso. Quanto mais não seja, como é a notícia do momento sempre garante alguns likes...



Isto porque, estava eu há pouco numa loja que tinha o rádio ligado em estação que não percebi qual era, e o programa deu espaço para os ouvintes fazerem a sua homenagem a Nicolau Breyner. Pois eis que um senhor qualquer que para lá telefonou, que o tinha conhecido via qualquer grupo de teatro amador a que estivera ligado (ou assim me pareceu...), depois de contar larga e compungidamente os escassos momentos em que se cruzara com o artista, de maçar a audiência com o ar pretensioso de pessoa importante, de gabar a grande simplicidade (tinha de ser) deste vulto da cultura e de enfim, agir como agem sempre as almas que adoram ouvir a própria voz, se sai com mais esta:

" Que o mesmo Deus que deu a Nicolau Breyner o talento para ser actor varra da face da terra (ou "extirpe da face da terra", já não sei, era um verbo assim assustador) os «artistas» que fazem programas que não interessam".

Olá! Isso é um bocado forte e super emocional. E ridículo, pelo menos neste contexto. Para já, a chamar o nome do Senhor em vão. Depois, há imensos figurões que não me importava de ver longe dos holofotes, mas daí a mandar-lhes uma maldição divina que os esfumasse do planeta para fora vai alguma distância. E em última análise, nem sempre os artistas se dão ao luxo de interpretar apenas aquilo que gostam ou para que se prepararam no Conservatório (os que lá andaram, vá)- Shakespeare e cinema de autor não enchem tanto os bolsos como novelas xaropentas e um actor precisa de pagar as contas. O próprio Nicolau Breyner esteve ligado ao estabelecimento de muita da ficção nacional conforme a conhecemos, ou estou enganada agora?

Isto as pessoas falam, falam, e só dizem disparates...foi um autêntico diga à gente como vai este país. O mal da fama é que uma pessoa se sujeita a "velórios" destes.

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